Entrevista – A eterna rebelde

Aos 11 anos Vera Silvia Magalhães ganhou de um tio um livro que iria mudar sua vida: depois de ler O manifesto comunista, decidiu se desfazer de todos os seus bens, a começar pelas bonecas, que distribuiu entre as amigas; de nada adiantou a mãe dizer que não era assim que se chegava ao socialismo. Anos depois, ela confirmava:

- “Foi uma loucura, mas eu resolvi dar tudo o que era meu. Até hoje sou assim. Sou despossuída”.

Nascida em 2 de fevereiro de 1948, em uma família carioca da classe média alta, aos 15 anos Vera Silvia Magalhães Magalhães já participava do movimento estudantil e aos 20 era um dos quadros do Movimento Revolucionário 8 de Outubro, MR8, “expropriando” bancos e fazendo agitação e propaganda. Em setembro de 1969, fez sua ação mais notável: foi a única mulher no primeiro seqüestro de um diplomata no mundo contemporâneo, no caso, o embaixador americano Charles Burke Elbrick. O ousadíssimo golpe tinha como propósito negociar a libertação de companheiros presos e divulgar a mensagem revolucionária.

Foi um espanto: os mais velhos podem se lembrar do ar compungido de Cid Moreira a ler, no horário nobre, as frases de desafio que enfureceram os militares e nos jornais do dia seguinte, a foto dos que deixariam a prisão rumo ao exílio.

A resposta não se fez esperar. Poucos meses depois, Vera Silvia Magalhães viu morrer a tiros seu então companheiro, José Roberto, e durante uma panfletagem em fevereiro de 1970 foi baleada na cabeça e presa. Seus graves ferimentos não impediram que fosse torturada durante três meses, e certamente morreria se não tivesse sido trocada por outro embaixador seqüestrado, desta vez, o alemão. Saiu da cadeia numa cadeira de rodas, com 25 quilos a menos e uma nefropatia, em decorrência dos espancamentos. No exílio de dez anos passou pela Argélia, Suécia, Alemanha, França, Chile e Cuba. Casou-se cinco vezes e teve um filho, Felipe.

A tortura marcou de forma trágica a vida de Vera. Deixou-lhe seqüelas físicas e psíquicas de que nunca mais se recuperaria.

-“ Herdei da tortura um estado de dor. Eu vivo com dor. Não parei de ser torturada. Tenho pesadelos até hoje. Há noites que não durmo. Sonho com meus algozes”.

Mas quem a conheceu lembra-se principalmente de seu encanto, originalidade e doçura. Mais do que militante da esquerda, era uma militante do afeto. Nunca ninguém prezou tanto a amizade como Vera Silvia Magalhães.

Conheça, ou reveja, esta extraordinária figura em entrevista à TV Câmara.

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