Autocomposições

Conhecemos hoje os limites das leis de Newton. Mas há uma idéia pressuposta em sua física que ainda marca profundamente nossa cultura, a mesma que Descartes exprime tão bem quando define a substância como aquilo que "não requer nada além de si próprio para existir". Assim, por esta idéia, nos tornamos indivíduos bem delimitados no tempo e no espaço. E, tal como as estrelas, as células, ou os elétrons na imensidão dos átomos, nos tornamos o ocupante solitário de um universo indiferente. Correndo cegamente sem passado e sem futuro.

O racionalismo clássico nos levou a muitos becos sem saída. Pensamento apartheid, especializado em isolar, produziu terríveis cisões. Nossas sociedades são marcadas por esta potência de separação: brancos e negros, homens e mulheres, loucos e sãos. Segregar tem sido nossa habilidade mais desenvolvida. Nossas vidas são estruturadas por ela. Tornamos-nos especialistas em isolar termos e relações. É comum dizermos "o casamento está mal", o "trabalho não vai bem", como entidades à parte de nós.

A existência, entretanto, é um processo ativo e singular de autocomposição. Quando um novo indivíduo surge, o que surge é sempre a conjunção de uma nova multiplicidade. Cada existência é uma individualidade que se compõe de várias outras, e a gênese da existência está nessa potência de agregação. Cada ser é singular porque se compõe de modo inteiramente original. Assim, não há um elemento isolado a que possamos chamar de novo. O nada, idéia tão combatida por Bergson, não é o fundo do qual o ser abruptamente emerge. A criatividade é o princípio cuja novidade se efetua em composições. Existir, portanto, é compor. Compor uma multiplicidade própria, simultaneamente participante das composições do mundo. Cada processo existencial expressa seu próprio princípio de individuação - criatura e criatividade são indissociáveis. Ao longo de nossa existência, somos o trânsito contínuo de uma composição a outra. O devir não é algo que se passa lá fora e que possamos representar ou intuir. Somos o próprio devir - variação contínua nas composições da natureza

Existimos porque temos uma força de agregação das várias individualidades que nos compõem, e as agregamos sem destruí-las, pois é exatamente de suas individualidades que nos constituímos. Do mesmo modo, existimos porque não fomos destruídos pelos inúmeros planos de composição dos quais participamos, pois partilhamos planos sociais, planos químicos, anatômicos, genéticos, culturais, magnéticos, gravitacionais, planos de idéias. Uma infinidade de planos de composição constituem cada um de nós.

As estações do ano, por exemplo. Podemos dizer, como talvez os antigos chineses o dissessem, que "primaveramos" e "invernamos", uma vez que é no conjunto dos corpos que as alterações ocorrem. Algumas bem visíveis a nossos sentidos, como a profusão de cores que os vegetais exibem na primavera, a elevação da temperatura ou os espirros dos alérgicos ao pólen que circula no ar. Costumamos acreditar que a uma "simples" e "externa" variação de temperatura, a consciência, tendo percebido o que se passa lá fora, ordena que alteremos alguns hábitos como trocar de roupas ou abrir janelas. Entretanto, uma mudança de estação é um conjunto de modificações em todo o nosso corpo, sendo as mais fundamentais invisíveis aos nossos olhos e ouvidos, pois não há sequer uma célula nossa que não altere seus processos vitais. As variações que supomos externas a nós, elas efetivamente participam de nossa individualidade e exigem uma fabulosa atividade de sustentação da determinada conjunção que somos.

Dos planos com que efetuamos nossas composições, o temporal não tem a extensão do instante. Assim como o espaço não é uma sucessão de pontos, o tempo também não é uma sucessão linear de instantes isolados. Não podemos ser compreendidos a partir do isolamento, seja no espaço, seja no tempo. Nossa extensão não tem as dimensões restritas ao que nossos sentidos apontam como sendo os limites de nossos corpos. As estrelas, os livros, as ruas da cidade fazem parte de nós tanto quanto nosso "sistema nervoso" ou a pele que supostamente nos isola do mundo. O bairro, a Via Láctea, a Amazônia, o Oriente Médio, o ar que respiramos, o sangue que circula em nossas veias, o amor por nossos filhos, nossas idéias, nossas aversões - tudo isso nos constitui. Este exato lugar em que nossos sentidos localizam nosso corpo e o instante isolado do passado e do futuro, enfim, o ser "discreto" e "imediato" que supomos ser são limitações inerentes à percepção e não limitações inerentes à realidade dos processos existentes. Somos, cada um, uma região do universo, constituída por planos de extensões variadas. Não estamos confinados ao aqui e ao agora e também não somos um, mas uma multidão de seres.

Jucinei Batista
coordenador de  uma empresa de alimentos ligada à agroecologia

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