Um tom coloquial – Paulo Domenech Oneto

Da última vez comecei fazendo alusão a uma conferência do professor Paulo César Duque-Estrada sobre Derrida. A “comunicação” – como costumamos dizer nos dias de hoje – foi o fechamento de um colóquio sobre filosofia francesa contemporânea. Da minha parte, no mesmo colóquio, falei sobre o tema do “idiota” a partir da filosofia de Deleuze. Mais adiante, noutra “mistura”, tentarei resumir o que disse na ocasião. O que gostaria de abordar agora, no entanto, é a ideia de colóquio.

Quando pensei em escrever sobre a conferência mencionada acima, pretendia prosseguir realizando a única coisa que me parece interessante num colóquio, isto é, pretendia abrir espaço para uma interlocução; no caso, entre Deleuze e Derrida, colocando lado a lado dois temas, um de cada filósofo: imanência e separação.

Sabemos, porém, que alguns filósofos não gostavam de colóquios. E poderíamos nos perguntar o porquê dessa rejeição, até mesmo por sabermos que nossa maneira predominante de fazer filosofia começou na Grécia por meio da philia (um desejo de se associar) que, por sua vez, pressupunha certa rivalidade manifesta justamente na conversação, no diálogo, na interlocução.

Não estou insinuando que a filosofia seja conversa e tampouco que comece na conversa. Absolutamente. Digo apenas que ela se nutre da conversa. E isto não apenas na Grécia, mas na China também, se quisermos assumir um segundo eixo filosófico na Antiguidade. As conversas de Lao-Tsé e de Confúcio – com outros pensadores, com a tradição e mesmo entre eles – torna essa dimensão interlocutória evidente.

Um co-lóquio – como a palavra indica – é uma fala conjunta que abre para a inter-locução como fala entre iguais. Quando pensamos, por exemplo, em adotar um tom coloquial, estamos pensando num tom livre de conversação, sem formalidades ou formalismos. Isto parece confirmar que se trata de uma relação entre iguais.

Nesse sentido, qual o motivo para se recusar o colóquio? Talvez exatamente a formalidade de que o evento se reveste, fazendo do colóquio algo nada coloquial. Mas talvez haja mais do que isso. Talvez haja também – parece ser o caso de Deleuze – certo horror ou enfado diante da dupla pretensão implícita em colóquios: 1) de que o colóquio seja um domínio de especialistas; 2) de que seja possível e desejável, num colóquio, confrontar perspectivas distintas com vistas a um consenso.

A reticência aqui parece se justificar. Basta compreender a filosofia como arte das distinções a partir de problemas que precisam ser postos – e que são efetivamente postos de modo singular – para que queiramos fugir da conversa entre entendidos e das eternas discussões em que ninguém se deixa afetar pela problematização do outro. Esta coluna mesmo gostaria de fugir desse tipo de “colóquio”. Mas não de outro.

Qual outro exatamente? Ora, do colóquio que é fala conjunta diante de um tema, como nas conversas da Ágora grega. Aqui, cabe talvez distinguir tema e conceito. Fazendo uma analogia com o sentido que “tema” adquire na música ou na gramática, trata-se de um fragmento (melódico) ou segmento (vocabular) que tem algo de comum com outros, e que espera pelas variações ou desinências para se singularizar. No caso da filosofia, o tema precisa da problematização para se singularizar no conceito. Assim, então, um colóquio levanta um tema sobre o qual as pessoas se exprimem. À medida que a expressão se torna problematizante, surgem conceitos possíveis. A conversação se torna tentativa de se situar na dimensão problematizante do outro. A eventual concordância ou discordância acerca dos problemas e dos conceitos correlatos – que nada mais são do que encaminhamentos de solução (e não soluções) –, isto só importa muito depois.

Enfim, depois de ter escrito a última coluna (número 7), descobri três comentários sobre a coluna anterior (número 6), publicados aqui no site. A coluna falava da repetição em Kierkegaard, para compará-la ao eterno retorno em Nietzsche. Fiquei muito contente porque os comentários estabeleciam uma interlocução riquíssima em torno de dois temas fundamentais: os temas da afirmação e da relação entre vida e obra de um pensador. Fiquei aflito para entrar na conversa, para tentar compreender as perspectivas ali colocadas. Fiquei aflito, sobretudo, para tentar situar melhor minha leitura da problematização nietzscheana acerca da afirmação e para me exprimir sobre a relação entre vida e obra no afã de eliminar o que considero equívocos moralizantes no modo habitual de se pensar esta relação.

E é o que pretendo fazer. Mas quis fazer esta coluna antes para fazer um elogio do colóquio e para reforçar a ideia aqui implícita de que muitas vezes é possível (e até desejável) adotar um tom coloquial em filosofia.

Então, para concluir, faço como um dos poetas norte-americanos que mais admiro (Walt Whitman): anuncio o que está por vir. As colunas 9 e 10 serão sobre a afirmação na radical modalidade do amor ao destino (Amor Fati) e sobre Vida e obra. Até lá.

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Uma opinião sobre “Um tom coloquial – Paulo Domenech Oneto”

  1. Paulo, a idéia de algo que está por vir, como perspectiva de futuro, entra em ressonância com a retomada de Kierkegaard e o eterno retorno do Nietzsche. Alguma coisa que não de fecha, que se renova, que nos remete para o futuro… como a sua excelente coluna de filosofia.
    A idéia é ótima, e a perspectiva, melhor ainda. Meus parabéns, espero pela próxima!!!

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