A Valsa dos Canalhas
Só há uma coisa boa
Na vida humana na terra,
Entre a peste, a fome, a guerra
E o mais que nos arda ou doa.
Parece quase um milagre,
Um sol que nos embebeda,
Eis, súbito, a grande queda,
O mel em meio ao vinagre...
É a morte dos canalhas,
Porque eles morrem também...
Como isso nos faz um bem:
São eles, entre as mortalhas!
Schubert foi-se aos trinta e um anos,
Morre Keats com vinte e seis,
E entre os mendigos e os reis
Seguem eles, soberanos...
Mas, num segundo, uma artéria
Explode, o coração pára,
E a essência densa, alta e rara,
Sublime, espantosa, etérea,
Da canalhice termina
No frasco de um belo esquife...
Meu Deus, morreu um patife!...
Senhor, ainda que esta mina
Seja a única a não ter fundo,
Que júbilo, que alegria!
Nossa vida outra seria
Se a cada dia no mundo
Pudéssemos ver um verme
Lançado entre os seus iguais,
Não queremos nada mais,
Nós, Senhor, teu povo inerme,
Do que a espantosa alegria,
A luz que nos aparvalha,
Que é a benção de um só canalha
Num caixão a cada dia.
Alexei Bueno, escritor e poeta
05/05/2008
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