Um poeta nos arrabaldes do Rio de Janeiro
Figura eminente do Simbolismo brasileiro, Mário Pederneiras (1867-1915) destacou-se especialmente pela coragem de assumir a simplicidade do verso numa época em que preponderavam a retórica e o preciosismo métrico. Sem preciosismo, num momento de preciosos, diria Ronald de Carvalho em Pequena história da literatura brasileira. Agonia, o primeiro livro, é de 1900 (curiosa lembrança: o ano de Faróis, de Cruz e Sousa, edição póstuma, e de Minha formação, de Nabuco). Em 1901, o segundo livro, Rondas noturnas. Deste, José Veríssimo comentou ser " mais livre, mais pessoal, e creio que mais sincero. (...) Um progresso notável sobre o primeiro ". Em Agonia, começava contaminado pelos " tiques do Simbolismo em seus aspectos mais facilmente imitáveis", na expressão de Antonio Carlos Secchin, que não deixa de apontá-los: "A profusão arbitrária, descontrolada, de maiúsculas iniciais em substantivos comuns; o exagero na manipulação dos elementos cromáticos; a sintaxe arrevesada; o vocabulário elevado e pomposo; o comprazimento na criação de atmosferas mórbidas." Exagero do crítico? Creio que não: " Lento, a descer o Céu cobalto e louro." Ou: " Turba de Monjas d' Alvas d' asas d' ave." Era um Mário Pederneiras à procura de sua verdade, e à sombra - bastante incômoda - de Cruz e Sousa.
Cinco anos depois de Rondas noturnas, libertou-se por completo desse jugo com as Histórias do meu casal. Em carta a João do Rio (O momento literário), o poeta fez um comentário ligeiro sobre o novo livro, então no prelo: "Vai ser, espero, o meu melhor ". É o que a história literária acabou por confirmar a edição de sua Poesia reunida, preparada por Secchin e publicada em 2004 pela Academia Brasileira de Letras, enfim consagrou. Edição tardia, em vista da popularidade e do sucesso que marcaram seu percurso - em 1913, chegou a obter o terceiro lugar em concurso nacional para " príncipe dos poetas ", ao lado de Olavo Bilac e Alberto de Oliveira. E há cerca de 20 anos, Massaud Moisés dedicou-lhe nada menos que 10 páginas em História da literatura brasileira, ao lado de Cruz e Sousa, Emiliano Pernetta, Alphonsus de Guimaraens e Eduardo Guimaraens. Páginas severas, no entanto necessárias para o equilíbrio de um juízo descompassado pela leitura hiperbólica de Rodrigo Octavio Filho, fiel discípulo de Pederneiras. Faltava, porém, a edição crítica definitiva, na medida em que a aclamação de sua época e a freqüente visita aos compêndios e às antologias escolares não basta à sobrevida de um artista.
Tom prosaico, imaginação limitada, visão ingênua do mundo, apesar disso tudo Mário Pederneiras foi um bom cultor do soneto e não devemos esquecer o fato de ter pertencido ao grupo dos chamados precursores do Modernismo. Assunto por demais repisado por historiadores e críticos, é o de ter sido ele o introdutor do verso livre na poesia brasileira. Para Secchin, trata-se de uma questão complexa que foi "elucidada por Péricles Eugênio da Silva Ramos, embora as conclusões a que ele chegou possam ser matizadas". Nesse trabalho de arqueologia literária, esclarece que "Péricles atribui anterioridade a A. Guerra-Duval, cujo livro Palavras que o vento leva, editado em Bruxelas no ano de 1900, já continha poemas em verso livre. E, antes dele, Alberto Ramos publicara, em 1898, os Poemas do mar do norte, com uma série de traduções intituladas de ' prosa ritmada', na verdade uma espécie de verso livre que não ousava dizer o seu nome. Sem refutar essas anterioridades cronológicas, acrescento ainda que localizei num exemplar de Palavras uma dedicatória de Guerra-Duval a Pederneiras, comprovando, portanto, que Mário tomara conhecimento da técnica anos antes de publicar Histórias do meu casal." Diga-se de passagem, um raciocínio algo polêmico: " Ora, de que adianta uma ' descoberta ' sem circulação? Tanto o livro de Ramos quanto o de Guerra-Duval, de pequeníssimas tiragens, passaram despercebidos, não surtiram efeitos em nosso processo literário. Já Mário Pederneiras era poeta de notoriedade, capacitado, portanto, a fazer circular em âmbito bem mais amplo as técnicas de que foi, não diria criador, mas grande divulgador." E a conclusão é pouco alvissareira para o poeta: " Por outro lado, é forçoso reconhecer a timidez com que nosso poeta se valia do recurso, a ponto de ser lícito conjeturar se o que ele praticava consistia efetivamente no versilibrismo ou seria apenas a versão (mais moderada) do verso polimétrico."
Seja como for, é certo que até hoje nos comove o clima singelo e franco de alguns versos de " Velha mangueira ", poema célebre que encantou Rubem Braga e que Wilson Martins destaca em História da inteligência brasileira (referindo-se ainda ao soneto " Suave caminho ", que considera " extraordinário "). De novidade, Pederneiras trouxe a aproximação de uma poesia sem rebuscamentos, despida de adereços farfalhantes, calcada na sua vida simples de poeta de subúrbio: " Viver assim, sem luxo e sem as penas / Que a vida farta da cidade encerra;/ Sem ambições e sem fortuna - apenas / Dono de um pouso e de um torrão de terra ". Sua matéria primordial se resumiu ao ambiente familiar, à sombra de velha mangueira: "A minha vida agora é esta,/ Agora é este o meu pequeno mundo / Nesta vivenda simples e modesta/ Com Mar à porta e Árvores ao fundo.". Apesar da simplicidade do desenho, da ingenuidade do traço, aí encontrou sua própria voz - modesta que fosse, era sua, afirma Antonio Carlos Secchin, sem deixar de perceber nele, a essa altura, algumas afinidades com "a sensibilidade árcade ", nas águas de um Tomás Antônio Gonzaga. Ainda na carta a João do Rio, Pederneiras relembra as leituras de juventude, e entre elas, Gonzaga e Casimiro de Abreu...
Histórias do meu casal foi de fato o livro do encontro consigo mesmo, idílio confessional que o encaminharia aos dois livros finais - Ao léu do sonho e à mercê da vida, em 1912, e Outono, em 1921, póstumo. Era a sua plenitude, também de poeta da paisagem urbana, "dos jardins, dos crepúsculos de outono, dos crepúsculos dolentes de maio, das noites perfumosas nos arrabaldes do Rio de Janeiro ", como quis Ronald de Carvalho. Nesse plano, pode ser encarado hoje como um autor que "apontava para o futuro " (Wilson Martins), sugestão que Antonio Carlos Secchin admite com reservas, ao considerá-lo um poeta "à beira ", que "percebe o rumor da iminente modernidade, mas a ela não se entrega ". Ou não se entrega totalmente, prefiro acrescentar. Pelo sim pelo não, é bom não perdê-lo de vista.
André Seffrin, crítico literário e ensaísta. |
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