Entre panelas

Subject: algo simples
<< Florzinha,
Não importa a distância entre nós...
A gente sempre se encontra por aqui.:-)
A INTERNET nos aproxima e faz crescer nossa amizade.>>

- Não é uma gracinha? Tenho muito orgulho da amizade dela.

- Humm... Vamos ficar com ciúmes...........

- Não precisa, querida, no século dezesseis, Montaigne já dizia que a amizade se alimenta de comunicação. E isso não falta entre nós, não é? Mas algumas amizades podem ser desastrosas, como essa que vou contar, bem rapidinho, antes de ir embora.


Uma panela de ferro teria convidado uma panela de barro para fazer uma viagem. Não sabemos ao certo se mostrou algum empenho ou se foi apenas um convite casual. É, porém, do nosso conhecimento que a panela de barro sabiamente recusou. Deve ter alegado que coisas assim tão frágeis melhor estão no seu cantinho, que uma coisinha à toa pode fazê-las em frangalhos, que você, disse ela à outra, é muito mais resistente e pode visitar muitos lugares, suspirou. Ao que a outra, valorosa, segundo alguns, cheia de bazófia, segundo outros, prometeu coragem e despojamento para protegê-la, o que parece enterneceu a panela de barro que se dispôs a segui-la. E lá se foram, mundo afora, andando como podiam, como achamos que duas panelas poderiam andar. Contam que mal tinham dado alguns passos, bastou um eventual esbarrão da panela de ferro para fazer a companheira em pedacinhos. Desta, ninguém nada mais ouviu. Também se desconhece como a outra teria reagido, mas podemos imaginar.

Moral de Cícero: aquele que não reage às mesmas coisas, cujo temperamento não está em harmonia com o nosso, não saberá se mostrar nem fiel, nem leal.


- Quer saber, eu acho que a panela de ferro ficou muito triste, mesmo sem ter dito nada

- Eu acho que ela era metida. É isso que quer dizer bazófia, não é?

- A panela de barro é que devia ser mais esperta e ter ficado mesmo lá no cantinho dela, esperando aparecer uma cesta de palha.

- Essa história é do “Montagne”?

- Não é Montagne, é Montaigne, que rima com La Fontaine, que a escreveu um século mais tarde.

- Eu tenho um livro com fábulas de La Fontaine. Tem A cigarra e a formiga, A raposa e as uvas...

- La Fontaine escreveu essas fábulas a partir de Esopo, um outro fabulista que viveu na Grécia antiga, e de Sócrates, que depois as colocou em versos, como fez também La Fontaine. Lembrem-me de mostrar a vocês a ilustração que Chagall, um pintor russo, fez para esse conto. As panelas dele moram num jardim de uma casinha vermelha, como eram as casas nos arredores de Moscou...

- E o Cícero?

- Esse era romano, também de antes de Cristo, mas achei que ele podia nos emprestar a “moral”. Todas as fábulas terminam assim, com uma frase que resume o propósito da história...

-...nesse caso mostrar que devemos procurar quem combina com a gente, não é?

- Nós combinamos bem...

- De vez em quando, umas e outras se esbarram um pouquinho, não é “dona prática”?

- Mas afinal, com tanta gente no meio, quem foi que inventou essa história?

- O Tempo. E o meu acabou. Tchau!

Hortencia Santos Lencastre, professora de francês e tradutora

Reescritura e adaptação para público infanto-juvenil da fábula de La Fontaine “Le pot de terre et le pot de fer”.

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Centro de Estudos Claudio Ulpiano
www.claudioulpiano.org.br

Produção Editorial: Marici Passini e Viviane de Lamare. Criação e Produção: uma parceria Realice & Leila Passini Design.