Presença de Ifigênia

 

Efigenia cruzó extranjero
en las rutas, y sin hablar
le siguió, sin saberle nombre
porque el hombre parece el mar.

Gabriela Mistral

Ifigênia

Como estátua de vento, pedra gasta,
sopra Ifigênia sempre na memória
e estamos nela sem escapatória
como o tempo nas pedras: só se afasta,
(devido à semelhança com o vento
de seu todo), para estar em nós, aérea,
desprovida de contornos, em matéria
capaz de dar volume ao pensamento
que surge do que some: quando volta
volta cheia de pássaros e tudo
se lhe gruda ao olhar: reminiscência
de seus passos, o pássaro se solta
e em nós gravita a terra: conteúdo
e volume final de sua ausência.

Ifigênia - Reencontro

Deparamos com ela de regresso
e era a mesma Ifigênia que ficara
com o mesmo sorriso em toda a cara
e o mesmo rio no seu corpo impresso:
Encontramos o tempo e seu progresso:
Ifigênia era a mesma, não mudara,
Ifigênia, tão límpida e tão clara
que nunca possuiu nenhum recesso
onde a luz desaguasse que não fosse
nela mesma. Ifigênia transparente,
atravessando a luz ficava intacta,
atravessando a morte ficou doce:
Atravessâmo-la perpetuamente
Ifigênia, cristal de longa data.

Sopra Ifigênia

Sopra Ifigênia: o mar para diante
permanece infinito, mas encurta
o tempo à nossa frente: seu semblante
tão próximo de nós, logo se furta
e aproximam-se as ilhas, breve espuma,
para sumirem instantaneamente
na memória, cujo oco se avoluma
espalhando arquipélagos: ausente,
o vento que a levou, a tornou lastro:
Agora venta, o mar nela se enxuga
e o sal aumenta as praias: com matéria
de nuvens, Ifigênia firma o mastro,
sopra sempre Ifigênia, forma aérea,
componente do mar, salina em fuga.

Ifigênia - Arquipélago Amado

Procurando Ifigênia, substituo
as coisas pelas ilhas, e a lembrança
me guia pelo tempo: da mudança
de tudo, tiro o vento: contínuo,
prossigo por mim mesmo, e adiante,
ilha por ilha vou redescobrindo
o arquipélago amado: cada instante
deixa sinais na areia: vou seguindo
as pegadas do tempo, e a ampulheta
vai deixando cair a mesma areia
pelo istmo da sede: pela estreita
passagem da memória, cada veia
verte o seu conteúdo transeunte
até que em Ifigênia o mar se junte.

Ifigênia - Estátua Aérea

Ifigênia, de pé na solidão,
acompanha os navios, ganha altura,
caminha pela morte e se procura,
irrefreável de sofreguidão,
através dessa inerte multidão
dos vivos que povoam a amargura:
Durante a vida apenas escultura,
abandona, com toda a mansidão
que sempre teve, a fixa e dura pose
do mármore que a teve toda a vida:
Respira agora e sopra a ventania,
levantando-se assim, adormecida,
sobre seu próprio corpo, que jazia
e jaz, sem que ninguém nele repouse.

Ifigênia

Dir-se-ia que o mar não tem limites,
porém a cada passo deparamos
com a presença de Ifigênia morta -
e as coisas deste mundo são convites:
Convidam a tocar-lhe o corpo aéreo
todas as coisas que ao redor fitamos -
Ifigênia, substância que transporta,
e muda os continentes de hemisfério,
quando vamos tocar-lhe o corpo, some,
desaparece em nós, porém por fora,
como se fosse a nossa pele, toca
e a saudade recente que provoca.
(pondo a doçura toda de seu nome
na carícia, que é muda, mas demora),

Octavio Mora é poeta.
Os poemas de Presença de Ifigênia fazem parte do livro Ausência Viva, Livraria São José, 1956


O Sacrifício de Ifigênia - Paul Delvaux, 1968

7 A Valsa dos Canalhas
Alexei Bueno
7 Artaud, momo ou monstro?
Ana Kiffer
7 Um poeta nos arrabaldes do Rio de Janeriro
André Seffrin
3

Avant Garde Film & Video Analysis: Bill Viola, “Select Works”
Eliane Lima

7 Entrevista - Os dois pensamentos de Deleuze e de Negri: uma riqueza e uma sorte
François Zourabichvili
7 Orlan: quando a arte interpela o direito e a política
Gabriel Gualano de Godoy
7 Violência e liberdade
Hélio R. S. Silva
7 Entre panelas
Hortência Santos Lencastre
7 Autocomposições
Jucenei Batista
7 O maravilhoso, o milagre e o prodígio de Ibsen - Uma aprendizagem de tradução
Karl Erik Schøllhammer
7 Isso nos acontece às vezes
Laura Erber
7 Poemas
Laura Erber
7 A Travessia da Membrana: uma Imagem da Complexidade
Luís Alberto Oliveira
7 Qual de nós?
Luiz Manoel Lopes
7 Elizabeth, A Batalha e Sinfonia / série O Capital
Marci de Carvalho Trotta
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Cité
Maria Cecília Brandi

2

Inspiração
Marici Passini

2

Sobre a reescritura. 1ª parte: tipo, teoria
2ª parte: Construir uma fogueira
Marici Passini

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Do amor
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6

O Filósofo mascarado
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5 Fumacê
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5 Jesus está chamando
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5 Os pianos
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5 Primitivo
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Presença de Ifigênia
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Arthur Bispo do Rosário
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Do amor
Paulinho Moska

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Notas sobre o amor - Partes I, II e III
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O Ateliê
Pedro Süssekind

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Deleuze/Guattari: nós dois
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Arte no ar
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As Alianças Indissociáveis nos Sistemas Biológicos
Rosilene Rebeca

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A fase do pato selvagem (3 músicas) e Estados (1 música)
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Sensibilidade para a inércia
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Entrevista - A eterna rebelde
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Proust e Deleuze
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Teatro de gatos
Walmir Ayala

Centro de Estudos Claudio Ulpiano
www.claudioulpiano.org.br

Produção Editorial: Marici Passini e Viviane de Lamare. Criação e Produção: uma parceria Realice & Leila Passini Design.