Teatro de gatos

Como sombras chinesas meus gatos gostam de fazer teatro para as visitas. Dirão que estou louco, ou que invento coisas em cima do acaso. Quem convive com gatos sabe, cada dia que passa, que as relações do gato com o dono são da mais absolutamente lucidez e predeterminação. Tenho uma gata siamesa, agora, chamada Salomé, e que é dona do meu tempo. Não sou eu que a tenho, mas ela usa de mim – vive sob protesto quando não me sujeito a tê-la como centro da minha atenção. E não me permite decidir quando lhe faço um carinho, ou quando permito que durma no meu colo. É ela que determina que eu devo ficar disponível para a hora de repouso, que num gato é sempre perfeito como a dança de um deus.

Mas eu queria falar de teatro. Uma das formas de meus gatos se exibirem, não a Salomé que ainda não tem idade para isso, mas Rivelino (um mestiço de angorá com vira-lata) e Bovari (uma velha vira-lata pura), é aparecerem inesperadamente na moldura de uma alta janela de minha casa. Os vidros desta janela foram decorados por Januário, pintor mineiro, sob a forma de vitrais, e que dá ao “ palco ” improvisado uma atmosfera litúrgica da melhor qualidade. Pois ali despontam, de repente, Rivelino e Bovari, cruzam um pelo outro, sem se tocarem, olham as visitas (espantadas e um pouco assustadas), analisam o ambiente e se deixam ficar numa experiência de teatro novíssimo, sem palavra, e com pura elegância de gesto.

Muitas vezes fico matutando sobre o que pensam estes felinos tão pessoais. Rivelino é vaidoso, solerte e manso, gosta de gente, de carinho; Bovari é a quintessência do ciúme e da desconfiança; Salomé é egoísta e segura de sua graça, absorvente e praticante de um amor um pouco doloroso (haja visto os dentes de agulha com que se distrai experimentando o braço da gente, ou a rosa de espinhos em que iriça experimentando as unhas nas nossas canelas).

Tudo isto transparece neste teatro silencioso, teatro de almas presas aos fios do instinto, como títeres, destes bailarinos chineses que são os meus gatos e sem os quais minha vida estaria incompleta. Acho que aprendi a amar muito mais o teatro e suas possibilidades abrangentes, depois de experiências como essa. Poderia falar de um morcego morto, ou de um jardim com um banco branco e que sob a luz de uma lâmpada solar parece um verso de Maetterlinck. Teatro e vida, meus gatos, Cacilda Becker, a porta entreaberta: gestos, climas, ondas mansas de um único mar (Cecília chamou de Mar Absoluto) que nos explica e conduz para o grande encontro. Então serei do tamanho dos meus gatos, e passarei com eles na moldura de alguma janela, e me chamarei folha perdida, ausência, puro sonho saudoso. Porque um dia eu tentei ouvir o monólogo destes atores circunstanciais e definitivos: os gatos.

Esta crônica de Walmir Ayala está no livro O Desenho da Vida - Editora Cáliban, 2009.

 

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