Arte no ar
Pensar uma ocupação sonora radiofônica na rua é pensar no sentido do espaço
de fora, daquilo que não é privado e sim público. Esse é um aspecto desse
trabalho, essa passagem do espaço privado, seja ele interno ou mesmo do
atelier, para um espaço onde as pessoas lidam com objetos comuns,
mobiliários urbanos, veículos, sinais.
Por ser um espaço muito diferente do cubo branco, ambiente esteticamente
neutro em uma galeria ou museu tradicionais, a rua possui uma outra dinâmica
e isso pressupõe outra atitude, onde não se trata de transferir o trabalho
do atelier ou da galeria para a rua, mas de pensar toda a ação e a
transmissão sonora especificamente para o ambiente, estabelecendo um jogo
semântico com o espaço físico onde essa ação vai existir.
A transmissão radiofônica e a performance que ocorre no estúdio, compõem uma
ação muito diferente do antigo métier artístico por não possuir um suporte
permanente e depender de registros fotográficos e sonoros. Embora fuja de
ser um produto, o trabalho quase sempre é visto e acessado por se tornar
produto no formato de registro.
A parte que me interessa nesse espaço está no ar. A comunicação nesse meio
também deveria ser pública, assim como o ar que respiramos, que é um bem
natural, e não pode ser privatizado.
O ar deveria ser um lugar como a rua, um espaço de afetos, onde as pessoas
se encontram, mas as concessões políticas da administração pública
determinam quem utiliza esse espaço e isso significa padrões que tendem a
uniformizar o rádio, que fazem que esse meio permaneça limitado a um eterno
monólogo ao invés do diálogo que ele possibilita. Ouvimos o rádio como uma
voz que nos fala, mas nesse mesmo lugar podem haver várias vozes.
Com as concessões vêm os formatos que interessam aos monopólios, formatos
que comunicam imediatamente, de primeira. Feitos para a massa. Como arte é
sempre uma proposição, colocada nesse imediatismo fica deslocada, porque ali
a coisa não foi resolvida de primeira, precisa que você coloque algo mais,
precisa de você.
Diferente de uma propaganda imediata, a transmissão de rádio pode construir
lugares, pontos de encontro, restituindo em parte esse meio como espaço de
afeto e ação; as pessoas ao entrarem em contato com o rádio, ao transmitirem
suas "vozes", se emocionam pela distância que ele alcança fisicamente, e
sempre se lembram de quando ouviam rádio. É certo que todos tem alguma coisa
para dizer no rádio.
Cada meio que surge traz com ele características que são próprias e que
podem ser utilizadas para a comunicação, que propiciam formas diferentes de
falar e de ouvir. Devemos levar ao máximo os limites das mídias como
ferramentas de comunicação, incentivando o surgimento de linguagens que
renovem a forma de utilizá-las e estimulem a produção de subjetividade.
Padrões e concessões não podem ser os instrumentos reguladores da criação
nesses meios. A educação e a legislação precisam mudar, e pra isso é preciso
aprender a ouvir outras formas de fazer rádio.
Para mudar isso, temos de formar produtores de rádio e não consumidores de
tecnologia, buscar uma população de falantes tão grande como a de ouvintes.
Isso é efetivamente apropriar -se da tecnologia. Essa também é uma idéia de
formação de público para a arte consistente.
Meu trabalho com a rádio aberta é propor esse espaço imantado no meio
radiofônico dividindo com todos as possibilidades dessa tecnologia, e
mostrar que ele acontece dentro, fora de nós e "no ar ", ocupando
provisioriamente a massa arquitetônica muda e permanente da cidade, com a
paisagem sonora das linguagens que podemos gerar.
 Romano é artista visual e radioasta.
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