Biografia em fragmentos

Entendemos por biografia de um filósofo sua biografia intelectual. Por outro lado, não gostaríamos de descartar a variedade de fatos pessoais que acabam participando, direta ou indiretamente, da construção de uma obra filosófica. No caso de Claudio Ulpiano, tão marcante quanto o seu encontro com o pensamento de Gilles Deleuze, nos parece, por exemplo, seu precoce autodidatismo, sua relação vital com a filosofia, sua postura eternamente rebelde.

Sabemos, todavia, que privilegiar e interpretar um ou muitos aspectos de uma existência é tarefa tanto impossível quanto pueril. Optamos, então, pela tentativa de criar uma biografia, nem verídica nem ficcional, através de entrevistas, de testemunhos de memória, de correspondências, etc. Cada novo fragmento virá se incorporar ao anterior, acrescentando algo a esta biografia que será por natureza incompleta.

Fragmento 1: Relato de uma lembrança

Uma parte considerável da história de Claudio Ulpiano está associada a Macaé - então pequena cidade do litoral fluminense, hoje uma cidade em pleno desenvolvimento -, onde nasceu a 14 de novembro de 1932. Essa distância, que hoje se atravessa em pouco mais de duas horas, não raro levava mais de um dia inteiro para ser percorrida, por estrada de ferro ou vias lamacentas, o que obrigava o viajante, muitas vezes, a pernoitar no caminho, para atingir seu destino apenas no dia seguinte. Embora na idade adulta Claudio tenha se fixado definitivamente no Rio de Janeiro, durante um longo período de sua existência ele retorna com regularidade à cidade materna em busca do frescor dos seus ventos e de sua intensa e radiosa luminosidade.

Apesar de sua origem fluminense, Claudio é criado no Rio de Janeiro, ainda Distrito Federal, anos antes de sua fusão com o Estado do Rio. Macaé, no entanto, permanece para ele um ponto de referência, onde costuma passar suas férias na grande casa dos avós, uma espécie de sítio em pleno coração da cidade. É nessa casa que vezes sem conta Claudio se refugia em seu quarto, tendo ao lado algumas dezenas de livros, que lê sem descanso. Muitos de gramática portuguesa - ecos de seu encontro com aquele que aponta como o "único professor" que teve em sua vida, suplantado apenas pela leitura dos grandes mestres que, no futuro, a filosofia, a arte e a ciência lhe trariam. Inúmeras vezes Claudio faz referências à figura exótica que, quando menino, lhe dava aulas de português no Colégio Anglo Americano, em Botafogo. Vestido de branco, com um terno de corte impecável, e portando nos pés um sapato de bico fino e longo, em duas cores, reproduzia o trajar típico dos malandros que transitam, ainda hoje, nas ruas da Lapa. Teria sido, esse professor, quem lhe trouxe a paixão pelo estudo e a pesquisa de nossa língua.

No Rio de Janeiro, após a separação de seus pais, Claudio vive em uma agradável casa da Rua Maria Amália, na Tijuca, em companhia de sua mãe e de seu irmão mais velho, momentos de proteção e felicidade que permanecerão em sua lembrança como as mais ternas recordações de sua infância. Claudio se descreve, nesse período, como uma criança alegre e vivaz, que se destaca invariavelmente em todas as suas incursões esportivas. Foi campeão inter-bairros do jogo de botão - atividade muito em voga na cidade desde a década de 30, quando os "jogadores", ainda fabricados artesanalmente, a partir de botões de roupa, de material e tamanho diversos, eram torneados e preparados com esmero, de modo a garantir um bom desempenho, naturalmente favorecido pela habilidade do botonista e pelo estilo com que administrava sua palheta.

A morte de sua mãe, ainda jovem, vítima de um distúrbio na glândula tireóide, hoje de fácil cura, marcou de maneira definitiva o espírito da criança. Essa perda, prematura, leva-o a reunir-se outra vez com seu pai, então em sua segunda união e já com mais três filhos, passando a residir com eles em um apartamento no Morro da Viúva. É então que Claudio Ulpiano faz seu encontro mais significativo - com a vasta biblioteca do pai -, de importância essencial para a carreira que desenvolveria a seguir.

Se esse trajeto mais ou menos extenso que liga o passado ao futuro do filósofo, seus sonhos de menino à efetuação de sua vida adulta, por um lado se assemelha ao percurso de tantas vidas à procura de um destino, em seu caso particular assume os contornos de uma busca cada vez mais devotada ao pensamento.

Sílvia Ulpiano

Fragmento 2: Um sonho de Maria Luísa

Os sonhos atribulados de Maria Luísa é um livro escrito pelo físico Mario Novello, e o trecho a seguir expressa a bela amizade e mútua admiração que sempre existiu entre Mario e Claudio.

No livro, a menina Maria Luísa, filha de um cosmólogo, o Doutor Luís, passa seus dias em estreita convivência com o ambiente científico que reina na sua casa. À noite, tem estranhos e admiráveis sonhos, onde passeia entre físicos, filósofos e partículas que conversam e se explicam, e onde as informações extraordinárias que ouviu sobre o universo se misturam às suas experiências do dia-a-dia.

Num destes sonhos, no qual visitam sua casa o doutor Gödel e o doutor Rosen, e vão todos passear por uma ponte que leva “ao mesmo lugar, só que no dia anterior ” – a ponte de Einstein-Rosen –, está presente também Cláudio Ulpiano.

“ Por volta das 13 horas, doutor Luís tinha conseguido – sabe-se lá como – despachar o chato do doutor Panathos, e na sala já estavam Rosen, Gödel e o filósofo fluminense Ulpiano. Este foi o último a chegar.

No começo, ele não queria aceitar o convite. “ Eu não sou físico ”, dizia. “ Não entendo nada disso”. Mas o doutor Luís, que gostava muito dele, insistiu com uma meia-verdade: “ Olha, Ulpiano, não fui eu quem sugeriu teu nome para formar parte dessa equipe, mas sim os outros dois ”. Isto não mudou em nada a decisão dele. Até que o pai de Maria Luísa encontrou um argumento definitivo:

— Ulpiano, disse o doutor Luís, nós não estamos querendo ensinar nada. Só aprender.

Isso deixou Maria Luísa muito, mas muito, espantada.

— E eu que pensava que professores só ensinassem!, exclamou espantada”.

Um pouco depois, no mesmo capítulo, quando Maria Luísa já está no meio da travessia da ponte que leva ao passado, ela cruza de novo com o filósofo.

“ Quando chegavam no meio da travessia Maria Luísa percebeu que o doutor Rosen se afastava mais e mais. Ela se esforçou para andar um pouco mais rápido, mas não conseguiu acompanhar-lhe os passos. Parecia que ele voava, tão rápido estava!

“ Que será que deu nele?”, falou para si mesma. “Parece que está fugindo de alguém. E além disso, esse vento...” Realmente, um vento forte tinha acabado de começar.

Mal ela disse isso, viu que uma boa dúzia de velhinhos – que ela reconheceu de uma antiga fotografia que ficava no alto da estante de seu pai, como sendo filósofos bem famosos – corriam, logo atrás dela, de mãos dadas com o professor Ulpiano. Todos falavam ao mesmo tempo, parecendo que cada um queria impor alguma verdade ao outro. As palavras eram pronunciadas muito rapidamente, como se estivessem sendo sopradas com força, quase cuspidas. O resultado final dessa confusão era precisamente este: eles estavam produzindo uma ventania!

— Caramba! disse espantada. O professor Ulpiano trouxe todos os seus colegas!

Embora não ficasse claro se eles estavam correndo atrás ou à frente do doutor Rosen, uma coisa era certa: eles estavam sem dúvida se evitando! “ Puxa! Parece que houve alguma coisa no passado entre eles...”, pensou. Com a ventania que os filósofos tinham provocado, a ponte estava completamente em desordem. As coisas estavam literalmente fora de ordem.

— Não faz mal. Vou acabar consertando tudo. Vou até voltar lá no passado e fazer eles serem amigos de novo, disse, como se fosse tão simples reatar amizades.

O professor Ulpiano parou a corrida, arfando.

— Um café, por favor, minha filha, pediu.

Mas, curiosamente, não esperou pelo café e seguiu de mãos dadas com seus amigos na direção da ponte. Eles continuavam falando todos ao mesmo tempo. Maria Luísa reconheceu a voz de um deles – mas não se lembrou de quem era –, que repetia várias vezes:

Nesta ponte, quem caminha veloz para o futuro

se aproxima rapidamente de seu passado...

Nesta ponte, quem caminha veloz para o futuro

se aproxima rapidamente de seu passado...

Embora não entendesse o que ele queria dizer com isso, ela ficou contente. “ Ainda bem que eles estão se divertindo com outra coisa. Pelo menos não estão mais correndo atrás do doutor Rosen!”

O doutor Rosen estava tão furioso depois da cena com os filósofos que tremia a um canto, envolto numa imensa camiseta que lhe cobria totalmente o rosto.

— Desse jeito o senhor vai acabar batendo com a cabeça em algum lugar, alertou Maria Luísa. Mas parecia que ele não a escutava.

— É sempre assim quando estamos por perto, disse um dos filósofos. Ele não fala. Fica mudo. Parece que não acredita em nada do que a gente diz, ou então tem medo, sabe-se lá do quê!”

Os sonhos atribulados de Maria Luísa, Jorge Zahar Editores, Rio de Janeiro, 2000

Fragmento 3: Carta a uma criança

No ano de 1990, Cláudio e Silvia ficaram alguns meses hospedados na casa de uma amiga. Ela tinha uma filha de dois anos, que acordava muito cedo. Todos os dias, invariavelmente, a criança saía de sua cama, sentava-se no sofá da sala e assistia aos mesmos filmes, Bela Adormecida e Mágico de Oz. Cláudio, que sempre dormiu pouquíssimas horas (não raro, passava muitas noites sem dormir) era o único habitante da casa acordado naquele momento, além da criança. Ele a seguia no seu ritual: também sentava no sofá e assistia aos filmes, todos os dias. E todos os dias lhe fazia as mesmas perguntas sobre eles. Embora desconfiada, a criança sempre lhe respondia, como se estivesse ouvindo as perguntas pela primeira vez. Numa ocasião, Cláudio lhe escreveu este texto:

UMA DECLARAÇÃO DE IGNORÂNCIA COMO PROVOCAÇÃO

Para a minha amiga das manhãs: Julia Isabela

"Julia Isabela, com seu pequenino espírito, diante de mim, quando lhe faço as ruinosas questões sobre Bela Adormecida e Mágico de Oz, torna-se hesitante: estaria à frente de um ignorante ou de um provocador? Mas como seu coração ainda mantém o virgem tecido da inocência, ela me responde todas as vezes... já o cérebro que, desde sua aparição, é rápido e preciso computador, a faz colocar seus olhos claros em perplexidade – tanto a ignorância quanto a provocação são artes que, nela, estão in absentia. A hesitação e a perplexidade são faceirices deste corpo, que todos os dias inaugura a vida com festa".

Do seu amante, Claudio Ulpiano

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