DOIS CONTOS BEM AO SUL: Luz Triste – Luiz Horácio

O que vou contar vi e ouvi com meus olhos e ouvidos de pássaro. Naquele quase amanhecer eu estava lá, ao pé de uma árvore tentando desentocar uma lagarta.

De repente aquela calmaria costumeira anunciou mudança, senti um frio entre minhas asas. Levantei o olhar e de pronto despontou aquele homem que eu costumava avistar quase todos os dias.

Armando, assim ele se chama, Armando corredor, assim eu o chamo. Ele, ainda hoje,  conserva o hábito de correr todas as manhãs. Cedo. Geralmente sai de casa antes do sol. Naquela manhã fria de julho, o termômetro acusava seis graus centígrados, ele também não se intimidou com as idiossincraias da natureza. Assim como aos pássaros, o frio também não o perturbava. O ar mais gélido cabia sempre aos pássaros em vôo óbvio. O itinerário daquele dia incluía a região do Shopping Iguatemi. Proximidades de um parque, rua Ferdinand Kissinger, percebeu dois quero-queros, esses bichos nunca andam só, tentando encontrar algo, algum inseto, sobrevivente a geada.

Uma das aves, ao vê-lo, afastou-se lentamente, andando. A outra permaneceu onde estava, Armando se abaixou, tocou as penas daquele quero-quero , com cuidado pois os quero-queros guardam um dolorido ferrão  defensivo. Ativado, a dor é quase insuportável.

Logo estava com o pássaro em seus braços. Olhar atento, mas sem demonstrar susto, a ave encostou o pescoço no peito do homem que a abraçou com mais energia, sem machucar. O outro quero-quero logo ganhou outra companhia. Será que eles se sentem extremamente solitários? pensou Armando.

Um carro, faróis ligados para enfrentar a névoa, passou em marcha lenta.

Armando devolveu a ave ao chão. Assim que encostou seus pés no asfalto o quero-quero saltou de volta para os braços que lhe emprestaram tamanho calor.

Um carro, faróis ligados para enfrentar a névoa, estacionou.

-Bom dia.

-Bom dia.

-Recebemos uma denúncia, o senhor está capturando uma ave nativa e isso é crime. Tenho que levá-lo à delegacia.

-Deve haver um mal entendido, não estou capturando, estou conversando com esse quero-quero. Disse-lhe de meus medos e de minha inveja em não poder voar. Ele, por sua vez, me falava de sua angústia por não poder ir onde bem entende, viver apenas como pássaro, livre de ambições. Ao pegá-lo em meus braços, mostrei-lhe o calor que até então não precisava, e ele gostou. Ao soltá-lo, sentiu frio e voltou a mim. Não pretendo aprisioná-lo, creio que estabelecemos uma cumplicidade, uma amizade, e os cúmplices e os amigos são livres. É isso.

-Você está me chamando de idiota? Quer que eu acredite que estava conversando com esse bicho?

-Não o chamei de idiota e também não pretendo fazê-lo acreditar que conversávamos. Mas o senhor não acha que podemos acreditar no que bem entendermos?

-Você está sob efeito de drogas ou então é doido, algo está errado aqui, muito errado.

Nesse instante, desisti da lagarta, momentaneamente é claro, e busquei posição mais favorável. Pensei em meter meu bico, mas quero-quero, até aquele momento eu pensava assim, ou é bicho que despreza todos os outros bichos ou então é animal dos mais covardes. Nunca vi quero-quero conversando com outro pássaro.Nem mesmo se aproximar é do costume deles.  Fiquei de ouvido atento, alguma coisa me escapou porque notei a presença de um gato rondando aquela cena, e onde tem gato tem o dedo do diabo. Ah tem!

-Como é seu nome?

-Victor Hugo.

-Pois bem, seu Victor Hugo, eu estava correndo conforme o senhor pode comprovar pelos meus trajes; e tenho intenção de continuar, se o senhor me permitir.

-E o bicho? Pretende correr abraçado ao quero-quero?

-Vou soltá-lo.

-Então solte.

Armando abaixou-se, devolveu a ave ao chão. Onde a deixou ela permaneceu. Olhou ao redor e percebeu a presença de oito pares de quero-queros. Enquanto um outro, solitário porém altivo como apenas os quero-queros conseguem ser, se aproximava.

Victor Hugo dirigiu-se ao seu carro e retornou com um colega.

-Fotografa.

O homem fotografava de tudo quanto era ângulo.

-Tem pouca luz, Victor.

-Deixe de bobagem, essas máquinas modernas não se importam com isso. Fotografa o cara, depois fotografa os bichos.

-Peça a ele para pegar o quero-quero.

-Como é que vou pedir pra pegar se mandei largar?

-Só pra foto… só pra foto, vai.

Os homens discutiam, Armando conversava com o quero-quero, os demais permaneciam estáticos. Aquele que se aproximava, chegara.

Armando puxou assunto.

-Estão fotografando.

-Não conseguirão, a essa hora a luz é triste. Antes que ele volte permita lhe agradecer.

-Agradecer?

-Sim. Por ter me dado o frio e o calor.

-Não lhe dei, você está enganado, eles já estavam aqui bem antes de mim, antes de nós, de todos nós.

-Peço que você me permita recompensá-lo.

-Não precisa, que bobagem…mas  como me recompensaria?

-Ensinando-o a voar.

-E o que posso dar-lhe em troca?

-Ensine-me a ter medo?

-Não é bom viver sem sentir medo?

-Não. Superar o medo pode gerar prazer, não pode?

-Pode.

-Você sabe qual é o grande prazer dos pássaros?

-Voar?

-Não. Isso é obrigação.

-Então, o que é?

-Conversar.

-Mas vocês conversam entre vocês.

-Sim, mas isso, assim como entre os seres humanos, também é obrigação.

-A que tipo de conversa você se refere?

-A conversa com gente.

-Não valeria a pena, temos muitos medos, somos muito ambiciosos, desrespeitamos a tudo e a todos, inclusive os pássaros.

-Você não desrespeita. Faz mais de ano que olhamos você, sempre que passa aqui escutamos seus pensamentos, tem sempre criança neles, e uma mulher, a mesma mulher todos os dias.

-Está bem, digamos que eu concorde com tudo isso, mas pra que o medo? Quando estiver lá no alto, sentirá medo?

-Tem medos que jamais os pássaros sentirão, afinal de contas voar é nossa obrigação, eu também quero aprender a sonhar. Sonhar tem a ver com imaginar?

-Pode ter, e… aí vêm eles.

Sou sabiá cumpridor dos meus deveres e chegara o momento de emitir meus primeiros cantos daquele dia. Subi a um galho de onde me permitisse visão, não gostei de sair de onde estava, mas pássaro que se preza jamais canta a rés do chão.

O colega de Victor Hugo não parava de fotografar e praguejar.

-Não vai sair nada, eu tô dizendo…não vai sair nada, tá muito escuro… mas…. Victor, que horas são?

-Sete e vinte.

-Não lhe parece que está demorando a clarear? Tem coisa errada aqui, isso tá me parecendo coisa do diabo, aquele cara no meio dos quero-queros tem parte com o chifrudo, só pode. Eu vou me mandar, você fica?

-Olha pra lá, lá pros lados do shopping, lá tem sol, só aqui está escuro.Vamos embora, mas antes preciso falar com o cara.

O homem lembrara do diabo e me correu aquele frio do começo dessa história, você recorda que tinha um gato rondando a cena? Pois bem...

Daqui pra frente não falarei mais de mim. Só uma coisinha: quero-quero não canta, não canta nada, mas fala. Eu canto, canto sempre a mesma música e não aprendo a falar. Voltemos à história. Antes que esqueça: o que não consegui ouvir, o quero-quero me contou. Naquela mesma manhã.

O motor do carro já fazia seu rumor quando Victor chamou Armando. Dois quero-queros o acompanharam junto aos seus passos.

-Pois não, Victor.

-É o seguinte, pegue o que é seu e caia fora.

-Não tenho nada para pegar, eu estava correndo, não lembra?

-Tá…tá…tá….e para com essa frescura de falar com bicho, um dia você acorda num hospício.

-Com os quero-queros?

-Não brinca…não brinca que é sério. Vai.

-Calma, ainda tenho um assunto a concluir.

-Puta que pariu.

Victor deu partida e desapareceu na névoa. Assim que o barulho do motor também desapareceu o sol se juntou a Armando e aos pássaros. Algazarra de quero-queros que voaram em direção aos gramados em busca de insetos.

Armando não conseguia identificar o quero-quero que conversava com ele pois quero-quero é bicho de muita parecença. Recomeçou a correr. Poucos passos adiante pousou a sua frente seu interlocutor.

-Ia embora sem se despedir?

-Não consegui identificá-lo.

-Saberá.

-Como?

-Logo que se sentir pássaro.

-Não tenho penas, não sei voar.

-Saberá.

-Como?

-Sonhando ou imaginando, ainda estou em dúvida, mas o caminho é esse. Agora vá.

-Até amanhã

-Até. Com luz triste.

Luiz Horácio é autor da Trilogia Alada, composta pelos romances Perciliana e o pássaro com alma de cão (2005), Nenhum pássaro no céu (2008) e Pássaros grandes não cantam (2010)

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