DOIS CONTOS BEM AO SUL: Doralina – Luiz Horácio

Santa Maria dos Lobos, trinta de janeiro de 1984, rua Dezenove de Maio, número 2053, uma mulher morta saiu dali. Fria, rígida, me deixou a solidão. Se proposital ou não, já não importa. Foi naquela casa que ela se misturou com o inverno.

A mulher gelada que saiu dali é/era minha mãe e por todos esses vinte e três anos passados eu continuei vendo ela sair desse mesmo lugar, desse mesmo jeito.

Vi minha mãe atrás do vidro do caixão, estava com a fisionomia de sempre, triste. Certas pessoas são tristes por que são tristes, dispensam explicações, por isso nos acostumamos. Embora eu não me acostumasse a tanta tristeza, quando se alegrava conseguia ser ainda pior, sabia que não ia durar. Minha mulher também é triste, as outras duas não fugiram à regra.

Meu pai mantinha a serenidade comum aos que sabem que viver é encontrar justificativas para viver, minha irmã não viu nossa mãe morta, nosso irmão também não. Eu continuo a ver. Um filho só consegue ver a mãe como pessoa, como mulher, depois que ela lhe dá as costas. No meu caso, para nunca mais. A lógica da vida nasceu torta para mim que tinha pressa de viver enquanto era jovem. Pouco tempo restava para admirar a vida, o dia, o vento, o silêncio, pai e mãe. Hoje não incluo pessoas em minhas expectativas. Minha dívida maior é com os mortos.

É...é verdade...a primeira vez que fui pai, minha filha morreu. Uns idiotas ainda dizem que minha vida mudou a partir daí. A primeira vez que me disseram isso, me dei conta da mediocridade do ser humano. Toda vida está sempre mudando, será que eles sabiam como seria minha vida caso minha filha sobrevivesse? Minha primeira paternidade não durou três meses e já foi dissecada por mim. Talvez tenha embrutecido um pouco a minha vida, a morte tem uma mentalidade exageradamente autoritária e quando a morte passa assim tão perto não há como fugir do degredo...da culpa. Aceitei o degredo sem confessar a culpa. Um filho não traz respostas, gera perguntas. Um filho morto continua fazendo perguntas...que nunca terão respostas.

O NASCIMENTO, A INFÂNCIA

A mais grata surpresa de minha vida foi ter nascido de quem nasci. Depois da infância que eles me deram nada mais teve graça. Em meu pai ainda vislumbrei lampejos de felicidade, embora ainda hoje não possa afirmar a origem. Minha mãe me permitia inventar tantas coisas quando num descuido dela, eu conseguia invadir sua solidão. A invenção exige solidão. Sinto tanta falta de minha mãe! Duvido que algum dos meus filhos sinta tanta necessidade de mim, quanto ainda sinto dela.

Lembro que às vezes sentava em frente à nossa casa e tentava imaginar minha mãe na cama com meu pai, não conseguia. Era o pensamento mais triste que me atacava, não conseguir imaginar meu pai e minha mãe como homem e mulher que se desejassem. Temia que ela se tornasse mãe de meu pai e que um dia, assim como eu fiz, ele fosse embora, ela era tão perfeita para mim que eu só tinha medo de perder meu pai. Mas desde cedo algo já me incomodava, assim como a palavra esperança me irritava, a palavra perfeição me enojava. Se ao menos minha mãe tivesse um amante, se emprestasse vida a outras pessoas, ter amante é viver duas vezes. Mas não, minha mãe era religiosa, transparecia uma inocência que não me permitia ver a mulher, acho que meu pai também esquecera de ver.

Minha mãe, uma linda mulher que sempre me deixava a impressão de que algo lhe faltava. Aparentava uma serenidade, misto de passividade com resignação que me incomodava, simplificava por demais a vida. E como disse o poeta profeta, “sê intenso ou a vida te há de cobrar.” Minha mãe era um jardim florido sufocando um vulcão prestes a implodir. E implodiu. Guardou coisas demais e por isso morreu. Sua vitalidade indecisa não agüentou.

Triste é saber que ela não estava só, existiam outras mulheres iguais a ela. E ainda existem...

Naquele tempo, quando ela saiu morta da nossa casa, eu já tinha um filho a quem não saberia amar. Seu pouco tempo de vida não lhe permitiria lembranças da avó.

Lamento o fato de meu filho não guardar lembranças de minha mãe, estiveram juntos raras vezes e vem daí um pouco desse vácuo em seu olhar, depois viriam outros filhos, irmãos desse mesmo vazio. Minha mãe não permitiu essa avó aos meus filhos.

OS PRESENTES

O que ela me deu de mais significativo foi com o olhar, de minha parte pouco lhe dei, se os papéis estivessem invertidos ela lembraria de mim apenas porque as mães não aprendem a esquecer. Acreditava nisso até dias atrás quando me dei conta que ela também me deu histórias, muitas histórias.

Naquele dia que ela saiu morta da nossa casa, estava nublado e isso não deixava de ser um bom sinal, porque enterro em dia ensolarado significa que alguém tripudia. Minha mãe entristeceu o dia e dali em diante minha alegria se tornou mais difícil. Casamentos, separações, filhos, o amor não tem nada a ver com alegria e felicidade, amor é uma palavra disfarce.

Eu não queria aquela expressão no rosto morto de minha mãe, ali ela mentia, aparentava paz, ela me enganou e eu não chorei. Contra outros silêncios seus eu lutei, mas contra aquele não havia nada a fazer.

Inúmeras vezes pude perceber quando alguém lançava o olhar sobre ela, ficava preocupada, assustada, serena; sabia que ela se via refletida naquele olhar alheio. Ela, fruto das suas eventualidades. A expectativa daquela outra pessoa dizia quem era minha mãe, mas ela não conseguia se relacionar com o mais intimo de si, a intimidade profunda, esconderijo de sonhos e imperfeições.

Ela me abraçaria pela última vez em dezembro, morta, não a tocaria. Lembro da roupa que vestia e da medalha de uma santa que ela carregava. Não lembro das pessoas que estavam na nossa casa velando o corpo, recordo apenas de minha indecisão entre ficar mais tempo com minha irmã ou permanecer ao lado do meu pai. Naquele dia ele estava mais velho.

Se não me falha a memória naquele trinta de janeiro caiu uma neblina, minha mãe foi sepultada à tardinha, não guardei detalhes da morte. Mais tarde, ainda naquele mesmo dia, ela estaria entre nós na sala lá de casa. Falávamos a seu respeito, nós, os familiares, e os amigos. Infelizmente é na ausência que costumamos ser mais sinceros, naqueles momentos a ausência se mostraria incondicional. E nunca mais se falou tanto sobre minha mãe naquela casa.

Ela morreu com cinqüenta anos, a minha idade hoje. Eu, que a fizera avó aos quarenta e seis, mas não daria certo, a neta morreria com dois meses, insistiria e ela foi avó antes dos cinqüenta. Agora chega a minha vez e sinto medo. Naquele dia eu tinha vinte e sete e daí em diante nunca mais deixei de me sentir só. Duas coisas minha mãe me legou, solidão e medo. Da solidão não escaparei jamais, quanto mais gente, mais amigos, mais afetos, mais só eu me sinto. Desconfio, no entanto, que sem eles talvez já tivesse tomado outras providências. Medo, medo de não ser merecedor da vida que ela e meu pai me deram, e, sobretudo, um medo desgraçado de morrer e deixar com meus filhos a dor que minha mãe me deixou. Medo, medo de, a meu modo, também encarar a vida com simplicidade e ver forçado meu desembarque.

A COMPARAÇÃO

Não, eu não podia estar me comparando com minha mãe, justo eu que não consigo ser útil a quem necessita, justo eu que neguei ajuda a um mendigo com medo da sujeira dele, não, eu não podia estar me comparando àquela mulher que levava para nossa casa, para passar dias conosco, sua amiga tetraplégica. Eu olhava para aquelas pernas pequenas e mortas e perdia o sono, ainda hoje sinto o cheiro daquela mulher, eu já era metido à besta, mas tinha medo da cadeira de rodas, evitava tocar inclusive.

Não tenho nenhum objeto de minha mãe, me agradaria muito ter em meus dedos alianças que ela usava. Eu estou sempre olhando para as minhas mãos. A preocupação constante com as coisas da casa impediam que minha mãe cuidasse de suas mãos. No máximo um creme, não fazia as unhas com freqüência.

Vivo buscando no meu pai, pedaços de minha mãe e por essa razão me sinto ainda mais solitário, afinal de contas ela deixara tudo numa só pessoa. Não sei se foi bom para ela, para mim todo resumo é trágico. Meu pai formou outra família e talvez para sua atual companheira certas lembranças pesem tanto quanto a presença de minha mãe. Não, eu não pergunto muito sobre minha mãe. O que sei já é o suficiente, gosto e não gosto. Sobre minha mãe só eu posso saber, da mulher, meu pai nunca me falou. Agora já não interessa mais. Não gosto de ouvir falar de minha mãe, eu a conheci, eu sei o que se passava, ninguém a observou tanto quanto eu, mais ninguém lhe deveu tanto amor quanto eu. Agora não interessa mais.

Parece mentira, mas entre pais e filhos não chega a vigorar grande intimidade. Recordo de uma tarde em que minha mãe me mostrou uma carta de meu pai ainda seu namorado. Insisti, quase implorei para ver outras. Outro dia, ela respondeu.

Meu pai sempre trabalhou fora enquanto nossa mãe nos educava, a ele eu olhava quando chegava em casa e nos reuníamos à sua volta enquanto tomavam chimarrão e liam o jornal.

Quando ele, por força do trabalho, precisava viajar a casa aumentava de tamanho, se enchia de silêncio, e ao entardecer, nunca gostei desse momento despersonalizado do dia, eu percebia a tristeza de minha mãe no movimento da cozinha. Então, eu ia para a frente de um espelho qualquer e me perguntava por que eu ainda a desobedecia, a incomodava. Para dali a pouco dormir me prometendo não mais incomodar aquela mulher triste que tanto me protegia.

Foi ela que me ensinou a ler e escrever, mas como me entristecia o seu desapego e dedicação a mim, principalmente.

Nos meus primeiros meses de escola levava meus cadernos numa pasta de plástico que ela fizera em sua máquina de costura, plástico azul e uma aba incolor. Não era nada incomum nos dias de chuvas surpreendentes em que saía de casa desprevenido, encontrá-la na porta da escola com minhas botas de borracha e capa impermeável à minha espera.

O quanto aquilo me entristecia, ninguém podia imaginar. Um filho não deixa de ser o carrasco de sua mãe. Eu me sentia assim. E o que poderia lhe dar em troca? Amor, carinho? E quem disse que criança sabe dar amor e carinho?

Hoje eu tenho certeza; não soube amar minha mãe. Na verdade eu ainda não aprendi a amar. Gastei o tempo tentando aprender a esquecer.

SEGREDOS

Os egoístas não aprendem a amar, agora eu sei, sempre fui um egoísta, mesmo assim naquela noite de trinta de janeiro de mil novecentos e oitenta e quatro ela voltou à casa de onde saíra morta. Ela voltou para me perdoar. Foi na sala de jantar que nos encontramos, em frente à lareira. Não disse nada, simplesmente me entregou o seu olhar. Um olhar sem pressa. De lá pra cá, é o que mais me agrada em mim. Não adiantou, não me perdoei.

Não sei perdoar. Não perdoei minha mãe por ser tão mãe. Como eu gostaria de tê-la visto também como mulher! Recordo de uma vez, dentro dos meus sete anos, quando pintavam nossa casa e um dos pintores a olhava com olhos de cobiça que eu não gostava. Depois disso nunca mais. Passei a não gostar das mães, passei a desamar minhas mulheres assim que se tornavam mães, embora minhas insistências no sentido de arrancar a mulher das entranhas da maternidade. Nunca consegui. Sou um homem muito rústico, transcendência foge ao meu alcance, a maternidade me transmite uma beatitude que incomoda além de emprestar ao semblante das mulheres um permanente ar de sofrimento e doação capaz de me afastar.

Será que meu pai é tão diferente de mim? Não devo fazer perguntas ao meu pai. Não sobre minha mãe.

Ela tinha uma doce tristeza que me preocupava, que nunca permitiu que eu visse a criança que ainda vejo em meu pai, mais tarde se juntaria uma amargura e minha mãe se faria íntima do “não”.

Hoje não tenho certeza se ela ainda volta àquela casa, sei que nunca deixou de vir às casas em que me encontro, mas seus netos não podem vê-la e isso eu não perdoo, meus filhos não terem um pedacinho do tanto que eu tive.

Nunca ninguém, por mais que me amasse, trouxe de volta sequer um pedaço do que minha mãe levou. Eu continuo sendo injusto com as pessoas que vivem comigo, sempre esqueço de avisá-las: não contem comigo para suas felicidades. Eu não consigo.

Naquele trinta de janeiro me veio a certeza de não querer ser feliz. Assim como não quero uma casa, vai durar muito mais do que eu, também não busco algo que vá durar bem menos do que eu gostaria. Prefiro as histórias que leio, e se agradar releio. Quanto menos apego, maiores as chances do não sofrer. Mas meu neto está a caminho, não sei o que fazer. Ainda devo amor ao meu filho, como poderei amar a meu neto?

Minha mãe faria isso por mim.

Das tantas coisas que ela levou, talvez o que mais me faça falta seja essa capacidade de amar a todos sem distinção. Não, eu não consigo, cada dia eu amo menos, cada dia eu sinto mais medo.

Eu vivo escrevendo, eu vivo olhando para minhas mãos, eu vivo com medo, eu vivo com falta de ar. Queria viver num lugar alto, bem alto,onde não parasse de ventar. É o único som que me agrada.

Minha mãe dividia alguns segredos comigo, soube guardá-los. Um deles fui dividir com meu pai naquele trinta de janeiro e só o fiz por que lhe dizia respeito. Ainda não tive coragem de perguntar se ela revelou a ele um segredo de minha infância, aquele dia em que me surpreendeu em plena masturbação. Disse apenas um “para com isso que tu vais te atrasar pro colégio.” A reprimenda que mais me doía era o silêncio.

Que outros segredos meus ela deve ter descoberto? As mães nos veem de um jeito que não somos, também por isso não me agradam as mães.

A MULHER

Eu via minha mãe assim, desse jeito incômodo, a mulher que não usava sandálias que deixassem seus dedos à mostra. Dizia ter pés muito feios. Será por isso que tanto me fascinam os pés femininos, será por isso que um joanete ainda ponha tudo a perder?

A mulher que se escondia, a mulher que mostrava o corpo minimamente. A mulher mais espírito do que carne, a mulher que não me permitia ver seu desejo. Eu queria tanto ver a mulher na minha mãe, mas queria tanto! Será que meu pai conseguia ver? Ela era um exemplo de bondade, a mulher quase transcendente, uma ou outra pequena contradição, como manter canários e cardeais em gaiolas, no mais era só virtude. E virtude não passa de falta de imaginação.

Um dia pensei que ela tivesse enlouquecido. Estava na máquina de costurar e pediu que eu trocasse as gaiolas de lugar, hora de trazê-las para a sombra. Eram dezenove gaiolas, o que me levou a perguntar a razão daquilo. Foi a partir daí que minhas preocupações aumentaram.

-Sabe por que eu prendo pássaros? Pra não querer prender a minha borboleta.

-Que borboleta?

-Não te falei, eu tenho uma borboleta, tu tens outra, teu irmão, tua irmã, também tem.

-Eu não tenho nada.

-Tem, quando chegar a hora ela te encontra.

-E por que não podes prender a tua, mãe?

-Porque se prender, ela morre.

-Solta também morrerá, as borboletas duram muito pouco.

-Esqueceste que solta ela terá a chance de deixar descendentes, presa será impossível.

-Mas pra que serve uma borboleta?

-A minha sorri por mim. E outras coisas mais, mas isso já basta. Não te parece?

-Mãe, eu sou amante dos ventos e as borboletas não andam no vento. Não me agradam as borboletas.

-Quanta bobagem!

Nesse dia em que cheguei a pensar que ela estivesse enlouquecendo, na verdade estava me dando um presente que eu só viria a abrir depois dos meus quarenta anos, a imaginação. Mais uma das tantas contradições que minha mãe soube cultivar.

Queria ter vivido, dividido mais coisas com ela, não deu tempo, me faltou jeito. Eu tinha dezessete anos quando propus que tivéssemos um aquário. Ela concordou. Fomos juntos escolher os peixes, em menos de um mês ela deixaria de lado, preferia as gaiolas. Em seguida um vizinho herdaria minha envidraçada frustração. Naquele tempo as coisas já não me diziam muito, nem para o bem, nem para o mal.

Parecia que entendia a vida dos outros muito mais importantes do que a sua, não lhe escapava o menor suspiro de egoísmo.

Na minha infância me agradava vê-la se arrumando, incapaz de exageros, mantinha a vaidade dentro dos limites. Os cabelos negros, lisos e finos, incapazes de admitir penteados eram os únicos lampejos de rebeldia que emanavam daquela mulher, a mulher mais dócil que conheci. Gostava quando minha mãe se arrumava, as mãos bem cuidadas, cremes, unhas pintadas, desde criança me acompanha o medo de perder minhas mãos. Eu vivo olhando para as minhas mãos. Mais tarde percebi um certo descaso com sua aparência e meu pai se lançou a outras ilhas com seus faróis vivos. Então ela voltou a se cuidar, só que agora carregava uma ferida que jamais cicatrizaria. Um dia tiraria as cascas na minha frente.

Nunca falamos de amor, até determinada idade cabe ao filho apenas ouvir seus pais, quando passamos a conversar o tempo não teve paciência. Ouvi muitas das suas insatisfações enquanto me perguntava se valia a pena amar tanto alguém, amar do jeito que ela amava a meu pai.

Certa vez fui visitá-los e fui surpreendido com a quantidade de cremes caros, alguns importados, para tratar da pele. Mãos, pernas, pés, rosto. Eles abarrotavam o armário do seu banheiro. Tomei banho e fomos conversar na cozinha, nosso lugar preferido.

-Teu pai tem uma amante.

-Tem?

-Noite dessas o marido dela veio aqui tomar satisfação, era tarde, mas teu pai deixou ele falando sozinho e foi atrás do advogado dele, não sei se tu conhece.

-E aí?

-Ele me garantiu que foi só uma aventura, mas não é isso que falam na cidade, parece que é coisa antiga. Daí que passei a exigir umas regalias, já que tem pra dar pra outra.

-Por isso aqueles cremes.

-É um tratamento pra pele, deixei de ser boba.

-Mas vocês vão se separar?

-Também não é pra tanto. Agora ele nem sai mais à noite, pelo que fiquei sabendo até se desligou do Lions.

-E como vocês estão agora?

-Aparentemente está tudo bem, mas eu gostaria que não fosse assim. Sabe como é, depois de perder a confiança tudo fica mais difícil. Não contei nada pro teu irmão, muito menos pra tua irmã.

-Não precisa, mãe, não precisa.

Não se notava diferença entre o antes e o depois desse fato, no que diz respeito ao comportamento entre eles, nem altos nem baixos, a suposta harmonia beirando o tédio conjugal. Tentei imaginar meus pais separados e só consegui ver minha mãe como um daqueles canários nascidos em cativeiro que lá pelas tantas recebe o choque fatal da liberdade. Minha mãe não suportava a solidão, o vazio interior já a consumia.

Minha mãe morreu amando, minha mãe sofreu morrendo.

O MAR

Queria ter visto o mar de Pocitos, no nosso Uruguai, em sua companhia, gostaria que tivéssemos visto juntos o mar do Sul , queria que ela visse, agora, daqui da minha janela que fosse, este mar de Copacabana. Nunca dividimos os mares com nossos olhares, nunca cavamos a areia enquanto sob o sol suaríamos confidências. Por mais que tentasse, minha mãe não conseguiria entristecer o mar. Minha mãe era triste, ainda não sei de que música minha mãe gostava. Ela nunca colocou um disco para tocar na vitrola lá de casa, meu pai escutava música erudita. Volume bem alto. Ele me fazia ouvir instrumento por instrumento. Como era bom!

Da família dela, meu avô era triste, minha avó era triste, meus tios e tias são tristes. Não quero contato com meus primos. Meus avós tinham uma fazenda no Uruguai, minha irmã tem uma fazenda, na maior parte do tempo ela também é triste. Quando nossa mãe morreu, minha irmã tinha doze anos, por que sofrer tão cedo, por quê? E ela sofreu sozinha! Nós, os adultos, cuidávamos de nossas vidas, sou um homem cheio de culpas que não sabe pedir perdão. A vida é uma repetição de merda, eu não faço muito, eu vivo olhando para as minhas mãos.

Prezo muito minha vida, vida e fúria era o meu lema até o momento em que percebi que “vida é fúria”. Tinha saído com minha mãe a lhe mostrar uma cidade que ela não conhecia, um mendigo dormia abraçado a um cachorro magricela, não fazia frio tampouco era verão, mas eles aqueciam suas fomes. “Mas é só um cachorro” pensei. E o cachorro respondeu: “mas é apenas um homem”. A vida furiosa não poupa ninguém. Cansei de ver cegos atravessando ruas sozinhos, tropeçando no meio fio, as pessoas têm medo de tocar nos cegos. A lágrima do cego, enxerga e a escuridão não chega a ser um problema para os gatos, esses bichos que não suportam mendigos, ao contrário dos cachorros. Eu tenho medo de gato. Minha mãe apertou minha mão, tirou uma cédula e algumas moedas da bolsa e entregou ao homem desprovido de forças para agradecer. Naquele instante voltei à infância e suando minha mão presa, perguntei se Deus, que estava em todos os lugares, podia estar ali. Ela disse apenas: que bobagem! Olhou o relógio e pediu pressa, teu pai está sozinho em casa, ele não gosta.

Desconfio que ela fosse apenas mãe, que não conseguiria ser mãe e avó, visto que esquecera como ser mãe e mulher. Enquanto isso me parecia que ela não deixava que meu pai fosse homem também. Nos olhos dele ainda brilha a infância embalada por certa dose de tristeza.

Ele não foi criança de muitos brinquedos, sei que minha avó fazia pastéis e doces para vender, garantia de seus estudos. A dignidade não dispensa a dor. Meu avô era, como se dizia na época, chofer de praça, nunca me pareceu um homem capaz de amar. Como avô era perfeito. O convívio com minha avó não durou sequer a metade da minha infância, guardo a lembrança que é meu melhor modo de amar. Sei que se davam bem, ela e minha mãe.

Carrego uma vontade infindável de chorar. Me falta imaginação, ao ficar sozinho em casa, choro.

PRISÃO

Ainda me pergunto os porquês de minha mãe ser tão triste. Não sei se quero respostas. O que me faz curioso nas pessoas tristes é saber se na hora do sexo elas continuam tristes, eu olhava minha mãe e pensava no meu pai, não foram poucas as vezes em que senti vontade de perguntar como era o sexo entre eles, mas aí o absurdo, isso não é coisa de se perguntar a pai e mãe. Não é uma questão de tara ou desvio psíquico, mas no meu entender vida também é sexo, eu não conseguia imaginar meus pais fazendo sexo oral. Será que é por minha causa, será que aos pais não é permitido o sexo, só para procriação? Meu quarto ficava ao lado do quarto deles, sempre tão silencioso! Cada vez mais se fortalecia a ideia da ausência de sexo entre eles. Mas se é pra ser assim, não vou casar, pensava. Isso para mim era horrível, via meus pais como seres incompletos, e para agravar a situação, minha mãe tinha relativa intimidade com as coisas da igreja católica. Quando regressava da missa me parecia um papel. Houve época em que decidi acompanhá-la à primeira missa do domingo, seis da manhã, queria testemunhar o momento em que a tristeza invadiria aquela mulher. Ela então se ajoelhava e colocava um véu sobre a cabeça, nunca mais pretendo ver gente que eu ame nessa condição. Abria seu livrinho com capa de madrepérola e rezava. Naqueles instantes não parecia estar ao meu lado, era quando eu me distraía olhando para os demais e para o padre, o ilusionista mensageiro de todas as mortes. Durante o velório da minha mãe apareceu um padre lá em casa, era o que faltava sem fazer falta, chegou minutos antes de ela sair, veio para colocar seu carimbo, desconfio que tenha cobrado algo de meu pai. Os padres não têm amigos por que lhes apraz o diálogo com os mortos, se bem que hoje não seja raro aquele que prefira dialogar com a infância. Uma vez pude testemunhar minha mãe conversando com um padre, naquele tempo a cidade contava com dois padres, um gordo e um esquálido, os caricatos de Deus. Ela conversava com o gordo. Devia estar a ouvir mentiras. Pobre da minha mãe, sempre tão familiarizada com os problemas alheios, sempre tentando ajudar. O problema é que ela ajudava aos outros e distribuía sua tristeza entre os de casa. Não foram poucas as vezes em que vi minha mãe abster-se de programas prazerosos em nossa companhia, mas nunca a vi enjeitar assistência. Amigo ou desconhecido, não fazia diferença, sabia da capacidade do sofrimento em nos igualar. Mal sabia que a intimidade com a agonia dos outros tem seu preço. Caro. Muito caro! Minha mãe se culpava pela tristeza de meus avós. Não quero que meus filhos sejam tristes por mim. Sou um aprendiz de ilusionista.

Não tive tempo de perguntar-lhe as razões. Hoje deduzo que acreditasse ser apenas a dor sincera e fiel.

Eu olhava para meus pais, eu procurava seus barulhos, seus gemidos, eu inventava alegrias, eu queria olhares de tesão entre eles, não conseguia. Eles me pareciam prisioneiros, e eu também.

Havia beijo na despedida dele rumo ao trabalho, o mesmo beijo no retorno. A serenidade que me incomodava, paz e pouco riso, as grades que nos paralisavam.

Nessa época eu devia ser apenas criança, mas já não era. As alegrias se distanciavam. Assim, desse modo, imaginando solidão e tristeza, a infância evapora.

NOSSOS PLANOS

Ultimamente tenho apelado para as fotos antigas na tentativa de outras lembranças de minha mãe, mas em vez disso, se faz cada vez mais nítido o meu pai. O que será que minha irmã lembra? Nunca perguntei, continuo com receio de machucá-la. Agora que ela tem duas filhas, pensei fosse a hora, mas me falta coragem. O que eu quero da minha irmã? O mesmo que espero do meu pai, nunca vê-los chorar.

Poucos meses antes de minha mãe sair morta da casa na rua Dezenove de Maio, tínhamos combinado uma viagem, que fosse para um lugar ensolarado, sua única exigência. Naqueles dias ela não abria mão da companhia de uma garrafa de água mineral, reflexos da doença, acredito. A caminho do aeroporto ela lembrou: “ mas teu pai vai ficar todos esses dias só, ele não gosta.” Perdemos o avião, não viajaríamos nunca mais. Desconfio que ela não tenha ganhado um homem em sua volta para casa.

A realidade era só o que restava àquela mulher de pouquíssima imaginação. Fui me dar conta bem mais tarde que exatamente naquele instante a realidade me fugia. Para não fazer falta.

Tenho a convicção que minha mãe entendia a vida como sofrimento, sofrimento inexplicável, e assim viveu; preocupada em diminuir ao máximo o sofrimento. Dos outros.

Meu pai é ufólogo, uma vez acompanhei uma de suas discussões. Dizia ele que uma pessoa fotografara um disco voador e minha mãe insistia na tese: tudo que existe, existe para todo mundo e que se apenas um ou dois viram pode contar que não é verdade.

Meu pai viu ela morrer, era noite, estavam os dois deitados na cama. Gostaria que não fosse verdade, coube a minha solidão, a cena da morte de minha filha. Não sei se meu pai está certo, mas minha mãe, infelizmente, estava errada.

Sei que ela me acompanha, posso senti-la. Em razão disso, já deixei de fazer certas coisas, curiosamente não muda meu estado de ânimo, vivo amedrontado, como a não merecer a felicidade, na expectativa de uma desgraça. Nossa irmã também é assim. Nosso irmão consegue ser mais circunspecto que nosso pai. Minha mãe fazia tricô. Eu vivo olhando para as minhas mãos. Mas me falta habilidade, queria saber tocar um instrumento, queria saber acariciar as pessoas. Não dá mais tempo, infelizmente! Minha mãe não se permitiu me ensinar.

Na rua, ela andava sem pressa, numa elegância que só não invejava por que, na maior parte do tempo, olhava para o chão. Um hábito que eu tinha era de tão logo os avistasse se aproximando da nossa casa, correr ao encontro. Aqueles poucos passos na companhia de um deles me fazia outro, era a expectativa em movimento, eles sempre traziam histórias para nos contar.

Amar a minha mãe, antes e agora, sempre um sentimento terrível. Amor é coisa que só combina com amor. E eu insisto em misturar com medo.

Desde cedo entendi que para a vida valer a pena devemos amar, brigar, quem sabe até matar por alguma coisa. Gente não, gente é puro apaziguador de carências e ancoradouro das submissões, mas algo, um objetivo profissional, por exemplo. Nunca pude perceber isso em minha mãe, tirante essa capacidade opressora de doação, para os filhos inclusive, não via mais nada capaz de acender o brilho em seus olhos. Meu pai é diferente. Mas não muito. Eu sei o que faltou à minha mãe, mais ninguém sabe. O que ela mais ansiava lhe tiraram ainda criança, a possibilidade de viver em meio a natureza. Tem gente que não nasceu para conviver com gente. Falo com conhecimento de causa. Todo ano era a mesma coisa. No dia seguinte ao Natal aparecia lá em casa o seu Isaías, também atendia por Sapo, para tratar com meu pai seus afazeres de caseiro. No dia seguinte se daria nossa viagem à fazenda do meu avô.

Eu não gostava dessas viagens por dois grandes motivos. Primeiro porque a fazenda do meu avô ficava num outro país e eu não conseguia entender o que falavam e quando aprendia um pouco, era chegada a hora de voltar. Segundo porque imaginava aquele estranho mexendo nos meus gibis, esquecendo de dar comida aos passarinhos, deixando de passear com o Lorde, o meu pastor alemão. De Renata, a minha tartaruga, seu Sapo nem tomava conhecimento. No dia do Natal ela tratava de desaparecer no gramado em volta da piscina. Quando chegávamos ela nos esperava no lugar onde o fazia já por quatro anos. A Arlete, minha coruja, era a que mais sofria. Pra demonstrar sua insatisfação a primeira coisa que fazia era arrancar as penas do próprio rabo. Na volta encontrava a coitada magrinha e com os olhos fundos. Dava vontade de chorar.

Naquele ano a Naná foi inventar de dar cria na véspera do Natal, seis gatinhos. Eles também ficaram nas mãos do seu Sapo. Eu tinha até um quero-quero que morava no galinheiro. Pela manhã ele voava ao encontro dos seus, à tardinha, regressava.

Voar e regressar, o que minha mãe mais prezava. Acho que sou quase assim.

Ingênua, até onde pude perceber, na obrigatoriedade do convívio, buscou a autopunição, optou pelo lado trágico da condição humana e dedicou-se aos necessitados. Sepultou a fêmea, libertou a missionária. Herdei seu desalento, não há quem faça ideia da minha luta para encontrar ao menos um sentido para a vida, e minhas limitações, inclusive intelectuais, ficam expostas ante a implacável sede de viver. Assim como à minha mãe, o que desagrada na vida não é a impossibilidade de sempre ganhar, mas a necessidade inconteste de ter que perder. E o pior de tudo é ter, como ela sempre teve, a consciência de que sempre haverá o que perder.

Minha mãe vivia à força. Vivia para os outros. Guardei-a dentro de mim e me dói tanto, tanto...Não sei se foi a partir daí que o amor se assemelhou a um gás que aspiro e na brevidade dos instantes consegue me encantar, na insistência, me sufoca.

O amor, aprendi observando minha mãe, precisa de ambição, amor não é paz, não é placidez, não é resignação. Amor é inquietação, é movimento, amor é revolução. Mas como esperar essa transformação de uma mulher que só olhou para si ao final da vida?

Como esperar que as mudanças partissem de um homem dedicado à família que só olhou outros horizontes após o esvaziamento de uma vida em comum. Não faltaram tentativas da parte dele no sentido de emprestar motivação à minha mãe. Recordo os dois estudando em fascículos de um curso por correspondência que ele trazia para ela. Não deu em nada. Minha mãe vivia à força. Era a impressão que dava. Enquanto isso, eu tentava ser eu e mais alguma coisa. Algo capaz de empurrar minha mãe. Não consegui... Meu pai, também não. Eu ficava, na escuridão de nosso quarto, me perguntando o que meu irmão via ou deixava de ver em nossos pais. Nunca soube me responder.

Não, omissão, egoísmo, nunca foi o forte do meu pai, mas ele tinha o combustível primordial para justificar uma vida, a curiosidade. Não sou exatamente cópia da minha mãe, graças ao meu pai. Disfarço, mas tenho comigo muito mais dela, do que dele. Será que estou tão velho a ponto de ele não poder me dar mais coisas?

O SILÊNCIO

Ainda criança percebi que ela conseguia minimizar o sofrimento alheio com sua simples presença e fala carinhosa, ainda nessa mesma época se apresentaria uma particularidade que me deixaria preocupado até aquela tarde do dia trinta de janeiro de mil novecentos e oitenta e quatro.

Bonita, mas insatisfeitamente magra, pálida, de fígado frágil, como aquela mulher que conseguia ser tão forte justamente para os mais necessitados, permitia que as mínimas frustrações minassem seu amor próprio? Creio que na família apenas eu tenha percebido o quanto de estrago as mínimas perdas eram capazes de causar ao equilíbrio de minha mãe.

Quando olhava para ela via o medo de perdê-la, adulto, ao deitar a cabeça em seu colo, me sentia um usurpador, entendia que o contrário é que merecesse acontecer.

Então um dia, sem avisar, ela se foi, deixando essa dívida de amor que jamais conseguirei pagar. Se não soube amar minha mãe, a quem me caberá amar, quem me ensinará a amar? Por um tempo pensei que fosse tarefa para meus filhos, errei, filho só ensina a viver com medo de morrer. Isso eu sabia desde cedo. Minha mãe me tornou íntimo da morte.

Eu sofria, mas sem dúvida, meu pai sofria muito mais. Aprendi tantas coisas no tanto que ela não me falou!

Doze anos eu tinha quando a escutei, protegido por uma porta semi-aberta, a me elogiar. Ainda hoje vivo a procurar aquele eu. O que ela me deu? Tudo que não tinha. Tudo que eu quero.

Não sinto gratidão por minha mãe, não simpatizo com essa palavra humilhante, tampouco me agrada a palavra solidariedade, eufemismos para justificar falta de amor e descaso, respectivamente. O que ainda sinto é amor. Pena que entre o sentir e o dar exista um abismo, abismo superável com um simples passo que não aprendi a executar.

Chego a pensar que não tivemos mais um ao outro, por nunca termos viajado juntos. Não me refiro às viagens em família, mas a nós dois apenas. É ante o desconhecido que os parentes às vezes se tornam amigos. Depois alguns conseguem inclusive se amar. Ela gostava de viajar, meu pai, creio que não. As viagens têm a propriedade de operar mudanças nas pessoas, e eu gostava de observá-los, pai e mãe, quando retornavam após alguns dias fora de casa. Queria saber por quanto tempo eles permaneceriam diferentes. Nunca durou o tempo que eu esperava.

Viajar para minha mãe representava um soluço de liberdade enquanto o cotidiano lhe emprestava os grilhões que ela não conseguia disfarçar. Tolerá-los apressou o desenlace trágico.

As mães de meus filhos, todas, têm um pouco de minha mãe, é triste, muito triste.

Assustado, fugi pra solidão, pro silêncio, esconderijo dos covardes, dos egoístas, daqueles que não conseguem sequer se ajudar. Perdoem, meus medos são fortes demais para se unirem a outros, eu não suportaria.

No silêncio consigo não fugir de mim, é quando choro e me aplaudo, é quando corto os pulsos e não sangro, é quando rio e não me humilho, é quando escrevo e não corrijo, é quando morro e acordo.

Meu pai me deu o silêncio que preencho com palavras mudas que minha mãe me ensinou a escrever. Mas o vazio quase insuportável, ah o vazio, não há pai, mãe, mulheres ou filhos que consiga aplacar!

É no silêncio que me sinto bem, é do silêncio que acredito ainda venha a ouvir minha mãe, me fascinam as mãos, os pés e os olhares, os carinhos mais sinceros. Assisti a morte de uma filha e o nascimento de outra. À primeira só pude oferecer meu olhar, dois meses de vida, olhos fechados, máscara de oxigênio, madrugada, de repente levantou o braço em minha direção, dei-lhe a mão, ela abriu os olhos e em seguida guardou-os para sempre. A segunda, logo a tive em meus braços, só me perceberia bem mais tarde.

A morte é o silêncio privado do olhar. A mais genuína traição.

Eu vivo olhando para as minhas mãos. Não pretendo ultrajá-las secando lágrimas.

A PRESSA

Minha mãe tinha pressa, vivia correndo, hoje me dou conta da razão de ser assim;ela sabia que precisava ter pressa para fazer muitas coisas em pouco tempo.

O problema não se limita à pessoa que tem esse método de viver, se estende a outros, aos mais próximos, e o mais próximo de todos sempre foi o meu pai. Ah, mas como fui egoísta, o pior dos egoístas, aquele que identifica o problema e é incapaz de cutucá-lo. Eu olhava, eu via, eu sabia, eu calava, eu...eu...fui inútil. Minha mãe morreu com a ideia errada de que eu a entendia feliz. Não sei se minha mãe chegou um dia a ser feliz, sei de fatos que a deixaram alegre; presença dos filhos, nunca vi forma de amar sequer parecida com a delicadeza do amor que destinava a nossa irmã. Mas dizer que um dia percebi que ela estava confortável entre nós, feliz, não, isso eu não posso dizer. Infelizmente. Minha mãe era uma cela onde ela mesma se aprisionava.

Gostava de olhar o olhar de minha mãe, me perder em seu olhar perdido. Minha mãe estava sempre olhando longe, o horizonte e além. Parecia estar insatisfeita, pássaro engaiolado, lá em casa. Ela necessitava de espaço. Criança pampiana, imagino sua infância na fazenda de meus avós, não, não consigo imaginar minha mãe criança. Que merda! Tentei, tentei, tentei, tento, mas o esforço é sempre em vão. Teria tido infância minha mãe? Se teve, algo lhe doeu então, e continuou doendo até o dia trinta de janeiro de mil novecentos e oitenta e quatro. Mas para onde olhava minha mãe? Para onde minha mãe almejava ir? Eu não imaginava, sequer suspeitava, agora eu sei; ela queria voltar para casa, para a casa da sua infância. Minha mãe precisava de infância, minha mãe morreu de falta de infância.

Para ela, retornar à casa não significava simplesmente voltar, ela parecia querer voltar enxergando muito mais que o outro lado de uma rua qualquer costumava lhe oferecer. Ela queria voltar admirando estrelas, muitas vezes ela me disse que nada era mais bonito, nada é mais fascinante que as estrelas e no entanto poucas coisas conseguiam ser tão desprezadas! Ela queria voltar, queria voltar para casa onde esqueceram sua infância sem ter que se guiar por setas ou pelas pedras velhas e pisoteadas. Se eu tivesse me dado conta a teria estimulado a deixar a tristeza, a nossa tristeza na casa conosco, comigo, com meu irmão, com meu pai. Nossa irmã jamais combinará com tristeza que não a sua. Não levá-la no olhar, nas mãos, no seu andar de olhos baixos. Não teria deixado que bebesse da alegria apenas quando a tristeza descansava.

O triste agora é o culpado de ontem. A casa não é o fim, não é o limite pois os limites servem apenas para materializar o nada. Mas como? Como voltar pra casa sem pisotear no seu passado? Como não se esquecer, não se apagar? Não adiantava voltar por sobre os telhados, a sombra também sobe e insiste em perguntar: “você quer mesmo voltar?” Se ao menos ela soubesse dançar! Mas ela não sabia dançar. Nunca vi, nem em brincadeira, minha mãe dançando. Será que ela chegou a tentar algumas vezes mas nunca aprendeu? Será? Todas as mulheres sabem dançar. Minha mãe, se quisesse, também saberia. Foi lá naquela casa, a mesma casa para onde ela queria voltar que alguém lhe disse: “você não leva jeito”. Naquela afirmação não tinha amor, não tinha respeito. Naquela afirmação tinha futuro, um futuro opaco. O futuro de minha mãe.

Voltar significa em primeiro lugar voltar no tempo e não existe volta triunfal. Um dia eu li um poema que dizia assim: “ passa o tempo/fica a lembrança/passa o sonho/fica a esperança/passa a morte/ fica a saudade/passa o abraço/fica o vento/passa o circo/fica o palhaço/passa a criança/fica o tempo” E eu guardei duas palavras: sonho e esperança. Quando essas duas palavras aparecem juntas é sinal de desgraça. Tudo se resume a uma coisa só: tempo. A dor grita na palavra t-e-m-p-o! O tempo não tem resposta pra nada, tempo é pura dúvida. O tempo passa...passa...não para nem em aniversário de morte. E voltar para casa é acender a dor. Por isso ela precisava aprender a dançar. Para voltar diferente, um pouco diferente pelo menos. Ela sempre se conheceu muito bem e sempre soube reconhecer os outros, aqueles que precisavam delas e dos quais ela jamais fugiu.

Ela precisava voltar e não importavam as dúvidas pois só a certeza a faria desistir. Ela queria voltar à casa da infância, não transformá-la em refúgio, da vida só lhe interessava aquilo que não conhecia, quando nasceu não trouxe vida tampouco alegria simplesmente foi jogada na vida que já existia. Não era um exemplo de vida, não esbanjava vivacidade, queria, só agora eu sei, voltar pra casa, encontrar a saída ou o sentido. Desconfiava sempre, intuição nunca é um bom começo. Egoísmo? Egoísta, ela? Logo ela que nunca esperou por ninguém.

Ela precisava voltar diferente. Mesmo que tudo permanecesse igual, mesmo que a mola da palavra não impulsionasse ninguém, mesmo que crianças continuassem sendo humilhadas lustrando sapatos. Um menino engraxate escreveu na sua caixa de material: “o movimento da palavra roda/ o gemido da palavra foda/ o sentido da palavra escola/ o fedor da palavra esmola” .

Minha mãe tinha pressa. Pressa para tudo, para viver, para sorrir, infelizmente ela sofria em paz.

DO PAI

No sótão da casa onde agora só vive o meu pai ainda estão guardados meu cavalinho de madeira e outros brinquedos. São sonhos infantis...meus sonhos...que ainda estão na casa de minha infância, a casa de meus pais, na casa pra onde um dia terei que voltar. Voltar é muito diferente de andar em círculos, que não permite o acerto de contas com os fantasmas. Ao chegar em casa vou me demorar no jardim onde minha mãe acariciava suas roseiras...minha mãe era doce, enérgica, atraente e elegante, amava quase tudo e ...eu não consigo amar ninguém. Queria tanto amar alguém, Apenas alguém para amar...mais nada. Quando voltar, não existirá distância, distância é uma palavra muito longa. Seja como for voltarei à casa que não sentiu minha falta e que silenciosamente saberá avaliar o tamanho do meu espanto.

Meu pai não teve muitos brinquedos na sua infância, se tivesse ele ainda guardaria alguns. Meu pai é daquele tipo raro de homem que sabe conservar a infância. Nunca fico muito tempo sem vê-lo. Mas o que é mais importante, o que se vê ou o que se sente? E o beijo pro cego?

Sei que tenho um pouco do meu pai, pena que é muito pouco. Vivo a perplexidade de admirar a chuva desmaiando em vidros de janelas e a incapacidade de preservar a chuva em copos de vidro. E nessa altura da vida estou mais pra ensinar a cair do que aprender a gemer. Ele cria otimismo, espiritualidade; sinto-o cada vez mais só; enquanto isso, coleciono relógios cuco, e cactus. Minha planta preferida. A solidão de meu pai é macia. Meus cucos trabalham, relógio parado é lembrança. Lembrança é castigo.

Agora começa a doer a ausência de meu pai. Por muito tempo tivemos a sombra um do outro fazendo companhia, mesmo ausentes estivemos sempre próximos, certa manhã....certa manhã envoltos em nossa própria neblina desaparecemos um pro outro. Eu quero novamente correr atrás dos vaga-lumes na companhia do meu pai. Eu sinto falta do meu pai. Eu nunca senti falta da minha filha que morreu. Generosa, assim como minha mãe, ela me deu um pedaço da imaginação. Tantas ausências, dia desses me peguei pensando o quanto é forte minha covardia. Um pouco mais fraca e eu já teria me matado.

Gostaria de saber o que quer dizer ganhar um dia. Eu talvez sinta falta de amor...é, talvez eu sinta...talvez.

Aprendi com minha mãe a gostar de estar só, a maioria das pessoas são meros fantoches a procura de um braço, de uma voz de desenho animado. Já fui esse braço, já fui essa voz...cansei!!!!Tanto faz que seja noite de luar acentuando as trevas ou uma tarde morna, tudo parado, onde o vento preguiçoso se recuse a refrescar as folhas, mas pouco importa se estiver chovendo, a metáfora surrada, chuva que não lava nada. Eu não sou daqueles que valorizam os sonhos, mas guardo os pensamentos que me invadem antes de dormir, então desde pequeno lavo meus lençóis e fronhas pois lá estão meus planos, minhas lágrimas e meu melhor riso que só interessam a mim. Eu não gosto de me sentir feliz, minha mãe nunca se sentiu feliz, esse sentimento dura muito pouco, a tristeza é menos espalhafatosa, é um cactus capaz de oferecer paz. A felicidade é ridícula assim como...

são ridículos os cães se comparados com os gatos

são ridículos os peixes se comparados com os pássaros

são ridículos os políticos se comparados com os ratos

mas serão felizes os animais?

São ridículos os padres se comparados com os homossexuais

São ridículos os deuses se comparados com os artistas

São ridículos os templos se comparados com os hospitais

Mas serão felizes os animais?”

Tudo na vida é triste ou se torna triste quando nos falta coragem para olhar para o fundo do poço escuro de nossa alma. Forçado a mergulhos inevitáveis e geralmente trágicos no meu passado, guiado pelo oxigênio da lucidez, percebi que não soube amar minha mãe e talvez ainda não tenha aprendido a amar meu pai. E isso é triste. Por isso, um dia terei que voltar. Pra minha dor doer menos. E se ao contrário de voltar eu me perdesse por aí? Uma amiga já morta dizia: “quando decidimos voltar é por que estamos perdidos.”

Não, me perder não seria solução, teria que viver escondido e eu não conseguiria ser elegante e silencioso como os urubus. Meus planos, aqueles dos lençóis e fronhas, não se extraviarão na realidade. É duro secar as próprias lágrimas. Será que eu quero voltar por que me falta coragem ou meu medo exigindo a colocação de uma lápide sobre meu passado? Por vezes acho tudo tão medíocre!!!! Quero continuar só e poder fazer planos espalhando pela casa as ilusões guardadas em minha caixa de brinquedos.

Sou assim; “meio certo meio errado/meio louco meio bobo/meio ladrão meio roubado/ meio mentiroso meio enganado/meio amante meio amado/quase normal/quase igual a todo mundo.

Sou daquelas pessoas que ninguém sente falta, por quê:

Acredito na integridade da palavra “não” e desprezo a mediocridade /falsidade da palavra “união”.

Viver é muito diferente de obstaculizar a morte e no amanhecer dos meus sapatos solitários escuto os passos de alguém igual a mim. Num outro país.

O espaço necessita do suor e do grito, outra ação é pura incapacidade. E quando me calo é pra me ouvir melhor. Não acredito e não aceito o argumento: “por que é assim!” Pois se é pra ser assim vou desfazer, desfazer pra fazer de novo, do meu jeito.

E o tempo está passando, sinto falta de minha mãe,uma falta imensa. Conheço muitas pessoas, muitas se parecem. Não conheço uma que se pareça um pouco com minha mãe. Tenho algumas manias de meu pai.

MEDO

A mulher morta foi levada,minha mãe permanece, se mexe na tristeza que me reveste, a tristeza que não me deixa amar. Minha mãe me amou, minha mãe me via de um jeito que jamais consegui ser. O excesso de amor afugentou o adulto que eu tinha obrigação de me tornar. Eu queria ser forte como meu pai, mas não, sou frágil feito minha mãe, o que me vale é que ninguém suspeita disso. Sou medroso, tenho medo de tudo, de raio, do escuro da noite, tenho medo de aleijados, tenho medo da morte, eu não queria ser assim. Vivo fugindo na quietude de meus movimentos. Por que a maioria das pessoas que conheço não é feliz?

Não tenho, nunca tive vocação pra absolutamente nada. Não tenho obrigação nenhuma de chegar, de chegar lá ou mais adiante, sinto apenas vontade de sair sempre de onde quer que eu esteja. Minha mãe voava. Só duvida quem não voou com ela. E ainda hoje sinto suas mãos invisíveis afagando meus cabelos, hálito suave e voz doce dizendo a todo instante, a cada mudança de meus planos: “pode ir que eu aviso teu pai, pode ir, vai...vai”. E eu ia, eu sempre fui, com a graça de minha mãe. Eu ia, eu fui, e nunca imaginei de que jeito, em que estado ela ficava. Se sentia minha falta, se sentia medo por mim. Sim, ela devia sentir. Se eu nunca senti, com certeza ela sentia por mim. Que triste ser como fui, como sou, um alguém capaz de transferir seus medos a quem mais é capaz de amá-lo. Eu nunca amei, quem quer que seja, do jeito e intensidade merecidas.

Tento me poupar, talvez tenha amado quando sequer imaginava; mas logo me vem a certeza de que muitas vezes acreditei estar amando a quem, com certeza, não amava. Agora eu sei que amar é encontrar aquilo que não se procura. Dizem que o amor transforma. Como é que minha mãe nunca mudou? Será que assim como eu, meu pai também não sabia amar, será?

Minha mãe parecia não se saber amada. Lembro do dia que ela me falou: “ser amada consiste em saber o que você, acima de qualquer coisa, é capaz de despertar no outro.”

Ela não sabia? Meu pai não deixou que percebesse? Agora é tarde. Naquele tempo já era tarde.

Eu não estava em casa quando minha mãe morreu. Eu estava bem longe quando ela morreu. Ainda bem, eu disse naquele dia e continuo a dizer. Ainda bem, pois temo a morte como ninguém. Não gosto de olhar pessoas mortas, tive que olhar para minha mãe. Antes precisei olhar para minha filha morta. Eu estava presente no exato momento em que a morte a levou de mim. Minha filha sequer teve a oportunidade de conhecer a infância. Num curto espaço de tempo me vi entre duas mortes. Dia desses escrevi um livro infantil, título: “Era quase uma vez”. Luísa, minha filha mais nova, dizia: “Papai vou te contar uma história. Era quase uma vez.” Ela disse isso, e comecei a chorar. Ela não viu, foi ao telefone. Sem querer ela falava de sua irmã. E minha mãe? Eu queria poder contar a história de minha mãe. Não consigo. É menos dolorido falar da história que não se deu. Minha mãe me doía. Machucava como machuca amor em demasia. Da última vez que nos abraçamos, senti nela um cheiro estranho, a morte se aproximava. Daquele dia em diante fiquei com receio de abraçar as pessoas. A morte não tem fim.

Minha mãe gostava do mar, minha mãe amava o mar. Eu sei, ela me disse, minha mãe queria viver perto do mar. Que triste uma pessoa morrer sem conseguir guardar coisas no olhar! Eu olho o mar e entristeço. Minha filha olha o mar junto comigo desde os seus seis meses de idade. A infância apaga qualquer tristeza. Minha mãe não teve infância. A mãe de meu neto diz que sou um adolescente, que não amadureço, que gosto das músicas que meu filho gosta, que insisto em manter meus cabelos compridos, ela tem razão. É medo, medo de amadurecer, de apodrecer... Preciso de alguém que me dê a mão, alguém que não me censure ao chorar, alguém que não me veja forte, alguém que me conduza de volta à infância. Ah como eu gostaria de poder alegrar minha mãe! Ela guardava uma emoção triste, minha irmã tem o olhar de minha mãe e todas as emoções, meu irmão a todas esconde, eu a cada dia tento ser menos triste, e consigo. As emoções, sempre são muito rápidas. O diabo é a lembrança. Morte de mãe não tem fim.

CERTAS COISAS

Um dia tentei compreender determinada atitude de minha mãe, um desses arroubos de desprendimento. Não consegui. Interpelei-a : “me faz bem, é o suficiente, não fico pensando e repensando. O que é bom não precisa ser explicado, compreendido. Faz bem e basta”. Ela não era de muita conversa, não estimulava assuntos, principalmente quando percebia ser ela o centro das atenções, mais precisamente suas emoções. É característica da minha família,dos meus avós ao meu irmão, esconder o que sentem. Minha mãe escondia a realidade, a realidade que provinha dela, só então conseguia amenizar a realidade dos outros. A minha realidade ainda não sei por onde anda. Talvez na dor causada pelas separações, os filhos são feridas que jamais cicatrizarão. Tentei esquecer meus filhos, como tentei esquecer a lembrança de minha mãe, tentei, não consegui. Como vingança, essas feridas acordam mais abertas a cada dia. Muitas cicatrizes da infância ainda são bem vivas em minhas pernas, braços. Algumas alegres, outras nem tanto. Lembranças...simplesmente.

Minha mãe era muito triste, só agora sei que a tristeza impede que outras emoções sobrevivam. Às vezes me sinto tão só, principalmente em feriados silenciosos, e nessas horas de solidão costumo procurar por minha mãe. Bobagem, mas por que será que sempre tenho essa impressão; “hoje ela vai aparecer pra mim”?

Ela tinha tantas coisas a me dizer, eu sei. Mas por que não disse? Aquela mania da minha família, de esconder o que sente. Mas que merda! Até quando? Esse silêncio, essa repressão é uma maneira de semear infernos. E minha mãe conseguia, criava infernos para ela e neles se consumia. Clandestino, mergulhei num deles, entro e saio, sempre contra minha vontade. O inferno é estável, as alegrias são transitórias. Para não ser aprisionado por um ou por outro é necessário saber arriscar. Minha mãe não arriscava, acredito que meu pai não permitia, eu arrisco, sempre arrisquei, porque ele sempre permitiu.

A REALIDADE

Vivo pensando em minha mãe, ao contrário de Antígona ela é meu Polinice que não quero enterrar, algo não me permite que a enterre. Creonte é meu medo de solidão. Não consigo, nem mesmo em filmes, olhar o momento em que o caixão é lançado às entranhas da terra ou guardado em gavetas de dor. Não consigo. Não suporto mais as minhas lembranças. Preciso descobrir o que dói mais, lembranças das coisas boas ou das ruins. Tudo machuca. Pensando bem eu nunca sei como estão essas coisas que vivem dentro de mim. Desde criança eu sei que daqui a pouco tudo pode acabar...daqui a pouco...daqui a pouco.

No fim, tudo isso é barulho que ninguém escuta, como peixe no aquário, pra lá e pra cá...até que um dia amanhece de barriga pra cima.

Minha mãe morreu de noite, na cama, na cama do casal. Foi enterrada à tardinha. Sinto falta, muita falta de minha mãe. Não sei falar de espírito, espiritismo, tampouco me interesso por isso, é do beijo, da palavra, do abraço que sinto falta. Minha mãe morreu de doença que não conseguiu vencer a tantas outras que conheço. Por que alguns morrem e outros sobrevivem a uma mesma doença, por quê? Por que minha mãe morreu tão cedo? A morte é um erro. A morte não tem critérios, embora meu pai ínsita em dizer que tem. A morte é um susto que nunca acaba. E nesse sobressalto me mantenho, tento encontrar sentido e sempre retorno ao medo. Amanhã irei ao médico, cirurgia inevitável, sensação horrorosa de encontrar minha mãe nos consultórios e nos hospitais, gélidos labirintos do sofrer.

Eu vivo me olhando, não canso de me cuidar, ora me acho magro, ora me vejo gordo, estou sempre olhando para minhas mãos. Mesmo assim não sai da minha cabeça a expressão “de repente”. Quanto medo contido em “de repente”! Para que me cuidar tanto se estou sempre exposto ao “de repente”?

Não gosto de espíritas, tampouco de espiritualistas, não gosto de gente incapaz de sofrer, de gente que tem explicação para tudo, inclusive para a dor. Não gosto de quem é íntimo da morte. Minha mãe morreu e isso só nos entristeceu. Não a vi em seus últimos dias, tampouco conversei com meu pai a esse respeito, mas não tenho dúvidas; foram seus dias de maior tristeza.

Meu pai é espírita, meu pai é maçom, meu pai a tudo respeita. Temo que ele aprenda a disfarçar a dor. Não quero que ele perca o seu olhar, o olhar que fala comigo, que falou desde o primeiro dia que o vi. O pai que eu olhava de baixo para cima, o pai que trancava as portas da casa antes de irmos dormir, o pai que arrebentou o cadeado do mundo para me permitir brincar. Não quero que se contamine com as teias do oculto e muito menos que vista o véu do escapismo espiritual. Meu pai é a realidade, a realidade que também protege minhas dores, meus anseios, meus defeitos e alguns sonhos.

Preciso de alguém que me ensine a fugir da crueldade dos meus pensamentos.

Luiz Horácio é autor da Trilogia Alada, composta pelos romances Perciliana e o pássaro com alma de cão (2005), Nenhum pássaro no céu (2008) e Pássaros grandes não cantam (2010)

Leia do mesmo autor: LUZ TRISTE

[print_link] [email_link]

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *