O Ateliê

Nesse caso, o fim da história é diferente, porque ele tinha certeza de que eu viria aqui e escreveria sobre o seu trabalho, pensei ao sair do ateliê, enquanto descia a escada estreita e ganhava, em seguida, o beco de paralelepípedos mal iluminado. Tínhamos andado muito tempo pelas ruas do centro, antes de subirmos os dois por aquela escada, para matar a minha curiosidade acerca do que ele estava fazendo, mas demoramos ainda mais tempo lá dentro, como notei olhando o relógio, mas sem apressar os meus passos porque não tinha nenhum compromisso naquela noite. Se eu fosse escrever uma crítica, deveria comparar meu amigo Heitor Prado ao Frenhover do conto de Balzac, foi a minha primeira idéia, para formular a impressão que tive daquela visita.

Parei por um momento, em frente à fachada antiga do sobrado reformado, observando, do outro lado da rua, o terreno baldio por trás de uma outra fachada da mesma época, mas em ruínas. Pela janela, via-se uma privada suspensa na altura do segundo andar inexistente por um cano, que se elevava do capim alto e dos restos das paredes em ruínas, como os destroços, depois da explosão, de uma casa de desenho animado. Embora fosse mais perto seguir pela Senhor dos Passos até a estação da Uruguaiana, fiz questão de ir pelo mesmo caminho que tínhamos percorrido à tarde, seja para recordar as conversa que tivemos, ou pelo mero hábito da repetição. Luiz, o seu problema é que você sempre vai ao mesmo lugar, ele tinha dito, lembrei, aqui tem dezenas de restaurantes, pastelarias e casas de suco, e você vai nesse Cedro do Líbano há anos, toda vez que vem à cidade. Perguntei se ele queria ir a um lugar diferente, e ele respondeu que não, contudo continuou a desenvolver o argumento de que eu tinha essa mania da repetir as coisas, enquanto cumprimentávamos o garçom, sentávamos e escolhíamos kafta, tabule e folhas de uva recheadas. Quando chegaram os pães com pasta de grão de bico, depois de um intervalo em silêncio, ele afirmou que eu precisava ir lá, para ver o que ele estava fazendo, e que eu acharia esse seu melhor trabalho. Devia ser mesmo, concordei na hora, porque fazia vários meses que ele estava nisso, desde antes da minha viagem ficava escondido naquela oficina, como ele gostava de chamar, sem mostrar nada, deixando de participar de todos os eventos e salões do ano. Não dava para expor assim, segundo ele, seguindo a mesma lógica de quando desistiu de fotografar suas intervenções e de recolher suas “máquinas” deixadas na rua, embora ainda me convidasse a acompanhá-lo na observação de como as pessoas reagiam a elas.

Não adiantava fazer perguntas a respeito dos trabalhos dele, antes de vê-los, foi o que me ocorreu à noite, fazendo sozinho o mesmo caminho que fizéramos juntos, na tarde daquele dia, só que no sentido oposto. Na época das intervenções, depois que seu nome se tornara conhecido com as primeiras participações nos salões mais importantes de artes plásticas, conversávamos muito sobre as “máquinas inúteis” que ele construía, mas apenas para esclarecer detalhes técnicos de sua engenharia. Lembrei das engrenagens de metal e plástico, compostas de várias articulações, correntes e encaixes, que ele instalava por algumas horas em uma esquina movimentada. Manivelas de tamanhos diferentes acionavam o mecanismo, criando toda uma série de movimentos circulares das articulações das “máquinas”, caso um curioso se aventurasse a rodá-las. As fotos dessas intervenções acabaram sendo expostas, mais tarde, com bastante êxito, junto com os próprios apetrechos, no entanto ele desistiu depois das fotos e passou a abandonar os seus trabalhos nas ruas em que os instalava, o que já indicava de alguma maneira suas idéias atuais, concluí, enquanto andava devagar pela Rua do Ouvidor, agora vazia.

Foi ao virar a esquina da Uruguaiana que me veio à cabeça o fato de, alguns minutos depois de sairmos da loja, nessa mesma rua, ele ter me dito, erguendo levemente a sacola em sua mão, que ia usar algumas coisas no novo trabalho. Na hora, achei que se referia às imagens compradas, o que me deixou bastante curioso, mas recebi a explicação de que o material a ser usado era o cupom do cartão de crédito e o recibo da venda. Por isso a exigência de detalhar o que tinha comprado, pensei naquele momento, enquanto passava por nós, atravessando a multidão com passos rápidos e compassados, um grupo de guardas da polícia de choque, todos eles vestidos com coletes grossos, capacetes pretos e proteções para as pernas, carregando cassetetes longos, de madeira ou borracha. Atrás deles, observou Heitor, no vácuo que se formava, entre a gente de olhar atento e desconfiado, não se via nenhum dos vendedores ambulantes pelos quais tínhamos passados minutos antes. Tinha se dispersado o círculo de curiosos em torno de um sujeito que falava sem parar, bem humorado e eloqüente, com um bonequinho a princípio inerte, que passava a andar e dançar seguindo as ordens recebidas – Agora levita, Pit, foi a última frase dele que tínhamos ouvido, antes de entrarmos na loja.

Bem perto da porta, onde havia o tapume de um prédio em obras, estava sentado no chão um casal, com talhas e blocos de madeira, fabricando placas com os nomes das pessoas, e ao lado um senhor de voz muito grave vendia canetas bic, quando chegamos ali à tarde. Como na maioria das lojas daquele tipo, pensei, havia um gato perambulando preguiçosamente entre as mercadorias e os pés dos clientes, só que esse não era preto, era rajado em tons de cinza, num lado, em vermelho e bege no outro,  com manchas brancas no focinho e nas patas. Parecia uma composição de três gatos diferentes, que julguei ser uma fêmea, quando veio encostar na minha perna, pois dizem que só elas são tricolores. Vocês tem aí uma imagem de São Jorge em pé, sem o cavalo?, tinha perguntado meu amigo. Ogum, foi a resposta que ouvimos do vendedor, um mulato magro com os olhos amarelados, que me pareceram dar a seu rosto um aspecto sombrio, acentuando o contraste com o rosto claro do Heitor, avivado pelo cabelo entre o castanho e o ruivo, a pele muito branca, e os olhos verdes grandes e salientes. O rapaz explicou que a imagem sem o cavalo era de Ogum, e São Jorge era só a imagem com o cavalo, a lança e o dragão, então meu amigo, ao mesmo tempo em que me explicava que na loja dos portugueses da Senhor dos Passos não havia essa distinção de sincretismo religioso, pediu para ver uma imagem pequena de Ogum, em pé, vestido de armadura, em gesso e não em resina. Mas não tinha da pequena, só da de trinta centímetros, ali em cima da prateleira, entre São Miguel Arcanjo e Nossa Senhora da Rosa Mística, ao lado de uma imagem de Jesus vestido de branco sob a qual estava escrito, numa etiqueta, “Oxalá”.

Enquanto eu percorria as prateleiras com os olhos, meu amigo, que parecia conhecer bem as variantes das imagens de santos, só comentou que o São Francisco estava muito parecido com o Santo Antônio, com a única diferença de carregar um carneirinho e não uma criança, no momento em que considerava se levaria aquele tamanho mesmo. Sai muito, essa sem o cavalo, tem muita procura, ouviu do vendedor, antes de decidir levar o Ogum e uma imagem um pouco menor de Santo Expedido, outra de São Judas Tadeu, às quais pediu que fosse acrescentado um incenso “Chama dinheiro”. Perguntou se podia pagar com cartão de crédito, ao se dirigir ao caixa, e em seguida, quando voltou para o balcão de vendas, quis um recibo da venda. Você escreveu tudo aí?, perguntou, olhando o papel. Não, não. Escreve tudo especificado: um Ogum de gesso de trinta centímetros, um Santo Expedito...

Em frente às Casas Chamma, uma dessas motos que passam buzinando pela rua de pedestres quase tinha atropelado uma moça baixinha, cujo rosto era a única coisa visível, destacando-se de uma placa dobrada que cobria todo o seu corpo, na qual se lia “compro cartuchos de impressora vazios”, lembrei, voltando em direção ao metrô, no começo da noite, quando o movimento na Uruguaiana já é bem mais tranqüilo. Não há mais, atravancando a passagem de uma multidão apressada, aqueles meninos que, se você está distraído, põem na sua mão filipetas em que se anuncia “dinheiro fácil”, nem vendedores de cabides, que nos dias de mau tempo são substituídos por guarda-chuvas, nem bancadas portáteis de camelôs que se aventuram a vender softwares piratas.

Eu tinha passado pela mesma rua, vindo da estação de metrô da Carioca, anos atrás, na primeira vez em que fui visitar o ateliê, e nessa tarde, depois de um longo intervalo sem voltar a visitá-lo, tínhamos andando juntos por ali,  como da primeira vez, eu com a minha curiosidade a respeito de seu trabalho, ele distraído com as compras de materiais. Só que da primeira vez eu tinha uma idéia bem mais clara sobre o que ele estava fazendo, pensei, porque tinha visto na semana anterior a instalação da Bienal de São Paulo, onde nos conhecemos. Era uma sala com grandes blocos, formados por pilhas comprimidas de papéis, cada um de um tamanho e uma forma, alguns que se erguiam até o teto, outros que ficavam rentes ao chão. Entre eles, havia apenas uma passagem estreita, para uma pessoa, que os percorria em várias direções, levando a pontos sem saída, como num pequeno labirinto. Na superfície dos blocos que ficavam abaixo do nível dos olhos, via-se uma trama complexa de cortes ou retalhos de profundidades variadas, que expunham camadas de textos, anúncios, páginas de livros ou de revistas em quadrinhos. Era possível acompanhar, de corte em corte, de camada em camada, como numa escavação arqueológica, uma sucessão de leituras de pequenos trechos, que eram os vestígios da origem de cada folha colada.

No Largo da Carioca, alguns pastores de igreja evangélica bradavam frases feitas sobre a salvação das almas, com bíblias nas mãos; indiferentes a eles, muitos curiosos tinham formado um círculo em torno de algum espetáculo de rua que a concentração do público tornava invisível de fora. Mas o assunto de nossa conversa, ao atravessarmos a praça movimentada, tinha sido os mapas coloridos da Brasil, do Rio e do Corpo Humano, expostos numa banca de jornais. Gosto de ver o Largo vazio e as luzes dos edifícios, pensei, ao insistir no mesmo caminho da tarde, e ele prefere a hora do rush, pelo que me dissera. Em vez de descer a escada para tomar o metrô, segui para a Cinelândia, onde se reunia, quando passamos por lá horas antes, um grupo de manifestantes, com bandeiras e cartazes que anunciavam a greve dos servidores públicos, o que justificava a passagem dos policiais que veríamos um pouco mais tarde. Um senhor com ar de cansado, descrevendo monotonamente a mobilização de cada setor que participaria da passeata  no alto-falante, com frases feitas antiquadas, parecia saído de uma peça panfletária da década de setenta.

Foi só ao entrar na estação que voltei a pensar no ateliê, onde os mais diversos objetos se acumulavam sobre as duas bancadas de trabalho: placas de metais diferentes, em que se viam gravações minuciosamente detalhadas; engrenagens com dezenas de peças; papéis recortados e colados em blocos, outros organizados em pranchas de acrílico que formavam camadas; lonas e panos bordados, ao lado de uma máquina de costura; blocos de madeira talhados; ferramentas das mais diversas. São novas, tinha me informado Heitor, apontando para uma caixa de plástico, comprei lá no Palácio das Ferramentas outro dia, porque as velhas estavam um lixo. Mas o que tinha me chamado a atenção eram dois cavaletes e uma mesinha com pincéis e potes com tinta a óleo. Você voltou a pintar?, perguntei então, bastante surpreso, pois a última vez em que vira um trabalho seu com pintura tinha sido muitos anos antes, numa exposição no MAM. Além do mais, no caso, não se tratava de um trabalho a óleo, mas de uma pintura feita com um preparado especial de tintas que se dissolviam quando o artista a posicionava no chão e derramava água sobre ela, revelando a lona da tela em percursos caleidoscópicos.

Faz parte do processo, afirmou, antes de começar a longa explicação sobre a sua nova idéia, que mantivera por tantos meses em segredo e que o ocupara mais intensamente do que nunca, segundo me disse. No princípio, julguei que não estava entendendo bem aonde ele queria chegar, enquanto acompanhava a descrição dos diversos elementos que deveriam compor sua nova instalação. A idéia era trabalhar com a desarticulação desses elementos, de maneira que cada processo iniciado, uma vez pronto, começava a ser desarticulado e recomposto em novos processos, segundo ele. A instalação parecia consistir, então, numa transposição de seu ateliê para um local onde fosse possível acompanhar o trabalho, entretanto eu não consegui entender como ele queria fazer isso, nem qual seria a unidade, a obra individual que pretendia expor. Só aos poucos, durante a explicação, examinando cada uma das partes da composição, entre as quais se encontravam obras de arte excelentes, fui percebendo que ele também não tinha essa noção de um resultado, de uma unidade a ser alcançada. Tampouco pretendia expor sua oficina de trabalho em algum salão, como cheguei a imaginar, para poder continuar fazendo e desfazendo todos aqueles pequenos elementos, cuja articulação problemática estava ligada a uma idéia de processos infinitos.

É como o borrão na tela do pintor, em A obra-prima ignorada, pensei, em algum momento de minha visita, enquanto ouvia a explicação.  De tanto retrabalhar a tela, a fim de alcançar um ponto extremo nas possibilidades da pintura, resta só um borrão disforme, em que o artista enxerga sua obra-prima, foi o que me ocorreu então, recordei andando pela estação de metrô quase vazia. Dava passos curtos, contando os quadradinhos do chão, no grande corredor, para calcular depois quantos metros tinha a reta, pois tinha imaginado, ao entrar na plataforma de embarque, uma corrida de cem metros rasos, e pensava no final de nossa conversa, ainda no ateliê. Mas como você vai expor isso?, eu tinha perguntado, deixando transparecer que me parecia impossível. Não vou, respondeu, olhando para mim com um sorriso nos lábios e um ar resignado. Foi só então que eu tinha percebido o quanto os meus pensamentos correspondiam aos dele, de alguma maneira, como quando ele deixou de registrar suas intervenções nas ruas e me dei conta de que o único registro delas passou a ser o dos textos que eu escrevia sobre elas, ou o das descrições feitas em minhas aulas do departamento de História da Arte. Ele tinha dito, um dia, numa de nossas caminhadas pelo centro da cidade, que preferia ver os trabalhos descritos por mim do que fotografados, ao me contar que deixaria de levar a câmera. Mais claramente do que em outras ocasiões nas quais a idéia já me ocorrera, tive a sensação de que a ordem do meu entendimento, ao descrever suas obras ou conversar, fazia parte do processo. Você é que vai, tinha sido a continuação de sua resposta no ateliê, da qual me lembrei quando ouvi o ruído do trem e considerei uma pena ele ter chegado antes de eu terminar o meu cálculo da extensão da  plataforma de embarque da estação de metrô.

Pedro Süssekind
escritor e professor de filosofia

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