O maravilhoso, o milagre e o prodígio de Ibsen – Uma aprendizagem de tradução

Em 2004 tive uma rica experiência de tradução da peça Casa de Boneca de Henrik Ibsen para uma encenação do diretor Aderbal Freire Filho com Ana Paula Arósio no papel principal de Nora. Já tinha traduzido algumas peças de Ibsen em colaboração com Fátima Saadi e esperava de novo o desafio da precisão e economia da linguagem de Ibsen. Quando Fátima e eu fizemos nosso primeiro trabalho de tradução em 1993 para a montagem da peça Quando nós os mortos despertarmos, uma primeira mudança necessária foi do título, que, nas traduções conhecidas de português, era Quando despertarmos de entre os mortos. O título original identifica " nós " com os " mortos ", sujeito gramatical da frase, o que o tradutor português não aceitou, mudando radicalmente a compreensão do que é ser ou estar " morto " segundo Ibsen. Era claro que no título original, Naar vi doede vaagner, o " nós " (vi) é o sujeito e o escritor conscientemente aplica a alegoria "de viver a vida como um morto-vivo", explicitamente, uma vez que o tema da peça é o perigo de viver a vida sacrificando-a em nome de um ideal, de um sonho ou de uma ambição profissional, como faz o escultor Rubek, que abre mão de seu amor para realizar sua grande obra, ironicamente intitulada "O Dia da Resurreição". Quando no final da vida se dá conta de ter sacrificado seu amor por Irene e a vida que com ela poderia ter tido e quando "desperta" para realizá-la, já é tarde demais e os dois morrem. Assim, um pequeno detalhe de tradução mudou a compreensão da peça. Também no trabalho com Et Dukkehjem, modificamos o título juntamente com Aderbal Freire Filho, porque não consideramos adequado o título literal Uma casa de bonecas nem o plural de " bonecas " que em português contemporâneo tem associações infelizes como Gaiola das loucas, entre outras.

Uma vez mergulhados no texto, o trabalho resultou particularmente instigante, porque a tradução nos ofereceu uma leitura nova da peça pela importância de apenas uma palavra e a filosofia de vida que nela se esconde. Fizemos a tradução a quatro mãos, o que nos dava a possibilidade de incorporar correções durante os ensaios com os atores para conseguir maior atualidade e melhor cadência nos diálogos. Acredito que essa é a primeira tradução de Casa de Boneca feita no Brasil diretamente do original norueguês. Utilizamos a edição das obras completas de Ibsen do Projeto Runeberg, a edição digital e facsimile da edição original em 10 volumes das Obras Completas (1898-1902) (A chamada edição do povo - "folkeutgaven" - das Samlede værker de Henrik Ibsen).

O que gostaria de comentar nesta ocasião refere-se à discussão despertada pela tradução do final da peça, da famosa saída de Nora e de suas ultimas palavras. Nora está saindo da casa, abandonando o casamento e as crianças e Thorvald Helmer lhe pergunta se não há alguma possibilidade no futuro de deixarem de ser estranhos um para o outro. A famosa e enigmática resposta é que dependeria de algo extraordinário, quase sobrenatural, que Nora chama "det vidunderligste". Particularmente essa palavra, esse conceito, "det vidunderligste" tem sido debatido desde a estréia da peça em 1879 e refere-se a uma transformação que precisa acontecer para fazer possível uma nova reconciliação com Thorvald e que ele repete na última palavra da peça numa emoção de estranhamento, incompreensão, mas também de esperança. A transformação é uma transformação deles em pessoas verdadeiras e da sua vida conjugal em um verdadeiro casamento, e nas leituras tradicionais significa exatamente uma transformação da mulher boneca em uma verdadeira mulher adulta e independente e do homem ambicioso e auto-centrado Thorvald em uma pessoa genuinamente generosa com sua esposa. Mas a complexidade desta interpretação já fica evidente na escolha do termo "det vidunderligste" que tem uma conotação metafísica em direção ao maravilhoso e ao milagre, e durante a peça aparece ligado a diferentes momentos da evolução dramática e da transformação da personagem principal Nora. Para simplificar, há momentos em que a palavra designa algo extremamente positivo e bom, outros em que significa o contrário, algo terrível. Ao mesmo tempo, já nos parecia desde o início problemático optar por uma tradução para um termo metafísico que aponta para uma intervenção divina no contexto iluminista e agnóstico de Ibsen. Depois de muita discussão rechaçamos o termo de " milagre " por dar uma conotação demasiadamente religiosa ao final e também achamos fraco o uso do termo " maravilhoso " por não incorporar o lado sinistro do " terrível " da decisão de Nora. Nossa solução ou proposta de solução foi a palavra "o prodígio " que, embora entendido às vezes como sinônimo de "milagre", tem um caráter mais profano e pode ser usado fora do contexto religioso.

A questão central é que usar a tradução pela palavra " prodígio " para designar o fato extraordinário esperado por Nora, ainda mantém um estranhamento necessário. Ela acredita que esse fato será ao mesmo tempo maravilhoso e terrível: maravilhoso, porque seria uma prova do amor de Torvald por ela; terrível, porque Nora decide matar-se para evitar o sacrifício do marido. Mas uma outra complicação é que a palavra "vidunderligste" e seus derivados - o substantivo "Vidunder", o adjetivo "vidunderligt" e o superlativo "det vidunderligste" - é usada ao longo da peça com significações diferenciadas, cujas variações esboçam uma transformação dramática da personagem de Nora. Esse fato complica ao extremo um princípio de tradução que consideramos fundamental - a coerência interna -, que impede o uso de diferentes soluções para a tradução das mesmas palavras para responder às matizes semântico-contextuais. Confesso que nossa escolha de tradução não obedece a este princípio, que foi sacrificado na tentativa de dramatizar a virada final da história e na personalidade e decisão de Nora, enfatizando o deslizamento no sentido do conceito.

Durante a peça se utiliza a raiz da palavra "vidunder" 19 vezes. No primeiro ato Nora usa a palavra 3 vezes para Helmer, comentando como foi bom que ele tivesse conseguido um emprego seguro, depois 3 vezes para descrever a viagem à Itália para a Senhora Linde - en vidunderlig rejse - uma viagem maravilhosa que salvou a vida de Helmer, mas também criou uma situação financeira desesperadora. Finalmente, para dizer que os problemas haviam terminado e Nora pôde dizer: "Ah, é tão maravilhoso viver e ser feliz." Todas estas vezes a palavra descreve algo positivo e incondicionalmente bom, ou seja, utiliza-se a palavra "vidunderlig" simplesmente como " maravilhoso ". Entretanto, no segundo ato uma mudança acontece e a palavra passa a ser utilizada de modo substantivo em vez de adjetivo e ao mesmo tempo vinculada ao sentido contrário: "O terrível vai acontecer ", previa Nora, e depois " Sim, o maravilhoso. Mas e terrível ". Neste ato, Nora dizia que o maravilhoso seria que Helmer assumisse a culpa de tudo. Ela havia acabado de contar a história sobre a falsificação dos documentos do empréstimo para Linde, e estava ciente das conseqüências caso Krogstad revelasse tudo. Neste caso, ela imaginava que Helmer assumiria a culpa e ela mesma se veria forçada a cometer suicídio. O " terrível " é esse sacrifício que ela deveria fazer para salvar Helmer e seu bom nome, ao mesmo tempo em que ela confiava na capacidade " maravilhosa " de Helmer de se sacrificar e assumir a culpa por ela. Assim o ato terrível e maravilhoso designa um sacrifício mútuo para o outro, mas cujo resultado é uma dupla situação de perda, pois ninguém vai poder mais ser feliz no futuro, ou porque morreu ou porque arruinou sua própria carreira. Essa idéia romântica de Nora é paradoxal e maniqueísta, e até totalitária ou, como escreve Strindberg em sua crítica de Ibsen: " Nora é inumana e age como um monstro " (et Udyr). Entretanto, Nora se inspira numa fala de Helmer no segundo ato quando ele se diz ser homem para assumir qualquer problema diante à realidade para protegê-la:

HELMER - Aconteça o que acontecer. Na hora em que for preciso, você vai ver que eu tenho coragem e tenho força. Você vai ver que eu sou homem de assumir todas as responsabilidades.

NORA - (Apavorada.) O que você quer dizer com isso?

HELMER - Todas as responsabilidades, todas.

NORA - (Mais controlada.) Nunca vou deixar você fazer isso.

A situação é típica para a dramaturgia de Ibsen, e pode ser considerada a primeira virada dramática da peça, pois é neste momento que Nora, diante da inevitável descoberta de seu delito, concebe seu primeiro plano. Ao mesmo tempo, é um bom exemplo da técnica dialógica de Ibsen, em que cada personagem aparece isolado em seu universo próprio, num dialogo desencontrado. Helmer fala, sem saber da situação critica de Nora, sobre sua vontade geral de proteger a esposa, e ela por sua vez só pensa na carta de Krogstad que vai revelar tudo e da possibilidade de Helmer assumir a responsabilidade pelo crime.

No terceiro ato, Helmer repete sua disposição de salvar Nora e seu sonho de tirá-la de um grande perigo. Depois de aberta a carta de Krogstad com a revelação do crime de Nora, Nora ainda acredita no sacrifício do marido e ela imagina "a água gelada" que em seqüência enfrentará. Mas neste momento ela começa a entender que Helmer não pretende se sacrificar para salvá-la. Eis a segunda virada da peça, que leva à grande revolta e à decisão final em que Nora explica a Helmer como ele havia desperdiçado seu amor ao ignorar o aparecimento de "det Vidunderlige" e não ter assumido o sacrifício que ela esperava dele. No final aparece a palavra em forma superlativa "det vidunderligste", significando que a relação entre os dois pudesse se tornar um " verdadeiro casamento ". E é aqui que Nora se despede, deixando Helmer abandonado, balbuciando "det vidunderligste???"

HELMER - Nora, nunca vou ser mais do que um estranho para você?

NORA - (Pegando a mala.) Ah, Torvald, só se um prodígio...

HELMER - Que prodígio?

NORA - Que você e eu nos transformássemos tanto que... ah, Torvald, eu não acredito mais em prodígios.

HELMER - Mas eu quero acreditar. Diga, nos transformássemos tanto que... o que?

NORA - Tanto que a nossa vida, juntos, pudesse ser... um verdadeiro casamento. Adeus. (Sai pela ante-sala.)

HELMER - (Afunda numa cadeira ao lado da porta, pondo as mãos sobre o rosto.) Nora! Nora! (Olha para a frente e levanta-se.) Nada. Ela não está mais aqui. (Uma esperança aparece nele.) Um prodígio? (Escuta-se a porta fechar.)

O conceito aparece aqui primeiro como "det vidunderlige" e depois como o grau superlativo "det vidunderligste". O desafio ao meu ver é que neste momento o conceito adquire uma conotação diferente dos usos anteriores. Nora não fala dele como algo simplesmente positivo, nem como a opção sinistra e no fundo terrível do auto-sacrifício, mas de uma outra transformação que marca a diferença entre ela assumindo a decisão de ir embora e a mulher que ela era no segundo ato. Que transformação é essa? Uma transformação interior e ética, obviamente, mas em que sentido? Insistimos antes de mais nada que se trata de algo relacionado ao desenvolvimento humano e a suas possíveis mudanças, mas sem carga religiosa alguma. E esse é exatamente o problema, pois as antigas traduções de Casa de boneca utilizavam a palavra " milagre ", que, a nosso ver, é a opção menos adequada.

"Vidunder" e "det vidunderlige" são expressões compostas do prefixo "ved" (com, perto de) e da raiz da palavra nórdica "undr". Em realidade, "undr" originalmente significava " ficar perplexo " ou "estranhar-se" diante de algo " curioso ", " magnífico " ou " extraordinário ". No entanto, a palavra "vidunder" apenas adquire uma conotação sobrenatural quando é utilizada em contextos bíblicos. Posteriormente, "undr" deu origem à palavra inglesa "wonder" e à alemã "Wunder". A palavra " milagre ", por sua vez, tem origem latina "mirari" e também significa "estranhar-se", mas sempre diante de intervenções divinas ou sobrenaturais. Em norueguês existe uma palavra específica para esse sentido (o substantivo mirakel ou o adjetivo mirakuloes), o que sublinha a opção consciente de Ibsen de eliminar uma leitura religiosa do final.

Na tradução de Maria Christina Aranyi 2, a opção é pelo " milagre ":

Nora: Ah Thorvald, para isso seria preciso o maior dos milagres.

Helmer: E qual seria o maior dos milagres?

Nora: Seria preciso transformarmo-nos os dois a tal ponto..Ah, Thorvald! Já não acredito em milagres.

Helmer: Eu, porém, quero crer neles. Diga. Deveríamos nos transformar a tal ponto.

Nora: que a nossa união se transformasse num verdadeiro casamento. Adeus.

O problema desta escolha deve-se ao fato da palavra milagre referir-se claramente a uma intervenção exterior e divina no desenlace da situação, o que não tem fundamento na peça nem na obra de Ibsen. Pelo contrário, o " prodígio " - det vidunderligste - expressa a idealidade de um movimento ético que se consuma na transformação da personalidade sem nenhuma dimensão religiosa.

A questão que se apresenta diante de nós neste momento é explicar a escolha lexical específica de Ibsen por "det vidunderlige". Embora Ibsen nunca fizera referência direta a Søren Kierkegaard, e embora este pensador enfocasse sua reflexão sobre os movimentos existenciais entre o estético, o ético e o religioso, pode ser importante comparar o uso de Ibsen com a maneira que esse conceito aparece na obra do filósofo dinamarquês.

No " Diário do Sedutor ", de Kierkegaard, uma parte do livro Ou-Ou, o sedutor Johannes fala de um olhar (de Cordelia) que vê além daquilo que de imediato aparece em sua frente, para enxergar "det Vidunderlige", algo que ela procura com coragem, pedindo que apareça em sua vida. Mais claramente, o conceito aparece no livro Temor e Tremor que é publicado no mesmo ano da edição de Ou-Ou (1843), em que "det Vidunderlige" é uma chave para entender a passagem pela Fé para o estágio do religioso, enquanto Ou-Ou tratou dos estágios " estético " e " ético ".

O livro é escrito pelo heterônimo Johannes de Silentio, que analisa Abraão e sua disposição em seguir a palavra de Deus e sacrificar seu próprio filho Isak. A grande questão é exatamente como a força da Fé pode levar um homem a cometer este sacrifício, aparentemente irracional e eticamente impossível de defender. Como mostrado numa análise brilhante de Ivan Z. Sørensen 3, trata-se neste livro do movimento na dialética existencial em direção ao religioso, e para Kierkegaard, Abraão é exatamente a figura que melhor expressa este movimento. Johannes de Silentio chama Abraão de Cavalheiro da Fé ou o Pai da Fé, ou "hiin vidunderlige", isto é, " aquele vidunderlige", e compara-o com o clássico Herói Trágico, por um lado, e com o Cavalheiro da resignação infinita, por outro. Esses tipos ilustram para Johannes de Silentio o que chama o " duplo movimento da fé ", o " movimento do infinito ", que parte da vida em direção ao infinito e que caracteriza o Herói trágico e o Cavalheiro da resignação infinita, e o " movimento finito ", isto é, o movimento da Fé com o exemplo de Abraão. O Herói trágico sacrifica o que tem de mais querido em nome de um princípio superior e ético, como por exemplo, Agamêmnon, que sacrifica sua amada filha Ifigênia para salvar seu povo, mas perde a alegria para sempre. Em conseqüência disso ele vai resignar, " abandonar o finito " e o mundo real e mentalmente entregar-se ao infinito, perecendo (afdø) neste mundo. Há um certo heroísmo poético neste ato, mas a conseqüência é abrir mão da vida em nome do ético, ou seja, de um princípio coletivo.

O cavalheiro da resignação infinita, o segundo exemplo do movimento infinito, é o jovem apaixonado que se dá conta da impossibilidade de realizar seu amor. Ele sacrifica sua amada, abrindo mão dela no mundo real, para preservá-la para si eternamente no coração e na intimidade de seu sentimento, podendo encontrar um certo consolo e conforto na dor, mas sem nunca recuperar a alegria de viver. Nos dois casos, o sacrifício do movimento infinito foge do mundo, abre mão da realidade em nome de um princípio superior, o bem comum, no caso de Agamêmnon, e o amor, no caso do Cavalheiro da resignação infinita. Para Abraão é diferente. O sacrifício que ele está preparado para fazer é particular, conseqüência de uma relação privada e singular entre ele e seu Deus e somente explicável pela Fé. Nada pode justificar o ato de Abraão, nenhuma razão ou argumento ético pode explicar seu sacrifício. Ele segue unicamente a Fé e o paradoxo que o coloca numa relação absoluta e absurda com o absoluto, Deus. No início, a decisão de Abraão segue o movimento da resignação infinita em direção ao infinito, mas logo volta à vida, na qual realiza seu amor, e esse segundo movimento do infinito de volta ao finito, ou seja, à vida, é o "Vidunderlige". Abraão, o Cavalheiro da Fé, abre mão de seu amor, o mais querido, o conteúdo de sua vida, e se concilia com a dor, mas em seguida acontece "det vidunderlige", e ele faz mais um movimento e volta a receber no mundo tudo aquilo que havia sacrificado em função do Absurdo. Ele retorna ao ponto de início do finito, na Fé de que, abrindo mão de tudo, tudo vai receber de volta. A Fé de Abraão não é a confiança de tornar-se feliz na eternidade do além, mas de sê-lo aqui no mundo. O " terrível " para quem tem Fé é a solidão, o silêncio, a impossibilidade de compartilhá-la, mas também é o "vidunderlige" da relação absoluta e absurda com Deus.

Em Ibsen o "Vidunderlige" também é uma maneira de relacionar-se de modo absoluto, mas não com o Absoluto em Deus, senão com outra pessoa, com o humano e o relativo. No segundo ato, Nora quer se sacrificar, mas espera do Helmer um sacrifício igual. O paradoxo para Nora é diferente do paradoxo em Ibsen, pois ela não vai receber nada de volta, ela vai se suicidar para salvar Helmer que, por sua vez, também vai perder tudo - trabalho, família e seu amor. Mas Nora abandona esta posição autoritária e absolutista, algo lhe convence a exigir o sacrifício do que mais ama e ao mesmo tempo preservá-lo na vida. Ela quer viver, crescer, tornar-se uma verdadeira pessoa e no final da peça esse é o sentido do termo "det vidunderligste", a fé nesta possibilidade, que implica um duplo movimento que tem a ver com a transformação da pessoa. Expressa a confiança que Nora adquire de poder se conhecer melhor, de crescer como pessoa, como ser humano, para poder recuperar o que nunca teve, um verdadeiro casamento. Do ponto de vista de Helmer, o que ele talvez enxerga em sua decisão final é a possibilidade de que ela deixe de assumir suas exigências intransigentes anteriores e torne-se mais humana.

O paralelo entre Kierkegaard e Ibsen é que para os dois "det vidunderlige" expressa uma relação da pessoa com o absoluto. Para Kierkegaard o absoluto é Deus e quem tem Fé é aquele preparado a sacrificar tudo deste mundo, confiante de que vai ter tudo de volta. O "vidunderlige" é esta Fé. Para Ibsen "det vidunderlige" também é uma maneira absoluta de se relacionar, mas não com Deus, senão com uma outra pessoa. Para Nora não é a vontade de sacrifício que falta, ela já está preparada para isso no segundo ato, e o absoluto é esperar o mesmo sacrifício de Helmer. Contudo, esse sacrifício é idealista, totalitário e desumano, como observa Strindberg, e ninguém deveria pedir esse tipo de sacrifício de ninguém. O "vidunderligste" é a confiança que Nora enxerga no final de uma transformação psicológica, de aprender e tornar-se outra pessoa capaz de um novo encontro com Helmer. Este, por sua vez, começa a ver a possibilidade de Nora voltar como uma verdadeira pessoa, sem as exigências desumanas e absolutistas que antes tinha.

Nossa solução para a tradução e adaptação dessas palavras finais e definitivas refletiu o caráter absoluto que o termo "det Vidunderligste" tem, ao mesmo tempo de ser desligado de um sentido sobrenatural e religioso. Usamos a solução de "o prodígio " porque é um sinônimo de milagre sem ter conotação religiosa. O milagre implica uma intervenção de um poder sobre-humano, da mão de Deus, na solução dos paradoxos, o que não é o caso em Ibsen, para quem o destino da pessoa sempre é conseqüência de seus próprios atos. Outro argumento forte é que em nenhum momento, em Casa de boneca, Ibsen utiliza a palavra "Mirakel" (milagre). É claro que ele não estava falando num milagre, neste sentido, como faz, por exemplo, em Brand, quando o pastor diz, literalmente, " Oh, aqui aconteceu um milagre, mandado como sinal do céu " ("O, her er et Mirakel hendt; et fingerpeg fra himlen sendt"). Outra questão é se esta solução se justifica diante da possibilidade de usar o termo "o maravilhoso "? Já indicamos que o uso do " maravilhoso " perde a dimensão " terrível " da decisão, e também abre mão de marcar dramaticamente a transformação no dilema de Nora do segundo para o terceiro ato. Por outro lado, reconheço que a solução da palavra " maravilhoso " teria possibilitado a coerência de tradução em todas as situações que a palavra "vidunderligt" é usada!

Consideramos descartada a solução do " milagre " não somente pelas razões etimológicas já referidas, mas porque perde totalmente a dimensão ética que a peça abre. O que vai acontecer na vida de Nora e Thorvald depende de fato dos atos dos dois, cada um por si, em relação às suas demandas absolutas, não de algum Deus Ex Machina que pudesse intervir para reconciliá-los, senão para com o outro. Ibsen não pode dizer o que isso significa concretamente, ele não é moralista nem oferece receitas para a felicidade no casamento perfeito. Cada um deve encontrar a verdade para sua própria vida e "det Vidunderligste" designa esta verdade como um implícito atrás dos atos finais de Nora, uma realidade não explicitada e que se abre como aquilo que Bernhard Shaw chamou da " essência do ibsenismo": a discussão. A dramaturgia fecha-se nas peças de Ibsen no desdobramento dos temas do enredo na vida dos espectadores para quem a mesma necessidade de auto-conhecimento é colocada em evidência. " Para onde vai Nora?", "O que pretende fazer?" e "É justo seu sacrifício do casamento?" São todas perguntas sem respostas únicas. Cada um colocará a pergunta na vida própria e a peça é apenas um caminho para entender como lidar com ela.

Karl Erik Schøllhammer
professor associado, Departamento de Letras - PUC-Rio

Notas

1 Este ensaio foi publicado em Schøllhammer, Karl Erik (org.) Henrik Ibsen no Brasil. EdPUC/7 Letras. Rio de Janeiro. 2008

2 IBSEN, Henrik. Casa de bonecas. (Tradução de Maria Christina Aranyi) Veredas. Mairiporã. 1990

3 "Det Vidunderlige hos Ibsen og Kierkegaard - og i italiensk oversaettelse" in. Studi Nordici, Pisa 1998.

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