Uísque sem água – Jean Maciel

Outro dia estava em uma lanchonete em Botafogo, destas em que o dono é chinês e a organização é característica. Paredes cobertas de azulejos brancos e alguns azulejos amarelos, vermelhos e azuis distribuídos harmonicamente entre os brancos. Um balcão retangular acondicionava todos os salgados, pizzas, algumas bebidas e frutas que serviriam para os sucos e vitaminas. E lá estava eu em frente ao balcão retangular decidindo qual salgado pedir. Preciso dizer que a lanchonete era farta tanto de salgadinhos quanto de pessoas atrás de tamanhas gostosuras? Em um dado momento, indeciso sobre que salgado comer, percebi um rapaz que trabalhava fazendo malabarismo com bolas de tênis nos sinais. Vestia uma roupa de palhaço. Reconheci a roupa, mas não por causa das cores, pois estas se apresentavam em diferentes tonalidades de cinza: cinza de poeira, cinza de poluição, e até cinza do copo d´água que foi negado pela atendente da lanchonete, que  naquele momento estava muito ocupada.

Pedi o meu salgado e refresco e comecei a comer reparando naquele rapaz, e ele percebeu que eu reparava nele. Achei que ele estivesse achando que eu estivesse achando que ele era um marginal. Depois achei que ele não sabia o que eu tinha achado. Comi meio salgado como se tivesse comigo um boi inteiro. Pesou-me o estômago aquele quitute. Antes de acabar o lanche comprei um copo de água mineral para oferecê-la ao rapaz malabarista, mas não o encontrei mais ali por perto. Caminhei até o meu destino carregando aquele copo d´água que não consegui entregar. Tive que beber para não jogar fora. A água desceu amarga. Tão amarga quanto o pior uísque que já bebi.


Imagem de Phanton Blot, phonecam photo, 2010, Sem Título

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