Proust e Deleuze

Como compreender o caminho da criação artística em Proust? Talvez viajando em seu mundo com suas personagens artistas: Elstir, pintor; Vinteuil, músico; Bergotte, escritor, contraponto ao narrador, Marcel. E juntando-se a Deleuze, que mergulha na obra de Proust e o faz falar em um discurso indireto-livre ou como uma de suas personagens conceituais, para explorar os diferentes mundos dos signos que compõem a Recherche.

Os signos constituem a unidade e a pluralidade da Recherche. Unidade, porque esses mundos formam sistemas de signos emitidos por pessoas, objetos, matérias; pluralidade, porque os signos não são do mesmo tipo, não têm a mesma relação com a matéria em que estão inscritos, não são emitidos do mesmo modo, não têm o mesmo sentido, nem neles estão implicadas as mesmas estruturas temporais.

Dividimos nosso trabalho em signos mundanos, signos do amor, signos sensíveis e signos da arte.

1. Os signos mundanos

“— E então, não diz se vai à Itália conosco?
— Senhora, creio que não será possível....
— Mas como é que você pode saber — perguntou-lhe a duquesa — com dez meses de antecedência, que não poderá ir à Itália?
— Minha cara duquesa, eu lhe direi, se faz questão; mas, antes de tudo, bem vê como estou doente...
— Sim, meu pequeno Charles, acho que você não está com boa cara, não estou satisfeita com a sua cor, mas não lhe peço isso para daqui a uma semana, e sim para daqui a dez meses. Em dez meses a gente tem tempo de tratar-se, bem sabe você.
Nesse momento veio um lacaio anunciar que o carro estava pronto.
— Vamos, Oriane, a cavalo! — disse o duque, que já há um momento se agitava de impaciência, como se ele próprio fosse um dos cavalos que estavam esperando.
— Diga então numa palavra o que é que o impede de ir à Itália — disse a duquesa, erguendo-se para despedir-se de nós.
— Mas minha querida amiga, é que então estarei morto há vários meses. Segundo os médicos que consultei, no fim do ano o mal que tenho, e que pode aliás levar-me em seguida, não me deixará em todo caso mais de três ou quatro meses de vida, e ainda é um grande maximum — respondeu Swann sorrindo, enquanto o criado abria a porta envidraçada do vestíbulo para deixar passar a duquesa.
— Que é que me está dizendo?! — exclamou a duquesa, parando um segundo na sua marcha para o carro e erguendo seus belos olhos azuis e melancólicos, mas cheios de incerteza. Colocada pela primeira vez na vida entre dois deveres tão diferentes como subir ao carro para ir jantar fora e testemunhar piedade a um homem que vai morrer, não encontrava nada no código das conveniências que lhe indicasse a jurisprudência a seguir e, não sabendo a qual dar preferência, julgou que devia fingir que não acreditava na segunda alternativa, obedecendo assim à primeira, que demandava naquele momento menos esforço, e pensou que a melhor maneira de resolver o conflito seria negá-lo. — Está gracejando? — perguntou ela.
— Se fosse um gracejo, seria de um delicioso bom gosto — respondeu ironicamente Swann. — Não sei por que lhe digo isso. Até agora, nunca lhe havia falado na minha doença. Mas como me perguntou e agora posso morrer de um dia para outro... Mas antes de mais nada, não quero que se atrase, vai jantar fora — acrescentou ele, que bem sabia que, para os outros, as suas próprias obrigações mundanas têm primazia sobre a morte de um amigo, e que se punha no caso deles, graças à sua polidez. Mas a da duquesa lhe permitia também aperceber-se confusamente de que o jantar aonde ia devia contar menos para Swann do que a sua própria morte. Assim, enquanto continuava o caminho para o carro, deu de ombros dizendo: ‘Não se preocupe com esse jantar. Não tem a mínima importância!' Mas essas palavras puseram de mau humor o duque, que exclamou: ‘Vamos, Oriane, não fique a tagarelar assim e a trocar as suas jeremiadas com Swann, você bem sabe que a sra. de Saint-Euverte faz questão que a gente esteja na mesa às oito em ponto. É preciso saber o que é que você quer, já faz cinco minutos que os seus cavalos estão esperando. Peço-lhe desculpas, Charles, — disse ele, voltando-se para Swann, — mas são oito menos dez. Oriane está sempre atrasada, e precisamos de mais de cinco minutos para chegar na velha Saint-Euverte.
A sra. de Guermantes avançou resolutamente para o carro e deu um último adeus a Swann:
— Bem, falaremos nisso; não creio numa palavra do que você diz, mas temos de conversar a esse respeito. Com certeza andaram a assustá-lo; venha almoçar, quando quiser (para a sra. de Guermantes tudo se resolvia sempre em almoços), você marcará o dia e a hora. — E, erguendo a saia vermelha, pousou o pé no estribo. Ia entrar no carro quando, ao ver aquele pé, o duque exclamou com voz terrível:
— Oriane, o que é que você vai fazer, infeliz?! Você ainda está de sapatos pretos! Com um vestido vermelho! Suba depressa para pôr os seus sapatos vermelhos, ou melhor, — disse ele ao lacaio —, vá depressa dizer à camareira da senhora duquesa que traga uns sapatos vermelhos.
— Mas meu amigo — respondeu brandamente a duquesa, constrangida ao ver que Swann, que saía comigo mas quisera deixar passar o carrro à nossa frente, tinha ouvido tudo —, já que estamos atrasados...
— Não; temos tempo. São apenas oito menos dez, não levaremos dez minutos para ir até o parque Monceau. Afinal, que quer? Ainda que fossem oito e meia, eles esperariam, mas o que você não pode é ir com um vestido vermelho e sapatos pretos. Aliás, não seremos os últimos... Há os Sassenage... Você bem sabe que eles nunca chegam antes das vinte para as nove...
A duquesa voltou a seu quarto.” 1

A primeira idéia de Proust era dividir sua obra em três partes: A idade dos nomes, A idade das palavras e A idade das coisas. Palavras, nomes, coisas: instrumentos do escritor. Deleuze acentua a diferença entre palavra, mot, e nome, nom: palavra diz respeito à linguagem do logos e nome, à linguagem dos signos. Podemos dar como exemplo a cena no estúdio de Elstir, quando Marcel fala da criação do pintor: “e se Deus Pai havia criado as coisas nomeando-as, é retirando-lhes seu nome, ou dando-lhes um outro, que Elstir as recriava. Os nomes que designam as coisas respondem sempre a uma noção de inteligência, estrangeira a nossas impressões verdadeiras e que nos força a delas eliminar tudo o que não se relaciona a essa noção.” 2

Barthes acentua a importância da escolha dos nomes próprios para Proust: “O nome próprio é signo que se oferece a uma exploração, a um deciframento.” 3 Os nomes ‘Guermantes' e ‘Verdurin', salões onde se encontram as personagens proustianas, são carregados de significações, indicam mundos distintos que têm em comum serem regidos pelas leis vazias da mundanidade. Em Contre Saint-Beuve, Proust fala da criação do nome dos Guermantes:

“Nomes do século XII, nomes legendários, impalpáveis, como projeções de uma lanterna mágica, inacessíveis como o proprietário em seu castelo, vivamente coloridos, habitando uma casa transparente e clara, num escritório de vidro, como estatuetas de Saxe. Os nomes nobres são nomes de castelos, de estações de trem, de lugar, (...) dão a impressão de residência e, ao mesmo tempo, desejo de viajar. Tudo isso é posse do senhor, tudo habita seu nome. (...) Que poesia incomum pode ter um nome. (...) O nome é essa coisa anterior à linguagem.” 4

Para os burgueses arrivistas, o nome escolhido é Verdurin, hortaliça, nome prosaico de um grupo banal, mas cujo salão é fechado a quem não lhes presta a corte.

“Para fazer parte do ‘pequeno núcleo', do ‘pequeno grupo', do ‘pequeno clã' dos Verdurin, bastava uma condição, mas esta indispensável: aderir tacitamente a um credo entre cujos artigos figurava o de que o pianista protegido naquele ano pela sra. Verdurin, e de quem ela dizia: ‘Não devia ser permitido tocar Wagner tão bem!', ‘enterrava' ao mesmo tempo Planté e Rubinstein e que o doutor Cottard fazia um diagnóstico melhor do que Potain. Qualquer ‘novo recruta' que os Verdurin não pudessem convencer de que as recepções das pessoas que não os freqüentavam eram aborrecidas como a chuva, via-se imediatamente excluído.” 5

Os signos se diferenciam segundo classes e famílias espirituais: o gesto é interpretado para garantir seu pertencimento a cada família. Se alguém é prestigiado em um salão, não o é no outro: cada salão emite seus signos.

Cottard, considerado idiota no salão dos Verdurin, é um grande decifrador dos signos da doença; não acerta em seus gracejos, deles ninguém ri, mas é quem cura Marcel. A própria família deste não acredita no início em suas prescrições, levando em conta sua falta de cultura, mas quando Marcel finalmente segue sua dieta, vem a cura. Ridicularizado em um mundo, competente em outro.

Swann, o diletante, que conhece arte, literatura, música, primeiro guia intelectual do narrador, transita em todos os meios e a nenhum pertence. É querido na casa dos pais do narrador; entra no salão dos Verdurin para estar com Odette, mas ali é sempre diminuído, não entendem sua perspicácia; para os Guermantes, é um judeu que por sua fina cultura e conhecimento perfeito dos códigos da aristocracia é aceito, desde que não lhes cause qualquer perturbação.

O signo mundano surge como o substituto de uma ação ou de um pensamento: não se pensa, não se age — são signos vazios. Seu sentido é a vacuidade e perde-se tempo com sua decifração, pois embora permaneçam sempre iguais, “como um monstro, como uma espiral, eles renascem de suas próprias metamorfoses.” Nos salões, o que importa é o modo como cada um dá sua opinião, “a capacidade que tem a sociedade de substituir velhos preconceitos apodrecidos por novos preconceitos ainda mais infames ou mais estúpidos.”

É um mundo onde o que vale é a opinião, o interesse, os velhos hábitos, as regras fúteis e os modismos passageiros. Cada grupo tem seu código: o que é chic no salão dos Verdurin não é chic no salão dos Guermantes. Nos jantares dos Verdurin, as iguarias, sempre as da moda, importam mais pela apresentação, sempre enfeitada em excesso; à mesa, o acúmulo de detalhes decorativos dissimula o que deveria ser a verdade substancial: os pratos servidos. A ostentação da louça está de acordo com o desejo de vencer a competição nos salões parisienses. O propósito da refeição é o elogio diante das outras anfitriãs, é causar inveja: nada é apreciado por si, mas sempre em função do efeito que causará. Nos Guermantes, aristocracia de origem rural, a comida é para ser saboreada, o gosto é o que importa, tudo é simples e refinado. Mas no ridículo da sra. Verdurin e na discrição planejada da duquesa não haverá os mesmo artifícios?

Os salões são ponto de encontro de intelectuais e em cada um são recebidos de maneira diversa. O círculo Verdurin é uma imitação do “meio artístico”, sempre se discute arte, elogiam-se os eleitos e quem faz sucesso. Já nos Guermantes, quando um poeta é convidado, não se comenta sua poesia; por discrição e elegância só se fala de coisas triviais, da comida, do tempo, nunca de arte. Em ambos, sempre o vazio dos signos emitidos. A arte ao fazer parte desse mundo, é empobrecida, esvaziada de seu verdadeiro sentido. Nem Verdurin nem Guermantes conseguem apreciar a pintura de Elstir. Para os Verdurin, seus quadros valem porque são considerados por outros, têm valor de troca, um preço. Para os Guermantes, não têm valor quando se trata da pintura de um molho de aspargos. Os primeiros são regidos pelo interesse do mercado: quanto vale? Os outros, pelo hábito: não representa um tema nobre, “é melhor comprar aspargos frescos, no mercado”.

A lei desse mundo é o vazio, a burrice e o esquecimento. O tempo gasto na interpretação desses signos é um tempo perdido. É tempo dos corpos na existência, e que neles deixa a sua marca — as personagens envelhecem. No final do livro essas “famílias espirituais” se unem, a sra. Verdurin se casa com o duque de Guermantes: o caminho de Swann cruza com o caminho de Guermantes — caminhos que eram distintos nos passeios do jovem Marcel. E a filha de Gilberte Swann, primeiro amor do narrador, e de Saint Loup, uma Guermantes, casa-se com o obscuro literato — essa princesa não faz questão dos títulos de nobreza. A classe é psíquica, não é de origem.

Para Proust a síntese desses mundos só pode se dar na arte:

“A verdadeira vida, a vida enfim descoberta e tornada clara, a única vida, por conseguinte, realmente vivida, esta vida que, em certo sentido, habita a cada instante todos os homens e não apenas o artista. Mas não a vêem, porque não procuram torná-la clara. E assim seu passado é encoberto de inumeráveis clichês... Captar nossa vida e também a vida dos outros; pois o estilo é, para o escritor, o que é a cor para o pintor, não uma questão de técnica e sim de visão.... Esse trabalho do artista, de procurar perceber sob a matéria, sob a experiência, sob as palavras, algo de diferente, é exatamente o trabalho inverso do que, a cada instante, quando vivemos alheados de nós mesmos, realizam por sua vez o amor próprio, a paixão, a inteligência e o hábito, amontoando sobre nossas impressões, mas para escondê-las de nós, as nomenclaturas, os objetos práticos a que erradamente chamamos vida. Esta arte tão complicada é justamente a única viva. Só ela expressa para os outros e para nós mesmos mostra a nossa própria vida, essa vida que não pode ser ‘observada', cujas aparências observáveis precisam ser traduzidas, freqüentemente lidas às avessas, e a custo decifradas. O trabalho feito pelo amor-próprio, pela paixão, pelo espírito de imitação, pela inteligência abstrata, pelos hábitos, é este trabalho que a arte desfará, na marcha em sentido contrário, na volta à profundezas onde o que realmente existiu, o desconhecido, jaz ignorado por nós e nos faz seguir.” 6

No entanto, esse aprendizado é necessário; é preciso interpretar esses signos, atravessar a vacuidade desse mundo, até que, transformados e metamorfoseados, encontrarão seu sentido na obra de Proust. Marcel redescobre o tempo perdido da vida e conquista o tempo da arte. A obra de arte é o único meio de reencontrar o tempo perdido.

Nesse mundo em que se perde tempo decifrando signos ao invés de agir e pensar, talvez possa ser melhor compreendido através de Espinoza e suas idéias adequadas e inadequadas. A idéia inadequada é a idéia que formamos das vicissitudes no nosso corpo, quando sofremos a ação de um objeto e também quando agimos para evitar essa ação. Mas a ação que executamos para evitar algo não é o que ele considera ação, pois para ele ação não depende dos acontecimentos e das coisas em nossa volta, mas apenas da natureza de nosso pensamento. A alma só age quando tem idéias adequadas. Essas idéias não dependem de nada exterior a elas, a alma as concebe e as encadeia conforme sua natureza, sem ligação com qualquer acontecimento — só obedece às exigências do próprio pensamento. A alma é tanto mais escrava quanto mais se determina pelos fatos, e mais livre quando não se preocupa com eles. As ações da alma resultam das idéias adequadas; as paixões, das idéias inadequadas. São as idéias adequadas, o pensamento, que produz a obra de Proust.

Continua...

Viviane de Lamare
psicanalista

Notas

1 Proust, M., Recherche, v. II, p. 596; O caminho de Guermantes, Globo, São Paulo 1990, pp. 531-5.

2 Proust, M., Recherche, v. I, p. 835.

3 Barthes, R., ‘Proust et les noms' in Le degré zéro de l'écriture, Seuil 1953, p. 125.

4 Proust, M., ‘Noms de personnes' in Contre-Saint Beuve, Gallimard, Paris 1954, p. 261.

5 Proust, M., No caminho de Swann, Globo, Porto Alegre 1981, p. 162.

6 Proust, M., Recherche, v. III, pp. 895-6; O tempo redescoberto, Globo, São Paulo 1990, p. 172.

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