Sobrenatural descaso – Snir Wine

Eu acordei sentindo todas as juntas, o dia anterior tinha sido um dia de trabalho extenuante, como é a maioria dos meus dias. Minhas companheiras também despertavam e se preparavam para ir trabalhar. Foi muita sorte nossa encontrar este lugar, não faltava alimento e tínhamos muitos abrigos para nos esconder. Organizamo-nos e saímos para uma breve exploração do terreno, íamos escolher nosso campo de trabalho de hoje. Depois de breves deliberações começamos o serviço, carregávamos pesos enormes nas costas por distâncias consideráveis, guardávamos tudo no armazém.  Foi enquanto caminhava de cabeça baixa carregando um enorme fardo, tentando não pensar na dor e no cansaço, que aconteceu. Vinda do espaço ou do além ou deus sabe de onde uma enorme coluna rosa aterrissou na minha frente barrando minha passagem. Assustada, eu larguei a minha carga e tentei escapar fugindo para o outro lado, talvez pudesse alertar as minhas companheiras. Mas a coluna reapareceu na minha frente novamente barrando a minha passagem. Agora uma outra coluna vinha por trás de mim e enquanto me espremiam me levantavam. Deixaram-me sobre uma superfície irregular da mesma cor e eu, apavorada, tentava escapar, mas, sempre depois de avançar um pouco, aparecia uma gigantesca e ameaçadora coluna à minha frente. Eu estava apavorada e perplexa, parecia uma barata tonta correndo em todas as direções. Cheguei a imaginar que estava sonhando mas o meu instinto de sobrevivência não me deixou acreditar nesta ilusão. Finalmente o pesadelo acabou, estas incompreensíveis criaturas me deixaram sobre um piso liso de madeira e se foram. Mas logo em seguida um estranho círculo se formou em volta de mim, meio transparente como fumaça, porém era sólido e eu não podia atravessá-lo, depois de bater algumas vezes com a cabeça desisti e resolvi esperar até que este círculo  desaparecesse assim como apareceu.


Ele acordou bem depois da hora de novo, como era de seu feitio, pois pontualidade era um conceito além de sua compreensão e uma palavra que lhe embrulhava o estômago. A verdade é que a maioria das palavras lhe embrulharia o estômago naquele momento, a noite anterior havia sido daquelas que o faziam acordar jurando que não ia beber nunca mais. Em favor deste pamonha que co-protagoniza este continho eu posso dizer que era poeta e que seus hábitos de higiene pessoal e de organização estavam em perfeita harmonia com o seu ser. Ou seja, eram uma merda. O seu quarto estava em um estado lamentável, roupa sujas, jornais velhos, livros, restos de comida e todo tipo de papéis escondiam o chão, e a verdade é que escondiam muito bem escondido. Sem a menor disposição para levantar da cama ele imaginava os problemas que o novo atraso lhe trariam, tentava imaginar alguma forma de persuadir a empregada a arrumar o seu quarto e se perguntava há quanto tempo não fodia. Isso pra não falar na dor de cabeça que faziam suas têmporas saltarem. Distraidamente pegou uma das muitas formigas que dividiam o quarto com ele e que passeava inocentemente perto da cama deste imbecil completo. Botou o inseto na palma da mão e enquanto tentava organizar seus pensamentos barrava o caminho de seu pequeno brinquedo vivo toda vez que este tentava escapar. Quando tomou consciência do cheiro que seu sovaco exalava decidiu que a primeira coisa a se fazer era tomar um banho, se ele se lembrasse como se faz isso, pra depois continuar a pensar pois aquilo já o estava cansando. Pegou a formiguinha e pôs na mesa delicadamente e então botou um copo virado para baixo, ainda com restos de Jack Daniels, sobre ela. Ele a prendeu pensando em continuar a brincadeira depois, mas ele jamais se lembrou.

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