Plano Geral: Assim Estava Escrito – Lembranças de Hollywood

"Os filmes não criam psicopatas. Eles só tornam os psicopatas mais criativos."
SKEET ULRICH em PÂNICO / SCREAM (1996)
dir: Wes Craven

Vincent Minnelli amava e odiava Hollywood. Ele não foi um dos rebeldes como Erich Von Stroheim. Adaptou-se ao sistema e à disciplina dos estúdios, e conseguiu desabrochar como cineasta. Os inúmeros musicais que dirigiu, como Gigi, A Roda da Fortuna e outros, alcançaram um sucesso estrondoso. Seu nome era associado à eficiência e ao bom gosto, mas nem por isso poupou a poderosa indústria. Tudo de bom e de ruim que gira em torno de uma realização cinematográfica foi colocado em Assim Estava Escrito (The Bad and the Beautiful), filme dirigido por ele em 1952. Está tudo lá, ambição desmedida, luta pelo poder, traição e também sonho, determinação e a busca implacável pelo filme perfeito. Naquela época, bem, e ainda hoje, o filme perfeito é o que dá lucro. Harry Pebbel (Walter Pidgeon), como um calculista chefe de estúdio, diz, sem papas na língua: “ Eu já lhe disse cem vezes, não quero ganhar prêmios. Dê-me filmes que terminem com um beijo e um saldo positivo no livro-caixa.”

Assim Estava Escrito vai muito além da intenção do título original, literalmente, O Mau e a Bela, que sugere o relacionamento do inescrupuloso produtor interpretado por Kirk Douglas e a linda e atormentada atriz vivida por Lana Turner. Afinal, não seriam a maldade e beleza a dicotomia de Hollywood?

Tudo começa assim, era uma vez uma atriz, Georgia Lorrison (Lana Turner), um diretor, Fred Amiel (Barry Sullivan), e um escritor, James Lee (Dick Powell) que são traídos pelo produtor Jonathan Shields (Kirk Douglas).

Jonathan é um apaixonado pelo cinema e toda a engrenagem que envolve a feitura de um filme. Seu personagem define assim esse sentimento: “ Para mim, fazer um filme é como cortejar uma garota: você a vê, a deseja, vai atrás dela, há um grande momento, e no fim, fica triste. A cada filme. A tristeza pós-filme.”

Desde o início do filme, fica muito claro que esse é o grande amor de Jonathan: o cinema. Mesmo quando a linda Georgia se apaixona por ele, prefere não ficar com ela. Usa todo seu poder de persuasão e sedução, consegue tirá-la de uma vida regada a álcool e comprimidos e paralisada por uma obsessão pelo pai morto. Lança-a como atriz, mas a rejeita como mulher.

Georgia Lorrison representa muitas divas hollywoodianas. Bela e deprimida é um ídolo de papel. Num certo momento, após uma cena de filmagem, recebe uma jóia do produtor. Ao abrir a linda caixa quase podemos sentir o mesmo arrepio que lhe percorre a espinha. Ela deixa o lugar e pensa: “Estava frio no set e minha garganta ficou seca de repente... tão seca que eu sabia que precisava beber.” Essa cena é incômoda, nos faz sentir um pouco de medo. Parece ser o prenúncio de algo ruim que está por vir. Mais tarde, Georgia é rejeitada por Jonathan. Ela sai correndo, entra no carro, dirige em altíssima velocidade, e debaixo de uma chuva muito forte, chora, esbraveja, grita. Sua dor é lancinante. Nunca mais amará ninguém assim. Apesar de tudo, torna-se uma estrela.

Jonathan não tem limites. Fará tudo para alcançar suas metas. Começa sua carreira produzindo com Fred - um aspirante a diretor - um filme B, A Maldição dos Homens Gatos. Com o passar do tempo, depois de muita batalha, consegue entrar numa produção de qualidade, com um grande diretor, mas não sem antes apunhalar pelas costas o antigo companheiro. O projeto desenvolvido por Fred, com a colaboração dele é aceito por Harry, chefe de estúdio. Fred, aflito e apreensivo, aguarda a decisão fora da sala. Ao sair, Jonathan comunica a aprovação do filme, porém com outro diretor. Sua fala é objetiva e cruel: “Fred, prefiro magoar você agora a liquidar você para sempre. Você simplesmente não está pronto para dirigir um filme de um milhão de dólares.” Fred retruca: “ Mas você está pronto para produzir um filme de um milhão de dólares.” Em close, Jonathan responde: “ Com von Ellstein, estou.” A expressão de Fred ao sofrer o golpe baixo é inesquecível. Mas ele não desiste e, longe de Jonathan, se transforma em um grande diretor.

James Lee é o escritor que esnoba Hollywood. Mesmo a contragosto cede ao convite de Jonathan para escrever um roteiro. Jonathan o despreocupa e diz-lhe: “ Parceiros que se odeiam fazem os melhores filmes.” Mas para isso precisará de James Lee uma concentração e empenho que ele não tem. Rosemary (Gloria Grahame) sua esposa doce, provinciana e falastrona é um dos motivos. Através de várias artimanhas Jonathan consegue afastá-la. No entanto ela sofre um acidente fatal nesse período. Jim fica inconsolável, mas o produtor o faz mergulhar no trabalho e consegue mais uma vez atingir seu objetivo. Porém, seu plano para tirar Rosemary do caminho é descoberto por James e eles se tornam inimigos. O roteiro brilhante foi escrito a duas mãos. No entanto, durante sua concepção, seguimos o trabalho da dupla e as intervenções de Jonathan são uma clara demonstração do domínio absoluto do processo de criação e execução de um filme que o produtor detém. A certa altura, travam um diálogo emblemático. Como roteirista James Lee defende seu ponto de vista “O menino está partindo. Provavelmente morrerá! Por isso quando a mãe fala...” E Jonathan o interrompe “ Ela não fala. Damos um close nela. Ela abre a boca, mas não consegue falar. É emoção demais. Deixaremos que o público imagine o que ela sente. Acredite, Jim, imaginarão algo melhor do que qualquer coisa que escrevamos.”

Assim Estava Escrito é um drama ácido mesmo assim possui zonas de conforto. Algumas cenas lembram aqueles filmes ingênuos de sessão da tarde. Quando James Lee trabalha recostado em sua cadeira de estimação e fuma seu cachimbo com prazer, temos a sensação de que tudo corre bem. Quando Rosemary aparece para lhe mostrar seu casaco de pele novo, essa impressão é reforçada. A cena parece ilustrar a tese do diretor Von Ellstein (Ivan Triesault): “ Um filme feito só de clímax é como um colar sem cordão, se despedaça todo.” E logo percebemos, ou melhor, sabemos que aquela tranqüilidade é totalmente aparente.

Martin Scorsese adora esse filme. Segundo ele, o personagem interpretado por Kirk Douglas, foi baseado em produtores verdadeiros, entre eles David O. Selznick. Selznick começou no cinema em 1923 e produziu dezenas de filmes. Fez vários amigos e parceiros, mas angariou muitos desafetos, entre eles Hitchcock, com quem trabalhou em Quando Fala o Coração. Era arrogante e controlador. Mas como considerar tudo isso quando, sentados no escuro de uma sala de cinema, entre os créditos, vemos na tela DAVID O. SELZNICK APRESENTA, o que vem em seguida é E o Vento Levou, ou, Duelo ao Sol, ou, O Terceiro Homem, ou ainda, Nasce uma Estrela. É quase impossível odiá-lo. O mesmo acontece no final de Assim Estava Escrito. Passam-se alguns anos. Fred, Georgia e James Lee recusam uma proposta de Jonathan para trabalharem juntos outra vez. Como seu intermediário, Harry lhe reporta a resposta. Acompanhamos os três retirando-se do escritório, mas não resistem e ouvem a conversa dos outros dois pela extensão do telefone. Pouco a pouco, as expressões vão se modificando e testemunhamos, com uma dose de cumplicidade, o despertar de interesses comuns e, quem sabe, o surgimento de um novo filme, um novo grande filme. THE END.

ASSIM ESTAVA ESCRITO / THE BAD AND THE BEAUTIFUL (1952)
Direção: Vincent Minnelli Com: Kirk Douglas, Lana Turner, Walter Pidgeon, Dick Powell

por MARIZA GUALANO

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