Plano Geral: O Nevoeiro – Um ensaio sobre a cegueira

"O povo sai correndo atrás do primeiro que lhe acena com uma espada ou uma cruz."
JARDEL FILHO em TERRA EM TRANSE (1967) dir: Glauber Rocha

Um homem trabalha tranquilamente em seu estúdio caseiro. Sobre um cavalete a tela mostra um personagem do filme que ele está desenhando. Lá fora é noite e uma forte tempestade se inicia. De repente falta energia. Sua mulher e o filho de 8 anos vão ao seu encontro. Lá fora raios, trovões, chuva torrencial e o balanço feroz de uma gigantesca árvore. Lentamente a câmera sai desse cenário e entra na casa. Os três, de costas e estáticos, olham pela janela. A cena transcorre sem diálogo. Concluímos imediatamente que algo terrível vai acontecer. Esse é o início do filme O Nevoeiro (The Mist) de Frank Darabont, de 2007, baseado num conto de Stephen King.

O cineasta é antigo admirador do escritor, considerado o mestre do terror moderno. A parceria começou em 1983 quando Darabont, com apenas 24 anos, dirigiu o elogiado curta The Woman In The Room. Durante 30 minutos um homem assiste a agonia e morte de sua mãe. A história é baseada na experiência do próprio Stephen King. Em 1994, dirigiu e adaptou para o cinema outra história curta chamada Rita Hayworth and Shawshank Redemption, que se tornou o longametragem Um Sonho de Liberdade (Shawshank Redemption) com Tim Robbins e Morgan Freeman. Mais tarde, em 1999, voltou a filmar mais uma novela de King, Á Espera de Um Milagre (Green Mile) com Tom Hanks. Com mais adaptações bem sucedidas por outros diretores, como Carrie, A Estranha (1976), O Iluminado (1980), A Hora da Zona Morta (1983), Stephen King aventurou-se a dirigir aquele que seria seu único filme - Comboio do Terror (Maximum Overdrive) de 1985. Logo viu que não era Brian de Palma nem Stanley Kubrick.

O conto O Nevoeiro faz parte do livro Tripulação de Esqueletos, escrito por King em 1985. Há anos Frank Darabont acalentava o sonho de filmá-lo. Stephen King, de bom grado, garantiu-lhe os direitos: " Nós dois combinamos. Somos como chocolate e pasta de amendoim ". Graças a associações acertadas, apesar do prazo curto e baixo orçamento, Darabont consegue fazer o filme que adquire características de terror B, mas é muito bem realizado. O diretor é assumidamente apaixonado pelo gênero. O primeiro roteiro de longa-metragem que assinou foi Pesadelo em Elm Street, em 1987.

Como a grande maioria dos filmes de terror, as criaturas monstruosas estão presentes. Quando produzia O Nevoeiro, Darabont ligou para Guillermo del Toro para saber quem fez a computação gráfica de Labirinto do Fauno. Os efeitos especiais eram apenas para integrar os monstros à cena, pois todos eles eram bonecos que interagiam com os atores. Trabalhando com uma câmera ora frenética e claustrofóbica, ora observadora e mais calma, ele consegue colocar o espectador dentro da cena.

O filme possui todos os clichês de um filme de terror clássico, incluindo os sustos previsíveis, conspirações secretas e personagens um tanto estereotipados - nesse caso, o cético arrogante, a fanática religiosa, a velhinha sábia e esperta, o falso valentão e, claro, o herói bom e corajoso - e, ainda, o comportamento desse pequeno microcosmo ao ser pressionado pelo medo. Não à toa King fala sobre seu trabalho - " Eu me interesso por pessoas boas em situações ruins, pessoas comuns em situações extraordinárias."

O que ocorrerá a seguir é exatamente o desenvolvimento dessa idéia.

Depois da violenta tempestade, a pequena localidade no Maine está devastada. O ilustrador David Drayton (Thomas Jane) e o filho Bill (Nathan Gamble) vão a um mercado para comprar suprimentos. Porém, um estranho nevoeiro toma conta da cidade e ambos, juntamente a um grupo de pessoas, ficam presos no mercado. Lá fora, há uma movimentação atípica de carros de bombeiros e viaturas policiais. A tensão está no ar. Repentinamente, todas as atenções se voltam para um homem idoso, Dan (Jeffrey DeMunn), um habitante local que chega aos gritos: "Tem uma coisa no nevoeiro. Uma coisa no nevoeiro pegou John Lee!" A parti daí, o que vemos é um caos crescente. Aranhas gigantes, polvos assassinos e insetos assustadores tentam atacar as pessoas, capturá-las, devorá-las.

Estão todos encurralados no mercado e as chances de fuga são cada vez menores. O medo cresce dentro das pessoas. Elas estão num estado de pavor e pressão tão grande que começam a desmoronar. O diálogo entre Amanda (Laurie Holden) e David (Thomas Jane) é o prenúncio do que vai acontecer. Ela diz: "Pessoas são, de modo geral, boas e decentes. Meu Deus, David, somos uma sociedade civilizada." Ele responde: "Isso enquanto tudo funciona e você pode chamar a polícia. Mas se tirar isso tudo e colocar as pessoas no escuro, deixá-las assustadas, sem regras, você se surpreenderia o quão selvagens podem se tornar."

Dentro do mercado a situação é cada vez mais insustentável. Conflitos pessoais entram em cena entre alguns, juntamente com a arrogância e a ignorância de outros, sem contar o oportunismo da religiosa fanática Mrs. Carmody (Marcia Gay Harden), que arrebanha metade das pessoas presentes convencendo-as de que se trata de castigo divino e do juízo final. E essa pequena comunidade que se formou involuntariamente vai obtendo uma conformação anômala. A cada momento transcorrem cenas de verdadeira barbárie, culminando com sacrifício humano e execução sumária.

O surgimento de feras humanas não é novidade no cinema. De Dogville, dirigido por Lars von Trier, a Ensaio Sobre a Cegueira, de Fernando Meirelles, constatamos que pessoas civilizadas e até mesmo generosas transformam-se rapidamente diante do estranho e do desconhecido. A vida em comunidade, onde parecia haver equilíbrio e bom senso, parece fadada ao insucesso absoluto ao menor sinal do inusitado. O que dizer então quando se está diante do perigo? É inevitável, é histórico, é humano. Em O Nevoeiro não é diferente. O horror instalou-se dentro e fora do mercado. Nesse contexto, a fala do funcionário Ollie (Toby Jones) é assustadoramente lúcida: " Como espécie, somos basicamente loucos. Junte mais de dois de nós em um quarto, escolheremos um lado e inventaremos razões para matar uns aos outros. Por que acha que inventamos a política e a religião?"

A situação cada vez mais sem saída faz com que alguns se arrisquem a escapar dali. Não sabem se é a decisão acertada, mas seguem em frente. O epílogo é absolutamente desesperador. Como que por encanto, um abominável monstro, que se aproximava ameaçadoramente do carro onde estava David, o filho e mais três companheiros de fuga, vai embora. O nevoeiro se dissipa e vemos centenas de pessoas a salvo em carros do exército. David é o único sobrevivente do seu grupo. Pouco antes, tinha matado os outros, incluindo o filho pequeno, para protegê-los da terrível morte nas garras dos monstros. Quando o filme termina, os momentos de terror e escuridão de David estão apenas começando...

"A civilização é um verniz muito fino e pode rachar na presença do medo." A declaração do diretor Frank Darabont ecoa de modo aterrador em nossas mentes, pois sabemos que não é preciso nenhum ataque de monstro para que a humanidade perca o rumo, adquira um olhar nublado e, pouco a pouco, torne-se cega.

O NEVOEIRO / THE MIST (2007)
Dir: Frank Darabont. Com Thomas Jane, Toby Jones, Márcia Gay Harden.

por MARIZA GUALANO

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