Plano Geral: Jeanne Dielman, 23 Quai de Commerce, 1080, Bruxelas – Entre quatro paredes

"Você está falando comigo? Está falando comigo?"
ROBERT DE NIRO para sua própria imagem no espelho, em TAXI DRIVER-MOTORISTA DE TÁXI/ TAXI DRIVER (1976) dir: Martin Scorsese

Jeanne Dielman (Delphine Seyrig, em atuação inesquecível) é uma mulher disciplinada, perfeccionista e uma dona de casa exemplar. Seu apartamento não tem nada fora do lugar. A sala está sempre arrumada e a cozinha e banheiro limpos. Sua casa é tão impecável quanto sua aparência. A maior parte de seus dias é dedicado às tarefas domésticas. Ela cozinha, lava, passa, faz compras e nos intervalos prostitui-se no próprio domicílio para complementar o orçamento mensal. Jeanne é viúva e precisa sustentar Sylvain (Jan Decorte), seu filho adolescente.

Cesare Zavattini, o célebre roteirista de Ladrões de bicicleta, Belíssima, O jardim dos Finzi-Contini e outros, alimentava o sonho de filmar noventa minutos da vida de uma pessoa em sua pura cotidianidade. Coube à diretora Chantal Akerman abordar o tema e realizá-lo em extraordinários 200 minutos.

Essa história poderia virar, no mínimo, um drama sentimental, não tivesse sido filmada pela diretora belga.

Ainda muito jovem, Akerman não passou incólume pela sessão de O demônio das onze horas Pierrot le fou de Godard. Aos 18 anos, em 1968, dinamitou seu pequeno apartamento - o que resultou no curta Saute ma ville - e não parou mais de filmar. Entre suas obras, sempre comprometidas com a experimentação e pesquisa da linguagem cinematográfica, estão Os encontros de Ana /Les Rendez-vous d'Anna, Notícias de casa / News from home, Noite e dia / Nuit et jour.

Jeanne Dielman, 23 Quai de Commerce, 1080, Bruxelas, realizado em 1975, é um dos mais importantes e significativos trabalhos da filmografia de Akerman. Classificado de hiper-realista pela própria diretora, possui afinidade com os filmes de Andy Warhol e também esbarra no minimalismo de Bresson. Segundo a própria Chantal Akerman, suas ficções derrapam para o registro documental. Em Jeanne Dielman, 23... acompanhamos três dias da rotina doméstica dessa mulher que realiza suas tarefas diárias com afinco e precisão

Apesar da realidade aparentemente dura da personagem, não sentimos compaixão por ela. Jeanne não expressa emoção alguma. Não passa felicidade nem infelicidade. Vive seu cotidiano mecânica e automaticamente. Nem a relação com o filho adquire tons mais elevados. Tudo se mantém na mesma freqüência. Até mesmo quando recebe seus clientes veste-se com recato e não há o menor vestígio de sedução. É apenas mais um ítem do dia a ser cumprido, como passar café ou colocar o lixo para fora. Tudo obedece a uma ordem rígida, praticamente imutável. A diretora filma quase todos os afazeres em tempo real, o que lhes confere tal relevância que somos chamados a olhar aquilo com muita atenção. Num longo plano fixo, assistimos ao ritual do banho de Jeanne Dielman. Ela se esfrega com uma luva que serve de esponja. Repete isso inúmeras vezes pelo corpo todo durante muito tempo. No final, lava a banheira com uma espécie de desinfetante. Essa ação aparentemente banal e corriqueira, onde nada de excepcional acontece, ganha uma outra dimensão. A respeito disso Chantal Akerman declarou: - "Acho mais fascinante ver uma mulher arrumando uma cama durante três minutos do que uma corrida de carros que dura vinte minutos."

Ao se deter longamente na descrição dos hábitos de Jeanne, com uma câmera sempre voltada para ela, a diretora consegue tornar cada vez mais visível a solidão absoluta da personagem. Uma solidão que explode na tela e atinge o espectador de modo tão provocativo que, no decorrer do filme, essas tarefas simples e banais começam a nos parecer bizarras e quase anormais. Para ela, no entanto, tudo está dentro da ordem, até que, no outro dia, ao voltar da escola, o filho repara que uma mecha do cabelo da mãe está fora do lugar. Jeanne diz que as batatas queimaram e tem que preparar outro prato. O cabelo ligeiramente desalinhado e a necessidade de providenciar o jantar novamente não teria nada de mais para a maioria de outras mulheres. No entanto, para Jeanne Dielman não é comum, não é o esperado. Somente mais tarde perceberemos que esses imperceptíveis acontecimentos serão o começo de uma desorganização que se estabelecerá até o dia seguinte. Os gestos e atitudes são os mesmos porém mais desconcentrados. Por exemplo, ao lavar os pratos esquece de enxaguar um deles, um talher cai no chão. E assim dá-se uma sucessão de pequenos deslizes, segundo o mundo imutável da personagem. A calma aparente continua até a chegada do novo cliente. Pela primeira vez vemos Jeanne tendo relações sexuais e é com a mesma emoção com que engraxa os sapatos. Ao final notamos que está um pouco incomodada. Desvencilha-se do homem, levanta-se, veste-se e o mata com uma tesoura. Depois disso, assistimos a um plano de aproximadamente sete minutos com Jeanne imóvel, impassível, sentada na sala com as mãos ainda sujas de sangue postas em cima da mesa de jantar. Um final inesperado, que desequilibra o espectador. Desfecho que parece estar em perfeito acordo com o que Chantal afirma a respeito de seus trabalhos. Ela diz que, ao contrário de outros filmes, que adicionam carne à um esqueleto, ou seja, à uma idéia, ela começa com a carne e o esqueleto aparece depois.

Jeanne Dielman, 23... foi considerado o décimo nono melhor filme do século 20 segundo o Village Voice.

JEANNE DIELMAN, 23 QUAI DU COMMERCE, 1080 BRUXELAS/ JEANNE DIELMAN, 23 QUAI DU COMMERCE, 1080 BRUXELLES (1975)
Direção: Chantal Akerman. Com: Delphine Seyrig, Jan Decorte.

por MARIZA GUALANO

[print_link] [email_link]

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *