Plano Geral: O Pornógrafo – Quanto mais quente melhor

Gosto de manter minhas convicções sem diluição, assim como meu bourbon.
GEORGE BRENT em JEZEBEL (1938) dir: William Wyler

Os cineastas brasileiros Rogério Sganzerla e João Callegaro têm muito em comum. Com apenas um ano de diferença de idade, nasceram em Joaçaba, Santa Catarina, e adoravam os filmes policiais americanos B e noir. Fizeram parte do Cinema Marginal dos anos 60-70 e lutavam pela liberdade total de expressão ao fazer cinema. Porém, o mais saboroso sinal de sintonia entre ambos é a homenagem a Constantin Katchenko, o diretor de filmes eróticos que nasceu na Ucrânia e viveu no Brasil. Em O Bandido da Luz Vermelha de Sganzerla, o personagem de Paulo Villaça entra num cinema para assistir a Superbeldades do diretor ucraniano. No filme As Libertinas, o plano final do episódio Ana de Callegaro é abertamente inspirado no mesmo filme de Katchenko.

João Callegaro, no entanto, não alcançou a mesma notoriedade de Rogério Sganzerla. Autor do já citado Ana, dirigiu um único longa O Pornógrafo, em 1970, e logo depois abandonou o cinema.

O Pornógrafo conta a história de Miguel Metralha (Stênio Garcia), paulista, classe média, filho de imigrantes italianos, empregado de uma editora de revistas gastronômicas em que realiza um trabalho burocrático e medíocre. De uma maneira muito particular, ele tenta colocar um pouco de glamour em sua vida. É noite em São Paulo. Vestindo jaqueta e boina de couro e fumando uma cigarrilha, Miguel entra num bar de jogos eletrônicos. Enquanto se diverte numa máquina de Flipper, pensa: " Nada como ser bacana! Miguel Metralha, o gângster, pô! Al Capone dos pobres!" Anda pelo lugar e vemos sua imagem se alternando com cenas de filmes em que aparecem James Cagney, Humphrey Bogart, Paul Muni e Edward G. Robinson, famosos gângsters do cinema americano que ele admira e em quem claramente se inspira para compor seu tipo. Pouco depois, numa típica cantina italiana, devora com o mesmo apetite uma bela macarronada e um exemplar da revista Playboy. No dia seguinte demite-se do emprego que já não suporta mais. Na barbearia que freqüenta, lê uma revista de histórias pornográficas e se interessa pelo assunto. Vê um enorme potencial nesse ramo e quer ingressar nele. Acha que pode inventar histórias muito interessantes e tornar essa indústria mais atraente e mais rentável. Faz contato com a editora clandestina e impressiona o editor (Sergio Hingst) dando mostras de sua fantástica imaginação. Miguel, cheio de disposição e entusiasmo, começa a trabalhar como redator. Mas nem todo seu empenho e criatividade salvam a editora de uma crise. O produto parece estar ficando obsoleto e as vendas das revistas caem, pois começam a enfrentar a concorrência das revistas eróticas estrangeiras e nacionais mais bem produzidas. Desgostoso com o rumo do seu negócio, o editor fica doente e se afasta. Em busca de apoio, Miguel procura o amigo e costureiro Peter Aster (Edgard Gurgel Aranha). Peter lhe sugere investir em diversificação, o que significa criar histórias de homossexuais, meio que conhece muito bem. Com a morte do chefe, Miguel assume seu lugar. Peter vai trabalhar com ele e faz várias mudanças na empresa. Onde antes havia fotos de mulheres nuas e uma flâmula do Coríntias, agora as paredes exibem pôsteres de Frank Sinatra e Marylin Monroe e arranjo de flores decoram a mesa do editor-chefe. Miguel sente o gostinho do poder. Porém, com a nova linha de edição, as publicações sofrem a desaprovação da protetora anônima da editora clandestina. Madame Rosália (Liana Duval), uma milionária que circula em altas rodas, considera as novas revistas um atentado à moral e aos bons costumes e retira seu apoio financeiro. Apesar do boicote, Miguel e Peter imprimem os novos títulos.

Exaustos de lutar sozinhos pela sobrevivência da pequena empresa, os dois amigos se embriagam e planejam se vingar da mecenas hipócrita. Ela passa a ser uma das maiores detratoras do escritor, que fica tomado de ódio.

Ambos tramam a morte um do outro e contratam, sem saber, o mesmo assassino de aluguel.

Madame Rosália acaba sendo morta ao som da música Meu Nome é Gal numa cena cheia de gags em que, no momento do assassinato, o canivete do bandido emperra e o cabelo da milionária começa a cair ao seu leve toque. Enfim ela é eliminada com dois tiros. Na mesma noite, um incêndio criminoso destrói a editora pornográfica. Uma voz de repórter policial relata o acontecido e o que vemos são imagens de filmes antigos de gangster inseridos no filme de Callegaro.

Perdido e sem rumo, Miguel dirige uma moto. E pelas ruas e túneis de São Paulo ouvimos seu pensamento: " A solidão na morte, o começo do fim. As regras mudaram, o jogo é outro, sozinho contra todos. O erro foi esse, jogar sozinho, sem parceiros, e essas regras novas complicam tudo. O grande jogo da mentira, gângsteres de escritório, burocratas acomodados. Antigamente era mais fácil, a Thompson resolvia tudo, RA-TA-TA, fácil, fácil. Agora eu aprendi as novas regras, o jogo de renovar. Preciso aprender as novas regras, é preciso, meu tempo acabou, o prazo se esgota, o fim não tarda." Miguel intui a morte de um tempo que não voltará.

Perambulando pela madrugada adentro, acaba num parque de diversões vazio. Completamente só e perseguido, Miguel foge. Entra na sala dos espelhos e lá move-se assustado e sobressaltado enquanto depara-se com as deformações de sua imagem refletida. Continua perseguido. É impossível não se lembrar da cena final de A Dama de Xangai, de Orson Welles. Em seguida, entra no trem fantasma. Toda a seqüência é editada com inserções de filmes de James Cagney que interagem perfeitamente com o que está acontecendo no filme de Callegaro. Finalmente Miguel é assassinado pelo mesmo matador de Madame Rosália. Não é absurdo relacionar seu fim ao de Rocky Sullivan a caminho da cadeira elétrica em Anjos de Cara Suja quando ele diz " Socorro! Eu não quero morrer!" Ou ainda ao clássico final de Fúria Sanguinária em que, antes de morrer queimado, Cody grita: "Consegui, mãe... Topo do mundo!" Os dois carismáticos personagens são interpretados por James Cagney. Miguel Metralha simpatizaria com essa associação. Miguel Metralha, um anti-herói audacioso e inventivo, um homem livre, sem amarras moralistas, editor da cultura do submundo, o gangster camarada da Boca do Lixo não se entregou nunca.

Ao contar a história de Miguel Metralha, O Pornógrafo fala sobre a possibilidade de um cinema popular, anárquico. Diz o diretor: "Parti do cinema grosso, sujo, cafona, como a vida é."

Numa época em que prevalecia a valorização do cinema político e existencial, João Callegaro faz um filme anti-intelectual, desvinculado de correntes. Um filme realizado sob o signo da irreverência e da liberdade. Ao contrário do Cinema Novo, que sofria influência européia, a linguagem do filme de João Callegaro é nitidamente americana - o clima de western, uso dos jingles, travellings e enquadramentos inspirados em Samuel Fuller, e uma homenagem escancarada a Orson Welles. João Callegaro cria com absoluta independência e se vale de um leque enorme de registros. Além do cinema americano e seus policiais B, suas referências chegam até à chanchada brasileira. E no uso desse vocabulário cinematográfico faz paródia do cinema que admira e flerta com a chanchada num tom mais ácido. A atuação de Madame Rosália é exagerada. Ao mesmo tempo em que nos remete a Gloria Swanson em Crepúsculo dos Deuses, descendo a enorme escadaria de sua mansão sinistra, nos lembra as ricaças caricatas das chanchadas de Watson Macedo e Carlos Manga. O filme também transita pelo pop. O nome do protagonista parece saído dos quadrinhos e seu linguajar é cheio de gírias da época como " barra pesada, " top top ", " bom pacas ".

O Pornógrafo tem ainda cenas antológicas repletas de deboche e sarcasmo, como a troca de presentes entre Miguel Metralha e Madame Rosália. Ele envia-lhe um livro que dá choque. Em represália, ela manda uma caixa que desfere uma série de socos no seu rosto.

Nas lembranças da infância, o Miguel menino é interpretado pelo próprio Stenio Garcia com a idade do personagem adulto trajando roupas de criança. Após armarem uma arapuca para caçar passarinho, ele e um amigo mudam de idéia. Olham maliciosamente para a câmera e correm juntos para mato. Não é a primeira vez que personagens estabelecem uma comunicação com o espectador. Em outro momento do filme Miguel dirige-se para a platéia e diz: "O amor é sujo."

O Pornógrafo foi filmado a partir de apenas 10 páginas de argumento, daí em diante a criação foi total, incluindo a improvisação de parte dos diálogos pelos atores.

Os compêndios classificam O Pornógrafo como pertencente ao movimento do Cinema Marginal, assim como O Bandido da Luz Vermelha, de Sganzerla, O Anjo Nasceu, de Julio Bressane, A Margem, de Ozualdo Candeias, e outros mais. Mas Callegaro gosta de situá-lo como um dos representantes do cinema da Boca do Lixo, que incluía desde as comédias maliciosas, chamadas de pornochanchadas (Os Garotos Virgens de Ipanema), épicos políticos (A Guerra dos Pelados), suspenses (O Estripador de Mulheres) a aventuras sertanejas e de cangaço (Luar do Sertão e Lampião, Rei do Cangaço). O Cinema da Boca produziu muitos sucessos de bilheteria. O Cinema Marginal obteve prestígio. O Pornógrafo não teve a mesma sorte. Nem por isso deixa de ter expressão dentro do panorama do cinema nacional.

João Callegaro e Miguel Metralha são autores artesanais na melhor acepção da palavra, mas não se ajustaram. Como disse Miguel, as regras mudaram e é preciso renovar. O personagem de O Pornógrafo não conseguiu. João Callegaro desistiu. Após a curta carreira do filme, lhe perguntaram o que pretendia fazer e ele respondeu: "O lance agora é fazer publicidade." O cinema lamenta.

O PORNÓGRAFO (1970) - Dir: João Callegaro. Com: Stênio Garcia, Sergio Hingst, Liana Duval, Edgard Gurgel Aranha, Francisco di Franco, Júlia Miranda.

por MARIZA GUALANO



[print_link] [email_link]

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *