Plano Geral: Hammett ─ Um Mistério em Chinatown: Hammett – Envolto nas sombras

Quando a arte mente, ela não presta. Por isso tenho de dizer a verdade, mesmo que me mate de medo, como a você.
STEVE MARTIN para KEVIN KLINE em GRAND CANYON - ANSIEDADE DE UMA GERAÇÃO/
GRAND CANYON (1991)    dir: Lawrence Kasdan

Dashiell Hammett, o detetive que se tornou escritor, revolucionou a forma do romance policial, que posteriormente veio a se chamar literatura noir. Utilizou a prosa coloquial tipicamente americana e conferiu a seus personagens mais humanidade que glamour. Hammett colocou em seus livros a vida vibrante e crua das ruas e a tratou de maneira realista através das prostitutas, traficantes, pequenos escroques, detetives, policiais corruptos, clientes desonestos e outros tipos que cobriu de autenticidade.
Ao se apropriar da estética noir, Hollywood investe fundo nesse gênero de filme e produz pérolas inesquecíveis, como Pacto de Sangue/Double Indemnity, À Beira do Abismo/The Big Sleep, Relíquia Macabra/The Maltese Falcon, esse último baseado numa história de Dashiell Hammett, entre outros.

Em 1982, Francis Ford Coppolla produz o filme Hammett-Um Mistério em Chinatown: Hammett sobre o já consagrado escritor, baseado no livro ficcional de Joe Gores, e convida Win Wenders para dirigi-lo.

Logo nos primeiros segundos do filme, após rápidos takes de uma rua qualquer de São Francisco, ouvimos o som de uma máquina de escrever, antes de saber quem está usando-a. A câmera entra lentamente pela janela de um pequeno apartamento e lá está Dashiell Hammett (Frederic Forrest) datilografando as linhas finais de uma história.

Sua casa é suja, desarrumada, cheia de livros e revistas espalhadas pelos cômodos;  pontas de cigarro abarrotam um cinzeiro à beira da cama e não há sinal de comida, mas a garrafa de uísque está sempre à mão. Ele tem uma crise de tosse, dirige-se ao banheiro e quando sai vemos um homem sentado na sua sala. Jimmy Ryan (Peter Boyle) é detetive e antigo parceiro de Hammett. Ao trocarem três ou quatro frases ficamos sabendo que os escritos deixados sobre a mesa falam do velho companheiro de Hammett.

O ex-detetive Dashiell Hammett largou a profissão e agora se dedica à literatura policial. Ryan, porém, quer a ajuda do astuto investigador que ele foi, e não do escritor.  Precisa descobrir o paradeiro da jovem chinesa Crystal Ling (Lydia Lei). Hammett não pode recusar o pedido do amigo, é um ajuste de contas do passado. Em busca de informações eles andam por vielas, passam pelos habitantes do bairro, entram em becos. Durante essas investigações Hammett tem seu manuscrito roubado. Mais tarde, a misteriosa Crystal Ling aparece em seu apartamento.  Insinuante e dissimulada, a jovem dá a entender que é perseguida por um jornalista inescrupuloso de nome Salt (Jack Nance), pelo poderoso gangster Fong (Michael Chow) e pelo próprio Ryan. Ling não parece apavorada. A esta altura, o ex-detetive está imbuído da incumbência. Quer ir até o fim e recuperar seu manuscrito. Procura Fong, mas torna-se seu prisioneiro e acaba se deparando com Ryan, que estava desaparecido.  Quando conseguem escapar desse lugar caem nas mãos de um policial. São informados do assassinato de Crystal. Hammett é chamado para reconhecer o cadáver, mas desconfia, pois o rosto está desfigurado. Assiste a um filme pornográfico projetado por um policial onde aparece a jovem Ling. Esse é um caso em que ninguém parece ser inocente.

Desanimado e cada vez mais descrente Dashiell Hammett faz seu caminho de volta para casa e é nesse trajeto que encontra algum aconchego. Passa pelo dono do bar, por um velho empregado, pela senhora que cria patos na vizinhança, todos cumprimentam-no com carinho. O escritor coleciona afetos e é um tipo querido e estimado por ali. Nem o jeito seco e cínico consegue esconder uma integridade como poucos possuem. Antes de abrir a porta de casa testemunha uma brincadeira de três crianças que completa seu breve momento de leveza naquele dia. Quando entra no seu apartamento, os móveis estão revirados e as paredes cobertas de “sangue”. Não se impressiona com avisos ameaçadores, eles fizeram parte de sua vida durante muito tempo. E sua tranqüilidade se completa ao ver sua máquina de escrever intacta.

Agora nada o detém. Continua sua investigação. As perdas se acumulam. Ryan sumiu novamente, Crystal Ling está aparentemente morta e, sobretudo, seu manuscrito continua desaparecido. A trama começa a se desvendar quando descobre que Fong e os grandes figurões da cidade estão sendo chantageados por alguém que tem fotos comprometedoras de todos eles com a jovem Crystal Ling. Hammett é encarregado da negociação com os chantagistas. Ele deixa claro que não quer dinheiro nem recompensa alguma ─ apenas seu manuscrito de volta. Fong fica curioso e lhe pergunta se o que escreve é invenção ou se é tirado da vida real. E Sam Dashiell Hammett admite que  sua inspiração vem da vida real.

Na troca dos negativos das fotos pelo dinheiro um dos trapaceiros é morto. Para tristeza de Hammett, é seu ex-parceiro Jimmy Ryan, que é traído por Crystal Ling que também acaba morta. Devolve os negativos tão desejados, mas seu manuscrito, com a confusão das mortes e transações, foi parar nas águas da baía de São Francisco.

Já no aconchego daquilo que se pode chamar de seu lar, Hammett volta para o que agora é realmente sua missão. Senta-se em frente à máquina de escrever e começa a contar a história que acabou de viver.

Hammett é uma clara homenagem aos filmes noir da década de 40 e 50. Filmado em cores, de forma clássica, foi inteiramente produzido em estúdio. É ambientado em Chinatown, um bairro de São Francisco, mas tudo parece falso.

As inscrições chinesas em vermelho vibrante contrastam com as paredes cinzas e sujas do bairro, e isso ajuda a passar a artificialidade do cenário. Mesmo quando deixa os estúdios, a ambientação não é natural.

Uma rápida tomada de um enorme edifício que emite uma luz azulada, fria, contrasta com o céu azul metálico de São Francisco. Quando Hammett e Ryan são capturados por Fong acabam imersos numa espécie de submundo habitado por prostitutas, drogados, jovens aprisionados, onde tudo parece encenação. A cena é propositalmente teatral. Estão presentes também todos os elementos cinematográficos que fazem parte desse gênero de filme. Gomes de Mattos, autor do livro O Outro Lado da Noite: Filme Noir, classificou-os com muita precisão. Ele diz que existem decorações noir (venezianas, luzes de neon), figurinos noir (chapéus com aba virada para baixo, capas de chuva, ombreiras), acessórios noir (cigarros, aperitivos, revólveres), estilos musicais noir (trilhas orquestrais e melodias tristes de jazz).  Toda essa opção estética confere personalidade ao filme. Porém, essa não é a opinião do diretor.

O adolescente Win Wenders, que cresceu na Alemanha pós-guerra, tinha profunda admiração pelo país que produziu o rock, o jazz, os míticos faroestes de John Ford e Anthony Mann e o cinema noir. Filmar nos EUA um argumento sobre Dashiell Hammett parecia muito atraente. No entanto, as filmagens de Hammett foram um verdadeiro pesadelo para ele. Por conta das exigências da produção, as brigas eram inúmeras. Wenders não conseguiu imprimir sua autoria ao filme, a começar pela fotografia, que ele preferia em preto e branco.

Apesar de tudo, para felicidade geral dos que amam o cinema, nos intervalos das gravações de Hammett, tomado pela fúria e contrariedade, o diretor alemão escreveu, produziu e dirigiu O Estado das Coisas/Der Stand der Dinge.

O filme, queacabaria sendo uma reflexão sobre o processo cinematográfico e sua realização, aborda o choque entre o cinema autoral e o cinema de indústria e, de quebra, faz uma crítica a Coppolla e a todo o esquema hollywoodiano de fazer cinema.

Como foram realizados ao mesmo tempo, a correlação entre eles foi inevitável. Primeiramente, é preciso dizer que O Estado das Coisas é em preto e branco. Opção registrada também em palavras pelo personagem Joe (Samuel Fuller) ao dizer:”Bem, a vida é colorida, mas o preto e branco é mais realista.”

Em O Estado das Coisas, o diretor de cinema Friedrich Munro (Patrick Bauchau) deixa sua equipe de filmagem e vai à procura do produtor Gordon (Allen Garfield), pois este o deixou sem dinheiro, e acaba encontrando o mundo do crime e a morte. Na verdade, ele faz o caminho inverso ao do personagem principal de Hammett. Neste filme, o ex-detetive e atual escritor, circula mais uma vez pelo mundo do crime, mas volta para a literatura, que se torna o maior objetivo da sua vida.

Diálogos que se relacionam e respostas ao padronizado esquema de Hollywood fazem parte dos dois filmes. Em O Estado das Coisas, durante uma discussão sobre os problemas com a realização do filme, o ator Robert (Geoffrey Carey) refere-se ao produtor com desprezo, como se ele fosse falso e enganador, num tom claramente irônico: “O Sr. Gordon, o gênio americano...” Mais tarde, o diretor Friedrich Munro dirá  que um filme tem vida própria; não é, portanto, uma casa pré-fabricada.

Em Hammett, a personagem Kit (Marilu Henner), amiga e amante do escritor, diz: “Isso não é como uma de suas histórias.” E ele lhe responde com uma pitada de sarcasmo: “Nunca é como uma história.”

No filme O Estado das Coisas, o diretor Munro fala: “As histórias só existem nelas mesmas.” E em outro momento o ator Robert (Geoffrey Carey) ratifica: “A vida sem histórias não vale a pena ser vivida.”

É ainda o filme O Estado das Coisas que traz o diálogo mais emblemático desse conflito, respectivamente, entre o produtor e o diretor:

−“Como fazer um filme sem uma história? É como construir uma casa sem paredes.”

−“Não precisa de paredes, o espaço entre os personagens suporta.”

Não só de falas vive a relação dos dois filmes, mas também de imagens. Em Hammett fica muito claro o amor do escritor pela sua máquina de escrever. Não poderia mais viver sem ela. Em O Estado das Coisas, num momento inesquecível do filme, um plano relativamente longo mostra as locações do filme que está sendo feito e termina com a imagem de uma máquina de escrever que está majestosamente colocada num suporte, como se fosse um pedestal, com uma folha em branco.

O Estado das Coisas é autoral, independente, subjetivo. Hammett, por sua vez, possui uma narrativa clássica. Os dois filmes se abraçam e se rejeitam. O mais interessante nesse processo, porém, é que talvez um não existisse sem o outro.

HAMMETT / UM MISTÉRIO EM CHINATOWN: HAMMETT (1982) – Dir: Win Wenders. Com: Frederic Forrest, Peter Boyle, Lydia Lei, Marilu Henner, Elisha Cook Jr.

por MARIZA GUALANO

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