SHORT CUTS: Os ventos uivantes de Béla Tarr – por Mariza Gualano

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“Pode-se imaginar a fúria do vento soprando sobre a propriedade pela excessiva inclinação de alguns enfezados abetos plantados na extremidade da casa e por uma fila de esquálidos espinheiros, todos estendendo os seus membros na mesma direção, como se pedindo esmolas ao sol.” A descrição que Emile Bronté faz do vento que bate nos campos das terras de Heatclift, em O Morro dos Ventos Uivantes, se transformadas em imagens poderiam perfeitamente passar por cenas dos filmes de Béla Tarr, tal a força que a natureza tem na sua cinematografia. Nas realizações do diretor húngaro ela tem enorme ingerência na vida dos personagens e na forma como a história é contada; em especial, o vento.

Em Damnation/Kárhozart de 1988, vê-se que fora do Titanik Bar chove sem parar. Há vento e  fog. Num plano longo, as pessoas estão em frente às janelas olhando a água escorrendo pelas vidraças. Em outro momento, bebem e dançam indiferentes à insistência da chuva. E entre nuvens de terra e poeira, o vento que corta, dança, luta. Muitas vezes ele é o único som que ouvimos no filme, o que leva o narrador a dizer: “O vento ainda varre a terra implacavelmente na mesma direção.”

Lançado no ano de 2000, no filme Harmonias de Werckmeister/Harmóniák Werckmeister, os personagens Janos e Gyuri  estão à caminho da praça do mercado para ver a baleia gigante lá exposta.  Janos está impressionado com seus 20 metros de comprimento e diz ser possível olhá-la por dentro. Os dois vão até lá andando lado a lado. O vento sopra sem parar durante o trajeto deles. Os cabelos de Janos são jogados para trás com a força do vento e Gyuri segura firme o chapéu na cabeça o tempo todo.  Essa cena aparentemente banal adquire tons instigantes e misteriosos, pois é filmada em plano sequência onde por mais de dois minutos acompanhamos os dois homens em direção ao seu objetivo.

Em 2007, Béla Tarr fez O Homem de Londres/A Londoni Férfi. No filme, sentimos a presença do vento mais discretamente. Ambientado na beira do mar, o intenso nevoeiro que atravessa quase todo o filme se dissipa por conta de um vento tímido, praticamente uma brisa, que entra sutilmente no cais do porto onde se passa a maioria das ações do filme.

“Em algum lugar no campo. Um fazendeiro, sua filha, uma charrete e um velho cavalo. Lá fora, o vento sopra.” A sinopse do filme O Cavalo de Turin/ A Torinói Ió feito em 2011, já antecipa a importância do vento na história. Ele contracena o tempo todo com os protagonistas. Não dá trégua. É inclemente e incansável. Quando a filha de Ohlsdorfer sai de casa alguns instantes para pegar água, ele se mostra, se exibe mais, e faz as folhas dançarem em volta do poço. São momentos que aumentam muito a tensão que percorre todo o filme.

Mas talvez a presença do vento tenha sido ainda mais expressiva em Sátántangó de 1994. No épico de sete horas e meia, essa força da natureza nunca foi tão bem representada e aproveitada para passar o clima pós apocalíptico do filme.  Numa das mais belas cenas do cinema, vemos dois personagens caminhando de costas contra um vento incessante, em que os homens são acompanhados por folhas de papel e caixas de papelão que o acompanham em todo seu percurso até finalmente se levantarem  e envolvê-los num rodamoinho.  É ao mesmo tempo soturno e poético.

Muito depois de Emile Bronté, o vento também impressionou o compositor e cantor Bob Marley, que nos deixou os seguintes versos: “os ventos que às vezes tiram algo que amamos são os mesmos que trazem algo que aprendemos a amar...”

No cinema, o vento também leva, traz, permanece e transforma.

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Uma opinião sobre “SHORT CUTS: Os ventos uivantes de Béla Tarr – por Mariza Gualano”

  1. Adorei! Mariza Gualano escreve e descreve muito bem o resumo e a resenha dos filmes. Parabens! Não deixem de ler a coluna Short Cuts!

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