SHORT CUTS: Um obscuro objeto de desejo – Mariza Gualano

Segundo o Novo Dicionário Aurélio da Língua Portuguesa, xícara é uma pequena vasilha com asa para servir em especial bebidas quentes, como café, chá e leite. Para Houaiss, seu sinônimo é chávena. A Wikipédia a descreve como um pequeno recipiente em forma de taça com uma pega ou alça que permite sustentá-lo com o polegar e um ou dois dedos. Geralmente são feitas de porcelana, cerâmica ou vidro. Nos filmes, porém, as xícaras têm muito mais graça do que nas descrições e sinônimos.

A xícara presente no filme de Andrej Wajda, Tudo à Venda/ Wszystko na Sprzeda (1969), é prova da passagem de um ator morto em determinado lugar. O objeto de cena, presente para um amigo, tornou-se um símbolo dentro do filme. A disputada xícara termina solitária, coberta de sangue.

Zip é um menino esperto e corajoso transformado em xícara no desenho A Bela e a Fera/ Beauty and the Beast (1991), dirigido por Gary Trousdale e produzido pelos Estúdios Disney. Mesmo sob feitiço ele colabora com a fuga de Bela para ajudar a Fera. Ainda sob a supervisão de Disney e com direção de Clyde Geromini, dois clássicos do cinema de animação nos oferecem deliciosos momentos onde as xícaras têm papel importante.

A malvada Cruella, com suas mãos longas e dedos finos, segura sua inseparável piteira. Num gesto de desprezo e arrogância, bate a cinza do cigarro dentro da xícara de chá oferecida pela gentil Anita, no desenho 101 Dálmatas/ One Hundred and One Dalmatians (1961). No outro clássico, a menina Alice participa do chá do Chapeleiro Maluco, em Alice no País das Maravilhas/ Alice in Wonderland (1951). Entre bules dançantes e xícaras azuis, rosas, verdes e amarelas, há também uma xícara partida ao meio que ainda assim retém o líquido fumegante.

Já no chá do Alice no País das Maravilhas/ Alice in Wonderland (2010) de Tim Burton, o insano chapeleiro vivido por Johnny Depp atravessa a mesa em meio a alguns pratos e xícaras quebradas, puxando pelo braço a pequena Alice interpretada por Mia Wasikowska, para começarem o ritual do chá.

Em Minha Bela Dama/ My Fair Lady (1964), do diretor George Cukor, a desajeitada e ignorante Eliza, personagem de Audrey Hepburn, em uma de suas lições de dicção, tem que pronunciar “xícara de café” dezenas de vezes. Durante o chá da tarde com Rex Harrison, como o Professor Higgins, seu rigoroso mestre, ela repete “cup cup cup cup of of of of of tea” até adquirir uma pronúncia perfeita.

Pouco mais de uma dúzia de copos recém lavados, empilhados e emborcados. Em primeiro plano, uma xícara de vidro. É uma louça barata, vagabunda. Por mais de dois minutos, a imagem toma toda a tela do filme Danação/ Kárhozat (1988), do húngaro Béla Tarr. A câmera caminha mais um pouco, encontra mais copos e mais uma xícara. As duas xícaras permanecem soberanas em primeiro plano enquanto acontece um diálogo, mas continuamos vendo somente as duas xícaras no balcão do bar.

Em Sobre Café e Cigarros, de Jim Jarmusch, as xícaras são tão protagonistas do filme quanto os atores principais. As xícaras de café tomadas por Roberto Benigni em cima da mesa quadriculada parecem peças de jogo de xadrez. No episódio “Os Gêmeos” uma xícara contem café forte e a outra um café mais fraco. Elas são onipresentes, podem estar nas cantinas, em cerâmica branca em cima de toalhas xadrez ou em mesas redondas com pires quadrados, em um hotel sofisticado.

Jorge Perugorría é um homossexual culto e divertido. Ele convida Vladimir Cruz, um jovem universitário ingênuo e simples, para um chá onde serve a iguaria indiana em xícaras de porcelana francesa, tornando o ritual inesquecível em Morango e Chocolate/ Fresa y Chocolate (1994), dos cubanos Tomás Gutiérrez Alea e Juan Carlos Tabío.

No cinema, uma xícara pode intrigar, irritar, unir e até falar.

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