Imagem imaginada – Francisco Valdean

IMAGEM IMAGINADA - meus filhos, o mundo tem encolhido e vai encolher ao ponto de caber na palma da mão

­Prédios da Av. Rio Branco - Centro do Rio de Janeiro

Imagem de Memória → Campo → Cidade

Quando criança gostava de ouvir estórias contadas e num desses momentos ouvi de um velho viajante a contação de suas muitas idas e vindas ao sudeste.  Com certa empolgação o contador disse  sobre os prédios altos da cidade grande. “Os prédios são tão altos, mas tão altos que ao olhá-los verticalmente tive a sensação destes caindo sobre minha cabeça”.  No contexto, a cidade grande era Rio de Janeiro e São Paulo. Cidades que seu Péricles, o contador,  dizia-se conhecedor. Péricles na época viajava por todo o Nordeste no lombo de mulas vendendo redes e cobertores tecidos em teares a duas mãos de habilidosas senhoras donas de casa.
Péricles no exercício da profissão percorria todo o Nordeste levando consigo redes, cobertores e muitas estórias. As redes e cobertores eram vendidos, as estórias ele nos contava, era uma espécie de brinde oferecido à sua freguesia.  Além de conhecedor da vida nordestina, também carregava consigo experiências de suas muitas idas e vindas quando jovem ao sudeste. Destas experiências relatava impressionantes estórias vividas por ele na cidade grande.
Os menos crentes da veracidade de seus "causos" diziam ser ele um velho mentiroso que falava de “grandes carros que viajam por dentro do chão” e de “gigantes pássaros de metal voadores que cortavam os ares da cidade em alta velocidade”. Na ocasião, numa roda composta por crianças, o velho contador,  em tom profético, nos revelou algo digno de impressionar qualquer um:  “meus filhos, o mundo tem encolhido e vai encolher ao ponto de caber na palma da mão”.
A imagem do mundo que cabia na palma da mão e dos prédios que caiam transformou-se em minha imaginação livre de criança em imagens fantásticas. Os prédios altos e retorcidos ganharam vida, caíam e levantavam-se conforme o desejo do vento.
Quando em 1995 cheguei ao Rio de Janeiro, o contato com os prédios altos me ativou as lembranças daquelas construções impressionantes imaginadas a partir do que me disse seu Péricles. As construções por mim criadas eram dignas de arquitetura ainda não existente nas cidades. Mas aí veio a decepção, tive vergonha do que havia imaginado, os prédios reais não tinham nada de fabuloso, não tinham vida, não eram da forma como os imaginei. Prevalecia a altura. Os paredões dos prédios causam sensação de apequenamento, principalmente, para quem não é habituado com a forma vertical de morar. Outro aprendizado me foi impresso: a dimensão poética da memória da imaginação e das estórias contadas.
A imagem dos prédios retorcidos caindo povoou por muito tempo meu imaginário, mas acabou afogando-se no mar de acontecimentos impressionantes que a cidade grande propicia.
O tempo correu, a vida andou e a vivência corroeu o poético do meu mundo imaginário que habitava os prédios vivos. Mas no meio do processo de corrosão que a cidade grande me submeteu aprendi a fotografar. Por diversas vezes fotografei no centro do Rio e até no centro de São Paulo, mas nunca tive lembranças da imagem imaginada dos prédios.

Quase como uma prova de que as lembranças nunca morrem, um dia desses, ao fotografar no entroncamento da Av. Presidente Vargas com Av. Rio Branco, fiquei de cara com a imagem de memória imaginada. Não tive tempo para dúvidas. Com um aperto de botão aprisionei a imagem antes que escapasse novamente, mesmo não sendo os prédios que por tempos habitaram meu imaginário de criança. Ao editar a imagem a dupliquei, assim me aproximava da imagem imaginada quando ouvi as memórias do velho Péricles.


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