A fascinação do começo – Paulo Domenech Oneto

A questão do começo é sempre uma questão difícil, não apenas em filosofia, mas na vida e no pensamento em geral. Aliás, é exatamente por se tratar de uma questão difícil na vida e no pensamento em geral que ela se torna relevante e também difícil para a filosofia. Falo de começo em diversos sentidos. Como começar algo? Por onde começar? Quando começamos efetivamente? Quais as condições para que algo tenha início? Como e por onde, por exemplo, começar uma coluna que pretende tratar de filosofia num espaço ainda (?) não demarcado como “filosófico”? Assim também, de um ponto de vista erudito ou técnico (freqüentemente confundido com a prática filosófica), nas vezes em que tentamos datar o início da filosofia ocidental ou quando nos embrenhamos em debates propedêuticos sobre o que é preciso saber antes de começar um aprendizado, isto é, antes de começar a saber mesmo.

Talvez seja possível simplificar filosoficamente a questão, complicando do ponto de vista prático: não há começos absolutos, pois estamos sempre começando ou - como no caso da grama que nunca sabemos quando cresce (Pasternak) - porque nunca sabemos quando começamos efetivamente. Simplesmente começamos...

Trata-se de uma complicação do ponto de vista prático, pois a hesitação persiste. Como iniciar uma vida nova após um acontecimento traumático? Quando o aprendiz pode se arriscar na piscina sem bóia? Quais as etapas de transição?

É aí mesmo, na palavra “transição”, que se encontra uma chave para o problema. É aí que uma resposta simples aliada a um conselho ou encorajamento pode emergir: “tudo acontece aos poucos”, “é preciso dar tempo ao tempo”, “quando menos esperamos já está começado”, “tenha paciência”. Esses tipos de resposta estão longe de constituir uma solução, mas servem para nos tranqüilizar e, a partir daí, preparar para um começo (justamente). Tranqüilizados, podemos colocar o foco no que realmente importa: não tanto a pergunta sobre como e por onde começar, mas sim a pergunta sobre o que queremos e como podemos compreender e dar força a esse querer. Com isso, qualquer começo pode começar. Uma vez colocado o problema do querer, que é base de qualquer começo, podemos começar o que quer que seja. Inclusive esta coluna.

Eis acima um pouco da dificuldade de uma filosofia prática. Pois a filosofia consiste - como pretendo fazer ver nesta coluna, semana após semana - em criar conceitos diante de problemas que precisam ser postos. Mas os conceitos não são soluções e sim encaminhamentos de solução. Ocorre que, na “prática”, há urgências. Como lidar com elas? Como suspendê-las com conselhos e encorajamentos sem banalizar a situação? E sem irritar ou desanimar o interlocutor... Como suspendê-las sem colocar tudo a perder?

É preciso cuidado neste ponto. Qualquer pedido de paciência porque, afinal, “tudo é transição”, exige ainda que a transição ou processo em questão seja apresentado em detalhe, esmiuçado, distinguido, contextualizado em função do querer que está em jogo. Por esta razão o filósofo jamais é um mero conselheiro. Por esta razão também, o melhor filósofo talvez seja aquele que pede para esperar. Não se trata de gosto, mas de pressentimento... Talvez todos nós comecemos a fazer filosofia quando pressentimos que é preciso tempo. E talvez pressintamos que é preciso tempo porque tudo aparece diante de nós de modo ao mesmo tempo fascinante e embolado. Tudo aparece misturado e nos deixa confusos. Mas talvez a confusão não deva ser vista como um handicap, mas sim como uma condição para o pensamento. O pensamento se erguendo da confusão e solicitando tempo.

A filosofia não começa na admiração ou espanto (thauma grego), e por meio da colocação de problemas, para superá-los deixando-os para trás. A admiração é fascinação que deve permanecer sempre. E o objetivo da atividade filosófica é problematizar sempre.

Então pensei num título para esta coluna: misturas. Mas num sentido positivo. Misturas que nos fascinam. Misturas constitutivas da realidade e que, por isso mesmo, necessitam ser afirmadas. Mas afirmar não é aceitar e pronto. Afirmar é estimular, produzir, manter a fascinação do começo. Seja lá onde tivermos começado, com as dificuldades inerentes a todo começo... A filosofia pode, desde então, aparecer como uma arte de distinções que não nega o “não-ainda-distinguido”, o embolado, o misturado, a geléia geral da realidade. Ao contrário, ela aparece como uma atividade que visa manter a fascinação da vida feita de misturas, permitindo que comecemos sempre, outra vez.

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