A repetição – Paulo Domenech Oneto

Além de “retomada”, há outro título em português para a mesma obra de Kierkegaard (Gjentagelsen) publicada em 1843, sob o pseudônimo de Constatin Constatinus. A tradução alternativa é “repetição”. Enquanto retomada ajuda a enfatizar o engajamento com relação ao porvir, a persistência e a fé no caminho de vida escolhido por cada um de nós; repetição destaca a relação entre os instantes desta vida. Assim, por exemplo, ao me propor retomar esta coluna, eu estaria me engajando a elevá-la a um estágio mais elevado de acabamento. Na retomada repete-se com o intuito de transfigurar. Por outro lado, no que concerne ao tempo, trata-se de observar que todo instante é único e de igual valor, restando ver justamente o modo como dois instantes podem aparecer vinculados uns aos outros, o “segundo” como uma transfiguração do “primeiro”. Deste ponto de vista, a diferença extrínseca entre esta coluna e outra que a repete precisa ser redobrada por uma diferença superior, que só pode ser estabelecida por meio de uma determinação própria de uma delas que, então, se distingue ou se destaca. Em suma, a diferença “entre” duas coisas é superficial e extrínseca. Ela depende da diferença “de” uma com relação à outra. A repetição precisa ser retomada.

Normalmente tendemos a conceber a repetição como um movimento quase mecânico em que a diferença permanece “entre”, e não “de”. Mas, para Kierkegaard, esta concepção é parcial ou mesmo falsa. A verdadeira repetição não é a que vemos na natureza – mecânica ou “estética” –, mas sim aquela querida no instante como transfiguração, como renovação em que o novo acaba por realizar “de uma vez por todas” o que era feito até aqui. Assim, no livro que estou citando, o jovem confidente de Constatinus se mantém perto demais da natureza e incapaz de mudar. Por outro lado, se tomarmos o herói bíblico Jó, veremos alguém que se sacrifica por amor a algo mais elevado, fundamento da natureza. E é por isso que ele, ao contrário do jovem personagem do livro, pode mudar e recuperar (retomar) tudo o que havia perdido, obtendo ainda mais como recompensa divina (vide Bíblia).

A decisão de pensar surge aqui como consciência assumida de um sacrifício, de uma entrega a algo pelo qual decidimos viver. Eis porque as chamadas filosofias da existência se pretendem kierkegaardianas. Para elas, trata-se, acima de tudo, de afirmar um pensamento comprometido com a vida, coerente com nossas escolhas, segundo a linguagem comum. Contudo, esta re-vinculação do pensamento com a vida (pois é da vida, afinal, que emerge o pensamento) se dá de modo diferente em Nietzsche.

Como Kierkegaard, Nietzsche também marca uma ruptura com a tradição filosófica de então (século XIX), encarnada no chamado idealismo alemão. Como Kierkegaard, a questão do tempo é tematizada como essencial para libertar o pensamento dos esquemas de pretensão puramente lógica de produção de verdade. Mas a desconfiança com relação a tais esquemas não leva Nietzsche a buscar um enraizamento naquilo pelo qual nos entregaríamos e que seria fundamento de nossa existência. Pois, na realidade, uma entrega deste tipo é apenas um sintoma de que algo já se perdeu na vinculação do pensamento com a vida.

Em Nietzsche, as repetições não são mecânicas. Não há, portanto, razão para virar as costas para uma natureza repetitiva em nome do espírito como capaz do gesto fundamental do sacrifício. Em lugar de retomada, Nietzsche acena com o que ele chamou de “eterno retorno” numa releitura (retomada?) dos gregos. Se há alguma entrega na vida, ela é entrega à própria vida identificada com a natureza, ainda que esta deva ser concebida de modo mais sutil do que à primeira vista. Um olhar mais atento à natureza revela que ela é sempre nova. Entregar-se à vida-natureza é, então, entregar-se à sua reinvenção permanente. Esta independe do espírito como consciência.

Mas o que diz a regra nietzscheana do eterno retorno? Que o que quer que queiramos, é preciso querer de tal modo que queiramos, inclusive, o seu eterno retorno, da mesma maneira que antes, na mesma ordem. Sem isso permanecemos incapazes de mudar no presente. Ficam sempre as arestas do passado. O novo está sempre presente, mas só pode ser vivido por meio desta afirmação plena do que acontece. A afirmação faz do que é feito algo que é para ser feito “todas as vezes”, eternamente.

Assim, se o eterno retorno nietzscheano não é a retomada kierkegaardiana é porque ele não implica qualquer hipótese de transcendência. O que “retorna” não é o novo “de uma vez por todas”, mas sim o novo que só pode ser vivido plenamente se afirmado “para todas as vezes”. A imanência kierkegaardiana é imanência do absoluto que não se separa (é o próprio sentido do termo “imanência”) da vida e do pensamento. O absoluto está sempre presente, mas só aparece nas retomadas, única via de acesso ao porvir. Por sua vez, a imanência nietzscheana é o único absoluto, implicando uma relação mais próxima entre vida e pensamento. A imanência se manifesta no presente, e este necessita ser afirmado em seus conteúdos para que nos livremos dos pesos do passado e nos abramos para o porvir.

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6 opiniões sobre “A repetição – Paulo Domenech Oneto”

  1. Caro Paulo
    O eterno retorno nietzscheano pressupõe, segundo Roberto Machado, uma hipótese ética. Agir de tal forma , “como se” aquele agir fosse se repetir pela eternidade. Talvez esse seja o mais potente princípio ético de todos os tempos, o grande feito de Nietzsche , na minha opinião. Quando você coloca o desejo junto com essa perspectiva, amplia o alcance do eterno retorno,colocando-o na forma mais próxima do seu sentido original, tornando-o não apenas um princípio ético, como também uma possibilidade de dar a cada gesto nosso a maior intensidade possível. O conceito mais duro de Nietzsche e aquele contra o qual o nosso senso comum se rebela (não sem motivo) é o do amor fati. Amar o destino seja ele qual for, é uma tarefa intransponível. Nietzsche foi um homem solteiro, não teve filhos,não teve uma companheira. Sua única amante foi a própria vida que não lhe correspondeu o amor tão dedicado. Aceitar o destino dá pra encarar. Amá-lo, seja ele qual for é, um dos muitos equívocos nos quais incorreu esse grande pensador o qual admiro, mas tenho minhas restrições (quando se refere às mulheres por exemplo). Obrigado por mais este excelente texto.

  2. Caro Vlad
    Li o seu comentário, e quis logo respondê-lo, pois esta questão – o amor fati – penso muito nela, ela está sempre presente no meu cotidiano, mesmo no mais banal. Só que o Deleuze fala sobre isto numa página da Lógica do Sentido de uma forma tão magnífica, que não tive vontade, ou coragem, de acrescentar nenhuma palavra minha. Segue um fragmento do texto dele:

    (…) Que quer dizer então querer o acontecimento? Será que é aceitar a guerra quando ela chega, o ferimento e a morte quando chegam? É muito provável que a resignação seja ainda uma figura do ressentimento, ele que, em verdade, tantas figuras possui. Se querer o acontecimento significa primeiro captar-lhe a verdade eterna, que é como o fogo no qual se alimenta, este querer atinge o ponto em que a guerra é travada contra a guerra, o ferimento, traçado vivo como a cicatriz de todas a feridas, a morte que retorna querida contra todas as mortes. (…) “À meu gosto da morte, diz Bousquet, que era falência da vontade, eu substituirei um desejo de morrer que seja a apoteose da vontade”.

    Deste gosto a este desejo, nada muda de uma certa maneira, salvo uma mudança de salto no próprio lugar de todo o corpo que troca sua vontade orgânica por uma vontade espiritual, que quer agora não exatamente o que acontece, mas alguma coisa no que acontece, alguma coisa a vir de conformidade ao que acontece, segundo as leis de uma obscura conformidade humorística.

    É neste sentido que o Amor fati não faz senão um com o combate dos homens livres. Que haja em todo acontecimento minha infelicidade, mas também um esplendor e um brilho que seca a infelicidade e que faz com que, desejado, o acontecimento se efetue em sua ponta mais estreitada, sob o corte de uma operação (…).

    (…)”Torna-te o homem de tuas infelicidades, aprende a encarnar sua perfeição e seu brilho”. Não se pode dizer mais nada, nunca se disse nada mais: tornar-se digno daquilo que nos ocorre, por conseguinte, querer e capturar o acontecimento, tornar-se o filho de seus próprios acontecimentos e por aí renascer, refazer para si mesmo um nascimento, romper com seu nascimento de carne (…). Lógica do Sentido, capítulo Da Comunicação dos Acontecimentos.
    Um abraço, Marici

  3. O comentário é perfeito,e remete exatamente para a diferença entre voltar-se para o passado ou recordar-se ou repetir ou afirmar o acontecimento, voltar-se para o futuro. Citar a vida pessoal do Nietzsche ou a nossa é perder a questão, é tentar humanizá-la. É preciso ir além do humano, que somos nós, para compreender-se a grandiosidade do que Nietzsche está dizendo.

  4. Oi Vlad,

    Os comentários acima (editoria e Silvia) me parecem perfeitos. Por isso não vou acrescentar muita coisa. Só dizer que, pra Nietzsche, não se trata de saber se dá ou não “para encarar” – para usar os termos que vc empregou. A questão me parece outra. Trata-se, com relação ao presente, de querer por inteiro. E trata-se, com relação ao passado que te inquieta (DESTINO), de AMAR sim – não o que acontece e sim o que no acontecer o ultrapassa. Eventum tantum.
    Taí, talvez eu possa fazer a coluna 8 sobre isso.
    Obrigado a vc, editoria e Silvia. Continuamos conversando.

  5. Obrigado a todos. Falei de propósito a partir do senso comum.Como um homem das ruas. Alguém que se espanta com um conceito que ainda não entendeu totalmente . Amor fati é , nesse sentido, antes de uma superação sobrehumana, algo intransponível. Agora, dando um passo adiante com essa ajuda maravilhosa começo a entender a perspectiva além do homem que se entrega ao sofrimento e perde a sua potência criativa. Como artista o ser humano tem que estar à altura de sua própria história, ela e´ a sua corôa, Sobrepujar o sofrimento fazendo dele mesmo a matéria prima de sua arte. Coragem de seguir adiante. Mas Russel e Giacóia jr falam em crueldade. O primeiro de forma enfática(ver no youtube) o segundo no sentido de não permitir qualquer concessão ao pensamento comum, a qualquer conforto metafísico tradicional. Não passo a amar o destino que leva um a um os meus entes queridos. Mas não se trata disso. Pelo que entendi é o caso de incorporar toda história da própria vida como potência, bem dentro daquele aforismo: Aquilo que não me mata me fortalece (não lembro se são essas as palavras exatas).Grande abraço mais uma vez obrigado!

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