Vida e obra: 2ª interlocução – Paulo Domenech Oneto

Volto ao primeiro comentário feito semanas atrás à minha coluna de número 6. Penso, inicialmente, numa outra coisa. Penso na necessidade de alterar o próprio modo de apresentação destas Misturas. Talvez seja preciso colocar todas as colunas até aqui publicadas numa lista de links, em seqüência, com seus respectivos números. Afinal, tenho me referido a elas desse modo.

Enfim... Depois de afirmar a impossibilidade de um amor integral ao destino, o leitor que registrou o comentário tentava explicar o “equívoco” de Nietzsche – “equívoco” em acreditar naquele amor – fazendo referência à vida do filósofo. Parecia sugerir ainda, nas entrelinhas, a relação inversa. Acreditar na “quimera” do amor fati também poderia explicar os desdobramentos posteriores da vida do filósofo.

Vemos aí as duas ilusões em que incorremos facilmente quando pensamos a conjunção vida e obra de um pensador. Volto a dizer que não me interessa por ora a questão da possibilidade ou impossibilidade de se afirmar tal amor. Tampouco pretendo antecipar a discussão acerca de como chegar a esse tipo de afirmação. O que me preocupa aqui é o argumento de causalidade empregado no comentário. Grosso modo tende-se a proceder assim: o pensador viveu de certa maneira e, por isso mesmo, pensou isto ou aquilo. Ou inversamente: o pensador pensou isto ou aquilo e, por isso mesmo, viveu (e morreu) daquela maneira. No primeiro caso, tenta-se explicar a obra pela vida. É o argumento mais comum e, diga-se de passagem, menos grave. No segundo caso, tenta-se explicar a vida pela obra. É o argumento mais complexo – e por isso menos comum –, e mais grave.

Analisemos a situação em detalhe. Explicar a obra pela vida parece algo bastante razoável. Afinal de contas, são aos encontros da vida que nos fazem pensar. E não é de outra maneira que são feitos os famosos livros introdutórios à obra de pensadores. Começa-se com uma narrativa: onde e quando a pessoa nasceu; suas relações afetivas e leituras; onde e quando a pessoa estudou; os professores que a teriam marcado; os lugares por onde passou etc. Aos poucos vão emergindo as ideias principais do pensador, sempre referidas à obra, que vai sendo composta ao longo da vida. Ora, nada aqui nos obriga a traçar uma linha causal e determinística entre fatos da vida e fatos da obra. Basta observar a quantidade de livros de introdução a um pensador que tratam da relação em termos de contraponto, sem causalidade. Mas a tentação muitas vezes vence o autor desse tipo de livro. Ele passa a sugerir, por exemplo, que a chamada “fase azul” de Picasso é causada pela morte de seu amigo Casagemas. Alguém poderá dizer que a relação se impõe. Mas não pretendo negar que há uma relação. A questão, porém, é traçar o tipo de relação que “se impõe”.

É porque vivemos algumas coisas que podemos pensar o que pensamos. Portanto, a vida não de-termina – não decreta ou fixa precisamente – o pensamento. Ao contrário, ela des-encadeia ideias, abre caminhos de pensamento. A obra é continuação-reinvenção da vida, não seu efeito.

Colocar a relação vida-obra de um pensador pode ser útil para nossa compreensão do pensamento em questão, mas esta relação deve ser colocada como problema e não pressuposta como uma relação de causa e efeito.

Colocar o problema da relação entre vida e obra é indagar como o pensamento responde à vida. Já vimos que a resposta é uma abertura e não um fechamento. Mas há uma complicação a mais: saber o que exatamente um pensamento escolhe – mesmo que inconscientemente – responder. Eis o primeiro movimento: a que o pensamento se abre?

Segundo movimento, sugerido acima: como ele se abre? Em outros termos: qual a questão que o acontecimento vivido escolhido suscita?

Enfim, entre os dois movimentos cabe ainda uma pergunta, sutil e fundamental: aquilo a que se abre o pensamento é uma questão pessoal?

Nada menos evidente. O que é próprio do pensamento em sentido forte – pensamento problematizante – é escolher o que nos leva além de nós mesmos. De modo que a solidão vivida por Nietzsche – para ficarmos no exemplo do comentário citado – não pode ser uma questão da obra nietzscheana senão como uma “já outra solidão”, transposta em obra. E nesta transposição se articula uma questão e não uma avaliação moral. “Qual a questão da solidão em Nietzsche?” Isto sim. Mas não: “Nietzsche está contra ou a favor da sua solidão quando pensa?”

E o que dizer da relação causal e determinística inversa, que pretende ir da obra à vida? Por que ela seria mais complexa e grave do que a anterior? Em primeiro lugar porque ela inverte a ordem natural das coisas: afinal, é a obra que responde à vida e esta reposta não é um caminho aberto sem que isto implique uma respectiva abertura da própria vida de quem pensa. A ilusão consiste, então, em reduzir o pensamento problematizante a um pensamento pronto, capaz de condicionar quem pensa a certas atitudes. Ergue-se aqui uma teleologia e uma moral. O pensamento se torna pensamento para determinados fins colocados de antemão, como no caso das “bulas de auto-ajuda”. Insinua-se, por exemplo, que Marx teria pensado a superação do capitalismo para “se dar bem”. Passamos a julgar o pensamento em função de certos resultados a que teria conduzido.

Horror da cobrança moral e abstrata do senso comum: “o pensador viveu ou conseguiu viver conforme sua obra?”. Mas conforme o quê? No melhor dos casos ficamos com a tola pergunta sobre se o que aconteceu com o pensador corresponde ao que o seu pensamento teria preconizado (correspondência interna e pragmática). Mas há a tolice deprimente: quando perguntamos se o que aconteceu com o pensador corresponde ao que seria bom para ele (correspondência externa e moralizante). Ouvimos então, para nosso desespero e vergonha, os velhos argumentos sobre o suicídio ou a loucura de um pensador, apresentados como “prova da inviabilidade” daquela filosofia.

E, no entanto, se a obra de um pensador é continuação-reinvenção complexa de sua vida; do outro lado, podemos dizer que sua vida concomitante à obra possui um valor intrínseco – seja o valor que o pensador conseguiu lhe atribuir por meio da obra que buscou criar, seja um valor que permanece inalterado pelas desventuras da obra. Vida reinventada ou vida que segue paralela. A obra que tende a ser absorvida na vida (Rimbaud) ou a vida que tende a ser absorvida na obra (Pessoa). Mesmo nestes dois casos-limite, a vida não pode ser julgada em função da obra.

E o caso de Nietzsche? Nunca, antes de seu colapso em 1889, a loucura foi outra coisa senão uma possibilidade e uma questão. Nesse sentido, o processo mental que o conduz ao colapso cai numa das duas alternativas mencionadas: ou ele se dá apesar da obra ou se dá na esteira da continuação-reinvenção de uma vida que se mantém singular. A problematização que permite a Nietzsche reinventar sua vida como singularidade cessa em meio ao processo mental denominado “loucura”, mas este cessar não pode ser causado pelo processo de reinvenção. Ao contrário, é a impotência daquela vida singular em seguir problematizando que pode preparar – jamais causar – o colapso. As questões levantadas por Nietzsche (inclusive a da loucura) se mantêm em toda a sua estatura. E a vida de Nietzsche atinge seu limite próprio, alheio à moral.

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Uma opinião sobre “Vida e obra: 2ª interlocução – Paulo Domenech Oneto”

  1. A impotência de uma vida que se arriscou até às últimas consequências. Que poderia, sim, ter recuado, procurado alguma forma de abrandamento. Mas que não recuou. Mesmo diante dos maiores sofrimentos… E aí tivemos um Nietzsche. Quanta grandeza!

    Paulo, seu texto, mais uma vez, é belíssimo, porque vai ao âmago da questão e a expõe de uma maneira clara e simples. Obrigada!

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