A Grande Beleza – Paulo Domenech Oneto

Um escritor pára de escrever. Fica sem escrever por anos. Argumenta que está parado porque procura a grande beleza. Enquanto não a encontra (ou acredita não encontrar) permanece sem escrever. Por anos a fio. E enquanto permanece sem escrever passa o tempo levando uma vida mundana de tons proustianos, cercado de amigos e tipos fellinianos. Os grandes artistas – como Proust ou Fellini – fazem isso: criam atmosferas, tipos psicológicos, novas qualidades perceptivas e afetivas.

A “grande beleza” do escritor parece insistir em não vir. Talvez ele a esteja procurando no lugar errado. Quem sabe? Talvez ela só possa aparecer num lance de acaso ou quando ela própria quiser se mostrar. Talvez ela sequer exista. Sim, muitas vezes projetamos uma beleza inalcançável. Como tal, não podemos sequer saber ao certo o que ela seria. Experimentamos algo que nomeamos “belo” e queremos mais ainda. Em suma, inventamos a beleza de uma situação e também a ideia de algo ainda mais belo. Inventamos agora uma beleza que seja superior à beleza experimentada concretamente, externamente. Somos chamados de “idealistas”. A grande beleza sonhada é uma projeção (de dentro para fora), tornada possível a partir de nossas experiências de beleza que parecem dadas. Naturalizamos: “quem poderia negar a beleza do sol poente?”, “quem poderia negar a beleza de uma cidade como Roma?” Mas, justamente, nosso escritor busca uma beleza que ultrapasse essas belezas “evidentes demais”.

O escritor segue vivendo. Está prestes a completar 65 anos e só publicou um único romance. Em meio à sua vida fácil e mundana, de um estilo aristocrático que assume sua decadência, ele aguça o seu olhar. Olha para cada pequeno detalhe de Roma, onde vive. Olha para os tipos fellinianos que o cercam. Olha proustianamente para o passado de uma paixão fugaz. Pensa que deveria escrever um livro sobre nada, segundo o voto de Flaubert. Afinal, aquilo tudo parece agora quase nada.

Trata-se de um nada interessante, mas para o qual ele não teria palavras. Afinal de contas, nem mesmo Flaubert teve palavras para o nada. O nada se basta. E basta seguir vivendo em meio a ele, languidamente.

Ocorre que, no meio disso que o escritor experimenta como nada, parece haver alguma coisa. Há coisas sim, estranhas e indizíveis, mas que parecem pedir para serem ditas. Seriam traços de grande beleza o que ele percebe ou intui? Será que a grande beleza está nas pequenas coisas, como nas obras dos artistas da Recherche de Proust? Será que a grande beleza está nas entrelinhas da banalidade do nada que o escritor experimenta cotidianamente, como em Fellini? Ou não há grande beleza e nem nada, mas apenas pequenas belezas?

Não é essa dúvida mesmo que pode, enfim, fazer o escritor voltar a escrever? Escrever para tornar belo o pequeno que julgamos apressadamente nada. Escrever para tornar belo o grande que julgamos apressadamente grande. A grande beleza talvez seja apenas isso: essa transformação, esse tornar-se, esse “devir-belo” das coisas nas nossas obras, aquilo mesmo que um Platão transfigurado pode chamar de “Ideia”, mas sem nos aviltar ou empobrecer. A grande beleza como a própria Ideia de beleza, mas de um modo novo, sem se reduzir a nada de dado (por isso tudo parece nada na mundaneidade), mas como presente em tudo que é dado (o mundo todo atravessado pela beleza). Não seria nesse ponto que a grande beleza se encontra com a pequena?

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5 opiniões sobre “A Grande Beleza – Paulo Domenech Oneto”

  1. Duas vertentes maravilhosas e poderosas, do Pensar – O Nada e a Beleza, ambas ainda aguardando por melhores ideias – SEMPRE! Eis a Beleza! Nada em definitivo; tudo mutante!

  2. De fato… tudo tão absurdo e gratuito que questionar o ser ou o não-ser não é, realmente, uma questão… é um capricho da razão, aliás, o tão só ato de dizer isso, não remete a coisa alguma… Bravo!

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