A retomada – Paulo Domenech Oneto

Após quatro meses de interrupção, eis que a coluna retorna. Da última vez algumas questões haviam sido levantadas e prometidas para breve (coluna de número 4). No entanto, mais de cem dias se passaram em total silêncio. Surgiu um leitor, que dizia que me acompanhava. Era um grande incentivo para continuar. Ou talvez um motivo a mais para inibir o autor.

A questão é que, por conta disso (dos vários meses de silêncio), talvez seja necessário falar, não em continuação da coluna, mas em retomada. Há um extraordinário livro, de Kierkegaard, com este título. Nele, o filósofo dinamarquês dialoga com os gregos, como de hábito. Começa indagando se retomadas são mesmo possíveis. Indaga sobre o significado de uma retomada. Indaga sobre se algo sai ganhando ou perdendo quando é retomado. Pensa em fazer uma nova viagem a Berlim (onde havia estado uma vez) para avaliar a possibilidade da retomada de uma experiência. Compara a ideia com a ideia da filosofia grega de reminiscência. Convém mencionar em Platão. Por que a anamnesis platônica seria a melhor caracterização para o ato de conhecer? Porque indica que se trata de um processo que exige esforço, uma busca de alguma coisa que, de certo modo, já está no pensamento. Conhecer como uma potência, a verdade como algo latente. Para Kierkegaard, contudo, o interessante é pensar a diferença entre rememorar e retomar. O gesto de rememorar seria coetâneo de certo sentimento de infelicidade nostálgica; seria basicamente um movimento do espírito para trás. Ao passo que retomar seria um movimento para frente, feliz por se voltar para o futuro, como num projeto, num lançar-se para o que não pode ser previsto. Neste sentido, a vida é uma retomada. Sua beleza consiste precisamente nisso. É preciso, portanto, assumir a vida como retomada, escolher dar uma volta sobre o que vemos na nossa vida, a cada instante.

Deixo de lado as ressonâncias religiosas do conceito kierkegaardiano parando por aqui. Pois o que me interessa é apenas fazer notar o que as retomadas implicam: um engajamento com relação ao porvir. Por isso achei adequado ousar mais a partir de hoje, afirmando que esta coluna será doravante semanal.

Pronto. Escrevi uma página inteirinha sem voltar ao que disse antes, isto é, sem rememorar. Apenas retomo. Havia falado em pensar o presente, segundo o motto de Michel Foucault. Retomo aqui a ideia, revestindo-a do compromisso com uma coluna semanal. Falei em mostrar como o “geral” deixa de ser geral para se tornar universal-singular. Retomarei a ideia, a partir de Kierkeggard. Falei da filosofia como arte das distinções. Retomarei a ideia, a partir de Platão. Falei na exposição ao que nos força a pensar, na decisão de pensar. Creio desde já ser possível retomar isso: enxergando a retomada como o modo pelo qual Kierkegaard aborda esta decisão radical de pensar.

Falei, enfim, a partir de Bergson, que o critério decisivo para avaliar se um pensamento é “verdadeiro” ou está “bem posto” é imanente. Tratar-se-ia de pensar sua relevância para quem pensa. Quanto mais os problemas levantados nos mantém questionando em função da reinvenção da vida, maior a sua relevância. Pensar se dá, desde então, no plano da relevância. Toda e qualquer “verdade” em sentido forte é uma verdade-relevância, ou – segundo Nietzsche – uma verdade capaz de assegurar condições de vida, mas sempre e unicamente com vistas à sua reinvenção.

Chegamos assim ao conceito-chave da filosofia nietzschena: “vontade de potência”, ou “vontade de poder” para os que gostam de se demarcar dos franceses. Só que a ideia é retomar o conceito fora de seus percalços, alguns deles apontados na vez anterior. Não importa agora a dificuldade de pensar, a autonegação da potência de pensar por receio de se perder. Não importa aqui o nosso lado humano demasiado humano. Não importa sequer algo que não cheguei a dizer ainda: que este conceito é o mais temido e recalcado pelos meros estudiosos, dissecadores acadêmicos de Nietzsche. Importa o reverso disso: o modo pelo qual afirmamos nossa potência de viver ao escolher pensar, problematizando, revendo nossos critérios (as ideias e os valores com as quais revestimos a vida). Esta afirmação inclui, portanto, a decisão de pensar. É também a retomada kierkegaardiana. Então, na próxima semana, escreverei sobre a diferença capital entre Kierkegaard e Nietzsche. Imanência do absoluto e imanência absoluta. O tempo e nossa relação com ele. Eterno retorno ou retomada?

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8 opiniões sobre “A retomada – Paulo Domenech Oneto”

  1. Que bom que chego nesta hora que a Fênix retorna,acesa e determinada à cumprir mais outro ciclo,fiel e afiada – em rasante filosofar . E melhor ainda se Heidegger, Husserl e Bergson forem audaciosamente estudados..

    -O Nada, Fenômeno do Tempo da Imaginação
    -O Ser Imanente .Alquimia do Absoluto
    -O Élan Vital ,a Consciência da Liberdade
    -Origem e Continuidade Melódica do Homem

    – Belo-Banquete-Natura -Realidade-Transcendetal!
    É e será servido?
    Então,que Beleza….até Sempre!

  2. Paulo, acompanho teu trabalho com interesse. Sugiro um aliado na questão do poder/potencia, da imanencia do pensamento e da experiência de pensar, no Castaneda.
    Ábç.

  3. Paulo,
    Feliz com sua retomada. Feliz tb por encontrar essa introdução trabalhando exatamente com o texto a que fui remetida por uma aula do Claudio sobre Filosofia e Cinema, encaminhando-me posteriormente p Diferença e Repetição.
    Amei!
    bjs,
    Silvia

  4. Obrigado Tadeu,
    Já li Castañeda, claro, mas me evocou tanta coisa que parei para respirar e não voltei. Vou voltar a ele seguindo sua sugestão. É uma coincidência, pois já estava para fazer isso mesmo, tendo inclusive trazido os livros dele para bem perto…

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