Amor fati: 1ª interlocução – Paulo Domenech Oneto

Na última coluna (Misturas 8) escrevi sobre colóquio e interlocução. Minha intenção era preparar o terreno para fornecer, agora, uma resposta detalhada ao comentário de um leitor, dirigido a Misturas 6. Esta coluna é, portanto, uma coluna de interlocução, uma primeira tentativa de interlocução.

Pois bem, em Misturas 6 eu falava da noção de repetição (“retomada” em Kierkegaard; “eterno retorno” em Nietzsche). Apresentava, em meio à diferença entre as duas abordagens da nossa relação com o tempo, aquilo que seria a “regra” do eterno retorno nietzscheano. Enfatizava basicamente a questão do querer: o que quer que queiramos, é preciso querer de tal modo que queiramos, inclusive, o seu eterno retorno. Tentava explicar que este seria o modo de aderir plenamente ao presente, possibilitando o porvir.

O comentário que vinha publicado logo abaixo da coluna mencionava Roberto Machado (um dos grandes professores que tive) para reforçar o que eu dizia. O leitor em questão falava do eterno retorno como “hipótese ética”. Na realidade, ele é mais do que isso. Ele aparece ao final d’A Gaia Ciência (parágrafo 341 - “O peso mais pesado”) como proposição dramática. E se... (hipótese), mas e se... um demônio... (dramatização). O comentário prossegue: o eterno retorno, “talvez o mais potente princípio ético”...

Sim, talvez, e justamente na medida em que nos coloca diante da necessidade de tornar intenso o nosso querer. Nada de meios quereres, sob pena de nos tornarmos incapazes de futuro, ressentidos.

Ocorre que a questão de nossa relação com o tempo vai além daquilo que escolhemos. Não se trata simplesmente de se perguntar se somos capazes de querer o que queremos, sempre, até o infinito. Esta não é senão uma faceta do parágrafo 341 d’A Gaia Ciência. Uma faceta outra (“mais dura”, como sugeria o leitor) envolve tudo o que pertence à vida, tudo o que nos acontece. Diante disso – ainda n’A Gaia Ciência, mas no início do mesmo livro IV – Nietzsche não apresenta uma hipótese ou mesmo uma proposição dramática. Fala da importância de ver o belo na necessidade das coisas. E dá um nome a isso, fazendo eco a uma doutrina dos filósofos estóicos da Antigüidade: Amor fati, ou seja, amor ao destino, um amor integral. Como escreve Nietzsche: “não quero, a partir de hoje, ser outra coisa senão um afirmador”.

Aqui temos o problema. Segundo o leitor mencionado, o senso comum se rebela contra este “conceito mais duro”, “e não sem motivo”. Pois amar o destino, seja ele qual for, seria uma tarefa impossível. O leitor alude, então, num gesto final, à vida de Nietzsche, na tentativa de demonstrar por este viés o eventual equívoco em se crer que é possível este amor, ou para explicar como pode alguém chegar a semelhante delírio.

Quanto à relação entre vida e obra, ou vida e pensamento, deixo para escrever na próxima coluna. A discussão sobre se isto (amar o destino, seja ele qual for) é possível ou não, e como seria possível, também deve ser deixada, por ora, em suspenso. No momento, o que importa é explicar como este amor pode ser compreendido sem parecer um delírio “masoquista” ou conformista, pois estas parecem ser as interpretações que geram mal-estar diante da ideia de amor fati.

Conclui o leitor: “Aceitar o destino dá pra encarar. Amá-lo, seja ele qual for é um dos muitos equívocos nos quais incorreu esse grande pensador”. Mas, justamente, a questão não é aceitar; e tampouco importa se perguntar se dá para encarar esta aceitação como se fosse o que nos resta a fazer, na falta de coisa melhor. A questão é outra, e aparecia no segundo comentário feito à coluna, quando se citava Deleuze.

A questão é afirmar.

Mas qual a diferença entre aceitar e afirmar? Por que afirmar implica, em última instância, amar?

Durante alguns anos me coloquei estas questões. E procurava sair dela torcendo o tempo verbal da famosa máxima “Assim foi, assim eu quis” (Assim falou Zaratustra) para colocar toda a afirmação no presente. Ledo engano meu. Pois a afirmação que Nietzsche deseja, almeja e invoca, envolve tudo; todo o passado tal qual foi – tornado necessário, não apenas porque visto como irreversível, mas também porque visto como base incontornável sobre a qual podemos nos reconstituir e reinventar. E isto nada tem de conformista ou de masoquista no sentido vulgar dado ao termo. Isto tem a ver com a inclusão dos acontecimentos como prenhes de vida, como potências vitais.

Como mostra Deleuze, querer o acontecimento não é querer o acontecimento em si, mas querer algo no acontecimento, querer sua parte de vida, mesmo quando se trata da pior doença. A afirmação não é, portanto, um “tudo bem, bola pra frente, a vida continua”, mesmo que isto também possa se mostrar importante. A afirmação é ativa, ao passo que a aceitação é passiva. A afirmação do amor fati é incorporação, inclusão, gesto que leva o acontecimento a aparecer sob o signo da eternidade: sem começo (porque não importa o começo do que é irreversível) e sem fim (porque não importa o fim do que já está incorporado como potência de vida, aqui e agora). Cada ferida é encarada como esperando por nós desde sempre, como “acontecimento puro” que encarnamos. Ou não... Ou tornamo-nos dignos do que nos acontece – no sentido radical de dignidade; não como um mérito moral, mas como algo que, agora, nos é próprio – ou não... Não importa se mereço ou não esta doença (o conceito de merecimento diante da vida é teleológico e moral); importa que ela se tornou algo que, agora, me define, algo que é próprio de mim como sujeito. “Minhas propriedades”, como em Henri Michaux.

Sobre a dignidade caberá voltar em tempo oportuno. É preciso dizer de antemão que ser digno do que nos acontece não implica que não se possa mais se indignar, como podem sugerir os apressados. Ser digno do que nos acontece não é aceitar nada, não é se conformar com nada. É, ao contrário, se colocar à altura do acontecimento. É se colocar nesta dimensão em que o pior dos acontecimentos já não nos causa nenhum mal adicional e ainda nos possibilita um sentido, até mesmo um sentido de enfrentamento das marcas deixadas pelo acontecimento.

Perguntada como teria podido se tornar filósofa, após todas as dificuldades que teve que enfrentar em sua curta vida, Simone Weil respondeu que foram precisamente aquelas dificuldades que a tornaram filósofa – aquela filósofa, aquela singularidade.

Amor fati.

[print_link] [email_link]

3 opiniões sobre “Amor fati: 1ª interlocução – Paulo Domenech Oneto”

  1. Muito belo, Paulo. Você está fazendo um trabalho de apuramento conceitual de suma importância. Cuidadosamente, erguendo o seu tema, sem deixar margem a equívocos. Com a paciência do filósofo, você vai mostrando que a filosofia é antes de tudo uma prática seriíssima de vida. E que o pensamento é a única via de libertação possível.

    Obrigada!

  2. Se podemos inventar o presente, a reinvenção do passado está ao nosso alcance! Se os gregos tivessem sido derrotados pelos persas a marcha da história seria outra e eu, imaginando-a, dou por mim, a contemplar o céu e a tomar as estrelas como deusas que virão chegar-se docemente ao meu corpo ressequido no défice…

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *