Fechando a seqüência do ano – Paulo Domenech Oneto

A rigor, cada um dos textos desta coluna deveria poder ser lido independentemente. No entanto, desde o primeiro momento, fui fazendo “ganchos” e levantando questões que ficavam no ar, prometidas para depois. A ideia agora, neste Misturas 4, é: 1) ligar o que foi dito até aqui; 2) fechar provisoriamente (é claro) as questões abertas. Misturas 5 – já no ano que vem – tem que deixar vir à tona outras questões, para além da discussão sobre o que seria o pensamento e a realidade em geral. Em suma, vou tentar mostrar como o “geral” deixa de ser geral para se tornar universal-singular – este par tão caro ao idioma filosófico ocidental.

Creio que no começo desta coluna nada foi deixado em suspenso. Entretanto, três dos pontos ressaltados parecem essenciais e merecem ser revisitados sempre. Em primeiro lugar, insinuei que a questão sobre o começo só fazia sentido quando colocada a partir de outra: a questão sobre o que queremos e como podemos compreender e dar força a esse querer. Em seguida, procurei justificar o título da coluna: o filósofo é um pensador que solicita tempo porque pressente que vive num redemoinho de coisas emboladas, misturadas. É esta a sua intuição fundamental, comum a tantos filósofos, ainda que eles a desenvolvam cada qual ao seu modo, em função dos problemas concretos que apresentam. Por fim, disse que esse universo fascinante de misturas, que dificulta começar e faz solicitar tempo, precisa ser afirmado; mas que afirmar não é aceitar e sim estimular e produzir. Isto se dá por meio das distinções. A filosofia apareceu, então, como uma espécie de arte das distinções, à maneira de Platão.

Logo depois veio a questão do pensamento como ato involuntário, do encontro com as coisas misturadas como sendo o que força a pensar. Escrevi que, a partir dali, dois caminhos se descortinam: expor-se ao que força pensar ou não. Escrevi que esses dois caminhos se abriam em várias bifurcações e que eu poderia falar delas.

Falarei um pouco disso.

Expor-se ao que força a pensar é o que denominei, logo em seguida, decidir pensar. Aqui, alguém pode querer contestar, afirmando que pensamos sempre, de um modo ou de outro. Torna-se necessário esclarecer: falo de pensamento num sentido radical de não aceitar uma realidade dada para ser reconhecida e representada, mas de buscar problematizar. É nesse sentido específico que pensar é algo que precisa ser engendrado no meio do pensamento-recognição, ultrapassando e invertendo sua lógica. Acrescentei, porém, que problematizar é por si mesmo algo bastante... problemático. Isto porque podemos colocar falsos problemas ou colocar de modo inadequado alguns dos problemas. Coube ao filósofo Bergson indicar o que seriam falsos problemas ou problemas mal postos. Os primeiros derivam de uma confusão (mistura) entre o “mais” e o “menos”. Chamemos essa confusão de confusão de grau. Seu melhor exemplo vem de uma questão metafísica clássica: a questão do nada ou do “não-ser”. Se ela pode parecer “falsa” aos olhos do filósofo francês é porque ela surge a partir do que experimentamos que há (a realidade ou o ser) acrescido da ideia de que poderia não haver. O “não” é, portanto, somado ao ser, mas apresentado como um “menos”. Já um problema mal posto consiste em misturas que são mal distinguidas ou analisadas, levando-nos a comparar coisas incomparáveis. É a confusão de natureza. Exemplo: a discussão acerca da felicidade; se ela se reduz ao prazer ou não. Ora, tratamos aqui de dois sentimentos de naturezas distintas. Mas o critério decisivo para avaliar se um problema é “verdadeiro” ou está bem posto é imanente. Trata-se, em última instância, de pensar sua relevância efetiva para quem pensa, a qual está associada à capacidade que ele (problema) tem de manter o pensamento pensando, distinguindo e permitindo compreender o que em nós quer ou pretende algo.

Esta questão da relevância merece uma coluna inteira. O que é possível adiantar é o que diz Nietzsche sobre o conhecimento: sua força não reside no grau de verdade que ele eventualmente seria capaz de atingir, mas sim na sua capacidade de assegurar condições de vida. A relevância dos problemas emerge daí num primeiro momento. Contudo, mais adiante, a relevância baseada na utilidade de manutenção da vida cede para uma relevância de expansão dos meios de vida. É que a vida aparece como “vontade de potência”, isto é, como uma potência que quer se ultrapassar. Os problemas surgem “mais verdadeiros do que nunca”, se acumulam. E, no entanto, a dificuldade permanece. A potência de pensar é constantemente negada. Pensar é uma árdua tarefa. E a razão para isto está precisamente no fato de que a potência é capturada no temor de que buscar ir além de si mesma possa implicar sua derrocada. Desde então, pensar deve se contentar com pouco, com a garantia das condições de existência que estão postas. Nada de criar caso, nada de arrumar problema, estamos cansados e sem tempo para embarcar numa questão que parece surgir. Eis a dificuldade. Afinal de contas, somos, segundo Nietzsche, “vontade de potência”, mas também humanos demasiado humanos.

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2 opiniões sobre “Fechando a seqüência do ano – Paulo Domenech Oneto”

  1. Caro Paulo, fui seu aluno na ECO e foi com feliz surpresa que descobri suas colunas filosóficas enquanto visitava o site em homenagem a Cláudio Ulpiano.

    Seus textos estão muito bem escritos e são bastante esclarecedores para pessoas com interesse por filosofia, mas sem um grande domínio sobre a disciplina. Parabéns. Espero que a coluna volte em breve, saiba que há pessoas lendo!
    Abraços

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