Imanência e separação – Paulo Domenech Oneto

Saí de uma excelente conferência do professor Paulo César Duque-Estrada sobre Derrida (1930-2004), lido a partir de sua autobiografia – da infância na Argélia até o fim da vida, antecipando a própria morte, escrevendo sobre o luto. Das tantas coisas que me chamaram a atenção na fala enxuta e elegante, destaco duas: a relação entre vida e obra e o tema da separação, entendida em Derrida como único gesto capaz de impedir o fechamento numa totalidade ou de resistir à tentação de redução do diverso a uma pretensa unidade. A coluna desta semana vai ficar apenas neste segundo tópico.

Penso primeiramente nos ataques desferidos contra a desconstrução derridiana, por seu eventual “niilismo”: tratar-se-ia apenas de desconstruir, sem deixar enxergar nada além dos textos desconstruídos. A separação seria manifestação de uma impossibilidade radical de se indagar sobre nosso pertencimento à vida. O filósofo, então, se separa do mundo para, apenas, “textualizar”.

Deixo provisoriamente de lado esta primeira leitura – que não deixa de me parecer possível – para pensar em conexões outras, me deixando levar (derridianamente?) pela seguinte frase: “saber deixar, eis uma das coisas mais belas que conheço”.

A separação reside aí, nesse deixar. Enquanto eu ia ouvindo a fala, pensava no modo pelo qual Deleuze – contemporâneo de Derrida – compreende a velha noção de multiplicidade. Só é possível multiplicar de fato, isto é, sem que esta “soma de diversos grupos” redunde em mera redução a um denominador comum, se...

Se o quê? Se houver subtração. A “fórmula” da multiplicidade é, portanto, n – 1. Por meio dela, 3 x 5, por exemplo, não pode ser simples soma de três grupos de 5 elementos em que os primeiros 5 já estariam postos, esperando pelos demais. Eis porque Deleuze fala de multiplicidade como de um substantivo que desfaz a dualidade Um-Múltiplo. Na multiplicidade 15 não importa o 5 como seu múltiplo, capaz de conduzi-la a uma totalidade de múltiplos comuns (como no famoso MMC que aprendemos na infância). O que importa, ao contrário, é sua irredutibilidade. O 15 se torna um número numerante. Mas o que seria um número numerante? Trata-se de um número complexo, cuja complexidade consiste em articular coisas diferentes, grupos não análogos que, por isso, não permitem a formação de uma totalidade fechada. A singularidade é o 1 que se subtrai para deixar o 15 ser multiplicidade.

Deixo minhas elucubrações deleuzeanas para voltar a Derrida. A singularidade não surge de uma subtração sem ser, por isso mesmo, o que se separa. Ela é agora o que, ética e politicamente, sabe deixar. Deixa-se o desejo de formar totalidades, de forçar unidades. Derrida sofreu o insulto cotidiano reservado aos judeus na Argélia colonizada dos anos 1940. Mas isto não o levou a buscar a proteção da comunidade-irmandade judaica e nem tampouco o fez exaltar a formação de uma comunidade mais ampla e original. Não é possível detectar nos textos políticos de Derrida nenhuma vontade de integrar a todos numa celebração obtusa. Não havia desejo de pertencimento do garoto nos tempos de insulto. Não há nostalgia comunitária no filósofo. O frenesi judaico de autodefesa que acabaria levando à formação do Estado de Israel pode ser compreensível, e mesmo irrepreensível, aos olhos de Derrida, mas ele é desastroso de tão equivocado.

Este traço ético da filosofia de Derrida me parece fundamental para recolocar a questão da imanência. Trago esta questão comigo desde os idos de 1989. São muitos anos. Em meio a tantas incompreensões que o termo parece suscitar, há uma que me inquieta. Preocupa-me a velha acusação de Hegel a Spinoza. Na filosofia deste último, tudo tenderia, afinal, a se dissolver num todo – a vida, entendida como substância ou Deus. A imanência de Spinoza falaria de um todo integrado, com cada elemento se mantendo natural e espontaneamente inseparável dos demais. Deleuze resgatou o termo através do “plano de imanência”. Na homenagem do dia seguinte à morte de Deleuze, é Derrida outra vez que sugere que o termo deveria ter um sentido secreto.

Justamente. O segredo da imanência talvez seja este: a inseparabilidade da vida de si mesma só se manifesta plenamente quando nos voltamos para o singular. A singularidade é a própria vida se separando de si mesma para se reconstituir como uma vida. A palavra imanência traz o in (“dentro”) e o manens (“permanecendo”). Mas o que não sai de si e “permanece dentro” não é uma totalidade pré-constituída, não é uma unidade fundamental. A vida é o que não pára de romper com totalidades e de se reinventar. A imanência de Deleuze se dobra da separação de Derrida. Ao fundo encontramos Nietzsche. A afirmação. O que se afirma é que a vida é uma, mas esta unidade é uma unidade de subtração. Talvez por isso, livros como Assim falou Zaratustra sejam para todos e para ninguém...

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Uma opinião sobre “Imanência e separação – Paulo Domenech Oneto”

  1. Paulo, o que aprendi é exatamente que a filosofia é essa coragem de ir ao fundo das coisas, para pensá-las. É bonito isso!
    Você aplica a subtração de Derrida para descomplicar a noção de vida, ou seja, explicá-la, sem definí-la, ao destituí-la da idéia de alguma coisa pronta, fechada, para afirmar, afinal, a diferença, o intotalizável, “uma” vida. Entendi bem, Paulo?
    É muito bonito!

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