Memorabilia I: o estranho materialismo estóico – Paulo Domenech Oneto

Esta coluna ficou parada por cerca de quatro meses. Peço desculpas aos meus poucos leitores. Não creio que adiante elencar os motivos desta longa interrupção ou atraso. Melhor agir estoicamente e passar logo à coluna.

Agir “estoicamente”. O que isto quer dizer? Falo de agir segundo a inspiração dos filósofos gregos do século III a.C. – denominados estóicos por conta do pórtico com pinturas (Stoa poikilê) onde se reuniam em Atenas? Ou me refiro a uma ação quase indiferente, austera e impassível – aqui, diante do meu atraso e de seus motivos – conforme depreendemos do adjetivo? Até que ponto o termo comum “estóico”, usado para qualificar uma atitude ou ação, corresponde à corrente filosófica grega de onde deriva? Quem foram os estóicos e qual a sua importância para o pensamento?

Minha ideia é tentar responder a estas questões nas linhas que seguem. Sigo o plano traçado na última coluna (Misturas 12). A questão proposta era remontar aos encontros que levam a um autor ou a uma questão filosófica, falar de pequenas ocorrências que parecem (se bem lembro) ter me possibilitado problematizações mais ou menos interessantes. Daí o título “memorabilia”, já comentado anteriormente. Decidi começar pelas vezes em que me defrontei com os estóicos.

Antes mesmo de estabelecer uma breve cronologia de meus encontros com os estóicos cabe dizer algo. O seguinte: que uma filosofia seja capaz de gerar um adjetivo qualificando um modo de existência, eis a prova cabal de sua vitalidade e importância. Isto é válido para diversas das correntes ditas “pós-socráticas”. Sinto-me em dívida para com três delas: cinismo, estoicismo e epicurismo. Sempre sonhei escrever um pequeno livro sobre o que as une. Pois creio que algo forte as une. Este algo é a imanência. Novamente para mim. Desde 1989. Quem sabe não virei a concretizar o sonho... De qualquer maneira, talvez eu também possa tentar introduzir cinismo e epicurismo em futuras “misturas”. Mas o essencial é que nos três casos formamos adjetivos. E este simples fato já marca suas importâncias respectivas. O que resta é tentar mostrar como estas filosofias puderam se tornar tão importantes.

Meu caso aqui é o estoicismo. E, neste caso específico, o primeiro encontro se deu justamente por meio do adjetivo. Na minha adolescência eu sentia imensa necessidade de conhecer as palavras em detalhe. Escrevia em folhas de caderno um monte de palavras cujo sentido me parecia mais variado e obscuro. Tropecei em “estóico”. Apenas um nome e uma imagem me ficaram daquela ocasião: Sêneca e a cena de sua morte, por suicídio forçado, como se o destino se impusesse e devesse ser incorporado. Anos depois descobri Nietzsche. N’A Gaia Ciência o filósofo fazia votos de que o seu amor à vida se tornasse dali (de seus quase 30 anos) em diante, amor fati – “amor ao destino”. A fórmula fazia clara referência aos estóicos, mas eu tinha dificuldade de ver como. Terceiro encontro, mais amadurecido: Gilles Deleuze e seu livro intitulado Lógica do sentido, inspirado na interpretação genial de Émile Bréhier sobre os estóicos. O enigma permanecia. A fascinação aumentava. Enfim, quarto encontro: os estóicos por eles próprios, primeiro numa anedota sobre Cleantes de Assos e a maneira pela qual podemos nos tornar ricos, depois num longo comentário de Jean Brun.

É somente a partir deste último encontro que o estoicismo se consuma para mim. Duas questões traduzem esta consumação. Duas questões metafísicas (ou ontológicas) difíceis: a primeira girando em torno do materialismo, a segunda em torno da relação entre os acontecimentos.

Primeiro ponto: o estranho materialismo estóico. Materialismo, pois só os corpos são, porque eles constituem a base da natureza. Estranho, pois os corpos que compõem a natureza não cessam de se misturar compondo uma imensa teia de causas que fazem surgir efeitos ditos incorporais. Os corpos são todos eles causas, e a natureza é o entrelaçamento destas causas numa unidade primordial que eles chamam de Destino. Mas este Destino não deve ser confundido com predestinação. Os estóicos são heraclitianos. O devir não tem uma finalidade exterior a si (um telos). Além disso, o que importa não são tanto os corpos-causas, mas as misturas que determinam seus estados fugazes. O título desta coluna alude a isso. O ser se diz do devir, só se é no sendo.

Segundo ponto: em que sentido exatamente os corpos são causas? Aí vem o mais estranho de tudo. Das misturas emanam efeitos que não pertencem aos corpos. São os tais efeitos incorporais, os acontecimentos em sua imanência. Delineia-se a possibilidade de uma ontologia diferente. Abre-se espaço para outra maneira de se pensar o tempo e a história. Deleuze irá tentá-lo. E é sobre isto que falarei na continuação da coluna. Sem, contudo, esquecer da resposta que devo ao leitor “Vlad da hora”. Ele me pede para falar da diferença entre as concepções de sujeito em Spinoza e Kant e de como elas podem ajudar a pensar os processos de subjetivação neste século XXI. Quem sabe não consigo costurar algo, saindo dos estóicos até estes dois filósofos. Até semana que vem.

LEIA Memorabilia - Misturas 12

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6 opiniões sobre “Memorabilia I: o estranho materialismo estóico – Paulo Domenech Oneto”

  1. Feliz retorno, Paulo. Sobretudo trazendo a revolução estóica para a coluna, lembrando ainda o grande interesse que essa filosofia sempre despertou no Claudio, que dedica a ela uma boa parte de suas teses de mestrado e doutorado, além de um longo trabalho em cursos. É com imensa alegria que vejo sua brilhante coluna se voltar para ela. Um grande abraço e obrigada pela via de retorno.

  2. Outra idéia que me intriga é a de acaso na sua relação com o destino e com a necessidade. Que parece estar relacionada com o pensamento estóico.
    Bom ter sua coluna de volta.
    Tadeu.

  3. Oi pessoal, tenho feito muito bom proveito com tanto material incrível que voces estão disponibilizando pra nós. Caso voces tenham mais material sobre nietzsche avisem-me também. Obrigada mesmo, adorei conhecer o site e o Claudio.

    beijus

  4. Feliz pelo seu retorno e o brilhante artigo sobre os estoicos . A preocupação com o sujeito contemporâneo (Quem é?O que é?) vem das minhas reflexões como artista e as implicações decorrentes no meu trabalho. Gratíssimo pela atenção.
    Vlad.

  5. Essa estranha filosofia sempre me despertou curiosidade. Digo estranha porque tento assimilar seus ensinamentos, compreendê- lo. Mas parece tão complicado, mas mesmo assim nao consigo para de estudar..

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