Memorabilia II: meu pai, Claudio Ulpiano e os estoicos – Paulo Domenech Oneto

Esta coluna está parada há um ano. Acho que há exatamente um ano. Das últimas duas vezes (Misturas 12 e 13) cheguei a prometer (para mim mesmo) torná-la semanal. E até incluí esta promessa no título (Memorabilia/Coluna semanal de filosofia). Logo em seguida propus elaborar alguns números partindo de acontecimentos vividos por mim, de encontros que me possibilitaram problematizar a vida. Anunciei que iria escrever algumas memorabilia, isto é, que falaria de “coisas que podem ser lembradas e contadas” ou “dignas de serem lembradas e contadas”.

Comecei falando dos estóicos (Memorabilia I: o estranho materialismo estóico). E prometi uma seqüência. Já eram duas promessas. E, - parafraseando Deleuze ao se referir à escrita a quatro mãos -, se uma promessa já é muitas coisas, que diremos de duas promessas...

Não apenas não cumpri a promessa como praticamente abandonei a escrita. Entrementes, atravessei uma greve aguda e reveladora na universidade, vivi alguns conflitos e encontros difíceis e, agora, recentemente, enfrentei a doença e morte do meu pai. Este último acontecimento me fez tomar coragem e desejar voltar a escrever, mesmo em meio a um caos afetivo, ou justamente em virtude dele.

Meu pai morreu na semana passada (14 de maio). Cinco semanas antes, estive no belo e comovente lançamento post mortem do livro de Claudio Ulpiano (Gilles Deleuze: a grande aventura do pensamento). Meu pai nunca entendeu bem porque abandonei o estudo de economia para me dedicar a esta estranha atividade filosófica. Ulpiano foi um dos pensadores que me inspiraram quando comecei a ler textos de filosofia. No dia do lançamento do livro, encontrei minhas amigas responsáveis por este site e pela recém-criada “Ritornelo Livros”. Mesmo em meio ao caos afetivo reafirmei a elas a minha intenção de retomar a coluna. Mas talvez tenha sido preciso que o caos se aprofundasse para que eu pudesse me ver aqui, colocando minhas forças de volta no lugar, não mais “separadas do que podem”, para me valer de outra expressão deleuzeana – desta vez comentando Nietzsche.

Eis então a coluna 14. Em lugar de prometer uma seqüência semanal, quero pensar como tornar esta proposta viável em mim. E como seria isso?

Volto-me então para os três nomes do título deste Memorabilia: meu pai, Claudio Ulpiano e os estoicos. A morte do meu pai me remete a um passado difuso e confuso, me faz sentir saudades, mas também me permite destacar de minha memória blocos de infância, me permite repensar as relações pai e filho, me permite confrontar o fim da vida, o fim de uma vida. Tudo o que vivi com meu pai se torna, assim, passível e merecedor de recordação. Experimento na pele a questão de muitas colunas atrás: o que minhas vivências relativas ao meu pai puderam me fazer pensar?

Já disse e reitero, e isto vale também para meus dois ou três únicos encontros com Ulpiano: nada disso deve ser visto como causa de um pensamento. Pelo menos não como uma “causa” no sentido comum. Talvez no sentido estóico... Talvez possamos dizer “condição”.

Não cabe dizer aqui quais seriam as condições gerais que me foram dadas pela relação com meu pai e pelos breves encontros com Ulpiano. Cabe apenas agradecer a eles e voltar aos estóicos. E voltar à coluna... Intensivamente para sempre. Alguma coisa nos acontecimentos vividos ao lado ou por intermédio do meu pai, e através de Ulpiano - ainda que de modos completamente distintos - me conduz aos estóicos. O amor fati como assentimento ao Destino, por exemplo, no caso do meu pai e de sua morte. O amor fati, tal como repetido diferencialmente por Nietzsche e Deleuze, no caso de Ulpiano e suas falas.

Recapitulo o que escrevi sobre a retomada kierkegaardiana e o eterno retorno nietzscheano. Em ambos os casos, o que parece material e mecânico na natureza se revela mais complicado se e quando experimentado com intensidade. Em Kierkegaard, em última instância, essa experiência é religiosa e permite que tudo ganhe um sentido final, como chegada do novo “de uma vez por todas”. Em Nietzsche, por outro lado, essa experiência é de um novo, mas sem sentido ou de tão múltiplos sentidos quanto mais sua afirmação se der “para todas as vezes”. Aí o novo se mostra claramente e não precisa ser mais retomado porque é simplesmente o que se repete.

Mas a causalidade mecânica que esconde o novo parece ceder primeiramente com os estóicos. E não é à toa que Nietzsche irá buscar no amor fati deles sua inspiração cósmica, ontológica e ética.

Leio num manual de filosofia que os estóicos seriam, sim, adeptos de uma teoria da predestinação. Talvez seja assim mesmo, desde que nos entendamos sobre qual o alcance do termo. Se a existência de um entrelaçamento dos corpos-causas que constituem a natureza é uma pré-destinação, então sim, claro, trata-se disso. Contudo, tomemos o prefixo “pré” do termo em sua acepção mais comum. Ele indica que há uma finalidade (um telos) para os acontecimentos considerados em si mesmos. Algo está escrito a respeito de determinada ocorrência e nada pode mudar o que está escrito, como quando um quiromante lê nosso fim marcado sobre a nossa mão esquerda.

É assim que se passam as coisas no estoicismo?

Provavelmente não. E isto porque, como já sugeri antes, há algo de Heráclito nos filósofos da Stoa. Trata-se de uma filosofia do acontecimento, entendendo pelo rótulo - como de hábito no “filosofês” - não apenas uma ênfase no problema do acontecimento, mas a marca de um estatuto especial, de uma dinâmica própria. E é o que temos. O acontecimento e sua dinâmica. O acontecimento visto como algo que vem “de fora” dos corpos-causas.

Nesse sentido preciso, o acontecimento deve ser visto como não existente, subsistente, insistente, resistente. Ele chega, sem sabermos bem como, fazendo os corpos-causa se excederem e passarem à outra coisa. Esta “outra coisa” não é evidentemente qualquer coisa, pois há o entrelaçamento gigantesco de causas que é prévio (“pré”) e, por assim dizer, serve de “baliza” para a eclosão do novo. Um pouco à maneira dos sistemas dinâmicos, sensíveis às condições iniciais no chamado efeito-borboleta. Mas o que importa é que há novo, e por “novo” queremos dizer, justamente, não-predestinado.

A célebre lógica dos estóicos aponta nessa direção. Ela propõe um encadeamento não necessário de proposições que corresponde, no campo metafísico, a uma conjugação de acontecimentos-efeitos. “Se é dia, está claro”. Nesta cadeia lógica não se diz que é dia porque está claro, ou que esteja escrito que será dia sempre que estiver claro. Diz-se apenas que basta estar claro para ser dia.

Vemos aí esboçados os elos entre as três esferas clássicas do estoicismo na sua fase grega: lógica, ética e (meta) física. É o chamado “ovo estoico”. Na realidade, parece que a predestinação dos estóicos está mais próxima do karma hinduísta do que da predestinação cristã. Meu pai e Claudio Ulpiano são, quando muito, “karmas” na minha vida. “Karmas” num sentido materialista que talvez caiba desenvolver. Porém, mais do que isso, os encontros na vida de qualquer pessoa são condições para a reinvenção dessa vida e não causas. E a morte de um ente querido talvez também deva se tornar condição para a reinvenção de si.  Dessa perspectiva, mesmo quem morre permanece vivo, ainda que não mais em si mesmo.

Leia Memorabilia I: o estranho materialismo estóico

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7 opiniões sobre “Memorabilia II: meu pai, Claudio Ulpiano e os estoicos – Paulo Domenech Oneto”

  1. Penso que, talvez, esse paradoxo no fechamento se explique pela distinção entre a imortalidade e a eternidade, a existência e a essência… pode ser uma linha. Meus sentimentos e saudações cordiais.

  2. “…os encontros na vida de qualquer pessoa são condições para a reinvenção dessa vida e não causas. E a morte de um ente querido talvez também deva se tornar condição para a reinvenção de si…”
    Que beleza! Que bom q vc voltou a escrever !
    Abç,
    Tadeu.

  3. Entendo bem o que vc. diz! Apesar de estoicamente aceitarmos o inexorável, quando o sofrimento, parte desse inexorável, nos toma, só nos resta, parafraseando Nietzcshe dizer – ” Quero aceitar como belo tudo àquilo que é inexorável na vida, pois só assim serei um daqueles que tornam a vida bela”
    Abs.José Roberto.

  4. Muito obrigado Tadeu! Seu incentivo me anima a não mais perder o passo da coluna.

    Helena, sobre o que vc tem escrito?

    Obrigado pelos comentários, José Roberto.

    Obrigado Carlos. Espero escrever uma coluna sobre essência e existência logo, seguindo sua sugestão.

  5. Amigo Paulo

    Adoro esta coluna, que também é uma homenagem ao grande Cláudio Ulpiano e gostaria que você fizesse um comentário sobre o livro de Émile Brehier, quando ele trata dos Incorporais, segundo os Estóicos (pag 20 – livro: “A teoria dos Incorporais no estocismo antigo”), na parte em que ele fala:”A natureza de uma causa é determinada pela natureza das coisas ou dos fatos que essa causa tem por tarefa explicar”. Um abraço Haroldo

  6. Caro Paulo
    Faz algum tempo não passo por aqui. Minha solidariedade pela passagem do seu pai. O texto se refere com muita competência aos estoicos, mas considero também uma bela homenagem ao Claudio e ao seu pai. Que tudo esteja correndo bem. Forte abraço.

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