Memorabilia III: karma e profundidade – Paulo Domenech Oneto

Então essa coluna acabou? Está no fim? Não tem fôlego para continuar ou manter suas falsas promessas? Acho que não. Pelo menos não quero que assim seja. Mas ainda não fui lá checar... Lá no site. Acabou?

A questão é: como continuar escrevendo regularmente quando a vida nos arrasta, quando alguém morre e outros acontecimentos chegam e vêm se somar ao primeiro? Como parar pra escrever quando a seqüência de acontecimentos é avassaladora? Como parar pra escrever quando as ruas da cidade se enchem de gente e você ainda está tentando entender e participar nisso que te parece vital?

Tudo o que pedimos nessa hora é certa atitude dita “estóica” de enfrentamento. Trata-se de aprender a resistir às dores da vida? Trata-se de aprender a não se deixar entusiasmar “demais”? Ou isso já é uma derivação, que conduz com alguma razão à vulgata do adjetivo “estóico”?

Uma derivação sim. O estoicismo nos coloca dentro de um tipo de compreensão que implica a resistência e uma “ataraxia” que nada mais é do que serenidade intelectual. Porém, mais do que resistir e permanecer sereno, importa indicar um caminho de afirmação – o amor fati de que já falei antes, tomado por Nietzsche tantos séculos depois. Afirmar não é aceitar, suportar etc. Afirmar não é nunca reprovar a vida, mas não é tampouco aprová-la. Afirmar é dizer sim aos acontecimentos como grávidos de vida. É querer algo no acontecimento, querer sua parte de vida. É se tornar digno do que nos acontece. É não permitir que o mal que nos acomete se multiplique na consciência, para que outros sentidos-acontecimentos sejam possíveis.

Deleuze fala em Lógica do sentido (1969) em “contra-efetuação” estóica. Seria como vincular o acontecimento ao entrelaçamento de corpos-causas (Destino) – um efeito de superfície remetido a uma causa, sendo encarnado. Dar um corpo, uma carne, ao acontecimento que chega, por pior que ele possa ser.

Não quero me repetir. Quero apenas responder ao mim mesmo da coluna anterior. Eu dizia de modo algo polêmico, talvez, que o Destino dos estóicos (heimarmene) estava mais próximo do karma hinduísta do que da predestinação cristã. Mas não me expliquei.

Podemos de cara lembrar que, na mesma obra de Deleuze citada acima, o filósofo fala da destituição da altura e da profundidade em prol da superfície, que esta seria a aventura do sábio estóico e, também, do mestre zen, tempos depois e noutro lugar. O estoicismo responderia à profundidade pré-socrática e às alturas platônicas. A filosofia zen responderia à profundidade brâmane (hindu) e às alturas budistas.

Assim sendo, como aproximar karma e heimarmene?

Diz-se com freqüência que quando não conseguimos nos livrar de algo, de alguém ou de uma tendência nas nossas vidas, que este é nosso “carma”. Mais um jeito interessante do chamado “senso comum” se apropriar da filosofia. Na realidade, o karma brâmane está no centro dessa filosofia / religião. Ele é tipo de ação, uma ação da qual nós não conseguimos nos desembaraçar. É nesse ponto que o meu paralelo se aplica e explica. Heimarmene vem de eíro, encadear. Karma pode ser traduzido como a ação que nos amarra. De um modo ou de outro, no nível dos corpos-causas (estoicismo) ou das ações do ego (bramanismo), há um entrelaçamento. Em nenhum dos dois casos há intervenção “de fora”.

Aí, contudo, cessam as aproximações. Pois as motivações ou intuições de base se distinguem bastante. O bramanismo desconfia do transitório e enfatiza que só o Brahman é substância permanente. Pretende suspender certo excesso de ação porque isso produz a transitoriedade que nos ilude e nos afasta do principal. É preciso “queimar” nosso karma por meio do conhecimento ou da ascese, extinguindo o desejo, para evitar uma volta sofrida. Não é a diferença que é afirmada. Não voltar é não ficar preso no “ciclo de reencarnações” (samsara). A meta é deixar para trás quereres e atos, não para diferir, mas para se elevar. Há um ideal de transcendência ética em jogo. É preciso dissolver em nós todo traço de ego e todas as ações motivadas por este ego, a fim de se elevar a um “Eu” fundamental, atemporal e imperecível denominado atman.

Revela-se, assim, uma dupla diferença com relação ao estoicismo (pelo menos o pioneiro). Primeiramente: não se coloca um ego ou “Eu” como razão de nada, como causa de entrelaçamento ou efeito a ser buscado. Em segundo lugar – e mais importante – não há nada de negativo nesse entrelaçamento de causas, algo de que seria necessário sair para se “purificar”. Nem pessoal, nem negativo, o estoicismo é cósmico e afirmativo. Sem profundidade. Resta ver o que budismo e zen fizeram da filosofia brâmane, e como isso pode ser pensado ao lado de uma tradição tão distinta como a nossa, ocidental.

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3 opiniões sobre “Memorabilia III: karma e profundidade – Paulo Domenech Oneto”

  1. Bom dia.

    Contra-efetuando po(i)eticamente:

    […] Patience, patience,
    Patience dans l’azur !
    Chaque atome de silence
    Est la chance d’un fruit mûr ! […]
    Paul Valéry

  2. Prezado Paulo,
    Mais uma vez é um prazer ler o seu texto! Uma coisa que aprendemos com o Cláudio e tb com o Deleuze é a relação absolutamente íntima entre a filosofia e a vida (ou entre o pensamento e a vida). Mas como diz o Deleuze, na Lógica do Sentido, “de onde vêm as doutrinas, senão de feridas e de aforismas vitais…?”, ao se referir ao estoicismo (p. 151), não só como linha de pensamento mas tb (e complementarmente) como atitude ou estilo de vida.
    Venho de ler esse teu Memorabilia III e ainda um texto teu admirável, que nos orienta no Platô sobre a “Máquina de Guerra” (capt do “Mil Platôs”), que achei na web. Só tenho a reforçar meu apelo anterior: sim, continue a escrever para que possamos manter o diálogo fortalecedor com as tuas reflexões.
    Abç,
    Tadeu,

  3. Um primeiro comentário, é que a filosofia deve ser tb a busca da felicidade, ou seja, no sentido espinozista, a superação das paixões tristes (dos dramas que nos sobrevêm: como a perda dos entes queridos). Problema: “Como ativarmos aquilo que em nós significa a alegria autodeterminada e ligada a uma ação/afirmativa na natureza diante de nós?” E isso implica a superação do trágico que nos paralisa, através de um ato de desmontagem e reconstrução ou recomposição, por meio de novas alianças ou novas composições com a vida. Novos amores, lato senso.
    Como na figura indiana do deus Shiva, aquele que destrói as estruturas ou formas dos seres, devolvendo-as de volta ao caldeirão do caos, onde novas e renovadas formas podem ser engendradas. “O pensamento tem afinidade com o caos”. E o “terceiro gênero de conhecimento” é invenção. Inventar com amor ou “amor fati”.

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