Memorabilia IV: três memórias – Paulo Domenech Oneto

“Que o ano que começa seja uma boa resposta aos anos anteriores”. Foi a frase que me ocorreu no último dia do ano de 2013. Mas o que pode estar dizendo esse estranho voto? Falava eu contra o passado? Espero aqui alguma conclusão ou desfecho para acontecimentos recentes que foram vividos com dificuldade?

Creio que não. Não apenas precisamos do tempo passado exatamente como foi para atingirmos uma afirmação da vida no presente como não há jamais conclusão alguma além da que nós próprios formos capazes de criar. Somos nós que damos (ou não) algum tipo de acabamento ao que está em curso.

De que resposta então poderia se tratar?

É o que estou tentando pensar. Afinal a frase me ocorreu, o pensamento me atropelou. E estou atrás dele.

Suponho que eu estava pensando numa guinada. Isto é, numa mudança no ritmo dos acontecimentos como inseparáveis de nossa própria reação a eles. Em suma, acho que eu fazia um voto estóico (mais uma vez o estoicismo, obsessão dessas memorabilia): um voto para que, aconteça o que acontecer em 2014, cada um de nós possa regular o acontecido de maneira a subverter a regra dos anos anteriores. Nisso, portanto, parece haver uma avaliação inicialmente negativa dos anos anteriores.

Mas seria essa negatividade predominante?

Escavando um pouco mais, tento ver a ideia de “resposta” não como uma réplica, como num debate, mas talvez como mero encaminhamento para alguns questionamentos surgidos nos anos anteriores.

Não seriam questionamentos pessoais os que mais importam, e sim aquilo que, bem no meio dos questionamentos pessoais, sempre caminha para além deles, e passa a envolver qualquer um que ali possa se encontrar.

Concretamente, três exemplos: a morte de alguém próximo, a cobrança social, a dificuldade de se expressar.

Nos três casos, um duplo e estranho sentimento em cascata: sentimento de algo inescapável e sentimento de uma memória em expansão.

O inescapável. Contra a morte, nada podemos. Contra a cobrança social, pouco podemos. Contra a dificuldade de se expressar, o que podemos?

A memória em expansão. Diante da morte, da cobrança social e da dificuldade de se expressar, construir uma memória redentora, que faça quem morreu viver de outro modo, que torne a cobrança social pequena diante da vida, que venha nutrir o pensamento de meios de expressão.

Tudo isso ainda pode parecer abstrato. Mas uma distinção a mais pode ajudar. Distingamos três memórias: a memória do que aconteceu, a memória do que estaria por detrás do acontecido e a memória do que estaria à frente do acontecido. Essas três memórias talvez correspondam aos três tipos de história descritos por Nietzsche (Segunda consideração extemporânea, 1874): a história antiquário, preocupada em preservar e reverenciar o passado; a história monumental, em que tomamos os acontecimentos como referência para nossas ações; a história crítica, focando no que efetivamente pode estar em ruptura com o passado.

A memória redentora reside na história crítica porque é esta que busca recordar o que estaria à frente do acontecido – memória das promessas e dos projetos – e nos lança de volta numa vida que é fundamentalmente supra ou pós-histórica. É essa história crítica que pode ajudar a responder ao passado justamente por encaminhar os questionamentos que estavam sendo colocados no momento que passou.

Pensemos no genocídio programado de Auschwitz e de outros campos nazistas na Segunda Guerra, ou nos porões da ditadura reduzida a militar, no Brasil da segunda metade do século XX. Se é preciso lembrar disso tudo, não é em absoluto para vitimizar e exaltar os mortos e torturados – embora eles sejam vítimas sim e, eventualmente, mereçam exaltação –, e nem tampouco apenas para que não cometamos as mesmas imprudências. Claro, um povo que desconhece a sua história (seus monumentos) está condenado a repeti-la. Contudo, o fundamental é que lembremos para renovar a vida, para responder ao que passou com novos acontecimentos. E, para tanto, é preciso uma memória do futuro, uma memória do que poderia ter sido e ainda pode ser, mesmo que por outros meios.

É desse modo que até mesmo a morte – e com mais razão ainda, a cobrança social que aprisiona e o silêncio a que nos reduzimos tantas vezes – é vencida. Não anulada, mas vencida. Não de modo heróico, mas discretamente, num fazer presente que se converte a cada instante no futuro.

“Que o ano que começa seja uma boa resposta aos anos anteriores".

*

Leia os outros ensaios do autor em Misturas - Coluna de Filosofia

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6 opiniões sobre “Memorabilia IV: três memórias – Paulo Domenech Oneto”

  1. Paulo, que lindo! Parabéns!!! Belíssima a sua investigação filosófica em torno do tempo, partindo do passado, para afirmar o presente e abrir-se para o futuro. Para que serviria o pensamento se não fosse para pensar a vida e encontrar uma saída? E é com coragem, simplicidade e rigor. que vc faz isso.

    E sempre uma imensa alegria ler sua belíssima coluna. Obrigada!

  2. Considerei muito interessante e inteligente, essa sua abordagem!
    No AGORA, residem em potencialidade os nossos 3 famosos “tempos”- Passado, Presente e Futuro!
    É nesse AGORA que o “Passado” “volta” em nuances de lembranças; nesse AGORA, também o “Futuro” se mostra com as possibilidades que dele, desejamos. Quanto ao Presente, parece ser mais indefinível do que qualquer outro “tempo”, parece um vazio a ser preenchido com algo, lembrando que O TEMPO, da forma como pensamos nele/dele, não existe!

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