Memorabilia – Paulo Domenech Oneto / Coluna semanal de filosofia

Das interlocuções passo a “memórias”. Minha segunda proposta de interlocução (Misturas 10) tentou abordar a questão da relação entre vida e pensamento (ou vida e obra). Procurei colocar o foco em Nietzsche, por este ter sido o objeto do comentário de meu leitor, mas, no fundo, por estar acostumado a ver como as pessoas ficam tentadas a estabelecer uma relação entre o ímpeto afirmativo que marca essa filosofia e o fato da loucura, que interrompe a trajetória do filósofo com apenas 44 anos de idade.

É evidente que, no caso de Nietzsche, a tentativa de explicar a obra pela vida é menos sedutora. Isto porque não há obra após o colapso de 1889 em Turim. Ora, o que excita as pessoas é, justamente, o tema bombástico da loucura. O máximo que se consegue aí nessa seara é insinuar que sua loucura sempre esteve ali, rondando. Sua obra, então, nada mais seria que um sintoma deste processo... Em termos mais claros: Nietzsche sofreria de “distúrbios psíquicos” (dito assim mesmo, de modo bem geral, para evitar a própria problematicidade da noção psiquiátrica) por conta disso ou daquilo. Em conseqüência disso, caminharia a passos largos para a célebre situação de “alienação mental”. Sua obra se reduziria a uma espécie de luta contra esta caminhada em direção à loucura.

Esta versão é comum, mas é também menos grave e menos polêmica do que a outra. Talvez, por isso mesmo, excite menos. Em primeiro lugar, porque se trata de uma versão inicialmente vaga: não se diz quais os distúrbios que já estariam presentes durante a elaboração da obra. Segundo ponto: ela não anula a possibilidade de que a relação seja complexa (problemática) e não uma mera relação de causa-efeito. Afinal de contas, a obra mantém sua relevância, ainda que como arena de luta contra a loucura latente. Ela ainda não é vista como série de esboços pré-loucura. A filosofia nietzscheana é apresentada como uma abertura para a questão da razão, embora esta questão apareça pessoalizada demais, como simples esforço de uma pessoa para não enlouquecer.

Por outro lado, a versão que tenta explicar a vida de Nietzsche por sua obra leva ao que chamei de “tolice deprimente”: sugere-se que a loucura é fruto de seus equívocos filosóficos. E, no entanto, já o disse, a obra de um pensador é continuação-reinvenção complexa de sua vida. Como continuação, ela não altera a vida. Como reinvenção, ela é afirmação da vida, seja quais forem os seus contornos trágicos.

Pois bem, na argumentação, dei os exemplos breves de Rimbaud e de Pessoa, dois de meus poetas preferidos. No primeiro caso, abandona-se a poesia para viver outra vida, na África, como se a poesia tivesse perdido seu papel. No segundo caso, ao contrário, é a vida que se esconde por detrás da poesia, como se perdesse a importância (uma vida banal de funcionário) diante de uma “segunda vida” – várias vidas, aliás, pois cada heterônimo corresponde a uma. Contudo, em Nietzsche, o processo até o colapso parece “dialogar” com a obra. Como mostrou Deleuze, de maneira magistral, Nietzsche faz de seus males físicos e mentais um ponto de vista sobre a vida (não sobre a sua vida). Desse modo, a obra se coloca como renovação da saúde (inclusive, agora, renovação de sua saúde). Fala-se, conceitualmente, em “grande saúde”. Mas a obra como elemento de renovação da própria vida encontra em Nietzsche um limite. Só isso. Nada mais do que isso. Um limite, como a própria morte que interrompe nossa criação diária. Tudo se dá bem à maneira descrita por Michel Foucault (1926-1984) em seu belíssimo As Palavras e as coisas. Por isso escrevi ao final de Misturas 10: as questões levantadas por Nietzsche se mantêm em toda a sua estatura. E sua vida atinge um limite que é alheio à moral.

Estou me repetindo, explicando ou reforçando argumentos já usados? Por que o título desta coluna? Não era meu intento falar de “memórias”?

Justamente. Toda a digressão inicial feita acima tem por objetivo a preparação do terreno para um experimento. Nas próximas misturas partirei de acontecimentos vividos para propor problematizações, me esforçando para mostrar que o nosso pensamento filosófico só se torna consistente quando vai além do pessoal, embora parta dele. Claro. Afinal, os pensadores são pessoas, com suas vivências, alegrias, tristezas, confianças e decepções.

Memorabilia. Traduzido ao pé da letra, o termo latino designa “coisas que podem ser lembradas e contadas” ou “o que é digno de ser lembrado e contado”. Memorável, mas no plural. No duplo sentido de passível e merecedor de recordação. Para quem ainda não sabe, uma das poucas obras de referência sobre a figura do filósofo Sócrates – afora os diálogos platônicos – é um livro de autoria de Xenofonte, cujo título é este: Memorabilia. Originalmente, em grego: Apomnemoneumata. Durante algumas semanas, também pretendo contar coisas “que merecem ser contadas”. Mas o meu “memorável” não deve se parecer com o do historiador e soldado grego, apólogo de Sócrates. Pretendo apenas remontar aos encontros que eventualmente nos levam a um autor ou a uma questão. Falarei de pequenas ocorrências, de coisas de que lembro e que me permitiram problematizações mais ou menos interessantes, me levando até mesmo a formular alguns proto-conceitos.

Começarei com os estóicos, já na próxima coluna. Como fui ter com esta estranha corrente filosófica, na qual Nitetzsche certamente se inspirou ao falar em amor fati? Os estóicos, da Grécia a Roma, e depois como um adjetivo da linguagem comum.

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4 opiniões sobre “Memorabilia – Paulo Domenech Oneto / Coluna semanal de filosofia”

  1. As pessoas em geral pensam que “cumprir uma vocação” é Influir no rumo da existência coletiva e ter fama. De fato, talvez seja possível provocar uma mudança positiva no rumo das coisas dessa maneira. Mas será que o modo mais contundente de fazer isso não se dá quando necessariamente vai-se contra a corrente e aí, inevitavelmente, se é obrigado a enfrentar o desinteresse e mesmo a oposição geral, devido a que se põe em questão os valores vigentes?
    Não seria essa a verdadeira revolução? ou “produção de novos mundos”… Se assim for, talvez os verdadeiros inventores, recriadores da humanidade sejam muitas vezes levados a um perigoso confronto com a loucura (ou caos) e muitas vezes com o sacrifício da própria vida. Dar a vida por uma visão de algo renovador na arte, na ciência, na política etc. Pensamento que quer gerar vida nova!
    Desculpe o tamanho do comentário, Paulo mas seu tema me interessa muito e creio ser da maior importância.
    Abç.

  2. Paulo, sua coluna, tão rigorosa, que tomo como uma espécie de homenagem à filosofia, ou, melhor dizendo, uma homenagem à vida filosófica, no que ela tem de engrandecimento da vida, está fazendo falta. Estamos ansiosamente esperando sua passagem pelos estóicos, que o Claudio apreciava tanto.

  3. Prezado Tadeu,
    Somente agora, após finalmente ter voltado à coluna, vi seu comentário. Te agradeço porque suas palavras me tocaram muito. Na sociedade do espetáculo e do controle em que vivemos a sede de pertencimento é grande demais. Creio que é o que nos leva a esta confusão que vc menciona. E pode ser que esta sede redunde em algo mesmo. Mas a verdadeira revolução é sempre molecular e passa aí por onde vc enxerga. E o risco é grande, como vc tb observou. Espero que vc continue lendo e comentando!
    Abços.

  4. Querida Silvia,

    Só agora li seu comentário ás minhas misturas 12. Fico muito feliz e honrado com suas palavras. Muito obrigado de novo e sempre! Os estóicos enfim saíram (uma primiera parte). Em breve no site. Espero que possa servir de homenagem ao Claudio que eu sabia admirar os estóicos. Aliás, eu mesmo via Ulpiano como um estóico contemporâneo, um criador capaz de pairar acima das mesquinharias mais bestas. Bjos.

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