Momento de decisão – Paulo Domenech Oneto

Falei do pensamento como ato involuntário. Falei – fazendo eco ao filósofo Deleuze – em sermos forçados a pensar. Nietzsche já dizia algo que caminha nesse sentido: uma ideia não vem a mim quando quero, mas quando ela quer. Mas como assim? As ideias teriam vontade própria? Na realidade, quem quer somos sempre nós, mas o nosso querer é um querer profundo ou sinuoso, que percorre os labirintos do chamado inconsciente (Freud) e obedece a uma “grande razão” (Nietzsche). Surge assim o tal “problemão” com que fechei a última coluna: se pensamos involuntariamente, qual o papel da tomada de decisão na mudança de pensamento e pelo pensamento?

Trata-se de um ponto difícil, mas essencial para a filosofia, e isto pelo menos desde o século XIX quando se deu algo que podemos chamar de “crise da razão”. Desta crise caberá falar depois. O que fica agora é a seguinte questão: a razão não tem plenos poderes sobre o nosso querer, ela não decide quando vai começar a agir, pois, bem ao contrário do que pretendem os defensores de um “livre-arbítrio”, ela depende de um querer que é constrangido. Mas este querer tampouco é cego, e talvez por isso mesmo devamos falar com Nietzsche de uma “grande razão”.

Ainda adolescente, lembro de um filme intitulado The turning point. Em português traduziu-se “momento de decisão”. Nunca cheguei a vê-lo, mas o título sempre me chamou a atenção. Pela resenha de jornal da época fiquei sabendo que tratava de oportunidades que surgem em nossas vidas, e que passam, e que julgamos irremediavelmente perdidas, e que geram ressentimento. Porém, o que mais me interessava era como tudo aquilo podia se concentrar num momento (num “ponto”), transformado desde então no momento em que as coisas deveriam se decidir. Era o ponto crítico, o ponto da guinada (turning point).

É uma questão existencialista, sem dúvida. E foi para lá que fui arremetido na ocasião. No entanto, para além do encaminhamento filosófico que coloca a liberdade sempre “em situação” e fala em estarmos “condenados à liberdade” (Sartre), podemos olhar para a matemática. No domínio do cálculo, um ponto crítico é um ponto no domínio de uma função em que a diferencial se anula ou deixa de existir. O ponto também é chamado “estacionário”. Ali, é como se tudo estivesse em suspenso, aguardando precisamente a diferença, a decisão. O ponto de inflexão é justamente o ponto em que voltamos a “derivar” num sentido, após a tomada de decisão. Na vida, muitas vezes experimentamos isso como uma retomada de sentido.

Pouco importa agora. O que importa é que esta decisão não é tomada pelo pensamento sobre si mesmo sem constrangimento. Não decidimos o que pensar, é a ideia que se impõe acionada por uma “grande razão” nietzscheana. Certo, não decidimos pensar, mas isto não quer dizer que fica então tudo como está, que pensamos o que pensamos e ponto final. Pois, embora não decidamos quando e como pensar, nem mesmo o que pensar, decidimos pensar, ou seja, decidimos nos expor e permitir que algo “faça problema”. Decidimos assumir a confusão das misturas, quebrando o hábito em nome de uma paixão que nos faz sujeitos: a paixão de pensar. Como diz Deleuze em uma passagem de extrema beleza: nunca sabemos muito bem, por exemplo, por que amores aprendemos latim, música ou o que quer que seja.

Mas qual a diferença entre essas duas coisas: decidir pensar e decidir quando, como e o que pensar? Com que direito é possível estabelecê-la? Estaríamos apenas jogando com as palavras?

É claro que não. E a melhor explicação para isso é dada novamente por Nietzsche. Não por um Nietzsche dos clichês logicizantes ou mansos, que o tratam como “irracionalista” ou que retiram de sua filosofia sua potência e agressividade conceitual (é o que predomina no mundo acadêmico), mas por um Nietzsche sutil, defensor da criação conceitual para reinvenção permanente da vida. Para este Nietzsche o pensamento é uma potência que nos perpassa e constitui. E, como tal, o pensamento emerge em tensão com nossas fraquezas, mas quer emergir. Somos “vontade de potência”, tendência à auto-superação, que precisa e pode ser afirmada. O pensamento pode ser afirmado e decidido por ser essa potência própria, colocada, por assim dizer, “logo de saída”, mas que ainda deve ser desdobrada.

Por isso podemos dizer com Antonin Artaud (outra vítima do mundo acadêmico) que é preciso engendrar o pensamento no pensamento. Não é nada fácil pensar. E este é o ponto a explorar na seqüência desta coluna. Na realidade, dois pontos: 1) se a vida em nós quer pensar, e se pensar é problematizar, por que passamos vidas inteiras sem problematizar nada? qual a dificuldade? 2) como fazer para que a decisão de pensar, uma vez tomada, tome corpo superando as dificuldades? (pois tomar consciência ou tomar uma decisão ainda está longe de desencadear uma ação).

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2 opiniões sobre “Momento de decisão – Paulo Domenech Oneto”

  1. Podemos relacionar este questionamento de
    Nietzsche com a questão da maioridade Kantiana
    Faço uma Pós na Puc em Filosofia e gostaria de trabalhar esta questão. Tive aulas com Claudio e sou admiradora do trabalho que ele desenvoveu.

  2. Por favor, me explique melhor a relação que vc faz entre a maioridade em Kant e o questionamento nietzscheano que levanto na coluna. Adoraria poder ajudar.

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