Problemas – Paulo Domenech Oneto

Utilizei na primeira coluna o termo “fascinação” para falar da intensidade dos afetos, de tudo que nos atinge, nos toca e acaba por “fazer problema”. Proponho-me, então, agora, justamente, a falar um pouco do que seriam problemas filosóficos. Mas dizer que no princípio do “verbo filosófico” (logos) está a fascinação, e que cabe ao pensamento mantê-la, pode parecer contra-intuitivo. Pois, em geral, estar fascinado parece implicar estar tomado por um feitiço, por um encantamento de tipo paradoxal: é algo que não está fadado a durar, mas que por outro lado paralisa enquanto dura. Paralisante enquanto dura... Como essa influência irresistível e fugaz pode conduzir o pensamento? Como essa confusão que nos impede de começar faz começar?

Está aqui a grande vantagem em falar de fascinação do começo e no começo de tudo. Isto permite indicar que só começamos mesmo quando podemos, quando um querer profundo fala alto em cada uma de nós. Este querer profundo é que fala quando pensamos. Somos tomados na relação com algo que provoca e fascina, independentemente de planos de começo, de propedêuticas e metodologias em sentido estrito. Em suma, falar em fascinação permite que afastemos a velha e renitente hipótese de um pensamento “livre”. Pensar é, por incrível que pareça, um ato involuntário. Como diz o filósofo francês Gilles Deleuze (1925-1995): somos forçados a pensar.

A partir daí, dois caminhos se descortinam: expor-se ao que força a pensar e “faz problema” ou não. Exposição ao que fascina e negação se abrem, por sua vez, em várias bifurcações. Talvez eu possa falar delas nas próximas vezes. Por ora basta tratar do “não mais seco”, aquele que simplesmente consiste em não problematizar e que segue o curso do hábito, do pensamento involuntário mais superficial. Não há nada a esperar nesses casos. Não é preciso tempo para pensar. Basta seguir fazendo o que sempre se fez.

- Não há nada fascinante e embolado diante de nós. Ou, se há, é apenas provisório, antes de sabermos o que pertence ao quê, o que deve ser feito. Como diz o título de um álbum de rock: apenas “a momentary lapse of reason” (ênfase no “momentary”).

Contudo, podemos adiantar alguma coisa sobre o sim generalizado ao que força e faz pensar. Com ele assume-se a confusão e se problematiza, não tanto para sair da confusão, mas para se situar nela, para colocar a cabeça pra fora e enxergar em volta aquele “todo misturado”. É isto o que quer dizer a expressão “se erguer na confusão e da confusão”, solicitando tempo... É isto que quer dizer “manter a fascinação”. Trata-se de se manter na confusão, da qual no fundo não saímos jamais. E não saímos jamais porque o lugar em que estamos é o lugar das misturas. Melhor ainda do que isso: o lugar é mistura. Todo “todo” é mistura. São as misturas que “fazem problema” em nós.

A escola pós-socrática dos estóicos já insistia nesse ponto: tudo o que há são misturas. Para eles restava saber se é possível vislumbrar uma unidade ou tendência à unidade. O fogo era utilizado para representar esta possível unidade. Falarei dessa complicação generalizada dos estóicos depois. O que quero para terminar é colocar o foco na categoria de problema e chegar ao ofício filosófico como arte da distinção.

Primeiro ponto: uma vez dito o sim ao que força a pensar, problematizamos. Mas isto ainda é pouco. Pois como mostra outro filósofo francês (Henri Bergson – 1859-1941), muitas vezes colocamos “falsos problemas” em lugar dos “verdadeiros”, muitas vezes colocamos “mal” certos problemas. E nem sabemos se isso tudo é melhor ou pior do que não colocar problema algum... O que é mais fácil de saber (segundo ponto) é que a falsidade de um problema ou sua colocação “ruim” transparece mesmo antes de chegarmos ao que dali decorre na prática. Antes mesmo de um critério pragmático para saber onde erramos, há um critério interno ao próprio processo do pensamento. Não, não são as “leis da lógica” ou da linguagem, como poderiam supor os adeptos mais afoitos da corrente autodenominada “analítica”. O critério é a capacidade de estabelecer distinções duradouras. Um pragmatismo do próprio pensamento. Todas as coisas estão misturadas e nos erguemos no meio delas ao colocarmos um problema. Mas o problema só se torna problema mesmo quando ele permite, justamente, separar “o joio do trigo”, quando permite dizer o que cabe ao quê nos dados do problema como foi colocado.

Certo, tudo isso ainda parece muito abstrato e talvez já seja mais do que hora de eu colocar o pensamento filosófico em ação, em vez de apenas ficar descrevendo o que ele faz sem que esteja logo fazendo... Por isso deixo para semana que vem um problemão, com todas as letras: se pensamos involuntariamente, qual o papel da tomada de decisão na mudança de pensamento e pelo pensamento?

[print_link] [email_link]

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *