Útil / Inútil: 3ª interlocução – Paulo Domenech Oneto

Pretendo retornar mais tarde à questão da relação entre vida e pensamento abordada na coluna anterior (Misturas 10). Recordo que o tema se impôs a partir de um amável comentário “postado no site” (segundo a novilíngua) por um leitor. Misturas 9 também foi escrito a partir de um comentário do mesmo leitor. Daí o subtítulo das duas colunas: interlocução. Como já cheguei a dizer nestas misturas, as conversas quase sempre propiciam a emergência de uma questão. O pensamento se nutre do diálogo. Cabe acrescentar que “emergência” tem aqui duplo sentido: trata-se, às vezes, do que emerge pura e simplesmente, mas pode ser também o que emerge e exige urgência. Muitas conversas apenas suscitam questões. Mas há outras que trazem a questão sob o modo do imperativo. Isto ocorre quando um ou mais interlocutores são fortemente mobilizados pela questão, quando o que é dito parece trazer conseqüências éticas e políticas graves.

A “emergência” assumida por uma questão é sempre fascinante e fundamental. Fascinante, pois nos coloca naquela posição afetiva do thauma – aurora grega da filosofia ocidental – em que o pensamento problematizante pode se instaurar (ver Misturas 1). Perguntamo-nos como isto ou aquilo pode ser; desnaturalizamos o que acontece. Fundamental, pois revela a face ético-política do pensamento, contrariamente aos que pretendem ocultar suas arestas para agradar a todos. É como perguntava Deleuze nos idos dos anos 1960: “o que é um pensamento que não faz mal a ninguém?”

Mas que se entenda bem: “fazer mal” não é nada de intencional e nem algo ruim. Quem “faz mal” é a própria questão, e isto nada tem de ruim ou mau, uma vez que permite que aquele que se afeta mal possa eventualmente se questionar e mudar. Infelizmente basta olharmos em volta para vermos a quantidade de “pensadores contemporâneos” que se esmeram em fazer parecer que o valor de uma ideia está, não no seu grau de incorporação vital (como dizia Nietzsche n’A Gaia Ciência), mas no seu grau de inofensividade. Não é à toa que vivemos a era da auto-ajuda.

Tudo isso para chegar a esta minha terceira interlocução. De onde emerge a questão agora? Por que enfatizo sua urgência? Pois bem, desta feita não sou instado ou provocado pelo comentário de um leitor, mas por uma conversa tête-à-tête com uma amiga. A questão que me mobiliza é – como o título acima indica – a dualidade “útil / inútil”. Sua urgência se coloca por vários motivos. Porém, o contexto em que ela emergiu foi o do ensino de filosofia e sociologia no ensino médio brasileiro. É desta urgência que pretendo falar, ainda que brevemente.

Sabemos o quão polêmico foi o debate sobre a volta dessas “matérias” ao currículo do ensino médio. Sabemos como a grande mídia – sempre ela – lutou para barrar o projeto. Não entrarei neste mérito agora. Quero apenas levantar a questão que surgiu na conversa com minha amiga. Importa dizer que ela é socióloga. Importa dizer que discutíamos a dificuldade de afirmar a força e importância de “nossas” duas “disciplinas” na sociedade atual. Chegamos então à recepção do chamado alunado. Sintonizado com o nosso tempo – que, muito antes de ser a era da auto-ajuda, é hipermoderna, cobrando de todos nós inserção e capacidade de manter a máquina capitalista funcionando – os alunos tendem a rejeitar sociologia e filosofia por sua “inutilidade”.

A estratégia de minha amiga parece boa. Ela consiste em desconstruir a própria noção de “utilidade”. Ela explica que começa mostrando que o homem se distingue dos demais animais pelo fato de não buscar apenas o que lhe assegura sobrevivência, ou seja, o que lhe é imediatamente útil. “Útil” aparece aqui como “útil para manter a vida”: alimento, abrigo, luz etc. É claro que isto tende a caricaturar os bichos, mas pode ajudar. Ajuda, ao colocar o útil fora dos preconceitos hiper-modernos: “um gadget de tecnologia digital é útil, mas filosofia, sociologia ou arte não”. Ora, não precisamos de nenhum deles para sobreviver. Ajuda, ainda, ao indicar que o que nos constitui é (no caso dos demais animais também, apesar da dificuldade em se enxergar) vontade de potência, isto é, tendência à auto-superação, reinvenção permanente. Em outros termos: o que importa nem sempre é útil.

Num segundo momento, porém, a argumentação de minha amiga deriva: conduzida inadvertidamente pela lógica dos alunos mais utilitaristas, ela sente necessidade de demonstrar a utilidade do inútil para “salvar” os saberes da filosofia e da sociologia. Não trata da utilidade como importância, mas de uma utilidade tout court. O “útil para manter a vida” no sentido animal foi descartado. O útil como aplicabilidade também vai ser descartado, mas sem maior análise. O argumento é o seguinte: querer “aplicar” tudo é ficar, ainda, no nível do imediato, sem conseguir questionar o telos (a finalidade) que está em jogo. Ora, esta finalidade é construída socialmente. Lembro que minha amiga é socióloga. Em suma, a lógica utilitarista que diz que a filosofia (ou o que for) deve servir para algo não questiona este “algo”, apenas aceita.

Duas utilidades já foram eliminadas. Mas fica um resto. É por meio dele que entra em campo a lógica perversa do tecnicismo que define nossa triste hiper-modernidade. Que resto é este? Minha amiga sugere aos alunos que precisamos saber coisas ditas “inúteis” porque hoje em dia os saberes se tornam úteis indiretamente; porque suas finalidades só aparecem depois, passo a passo. Conclui que o mercado de trabalho também se afeta por esta mudança de lógica. O inútil também é útil e já é reconhecido como tal.

É desta maneira que perecemos. É evidente que a pressão é forte demais. Minha amiga não é tola. Ela apenas perde o fôlego diante do inquérito utilitarista. É como se ela gritasse: “todos querem saber como vão entrar no mundo profissional, o que posso fazer senão mostrar que, talvez, filosofia e sociologia possam contribuir, sobretudo dado que os objetivos do sistema já não são tão claros e imediatos?” O pressuposto é o de que o questionamento filosófico, por exemplo, pode provocar um desvio sorrateiro, posto que o ideal de aplicabilidade se tornou ligeiramente difuso. Pode mesmo? Desta maneira?

Tudo que posso dizer é que “hoje em dia” e “mercado de trabalho” são terrenos muito perigosos. Eles nos obrigam a colocar útil e importante no mesmo patamar: “é importante filosofar, mas útil mesmo é ter emprego”. Claro. E é desta maneira que perecemos, inclusive grande parte dos “profissionais de filosofia”, reféns dos ideais contemporâneos de produtividade (publish or perish) e de visibilidade (o namoro impudente com as mídias, quaisquer que sejam suas identidades).

Que remédio? Talvez o proposto por aquele filósofo estóico quando perguntado por um homem ingênuo (ou sarcástico quanto ao papel da filosofia) sobre como poderia enriquecer. A reposta veio como um golpe de bastão zen: “diminua suas expectativas”. A resposta nietzscheana seria uma pergunta: “mas quem em você quer enriquecer?”

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3 opiniões sobre “Útil / Inútil: 3ª interlocução – Paulo Domenech Oneto”

  1. Ótima e oportuna a sua exposição, Paulo. Ajuda a entender as dificuldades que encontramos ao querer atravessar a filosofia num meio congestionado pelo útil. E como a filosofia é atraente para aqueles que ainda podem aproveitar seu sopro de liberdade para renovar a vida.
    Obrigada,

  2. Paulo, acabo de retornar a esse site depois de muito tempo e surpreender-me com todo teu trabalho por aqui. Não quero passar sem ao menos cumprimentá-lo. Já em Fortaleza tinha entrado em contato contigo e já admirava sua cordialidade e bom humor. Aqui, encontramos elegância e sobriedade. Parabéns pelos textos e obrigado pelas injeções de carga para o pensamento.

  3. Caro Paulo
    Gosto quando acrescenta a arte nessa abordagem ao tema da utilidade, junto com sociologia e filosofia. Um destacado artista do Rio, numa cerimônia, falou ironicamente que nós, artistas, tratávamos de coisas inúteis (uma provocação que levantava justo este tema). Então meu pensamento ficou saltando de uma perspectiva para outra, pois o sistema contrata professores de Educação Artística por alguma “utilidade”, e aí, intencionalmente ou não, talvez acerte no alvo, atirando numa direção oposta, ao buscar o útil, acabe encontrando o importante. Meu filho foi aluno do Cefet, uma escola tecnológica onde os alunos têm um carinho todo especial com a Educação Artística, sendo talvez naquela escola uma das disciplinas que desperte mais interesse, muito embora quem esteja ali queira uma formação dita útil e competitiva. Ainda dentro da mesma questão o cientista Stephen Hawking no seu livro Uma nova história do tempo, (tradução Vera de Paula Assis, espécie de atualização do seu famosíssimo Uma breve história do tempo), faz ao final a seguinte afirmação: “Até agora, a maioria dos cientistas têm estado ocupada demais com o desenvolvimento de novas teorias que descrevem o que o universo é para perguntar porque. Por outro lado, as pessoas cuja ocupação é perguntar porque – os filósofos – não tem conseguido acompanhar o avanço das teorias científicas. No século XVIII, os filósofos consideravam seu campo todo o conhecimento humano, inclusive a ciência, e discutiam questões como se o universo teria tido um início. Entretanto, nos séculos XIX e XX, a ciência tornou-se demasiado técnica e matemática para os filósofos ou para qualquer outra pessoa, exceto um punhado de especialistas. Os filósofos reduziram tanto o alcance de suas indagações que Wittgenstein, o mais famoso filósofo do século XX, disse:” A única tarefa que resta para a filosofia é a análise da linguagem.” Que degradação da grande tradição filosófica de Aristóteles a Kant!”.
    Assim, penso, o eminente cientista se refere ao útil e esquece o que é importante.

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