Presença de Ifigênia

Ifigênia

Como estátua de vento, pedra gasta,
sopra Ifigênia sempre na memória
e estamos nela sem escapatória
como o tempo nas pedras: só se afasta,
(devido à semelhança com o vento
de seu todo), para estar em nós, aérea,
desprovida de contornos, em matéria
capaz de dar volume ao pensamento
que surge do que some: quando volta
volta cheia de pássaros e tudo
se lhe gruda ao olhar: reminiscência
de seus passos, o pássaro se solta
e em nós gravita a terra: conteúdo
e volume final de sua ausência.

Ifigênia - Reencontro

Deparamos com ela de regresso
e era a mesma Ifigênia que ficara
com o mesmo sorriso em toda a cara
e o mesmo rio no seu corpo impresso:
Encontramos o tempo e seu progresso:
Ifigênia era a mesma, não mudara,
Ifigênia, tão límpida e tão clara
que nunca possuiu nenhum recesso
onde a luz desaguasse que não fosse
nela mesma. Ifigênia transparente,
atravessando a luz ficava intacta,
atravessando a morte ficou doce:
Atravessâmo-la perpetuamente
Ifigênia, cristal de longa data.

Sopra Ifigênia

Sopra Ifigênia: o mar para diante
permanece infinito, mas encurta
o tempo à nossa frente: seu semblante
tão próximo de nós, logo se furta
e aproximam-se as ilhas, breve espuma,
para sumirem instantaneamente
na memória, cujo oco se avoluma
espalhando arquipélagos: ausente,
o vento que a levou, a tornou lastro:
Agora venta, o mar nela se enxuga
e o sal aumenta as praias: com matéria
de nuvens, Ifigênia firma o mastro,
sopra sempre Ifigênia, forma aérea,
componente do mar, salina em fuga.

Ifigênia - Arquipélago Amado

Procurando Ifigênia, substituo
as coisas pelas ilhas, e a lembrança
me guia pelo tempo: da mudança
de tudo, tiro o vento: contínuo,
prossigo por mim mesmo, e adiante,
ilha por ilha vou redescobrindo
o arquipélago amado: cada instante
deixa sinais na areia: vou seguindo
as pegadas do tempo, e a ampulheta
vai deixando cair a mesma areia
pelo istmo da sede: pela estreita
passagem da memória, cada veia
verte o seu conteúdo transeunte
até que em Ifigênia o mar se junte.

Ifigênia - Estátua Aérea

Ifigênia, de pé na solidão,
acompanha os navios, ganha altura,
caminha pela morte e se procura,
irrefreável de sofreguidão,
através dessa inerte multidão
dos vivos que povoam a amargura:
Durante a vida apenas escultura,
abandona, com toda a mansidão
que sempre teve, a fixa e dura pose
do mármore que a teve toda a vida:
Respira agora e sopra a ventania,
levantando-se assim, adormecida,
sobre seu próprio corpo, que jazia
e jaz, sem que ninguém nele repouse.

Ifigênia

Dir-se-ia que o mar não tem limites,
porém a cada passo deparamos
com a presença de Ifigênia morta -
e as coisas deste mundo são convites:
Convidam a tocar-lhe o corpo aéreo
todas as coisas que ao redor fitamos -
Ifigênia, substância que transporta,
e muda os continentes de hemisfério,
quando vamos tocar-lhe o corpo, some,
desaparece em nós, porém por fora,
como se fosse a nossa pele, toca
e a saudade recente que provoca.
(pondo a doçura toda de seu nome
na carícia, que é muda, mas demora),

Octavio Mora
do livro Ausência Viva, 1956


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