A Epifania de Ana

INTRODUÇÃO

O conto Amor, de Clarice Lispector, parte da obra Laços de Família, publicado em 1960, narra a história de Ana, uma mulher que tem uma vida como muitas pessoas gostariam de ter: marido trabalhador, filhos espertos, casa própria paga a prestações, uma cozinha grande e cortinas cortadas por ela própria; nada de luxo, mas todo o necessário para algum conforto. Mas, um dia, ao voltar para casa em um bonde, depois de fazer algumas compras para o jantar, e se deparar com um cego mascando chicles, tudo em sua vida muda, e ela encontra coisas que jamais esperava encontrar; teve uma súbita compreensão de algo que sempre temeu compreender nas horas perigosas do seu dia, quando acabava todo o serviço e estava sozinha em casa, quando seus pensamentos ficavam em um ponto que poderiam explodir a qualquer momento. Ela se sente expulsa de sua própria vida. Acaba perdendo seu ponto de descer do bonde, e pára bem em frente ao Jardim Botânico. Lá, vivencia toda a natureza, e percebe que a vida é muito mais do que aquilo a que ela se acostumou: vê um lugar de múltiplas existências. Desperta e se lembra que há alguém ainda esperando por ela; já é noite e ela nem percebeu. Ao voltar para casa, não consegue mais sentir o conforto que sentia antes. Ana está à beira de um imenso perigo: o perigo de viver; mas sua rotina consegue ainda afastá-la disto. Mesmo assim, ela já sabe a verdade, ela sabe que a vida vai além da simples rotina que ela temeu tanto perder.

Depois, quando todos foram embora e as crianças já estavam deitadas, ela era uma mulher bruta que olhava pela janela. A cidade estava adormecida e quente. O que o cego desencadeara caberia nos seus dias? Quantos anos levaria até envelhecer de novo? Qualquer movimento seu e pisaria numa das crianças. Mas com uma maldade de amante, parecia aceitar que da flor saísse o mosquito, que as vitórias-régias boiassem no escuro do lago. O cego pendia entre os frutos do Jardim Botânico. (LISPECTOR, 1998, p.28 e 29)

Esta situação paradoxal na vida de Ana remete-nos aos campos problemáticos que Gilles Deleuze define em Lógica do Sentido da seguinte forma:

O que é um acontecimento ideal? É uma singularidade: Ou melhor: é um conjunto de singularidades, de pontos singulares que caracterizam uma curva matemática, um estado de coisas físico, uma pessoa psicológica e moral. São pontos de retrocesso, de inflexão etc.; desfiladeiros, nós, núcleos, centros; pontos de fusão, de condensação, de ebulição etc.; pontos de choro e de alegria, de doença e de saúde, de esperança e de angústia, pontos sensíveis, como se diz. Tais singularidades não se confundem, entretanto, nem com a personalidade daquele que exprime em um discurso, nem com a individualidade de um estado de coisas designado por uma proposição, nem com a generalidade nem com a universalidade de um conceito significado pela figura ou a curva. A singularidade faz parte de uma outra dimensão, diferente das dimensões da designação, da manifestação ou da significação. A singularidade é essencialmente pré-individual, não-pessoal, aconceitual [...] indiferente ao individual e ao coletivo, ao pessoal e ao impessoal, ao particular e ao geral – e às suas oposições. Ela é neutra. (DELEUZE, 2003, p.55)

Ela se torna uma pessoa desorientada; seu sentido de viver entrou em contato direto com o não-sentido, ou seria o contrário? “O que o cego desencadeara caberia nos seus dias?” (LISPECTOR, 1998, p.28); o momento se constitui de uma dobra, na qual Ana passa a uma nova vida, depois de morrer em sua antiga, ela perde o que reconhecia como sendo ela mesma e passa e se ver no mundo de outra maneira, mas existe ainda uma parte imutável que insiste em trazê-la de volta do mundo dos mortos: a família: “num gesto que não era seu, mas que pareceu natural, segurou a mão da mulher, levando-a consigo sem olhar pra trás, afastando-a do perigo de viver” (Idem, 1998, p.29). Ela entra aí em um processo de individuação, no qual duas realidades pré-existentes, mas nunca antes confrontadas entram em confronto. É a partir deste momento, da visão do cego mascando goma que ela passa a ser um eu-subjetivo, que ela passa a se reinventar, efetuando um processo novo de individuação e subjetivação. É um devir. Por devir, Deleuze e Guattari em Mil Platôs, volume 4,  definem: “O devir é involutivo, a involução é criadora. Regredir é ir em direção ao menos diferenciado. Mas involuir é criar um bloco que corre seguindo sua própria linha, “entre” os termos postos em jogo, e sob as relações assinaláveis”. (DELEUZE E GUATTARI, 1997, p.19). Tal definição de devir colocada por Deleuze e Guattari nos coloca diante da situação de Ana. Ela não regride, não vai em direção a outra situação menos diferenciada, que a faça deixar de se individuar. Ana involui, o bloco está criado, o bloco entre o que ela vivia antes, as horas de medo de compreender a vida, e o bloco de medo por ter compreendido a vida. São dois blocos de medo, lado a lado, seguindo cada um sua linha. Por vezes um desses blocos toma a frente, deixando a atenção de Ana mais voltada para ele, mas eles estão sempre ali.

A existência de Ana antes desse acidente era puramente de singularidades aprisionadas em um eu individual e que se sentia com a personalidade já formada, pronta e acabada: a dona de casa, calma e tranquila. A visão do cego mascando chicle é para ela algo aparentemente simples e quase imperceptível, mas que muda muita coisa em um campo problemático. Ana vivia em um campo problemático constante e se depara com um acidente, que a faz superar seu campo constante e passar para um muito mais conturbado, aqui se encerra uma vida de Ana e ela passa a ter consciência, passa a ter individualidade, passa a ter contato com novas atualizações de singularidades, passando um processo novo de sentir-se viva. Então, Ana passa a viver um dilema: o que será melhor para a sua vida, a vida de cego mascando goma, ou a vida do Jardim Botânico? Como nos diz Benedito Nunes em O Dorso do Tigre, os personagens de Clarice “são esquemáticos, cujos traços individuais apenas emolduram a inquietação que os consome e que se sobrepõe à identidade pessoal de cada um deles” (NUNES, 1976, p.113). A missão deste estudo será, então, aplicar alguns conceitos da teoria de Gilles Deleuze na obra de Clarice Lispector, dois escritores de tempos tão próximos e mundos tão distantes.

ALGUNS CONCEITOS DELEUZIANOS NO CONTO AMOR, DE CLARICE LISPECTOR.

A princípio, é necessário ressaltar a importância da literatura na obra de Gilles Deleuze. Como ele mesmo disse no Abecedário, “os grandes personagens da literatura são grandes pensadores”. Mesmo Ana, uma mulher de vida simples, classe média, “feliz”, tem o dom de ser uma grande pensadora quando se depara com seu momento epifânico: o cego mascando goma. Nilson Dinis, no livro A Arte da Fuga em Clarice Lispector, fala sobre a relação de Deleuze com a literatura e explica o conceito deleuziano de Literatura menor, construído juntamente com Félix Guattari em um estudo sobre a obra de Kafka. Dinis cita a seguinte passagem de Kafka: por uma literatura menor:

Uma literatura menor não é a de uma língua menor, mas antes a que uma minoria faz em uma língua maior. No entanto a primeira característica é, de qualquer modo, que a língua aí é modificada por um forte coeficiente de desterritorialização. (DINIS, 2001, p.10 apud DELEUZE E GUATTARI, 1977, p.25)

Então, Dinis justifica:

Menor não tem mais uma conotação valorativa pejorativa. Menor é a literatura que foge do padrão estandardizado, a literatura que se inscreve numa linguagem inovadora perpassando por dentro e por fora da literatura maior, menor é sempre no sentido de revolucionário. (Idem, 2001, p.10)

Clarice Lispector tem o dom de colocar em seus personagens, mesmo os mais asquerosos e mesquinhos, uma veste de pensador. Vemos o exemplo de Macabéa, criatura das mais tontas, mas que reflete acerca das coisas de uma maneira única, e muda a vida de seu admirador-narrador, Rodrigo S.M. Ana é bem diferente de Macabéa. Ana tem consciência de sua vida e de suas horas perigosas, Ana sabe que a qualquer momento pode ter uma súbita compreensão, e na verdade não gostaria de ter, porque sua vida é muito cômoda como é. Mas, de repente “numa experiência pela qual peço perdão a mim mesma, eu estava saindo do meu mundo e entrando no mundo” (LISPECTOR, 1998), fragmento de outro livro de Clarice, A Paixão Segundo G.H., mas que resume muito bem a situação de Ana.

Ana vivia constantemente em situações previsíveis. A problemática envolvendo seu campo de problemas era simples, monótona; como se a vida fosse quase automática: costurar, lavar, fazer comida, dar carinho aos filhos, devires automáticos. “O devir não produz outra coisa senão ele próprio” (DELEUZE e GUATTARI, 1997, P.18).

E a epifania? Quando Ana se depara com a visão do cego mascando goma, ela tem uma súbita compreensão de uma verdade que sempre esteve diante dela. Acontece a superação do seu campo problemático constante e ela passa a devir em um campo de problema perturbador. Ela passa a enxergar que pode escolher entre algumas situações em sua vida. Até este momento, Ana era toda composta por singularidades, mas a partir daí, ela passa à individuação. A situação é tão perturbadora que Ana nem sabe se será possível viver depois disso.

Aqui nos deparamos com o sentido e o não sentido. O sentido estava presente no devir automático de Ana ou passou a existir apenas depois do cego mascando goma? Antes de se casar e ter uma vida perfeita, o texto diz que Ana passou por “uma exaltação perturbadora que tantas vezes se confundira com felicidade insuportável” (LISPECTOR, 1998, p.20). Mas agora ela era dedicada a sua família e dava a ela em seu devir automático através de suas mãos delicadas e fortes sua “corrente de vida” de devir puro.

Quando Ana perde seu ponto do bonde, indo parar no Jardim Botânico, experimenta os vários modos que se apresentam, a imanência da natureza, cada detalhe que devem aos seus olhos. É o mundo acontecendo puro. E, como diz Deleuze, em Lógica do Sentido:

O acontecimento por si mesmo é problemático e problematizante. Um problema, com efeito, não é determinado se não pelos pontos singulares que exprimem suas condições. Parece, pois, que um problema tem sempre a solução que merece segundo as condições que o determinam enquanto problema. (DELEUZE, 2003, p.57)

Mas vemos também que há problemas sem saída, que é, por enquanto, o que se passa com Ana. Saindo do Jardim Botânico, Ana volta para casa e lá se dá conta do que os acontecimentos fizeram em sua vida. A rotina com a qual ela estava acostumada não mais satisfazia.

Alfredo Bosi na obra História Concisa da Literatura Brasileira, define os personagens de Clarice da seguinte forma: “não há mais eu e mundo, mas um Ser de que um e outro participam” (BOSI, 1979, p.477), definição que no remete a um trecho de Lógica do Sentido no qual Deleuze diz:

As metamorfoses ou redistribuições de singularidades formam uma história; cada combinação, cada repartição é um acontecimento; mas a instância paradoxal é o Acontecimento no qual todos os acontecimentos se comunicam e se distribuem, o Único acontecimento de que todos os outros não passam de fragmentos e farrapos. (DELEUZE, 2003, p.59)

E isso nos remete exatamente à condição de Ana. São os acontecimentos mudando sua condição de problemas que a fazem perceber que não é mais pura singularidade, mas um acontecimento devindo do Acontecimento. Essa noção traz aos olhos os conceitos platônicos de Physis e Logos que são definidos, o primeiro, como o lugar que permite que os acontecimentos aconteçam, e, o segundo, ao próprio acontecimento acontecendo. A physis é uma univocidade que suporta toda a multiplicidade de acontecimentos do logos, ela se mantém sempre possibilitando a todos os acontecimentos acontecerem, serve de cenários a eles, mas não participa deles enquanto acontecimentos. Já o logos está em constante devir na superfície da physis, e podem aí ser definidos em comparação a ela como “fragmentos e farrapos”.

Expulsa de seus próprios dias, parecia-lhe que as pessoas da rua eram periclitantes, que se mantinham por um mínimo equilíbrio à tona da escuridão — e por um momento a falta de sentido deixava-as tão livres que elas não sabiam para onde ir. (p.23)

Ela apaziguara tão bem a vida, cuidara tanto para que esta não explodisse. Mantinha tudo em serena compreensão, separava uma pessoa das outras, as roupas eram claramente feitas para serem usadas e podia-se escolher pelo jornal o filme da noite - tudo feito de modo a que um dia se seguisse ao outro. E um cego mascando goma despedaçava tudo isso. E através da piedade aparecia a Ana uma vida cheia de náusea doce, até a boca. (LISPECTOR, 1998, p.23)

Ana foi acometida por um susto metafísico. Em uma realidade cheia de vias, cheia de sentido e agora não será mais a mesma. Mas ela volta para casa, com os acontecimentos claros diante de seus olhos, tendo o marido e os filhos tentando inconscientemente trazê-la de volta do mundo de pura singularidade.

CONCLUSÃO

Diante da riqueza enorme de temas, da vastidão de significados, da enormidade de significação e interpretações possíveis que os textos de Clarice Lispector pode nos proporcionar e das inúmeras vertentes que são possíveis serem seguidas para dar um olhar diferente, temos muito mais que várias possibilidades de estudo. Temos diversas possibilidades de acontecimentos. Acontecimentos que se transferem da literatura para a vida. Ler Clarice Lispector é como estar em um campo problemático cheio de subjetividade, que nos possibilita individuar, superar. Permite-nos devir. Devir-mulher, devir-animal, na multiplicidade infinita que a natureza nos oferece para a individuação.

A filosofia de Gilles Deleuze é uma demonstração de possibilidades de visão da vida, é a conceituação dos acontecimentos e dos campos problemáticos que nos cercam. Essa conceituação se encaixa perfeitamente não só em uma, mas em diversas obras de Clarice Lispector. O professor Nilson Dinis, da Universidade Federal de São Carlos, fez mais de um estudo acerca da relação que as obras desses dois grandes nomes da literatura e da filosofia vivem. Um deles, citado no presente artigo A Arte da Fuga em Clarice Lispector. Ele cita mais de uma obra da autora em suas relações, o que nos faz ir além apenas do conto deste estudo.

Clarice Lispector viveu a literatura, não foi somente uma escritora, ela teve um devir-literatura. Papel feminino fundamental na Literatura Brasileira, grande marco, que muitas vezes teve de dar a seus personagens um devir-homem, para que não sofresse com o estigma próprio da vida feminina.

As obras de Clarice Lispector a despertar interesse por um estudo profundo são muitas. Os conceitos de Deleuze a serem aplicados aos personagens também o são. Escolher apenas alguns não foi um trabalho fácil. Mesmo nos poucos conceitos trabalhados, campos problemáticos, acontecimentos, individuação e devir, principalmente, haveria ainda muita coisa a ser dita.

Por fim, ressaltamos que trabalhar com estes dois autores é mais do que somente um trabalho, é um prazer. Prazer este que faz até esquecer de que é um trabalho. Prazer que proporciona devires. Prazer que nos faz viver, individuar, para sermos diferentes em nossa própria diferença.

Aline Gabriela Copceski (FAFIPA)

Gersonita Elpídio dos Santos (FAFIPA)

 

Bibliografia

BOSI, Alfredo. História Concisa da Literatura Brasileira. São Paulo: Cultrix, 1976.

DELEUZE, Gilles. O Abecedário de Gilles Deleuze. Trad. RACCORD. Disponível em: <http://www.dossie_deleuze.blogger.com.br/>, acesso em 12 de fev. de 2010.

______. Lógica do Sentido. Trad. FORTES, Luiz Roberto Salinas. São Paulo: Perspectiva, 2003.

DELEUZE, Gilles e GUATTARI, Félix. Mil Platôs: Capitalismo e Esquizofrenia, vol.4. Coord. da trad. OLIVEIRA, Ana Lúcia de. São Paulo: Editora 34, 1997.

DINIS, Nilson. A Arte da Fuga em Clarice Lispector. Londrina: Ed. UEL, 2001.

LISPECTOR, Clarice. A Hora da Estrela. Rio de Janeiro: Rocco, 1999.

­­______. A Paixão Segundo G. H. Rio de Janeiro: Rocco, 1998.

______. Laços de Família. Rio de Janeiro: Rocco, 1998.

NUNES, Benedito. O Dorso do Tigre. São Paulo: Editora Perspectiva S.A., 1976.

Uma opinião sobre “A Epifania de Ana”

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *