A vida de Spinoza, por Johannes Colerus

Por Johannes Colerus | Trad.: Emanuel Angelo da Rocha Fragoso

 


A Vida de Spinoza[i]

Spinoza, o filósofo cujo nome fez tanto alarde no mundo, era judeu de origem. Seus pais, pouco tempo depois de seu nascimento, chamaram-no Baruch[ii]. Mas tendo logo abandonado o judaísmo, trocou seu nome e assinou seus escritos e suas cartas com o nome de Benoit[iii]. Nasceu em Amsterdã a 24 de novembro, no ano de 1632[iv]. O que se diz comumente, e que inclusive se escreveu, que ele era pobre e de baixa estirpe, não é verdade; seus pais, judeus portugueses, honrados e abastados, eram comerciantes em Amsterdã, onde moravam no Burgwal, em uma casa assaz bela próxima da velha sinagoga[v] portuguesa. Seus hábitos, aliás corteses e decentes, seus parentes e parentes por afinidade, pessoas despreocupadas, e os bens deixados por seu pai e mãe, dão fé que tanto sua linhagem como sua educação estavam acima do comum. Samuel Carceris, judeu português, casou com a mais jovem de suas duas irmãs. A primogênita se chamava Rebecca, e a caçula Miriam de Spinoza; cujo filho, Daniel Carceris, sobrinho de Benoit de Spinoza, se apresentou como um de seus herdeiros depois de sua morte, é o que aparece por um ato passado ante o notário Libertus Loef, a 30 de março de 1677, na forma de procuração outorgada a Henri Van der Spyck, em cuja casa habitava Spinoza quando faleceu.

Estátua de Spinoza em Amsterdam. Pelo escultor Nicolas Dings, 2008.

Seus primeiros estudos

Spinoza revelou desde sua infância e ainda melhor depois, em sua juventude, que a natureza não lhe havia sido ingrata. Reconhece-se facilmente que ele possuía a imaginação viva e um espírito extremamente ágil e penetrante.

Como tinha muito desejo de aprender bem a língua latina, contrataram-lhe de inicio um mestre[vi] alemão. Para se aperfeiçoar em seguida nessa língua, se valeu do famoso Franciscus van den Eden, que ensinava então em Amsterdã, e exercia ao mesmo tempo a profissão de médico. Este homem ensinava com muito sucesso e reputação; de forma que os mais ricos comerciantes da cidade lhe confiavam a instrução de seus filhos, antes que reconhecessem que ele transmitia a seus discípulos outra coisa que o latim. Porque se descobriu enfim que ele plantava no espírito desses jovens as primeiras sementes do ateísmo. Este é um fato que eu poderia provar, se houvesse necessidade, pelo testemunho de muitas pessoas honradas que vivem ainda, e das quais algumas desempenharam o cargo de ancião em nossa igreja de Amsterdã, e cumpriram suas funções com perfeição. Estas boas almas não se cansam de abençoar a memória de seus pais, que os arrancaram ainda a tempo da escola de Satanás tirando-os das mãos de um mestre tão pernicioso e tão ímpio[vii].

Franciscus van den Eden (1602 - 1674)

Van den Eden tinha uma filha única que dominava a língua latina tão perfeitamente, assim como a música[viii], que ela era capaz de instruir os escolares de seu pai em sua ausência, e de lhes dar a lição. Como Spinoza tinha ocasião de a ver e de lhe falar muito frequentemente, se enamorou dela, e lhe confessou muitas vezes que tinha o desejo de a desposar. Não porque ela fosse das mais belas e nem bem acabada de corpo[ix]; mas ela possuía muito espírito, muita capacidade e muita jovialidade; isto que tocou o coração de Spinoza, assim como o de um outro discípulo de Van den Eden, chamado Kerkering, nativo de Hamburgo. Este logo percebeu que tinha um rival, e não deixou de tornar-se ciumento; isto o obrigou a redobrar suas atenções e suas diligências junto de sua amada. Ele o fez com sucesso, ainda que o presente que havia feito anteriormente à jovem, de um colar de pérolas no valor de duzentas ou trezentas pistolas[x], contribuiu sem dúvida para ganhar suas boas graças. Ela concordou então e prometeu desposá-lo, o que realizou fielmente depois que o senhor Kerkering abjurou a religião luterana que ele professava, e abraçou a católica. Pode-se consultar sobre este assunto o Dictionnaire de M. Bayle, tomo III, edição 2, no verbete Spinoza, à página 2770; assim como o tratado do Dr. Kortholt De Tribus Impostoribus, edição 2, no prefácio[xi].

Quanto a Van den Eden, como estava muito conhecido na Holanda para encontrar emprego, se viu obrigado a ir procurá-lo em outro lugar. Foi para a França, onde teve um fim muito infeliz, depois de ter subsistido alguns anos com o que ele ganhava em sua profissão de médico. F. Halma, em sua tradução flamenga do artigo de Spinoza, página 5, relata que Van den Eden foi acusado de ter atentado contra a vida de Mgr[xii] o Delfim, foi condenado a ser enforcado e executado.

Entretanto, alguns outros que o conheceram muito particularmente em França, têm como verdadeira a execução, mas relatam de outra maneira a causa. Eles dizem que Van den Eden procurou incitar à revolta os povos de uma das províncias de França, que, por este meio, esperavam voltar a gozar de seus antigos privilégios; no que ele tinha em vista o seu lado: o qual pensava liberar as Províncias Unidas da opressão a que estavam submetidas até então, dando bastante ocupação ao rei da França em seu próprio país para ser este obrigado a empregar uma grande parte de suas forças; foi para facilitar a realização de seu desígnio que havia feito equipar alguns navios de guerra, que, entretanto, chegaram muito tarde. Qualquer que tenha sido, Van den Eden foi executado; mas se ele houvesse atentado contra a vida do Delfim, aparentemente ele teria expiado seu crime de outra maneira e por um suplício mais rigoroso.

Spinoza se dedica ao estudo da Teologia, que ele abandona para estudar a fundo a Física

Depois de ter bem aprendido a língua latina, Spinoza se propõe ao estudo da Teologia, e a ela se dedicou durante alguns anos. Entretanto, ainda que fosse dotado de grande espírito e muito discernimento, um e outro se fortaleciam ainda mais a cada dia; de forma que, encontrando mais disposição à investigação das produções e das causas naturais[xiii], abandonou a Teologia para fixar-se inteiramente na Física. Refletiu muito tempo sobre a opção que faria por um mestre cujos escritos lhe pudessem servir de guia em seu projeto. Mas enfim, as obras de Descartes caem em suas mãos, as quais leu com avidez; e em seguida, frequentemente declarou que tirou de lá, o conhecimento que tinha em Filosofia[xiv]. Ele estava encantado com a máxima de Descartes, que estabelecia que não se deve jamais nada receber como verdadeiro que não tenha sido anteriormente provado por boas e sólidas razões. Donde tirou esta consequência, que a doutrina e os princípios ridículos dos rabinos judeus não podem ser admitidos por um homem de bom senso; pois, esses princípios são estabelecidos unicamente sobre a autoridade dos rabinos mesmos, sem que seus ensinamentos venham de Deus, como eles os pretendem como verdade, mas sem fundamento e sem a menor aparência de razão.

Ele teve desde então forte reserva com os doutores judeus, de quem evitou contatos tanto quanto lhe foi possível; viam-no raramente em suas sinagogas, onde não se apresentava mais do que por acaso; isto os irritou extremamente contra ele, porque não duvidaram que este não tardaria em abandoná-los e se fazer cristão. Entretanto, para dizer a verdade, ele jamais abraçou o cristianismo, nem recebeu o santo batismo; e ainda que tenha mantido frequentes conversações depois de sua deserção do judaísmo com alguns sábios Menonitas, assim como também com as pessoas mais esclarecidas de outras seitas cristãs, ele no entanto jamais se declarou por nenhuma, e nem jamais as professou.

O Senhor François Halma, na Vie de Spinoza[xv], que traduziu para o flamengo, informa, páginas 6, 7 e 8, que os judeus lhe ofereceram uma pensão pouco depois de sua deserção para que se empenhasse em permanecer entre eles, sem interromper o se fazer ver de tempos em tempos em suas sinagogas. Isto é também o que Spinoza frequentemente afirmou ao senhor Van der Spyck, seu hospedeiro, assim como a outros, acrescentando que os rabinos haviam fixado a pensão que lhe destinavam em mil[xvi] florins; porém ele afirmava veementemente em seguida, que mesmo se eles lhe tivessem oferecido dez vezes mais, não teria aceitado suas ofertas nem frequentado suas assembleias por um simples motivo: porque não era hipócrita, e não procurava mais do que a verdade.

Bayle relata, além disso, que ele chegou um dia a ser atacado por um judeu à saída do teatro e recebeu um golpe de faca no rosto; e embora a ferida não fosse perigosa, Spinoza viu que o propósito do judeu foi de matá-lo. Mas o hospedeiro de Spinoza, assim como sua mulher, os quais ainda vivem, me relataram isto inteiramente ao contrário. Eles o souberam pela boca do próprio Spinoza, que lhes contou várias vezes, que uma noite, saindo da velha sinagoga portuguesa, ele viu alguém perto dele, o punhal a mão; isto o fez ficar em guarda e se desviar, evitando o golpe, que atingiu somente suas roupas. Ele guardava ainda a época o sobretudo furado pelo golpe, em memória desse evento. Entretanto, não se acreditava mais em suficiente segurança em Amsterdã, ele não queria mais do que retirar-se para qualquer outro lugar a primeira ocasião; pois queria, por outro lado, prosseguir seus estudos e suas meditações físicas em algum retiro tranquilo e afastado do barulho.

Os judeus o excomungam

“Com a sentença dos Anjos e dos Santos, com o consentimento do Deus Bendito e com o consentimento de toda esta Congregação, diante destes santos Livros, nós heremizamos, expulsamos, amaldiçoamos e esconjuramos Baruch de Espinosa [...] Maldito seja de dia e maldito seja de noite, maldito seja em seu deitar, maldito seja em seu levantar, maldito seja em seu sair, e maldito seja em seu entrar [...] E que Adonai [Soberano Senhor] apague o seu nome de sob os céus, e que Adonai o afaste, para sua desgraça, de todas as tribos de Israel, com todas as maldições do firmamento escritas no Livro desta Lei. E vós, os dedicados a Adonai, que Deus vos conserve todos vivos. Advertindo que ninguém lhe pode falar bocalmente nem por escrito nem conceder-lhe nenhum favor, nem debaixo do mesmo teto estar com ele, nem a uma distância de menos de quatro côvados, nem ler Papel algum feito ou escrito por ele.”

 [Herem – anátema – pronunciado contra Espinosa aos 23 anos de idade, em 27 de julho de 1656].

Spinoza3 Leon.jpgAssim que ele se separou dos judeus e de sua comunhão, estes o perseguiram juridicamente segundo suas leis eclesiásticas e o excomungaram. Ele afirmou várias vezes ter sido assim que a coisa ocorreu, e declarou que depois ele rompeu toda ligação e todo comércio com eles. Isto é também aquilo ao qual M. Bayle assente, tanto quanto o doutor Musæus[xvii]. Os judeus de Amsterdã, os quais conheceram muito bem Spinoza, igualmente me confirmaram a verdade desse fato[xviii], acrescentando que foi o velho Chacham Abuabh, rabino ainda de grande reputação entre eles, quem pronunciou publicamente a sentença de excomunhão. Eu solicitei inutilmente aos filhos deste velho rabino, para me comunicarem esta: eles se escusaram dizendo que não a haviam encontrado entre os papéis de seu pai, embora tenha sido fácil notar que não tinham desejo de se desapossar nem de a comunicar a ninguém[xix].

Ocorreu-me aqui, em Haia, de perguntar um dia a um sábio judeu qual era a fórmula da qual se servem para interditar ou excomungar a um apóstata. Eu tive por resposta que a podemos ler nos escritos de Maimônides, no Tratado Hilcoth Thalmud Thorah, capítulo 7, v. 2, e que foi concebida em poucas palavras. Entretanto, é opinião comum dos intérpretes da Escritura que tinha três tipos de excomunhão entre os antigos judeus; embora esta opinião não seja seguida pelo sábio Jean Seldenus, que não estabelece mais do que dois em seu Traité (latino) du Sanhedrin des anciens Hébreux, livro 1[xx], capítulo 7, página 64. Eles nomeavam Niddui a primeira espécie de excomunhão, que dividiam em dois ramos: primeiramente, separava-se o culpado e lhe fechavam a entrada na sinagoga por uma semana, depois de terem-lhe feito previamente uma severa reprimenda e terem-lhe fortemente exortado a se arrepender e a pôr-se em estado de obter o perdão de sua falta. Caso não ficassem satisfeitos, davam-lhe ainda trinta dias ou um mês para recuperar-se.

Durante este tempo era-lhe proibido de se aproximar das pessoas a menos de oito ou dez passos; e ninguém ousava mais ter algum contato com ele, exceto aqueles que lhe davam de beber e de comer; e esta interdição era chamada a excomunhão menor. M. Hofman, em seu Lexicon, tomo II, página 213, acrescenta que era proibido a todo mundo beber e comer com um tal homem ou se lavar em um mesmo banho; que ele podia, entretanto, se quisesse, encontrar-se às assembleias somente para escutar para instruir-se. Mas se, durante o término de um mês, lhe nascesse um filho, lhe recusavam a circuncisão; e se essa criança viesse a morrer, não lhe era permitido chorá-la ou testemunhar nenhum luto; ao contrário, como marca de eterna infâmia, eles cobriam com uma pilha de pedras o lugar onde era enterrado, ou bem eles rolavam uma só pedra extremamente grande para que este mesmo lugar fosse coberto.

Goerée, em seu livro intitulado Antiquités judaiques, tomo I, página 641[xxi], sustenta que entre os Hebreus ninguém foi jamais punido com uma interdição ou excomunhão particular, nem há nada semelhante entre aqueles que a têm em uso; mas, quase todos os intérpretes das Sagradas Escrituras ensinam o contrário, e encontram-se poucos, sejam judeus ou cristãos, que aprovam seu parecer.

A segunda espécie de interdição ou excomunhão foi chamada Cherem[xxii]. Era um banimento da sinagoga acompanhada de horríveis maldições, tomadas em sua maior parte do Deuteronômio, capítulo 28; este é o parecer do doutor Dilherr, que ele explica ao longo do tomo II, Disp. Re. et Philolog.[xxiii], página 319[xxiv]. O sábio Lightfoot, Sur la premiére Épitré aux Corinthiens[xxv], 5, 5, no tomo II de suas obras, página 890, ensina que esta interdição ou banimento era aplicada antigamente, quando o limite dos trinta dias expirava e o culpado não se apresentava pronto para reconhecer sua falta; e este era, de acordo com o seu parecer, o segundo ramo da interdição ou excomunhão menor. As maldições que foram inseridas eram tiradas da lei de Moisés, e elas eram pronunciadas solenemente contra o culpado, na presença dos judeus em uma de suas assembleias públicas. Acendiam-se então círios ou velas, que queimavam durante todo o tempo de duração da leitura da sentença de excomunhão; esta terminada, o rabino apagava os círios, para marcar deste modo que este infeliz homem era abandonado a si mesmo, reprovado e inteiramente privado da luz divina. Após tal interdição, não era permitido ao culpado se encontrar nas assembleias, nem mesmo para se instruir ou para escutar. Entretanto, davam-lhe ainda um novo prazo de um mês, que se estendia em seguida até dois ou três, com a esperança de que ele pudesse cair em si e pedir perdão por suas faltas; mas quando este não queria assim fazer, fulminava-se enfim a terceira e última excomunhão.

É este terceiro tipo de excomunhão que eles chamam Schammatha. Esta era uma interdição ou banimento de suas assembleias ou sinagogas[xxvi] sem esperança de poder jamais voltar; era também aquilo que chamavam por um nome particular, grande anátema ou banimento. No momento em que os rabinos a publicavam na assembleia, eles tinham, nos primeiros tempos, o costume de soar a trombeta, para espalhar assim um maior terror no espírito dos assistentes. Por esta excomunhão, o criminoso estava privado de toda ajuda e assistência da parte dos homens, tanto quanto do socorro da graça e da misericórdia de Deus, abandonado aos seus julgamentos mais severos, e entregue para sempre a ruína e a condenação inevitáveis. Muitos consideram que esta excomunhão é a mesma que aquela mencionada na Épitre I aux Corinthiens, capítulo 16, v. 22, na qual o apóstolo a denomina Maranata. Veja a passagem: Se alguém não ama o Senhor Jesus, que ele seja anátema, maharam motha[xxvii], ou maranata; isto é, que seja anátema ou excomungado para sempre; ou, segundo a explicação de alguns outros, o Senhor vem, a saber, para julgar este excomungado e para o punir. Os judeus afirmam que o bem-aventurado Enoch é o autor desta excomunhão, e que dele a receberam, e que ela passou até eles através de uma tradição certa e incontestável.

Em relação às razões pelas quais alguém possa ser excomungado, os doutores judeus relatam duas principais, segundo o testemunho de Lightfoot, no mesmo lugar que citamos, a saber: por dívidas ou por causa de uma vida libertina e epicurista.

Era-se excomungado por dívidas quando o devedor condenado pelo juiz a pagar recusava-se no entanto a satisfazer seus credores. Era-se igualmente excomungado por levar uma vida licenciosa e epicurista; quando se estava convencido de ser blasfemador, idólatra, violador do sabá ou desertor da religião e do serviço de Deus. Porque no Traité du Talmud sanhédrin, fol. 99, um epicurista é definido como o homem que não tem mais do que desprezo pela palavra de Deus e pelos ensinamentos dos sábios, que as ridiculariza, e que não se serve de sua língua mais do que para proferir coisas más contra a majestade divina.

Eles não acordam nenhum prazo a tal homem. Este encoraja a excomunhão, que fulminam-lhe no mesmo instante contra ele. Em primeiro lugar, ele era nomeado e citado no primeiro dia da semana pelo porteiro da sinagoga. E como recusava-se ordinariamente a comparecer, aquele que o havia citado fazia publicamente sua razão, nestes termos: Eu, por ordem do diretor da Escola, cito N. N., que não respondeu à citação, nem desejou comparecer. Procedia-se então por escrito à sentença de excomunhão, que era depois notificada ao criminoso e servia de ato de interdição ou banimento, do qual cada um poderia tirar cópia pagando-a. Mas se acontecia dele comparecer e perseverar, no entanto, em suas opiniões com obstinação, sua excomunhão era-lhe somente pronunciada de viva voz, a que os assistentes acrescentavam ainda, a afronta de o ridicularizar e de o apontar com o dedo.

Além destas duas causas de excomunhão, o sábio Lightfoot no lugar anteriormente citado, relaciona vinte e quatro outras, tiradas dos escritos dos antigos judeus; mas o que ele diz sobre este assunto nos levaria muito longe, e é demasiado extenso para ser inserido aqui.

Enfim, em relação ao formulário utilizado em suas sentenças de excomunhão, pronunciadas de viva voz ou expressas por escrito, vejamos o que diz o doutor Seldenus, no lugar já citado, página 59, e que ele tirou dos escritos de Maimônides: Anunciava-se  primeiramente o crime do acusado, ou o que deu lugar à demanda que se movia contra ele; a que acrescenta-se a seguir estas maldições concebidas em poucas palavras: Este homem, N. N., seja excomungado com a excomunhão Niddui, Cherem ou Schammatha; que ele seja separado, banido, ou inteiramente extirpado do meio de nós.

Eu durante muito tempo procurei alguns dos formulário do qual os judeus se utilizam em seus tipos de excomunhão, porém isto foi inútil, não encontrei nenhum judeu que tenha podido ou querido comunicar-me algum. Mas enfim, o sábio M. Surenhusius, professor de línguas orientais na ilustre escola de Amsterdã, e que tem um perfeito conhecimento dos costumes e dos escritos dos judeus, me pôs nas mãos o formulário da excomunhão ordinária e geral, do qual eles se servem para retirar de sua sociedade todos aqueles que vivem mal e desobedecem à lei. Este foi tirado do cerimonial dos judeus nomeado Colbo, e ele me deu traduzido em latim. Pode-se entretanto o ler em Seldenus, página 524, livro 4, capítulo 7 de seu tratado De jure naturæ et gentium[xxviii].

Spinoza[xxix], sendo separado abertamente dos judeus, a quem tinha anteriormente irritado os doutores, contradizendo-os e descobrindo suas armadilhas ridículas, não deve ter-se surpreendido que o tenham feito passar por um blasfemador, um inimigo da lei de Deus e um apóstata, que somente se retirou do meio deles para se jogar nos braços dos infiéis; e nem duvidado que tenham fulminado contra ele a mais terrível das excomunhões. Isto também me foi confirmado por um sábio judeu, que assegurou-me que se Spinoza foi excomungado, foi certamente o anátema Schammatha que foi pronunciado contra ele. Todavia Spinoza não estando presente nesta cerimônia, foi posta por escrito sua sentença de excomunhão, cuja cópia lhe foi notificada. Ele protestou contra este ato de excomunhão, e redigiu uma resposta em espanhol que foi enviada aos rabinos, e que eles receberam como nós o exporemos a seguir.

Spinoza aprende um ofício ou uma arte mecânica

Oficina de Espinosa, que ganhava a vida polindo lentes.

A lei e os antigos doutores judeus testemunham expressamente que não é suficiente ser sábio; mas que deve-se exercitar-se em alguma arte mecânica ou profissão, para poder socorrer-se em todos os acontecimentos e ganhar o que subsistir. Isto é o que diz positivamente Raban[xxx], Gamaliel no tratado do Talmud Pirke Aboth, capítulo 2, no qual ele ensina que o estudo da lei é alguma coisa de bem desejável quando se lhe acrescenta uma profissão ou alguma arte mecânica; porque diz ele, a aplicação contínua a esses dois exercícios faz com que não se tenha disposição para fazer o mal e que se olvide-o; e todo sábio que não se preocupa de aprender alguma profissão acaba ao fim um homem dissipado e desregrado em seus costumes. E o rabino Jéhuda acrescenta que todo homem que não faz aprender um ofício as suas crianças faz a mesma coisa que se as instruísse a serem ladrões de estrada.

Spinoza, sábio na lei e nos costumes dos antigos, não ignorava essas máximas e nem as esqueceu, ainda que inteiramente separado dos judeus e excomungado como foi. Como elas são muito sábias e razoáveis, ele as utilizou em seu proveito, e aprendeu uma arte mecânica antes de escolher uma vida tranquila e retirada, como havia determinado. Ele aprendeu então a fazer lentes para óculos de ver ao longe e para outros usos, e as fazia tão perfeitamente que se dirigiam a ele de todos os lados para comprar-lhes, o que lhe forneceu suficientemente de que viver e se sustentar. Encontrou-se em seu gabinete, depois de sua morte, ainda um bom número que havia polido; e elas foram vendidas muito caro, como pode-se demonstrar pelo registro do leiloeiro público que procedeu a seu inventário e a venda de seus móveis.

Depois de haver-se aperfeiçoado nessa arte, dedicou-se ao desenho, que aprendeu por si mesmo, e teve bom resultado em traçar um retrato com a tinta ou o carvão. Eu tenho em minhas mãos um livro inteiro com semelhantes retratos, no qual encontra-se o de muitas pessoas distintas que lhe eram conhecidas ou que tiveram ocasião de visitá-lo. Entre esses
retratos, eu encontrei na quarta folha um pescador desenhado de camisa, com uma rede sobre o ombro direito, inteiramente semelhante pela atitude ao famoso chefe dos rebeldes de Nápoles, Masaniello[xxxi], como ele é representado na história e em gravura a buril. A respeito deste desenho, eu não devo omitir que o senhor Van der Spyck, em cuja casa habitava Spinoza quando morreu, me assegurou que este esboço ou retrato assemelhava-se perfeitamente bem a Spinoza, e que foi seguramente a cópia dele mesmo que havia feito. Não é necessário fazer menção às pessoas distintas cujos retratos esboçados encontram-se igualmente no livro entre os outros desenhos.

Desta maneira ele pôde suprir as suas necessidades com o trabalho de suas mãos, e dedicar-se ao estudo como havia determinado. Assim, nada havendo que o detivesse mais em Amsterdã, partiu e foi alojar-se na casa de um homem de seu conhecimento que morava na rota de Amsterdã a Auwerkerk. Passava o tempo a estudar e a trabalhar em suas lentes; quando elas estavam polidas, seus amigos providenciavam buscá-las em sua casa, vendê-las e lhe fazer chegar o dinheiro.

Ele vai morar em Rynsburg, em seguida a Vooburg e finalmente em Haia

No ano 1664[xxxii] Spinoza se foi deste lugar e retirou-se à Rynsburg perto de Leyde, onde passou o inverno; mas logo partiu e foi morar em Voorburg, a uma légua de Haia, como ele testemunha em sua trigésima[xxxiii] carta a Pierre Balling. Ele passou ali, como eu fui informado, três ou quatro anos, durante os quais fez um grande número de amigos em Haia, todos pessoas distintas por sua condição ou pelos cargos que exerciam no governo ou no exército. Eles se encontravam de bom grado em sua companhia, e obtinham muito prazer em ouvi-lo discorrer. Isto fez com que a pedido deles se estabelecesse enfim em Haia, onde morou de início na pensão em Veerkaay, na casa da viúva Van Velden, na mesma casa em que estou alojado atualmente. O quarto onde eu estudo, à extremidade posterior da casa, no segundo piso, é o mesmo onde ele dormia e se dedicava ao estudo e ao seu trabalho. Ele frequentemente pedia que lhe trouxessem a comida e passava dois ou três dias sem ver ninguém. Mas apercebendo-se de que estava gastando demais sua pensão, se alojou em Pavilioengragt, atrás de minha casa, num quarto na casa do senhor Henri Van der Spyck, a quem várias vezes fizemos menção, onde ele mesmo tomou conta de se fornecer aquilo que necessitava para comer e para beber, e experimentou viver a sua vontade muito retirado.

Ele era muito moderado e parcimonioso

É quase inacreditável o quanto ele foi moderado nessa ocasião e bem parcimonioso. Isto não porque tenha sido reduzido a uma tão grande pobreza, que não pudesse fazer mais despesas do que tivesse desejado; muita gente lhe oferecia sua bolsa e toda espécie de assistência; mas ele era muito comedido naturalmente, fácil de contentar, e não desejava ter a reputação de vivido, nem mesmo uma só vez, às expensas de outrem. O que adiantei de sua sobriedade e de sua economia pode-se justificar por diferentes pequenas contas, que foram encontradas entre os papéis que deixou. Descobriu-se que ele viveu um dia inteiro com uma sopa ao leite preparada com manteiga, que lhe custou três soldos[xxxiv] e uma vasilha de cerveja de um soldo e meio; um outro dia, não comeu mais do que farinha de cereal preparada com passas e manteiga, e este prato lhe custou quatro soldos e meio. Nessas mesmas contas não se faz menção a mais do que duas meia-pintas[xxxv] de vinho, quando muito por mês; e ainda que o convidassem frequentemente a comer, ele preferia no entanto viver do que tinha em sua casa, por pouco que isto fosse, do que encontrar-se a uma boa mesa às expensas de outrem.

Foi assim que passou o que lhe restava da vida, na casa de seu último hospedeiro durante um pouco mais de cinco[xxxvi] anos e meio. Ele tinha um grande cuidado em ajustar suas contas todos os trimestres, o que ele fazia afim de não despender nem mais nem menos, do que tinha a despender a cada ano. E aconteceu algumas vezes de dizer aos da casa, que ele era como a serpente que forma um círculo com a cauda na boca, para assinalar que não lhe restava nada do que tinha ganho durante o ano. Acrescentava, que não era sua intenção nada acumular além do que seria necessário para ser enterrado com alguma conveniência; e como seus pais não lhe deixaram nada, seus parentes e seus herdeiros não deviam aguardar beneficiar-se muito com sua sucessão[xxxvii].

Sua pessoa e sua maneira de vestir-se

Em relação a sua pessoa, de seu aspecto e as feições de seu rosto, há ainda algumas pessoas em Haia que o viram e o conheceram particularmente. Ele era de meia estatura; tinha as feições do rosto bem proporcionais, a pele um pouco negra, os cabelos encrespados e negros, e as sobrancelhas longas e da mesma cor, de forma que pela sua fisionomia reconhecia-se facilmente ser descendente de judeus portugueses. Quanto a sua maneira de vestir-se, cuidava muito pouco, e não melhor do que o mais simples burguês. Um conselheiro de Estado dos mais consideráveis, que foi vê-lo, encontrou-o vestido com um roupão muito usado, o que deu ocasião ao conselheiro para fazer-lhe algumas censuras e de oferecer-lhe um outro; Spinoza lhe respondeu que um homem não vale mais por ter um roupão mais belo. É contra o bom senso, acrescentou, colocar um invólucro precioso em coisas de nenhum ou pouco valor[xxxviii].

Seus modos, sua conversação e seu desinteresse

De resto, se sua maneira de viver era bem regrada, sua conversação não era menos suave e agradável. Sabia admiravelmente bem ser o mestre de suas paixões. Não foi jamais visto nem muito triste nem muito alegre. Ele sabia se dominar na cólera e nas contrariedades que lhe sobrevinham, e não os deixava transparecer; a menor demonstração de seu pesar por algum gesto ou por algumas palavras, ele não hesitava em se retirar no mesmo instante, para nada fazer que fosse contra a conveniência. Ele era muito afável e de um trato fácil, falava frequentemente com sua hospedeira, particularmente nos períodos de seus partos, e aos da casa quando lhes sobrevinha alguma aflição ou doença; ele não deixava então de consolá-los e de exortá-los a sofrer com paciência dos males, que eram como uma parte que Deus lhes havia designado. Prevenia as crianças de assistir frequentemente na igreja ao serviço divino, e lhes ensinava o quanto elas deviam ser obedientes e submissas a seus pais. Quando as pessoas da casa retornavam do sermão, perguntava-lhes sempre que proveito tinham alcançado e o que haviam retido para seu aperfeiçoamento Ele tinha uma grande estima pelo meu predecessor, o doutor Cordes, que era um homem sábio, bom naturalmente e de uma vida exemplar; o que dava ocasião a Spinoza de fazer-lhe sempre o elogio. Ele ia mesmo algumas vezes ouvi-lo pregar, e destacava sobretudo a maneira sábia com que explicava a Escritura e as aplicações sólidas que lhe dava. Ele advertia ao mesmo tempo, o seu hospedeiro e aos da casa, a não faltar jamais a nenhuma pregação de tão hábil homem.

Uma vez sua hospedeira perguntou-lhe se acreditava que ela pudesse salvar-se com a religião que professava; ao que respondeu: Vossa religião é boa, vós não deveis procurar outra nem duvidar que vós não obtenhais vossa salvação, contanto que ao vos dedicar à piedade, vós leveis ao mesmo tempo uma vida agradável e tranquila.

Enquanto permanecia em casa não incomodava a ninguém, passava a maior parte de seu tempo tranquilamente em seu quarto. Quando lhe acontecia de se encontrar fatigado por ser muito dedicado a suas meditações filosóficas, ele descia para se distrair, e falava aos da casa de tudo o que pudesse servir de matéria a um entretenimento ordinário, mesmo de frivolidades. Entretinha-se também algumas vezes a fumar um cachimbo; ou então, quando queria relaxar o espírito um pouco mais longamente, ele procurava aranhas e as fazia brigarem entre si, ou as moscas que ele jogava na teia de aranha, e olhava em seguida esta batalha com tanto prazer que às vezes caía na risada. Observava também ao microscópio as diferentes partes dos menores insetos, de onde tirava depois as consequências que lhe pareciam mais convenientes as suas descobertas.

De resto, ele não tinha nenhum apego ao dinheiro, como nós tínhamos dito, e se contentava em ter, sem se preocupar com o futuro, o que lhe era necessário para sua alimentação e para sua subsistência. Simon de Vries, de Amsterdã, o qual testemunhou muita afeição por ele na Carta vigésima sexta e que o chama ao mesmo tempo seu fidelíssimo amigo (amice integerrime)[xxxix], lhe deu um dia de presente uma soma de dois mil florins, para que pudesse viver com um pouco mais de bem-estar; porém Spinoza, em presença de seu hospedeiro, escusou-se polidamente a receber este dinheiro, com o pretexto de não ter necessidade de nada, e que tanto dinheiro, se ele o recebesse, o desviaria infalivelmente de seus estudos e de suas ocupações.

O mesmo Simon de Vries, aproximando-se de seu fim e vendo-se sem mulher e sem crianças, quis fazer seu testamento e o instituir herdeiro de todos os seus bens; porém Spinoza não quis jamais consentir, e demonstrou a seu amigo que não deveria pensar em deixar seus bens, a outro que não fosse o seu irmão que morava em Schiedam, visto que era o mais próximo de seus parentes, e devia ser naturalmente seu herdeiro.

faixa-doacao

Isto foi executado como ele havia proposto; entretanto, o foi com a condição de que o irmão e herdeiro de Simon de Vries, desse a Spinoza uma pensão vitalícia suficiente para sua subsistência; e esta cláusula foi também fielmente executada. Porém, o que há de particular, é que em consequência ofereceu-se a Spinoza uma pensão de quinhentos florins, a qual ele não aceitou porque considerou-a excessiva, de forma que a reduziu a trezentos. Esta pensão lhe foi paga regularmente durante sua vida, e após sua morte, o mesmo Vries de Schiedam se ocupou, ainda, em pagar ao Sr. Van der Spyck o que pudesse lhe ser devido por Spinoza, como aparece na carta de Jean Rieuwertz, impressor da cidade de Amsterdã, encarregado dessa tarefa: ela está datada a 6 de março de 1678[xl] e endereçada a Van der Spyck.

Pode-se ainda julgar o desinteresse de Spinoza pelo que ocorreu depois da morte de seu pai. Havia que dividir a herança entre suas irmãs e ele, divisão que lhes haviam imposto judicialmente, apesar de elas terem feito todo o possível para excluí-lo. Porém no momento de repartir, lhes deixou tudo, e não reservou para o seu uso mais do que uma cama, que era realmente muito boa, e as suas sanefas.

É conhecido por diversas pessoas de grande consideração

Spinoza nem bem publicou algumas de suas obras, e já se fez um grande nome no mundo entre as pessoas mais distintas, que o viam como um bom gênio e um grande filósofo. M. Stoupe, tenente-coronel de um regimento suíço a serviço do rei de França, comandava em Utrecht em 1673. Ele tinha sido antes ministro da Savoie[xli] em Londres, nos distúrbios[xlii] da Inglaterra dos tempos de Cromwell; foi logo brigadeiro, e quando desempenhava este cargo foi morto na batalha de Steemkerke. Quando estava em Utrecht escreveu um livro que intitulou La Religion des Hollandais, no qual ele reprova entre outras coisas aos teólogos reformistas[xliii] que tinham visto imprimir sob seus olhos em 1670 o livro que porta o título Tractatus theologico-politicus, do qual Spinoza se declara o autor na Carta décima nona[xliv], sem entretanto ter tomado o cuidado de refutá-lo ou contestá-lo[xlv]. Isto é o que M. Stoupe manifestou. Porém o célebre Braunius[xlvi], professor da universidade de Groningue, demonstrou o contrário em um livro que imprimiu para refutar aquele de Stoupe; e com efeito, o tanto de escritos publicados contra esse tratado abominável mostram evidentemente que M. Stoupe estava enganado. Nessa mesma época ele escreveu várias cartas a Spinoza, das quais recebeu também algumas respostas, e lhe pediu enfim, que fosse a Utrecht em um certo tempo por ele marcado[xlvii]. M. Stoupe o chamou porque o príncipe de Condé, que tomara então posse do governo de Utrecht, desejava muito conversar com Spinoza; e com esse objetivo em vista lhe assegurava que sua alteza estava muito disposto a apoiá-lo junto ao rei, e que o príncipe esperava poder obter facilmente uma pensão para Spinoza, desde que este resolvesse dedicar algumas de suas obras a sua majestade. Ele recebeu este despacho acompanhado de um passaporte, e partiu pouco depois de tê-la recebido. O senhor Halma[xlviii], na La Vie de nosso filósofo que traduziu e extraiu do Dictionnaire de M. Bayle, relata à página 11 que é certo que ele visitou ao príncipe de Condé, com quem manteve diversas conversações durante vários dias, como também com muitas outras pessoas distintas, particularmente com o tenente-coronel Stoupe. Porém Van der Spyck e sua mulher[xlix], em cuja casa se alojava e que vivem ainda ao presente, asseguraram-me que ao seu retorno ele lhes disse positivamente que não havia podido ver o príncipe de Condé, que tinha partido de Utrecht alguns dias antes de sua chegada; mas que nas conversações que ele tinha tido com M. Stoupe, este oficial lhe havia assegurado que se ocuparia dele de bom grado, e que não duvidava que com sua recomendação obteria uma pensão da generosidade do rei[l]. Mas ele Spinoza, como não tinha desejo de nada dedicar ao rei de França, recusou a oferta que lhe foi feita com toda a cortesia de que era capaz.

Após seu retorno, o populacho de Haia comoveu-se extraordinariamente na ocasião; ele era visto como um espião, e dizia-se em voz baixa que haviam de livrar-se de um homem tão perigoso, que tratava sem dúvida os assuntos de Estado como um comércio tão público que conversava com o inimigo. O hospedeiro de Spinoza se alarmou, e temeu com razão que a canalha o tirasse de sua casa depois de tê-la forçado e talvez saqueado-a; porém Spinoza o tranquilizou e o consolou o melhor que lhe foi possível. Não temas nada, disse-lhe ele, a meu respeito, é fácil de justificar-me: muitas pessoas, e das principais do país, sabem bem o que me levou a fazer esta viagem. Mas, de todas as maneiras, logo que o populacho fizer o menor ruído a vossa porta, eu sairei e irei direto a eles, quando eles deverão me dar o mesmo tratamento que deram aos pobres senhores De Witt. Eu sou um bom republicano, e não tenho jamais em vista outro objetivo do que a glória e o benefício do Estado.

Gravura que reproduz o linchamento dos irmão de Witt em 1672.

Foi neste mesmo ano que o eleitor palatino Charles-Louis, de gloriosa memória, informado da capacidade deste grande filósofo, quis atraí-lo a Heidelberg para ali ensinar a filosofia, não tendo sem dúvida, nenhum conhecimento do veneno que ele tinha ainda dissimulado em seu seio, e que a seguir se manifesta mais abertamente. Sua alteza eleitoral deu ordem ao célebre doutor Fabricius, bom filósofo e um de seus conselheiros, que fizesse a proposta a Spinoza. Ele lhe ofereceu em nome de seu príncipe, junto com a cátedra de filosofia, uma liberdade muito extensa de raciocinar segundo seus princípios, como julgasse mais a propósito, cum amplissima philosophandi libertate. Mas a esta oferta acrescentou-se uma condição que não contentava de forma alguma Spinoza; porque, de qualquer extensão que fosse a liberdade que lhe acordasse, ele não devia de forma alguma empregá-la em prejuízo da religião estabelecida pelas leis. E isto é o que parece ser a carta do doutor Fabricius, datada em Heidelberg, em 16 de fevereiro (ver Spinozæ Oper. Posth., Epist. 53, pag. 561[li]). Encontramos nessa carta que lhe haviam oferecido o título de filósofo muito célebre e de gênio transcendente: philosophe acutissime ac celeberrime.

Isto foi uma artimanha que Spinoza descobriu facilmente, se me é permitido usar desta expressão; ele viu a dificuldade, ou melhor a impossibilidade que lhe seria raciocinar segundo seus princípios, e de nada afirmar ao mesmo tempo que fosse contrário à religião estabelecida. Ele respondeu a M. Fabricius em 30 de março de 1673, e recusando cortesmente a cátedra de filosofia que lhe ofereceram. E afirma que a instrução da juventude seria um obstáculo a seus próprios estudos, e que jamais havia pensado em abraçar semelhante profissão. Mas isto não foi mais que um pretexto, e ele revela bem o que tinha na alma pelas palavras seguintes: Ademais, eu refleti, diz ao doutor, que você não me indica dentro de que limites deve estar contida esta liberdade de expressar minhas opiniões para não chocar com a religião. "Cogito deinde me nescire quibus limitibus libertas illa philosophandi intercludi debeat, ne videar publice stabilitam religionem pertubare velle." (Ver suas Oeuvres Posthumes, page 563, Lettre 54[lii]).

Seus escritos e suas opiniões

A respeito de suas obras, há algumas que lhe são atribuídas e das quais não é seguro de que seja o autor; algumas estão perdidas, ou ao menos não se encontram mais; outras estão impressas e expostas aos olhos de todo o mundo.

Bayle afirmou que Spinoza compôs em espanhol uma apologia de sua saída da sinagoga, e que todavia este escrito não foi jamais impresso. Ele acrescenta que Spinoza inseriu muitas coisas nele que depois encontramos no livro que ele publica com o título de Tractatus theologico-politicus, mas não me foi possível obter nenhuma notícia dessa apologia, ainda que em minhas buscas eu tenha perguntado a pessoas que viveram familiarmente com ele e que ainda estão plenas de vida.

Em 1664[liii] fez imprimir Principes de Philosophie de M. Descartes, demonstrados geometricamente, primeira e segunda parte: Renati Descartes Principiorum philosophiæ pars prima et secunda more geometrico demonstratæ que foram logo seguidos por suas Pensamentos metafísicos, Cogitata metaphysica; e se tivesse parado por aí mesmo, este infeliz homem teria ainda ao presente a reputação que mereceu de filósofo sábio e esclarecido.

Imagem do único livro de Spinoza publicado com o seu nome.

No ano de 1665 aparece um pequeno livro em 12[liv] que tinha por título Lucii Antistii Constantis De jure Ecclesiasticorum, Alethopoli apud Cajum Velarium Pennatum: Du Droit des Ecclésiastiques, por Lucius Antistius Constans, impresso em Aléthopole, na casa de Caïus Valérius Pennatus. O autor se esforça em provar nessa obra que o direito espiritual e político, cujo clero se atribui e o qual lhe é atribuído pelos outros, não lhe pertence de nenhum modo; que as pessoas da igreja abusam dele de uma maneira profana, e que toda sua  autoridade depende inteiramente da autoridade dos magistrados ou soberanos que ocupam o lugar de Deus, nas cidades e nas repúblicas, onde o clero se encontra estabelecido; que deste modo, não é mais a sua própria religião que os pastores devem se intrometer a ensinar, mas aquela que o magistrado lhe ordenar pregar. Tudo isto, de resto, não foi estabelecido sobre outros princípios do que aqueles mesmos que Hobbes se utilizou em seu Leviathan[lv].

Bayle nos informa[lvi], que o estilo, os princípios e a intenção do livro de Antistius são semelhantes ao do livro de Spinoza que tem por título Tractatus theologico-politicus; porém isto não diz nada de positivo. Que esse Tratado tenha aparecido justamente no mesmo período em que Spinoza começou a escrever o seu, e que o Tractatus theologico-politicus tenha saído pouco tempo depois desse outro Tratado, não é tampouco prova de que um foi o precursor do outro. É muito possível que duas pessoas se empreendam a escrever e a afirmar as mesmas impiedades; e porque seus escritos surjam aproximadamente ao mesmo tempo, não se pode inferir disto que eles são de um só e mesmo autor. O próprio Spinoza, interrogado, por uma pessoa de grande consideração se era o autor do primeiro Tratado, o negou veementemente; isto é o que eu obtive de pessoas dignas de fé. A latinidade dos dois livros, o estilo e as expressões não são tampouco tão semelhantes como se pretende; o primeiro se exprime com um profundo respeito quando está falando de Deus; ele o chama frequentemente Deus muito bom e grandioso, Deum ter optimum maximum. Mas eu não encontro semelhantes expressões em nenhuma parte dos escritos de Spinoza.

Muitas pessoas sábias me asseguraram que o livro ímpio que tem por título l'Ecriture sainte expliquée par la Philosophie, Philosophia sacræ Scripturæ interpres [lvii], e o Tratado ao qual nós fizemos menção vêm, um e outro de um mesmo autor, a saber, L... M...[lviii]. E ainda que a coisa me pareça muito verossímil, eu a deixo, portanto, ao julgamento daqueles que possam dela ter um conhecimento mais particular.

Foi no ano de 1670, que Spinoza publicou o seu Tractatus theologico-politicus. Aquele que o traduziu em flamengo julgou apropriado o intitular De Regtzinnige[lix] Theologant, of Godgeleerde Staattkunde: le Théologien judicieux et politique. Spinoza diz claramente que ele é o autor em sua Carta décima nona[lx], endereçada a M. Oldenbourg; ele pede-lhe nesta mesma carta que proponha as objeções que as pessoas sábias formaram contra o seu livro, porque tem então a intenção de o fazer reimprimir e acrescentar-lhe as observações. Na folha de rosto do livro achou-se por bem assinalar que a impressão foi feita em Hamburgo, na casa de Henri Conrad. Entretanto é certo que nem o magistrado, nem os veneráveis ministros de Hamburgo jamais permitiriam que tanta impiedade fosse impressa e vendida publicamente em sua cidade.

Imagem do TTP publicado em 1670 sem o nome do autor

Não há nenhuma dúvida de que este livro foi impresso em Amsterdã na casa de Christophe Conrad, impressor, sobre o canal de Églantir. Em 1679, chamado a esta cidade por alguns negócios, o próprio Conrad deu-me alguns exemplares desse Tratado e me ofereceu-os, não sabendo como era uma obra perniciosa.

O tradutor holandês também julgou adequado honrar a cidade de Brema com uma tão digna produção; como se sua tradução tivesse saído da prensa de Hans Jurgen Van der Weyl, no ano de 1694. Mas o que é dito acerca desta impressão de Brema é igualmente falso como a de Hamburgo, e não se deixaria de encontrar as mesmas dificuldades em uma e em outra destas duas cidades, caso empreendesse-se a impressão e publicação de semelhantes obras. Philopater, a quem nós já fizemos menção, diz abertamente na continuação de sua Vie, página 231[lxi], que o velho Jean Hendrikzen Glasemaker, a quem eu conheci muito bem, foi o tradutor desta obra; e ele nos assegura ao mesmo tempo que também traduziu em holandês as Oeuvres posthumes de Spinoza, publicadas em 1677. De resto, ele dá tanta importância a esse Tratado de Spinoza, e o eleva tão alto, que parece que o mundo não viu jamais nada semelhante. O autor, ou ao menos o impressor da continuação da Vie de Philopater, Aard Wolsgryck, antigamente livreiro em Amsterdã, na esquina de Rosmaryn-Steeg, foi punido por esta insolência como mereceu, e confinado na Casa de Correção, aonde foi condenado por alguns anos. Eu desejo de todo o meu coração que ele tenha implorado a Deus para lhe tocar o coração durante a permanência naquele lugar, e que tenha saído com melhores sentimentos. Esta é a disposição que eu espero que ele tenha tido quando eu o vi aqui em Haia, no verão passado, onde ele veio para reclamar aos livreiros o pagamento de alguns livros que havia antigamente impresso e que lhes entregou.

Para voltar a Spinoza e a seu Tractatus theologico-politicus, eu direi aquilo que eu penso, após ter inicialmente relatado o julgamento que dele fizeram dois célebres autores, um dos quais é da confissão de Augsbourg e o outro reformado. O primeiro é Spitzelius, que disse assim em seu Tratado que tem por título Infelix literator, página 363: Este autor ímpio (Spinoza), por uma presunção prodigiosa que o ofusca, impeliu a insolência e a impiedade até ao extremo de sustentar que as profecias se fundavam somente na imaginação dos profetas, sujeitos à mesma ilusão que os  apóstolos e que tanto estes como aqueles escreveram naturalmente seguindo suas próprias luzes, sem nenhuma revelação nem ordem de Deus; que ademais acomodaram a religião até onde lhes foi possível, ao gênio dos homens desde então, e a estabeleceram sobre os princípios conhecidos nesses tempos e recebidos favoravelmente por todo mundo. Irreligiossimus auctor, stupenda sui fidentia plane fascinatus, eo progressus impudentiæ et impietatis fuit, ut prophetiam dependisse dixerit a fallaci imaginatione prophetarum eosque pariter ac apostolos non ex revelatione et divino mandato  scripsisse, sed tantum ex ipsorummet naturali judicio; accommodavisse insuper religionem, quoad fieri potuerit hominum sui temporis ingenio, illamque fundamentis tum temporis maxime notis t acceptis superædificasse. É o mesmo método que Spinoza, em seu Tractatus theologico-politicus, pretende que se possa e que se deva mesmo seguir ainda no presente para a explicação da Escritura Santa; porque ele sustenta entre outras coisas que assim como se conformou às opiniões estabelecidas e à capacidade do povo quando originalmente se produziu a Escritura, assim também cada qual tem a liberdade de explicá-la segundo suas próprias luzes, e de ajustá-la a suas próprias opiniões.

Se isto é verdade, bom Deus! Onde estaríamos nós? Como poderíamos sustentar que a Escritura é divinamente inspirada; que é uma profecia firme e estável; que esses santos personagens que são seus autores falaram e escreveram somente por ordem de Deus e por inspiração do Espírito Santo; que essa mesma Escritura é muito certamente verdadeira, e que ela dá a nossa consciência um testemunho seguro de sua verdade; que ela é enfim um juiz cujas decisões devem ser a regra firme e inabalável de nossas opiniões, de nossos pensamentos, de nossa fé e de nossa vida? Se poderia dizer então, que a santa Bíblia não é mais do que um nariz de cera que se dispõe e se forma como se quer; um óculos ou uma lente através do qual cada um pode ver justamente o que agrada à sua imaginação; um verdadeiro boné de louco que se ajusta e se dispõe à sua fantasia em cem maneiras diferentes depois de posto na cabeça. O Senhor te confunda, Satanás, e te feche a boca!

Spitzelius não se contenta em dizer o que pensa desse livro pernicioso, ele acrescenta ao seu julgamento o de M. Manseveld[lxii], antigamente professor em Utrecht, quem, em um livro[lxiii] que imprimiu em Amsterdã em 1674, em que fala nestes termos: Nós estimamos que esse Tratado deva ser enterrado para sempre nas trevas do mais profundo esquecimento: Tractatum hunc ad æternas damnamdum tenebras, etc. O que é muito razoável, porque o infeliz Tratado revolve completamente a religião cristã, ao negar toda autoridade aos livros sagrados, sobre os quais ela está unicamente fundada e estabelecida.

O segundo testemunho que eu vou citar é o do senhor Guillaume Van Blyenburg, de Dordrecht, que manteve um longo intercâmbio de cartas com Spinoza, e que, na Carta trigésima primeira[lxiv], inserida nas Œuvres posthumes de Spinoza, página 476, disse, falando de si mesmo, que não abraçou nenhum partido ou vocação e que subsiste por um negócio honesto que exerce[lxv]: Liber sum, nulli adstrictus professioni, honestis mercaturis me alo. Este comerciante, homem sábio, no Prefácio de uma obra que tem por título: la Verité de la Religion chrétienne, impresso em Leyde em 1674, expressa assim o julgamento que faz do Tratado de Spinoza: É um livro, diz ele, pleno de descobertas curiosas, mas abomináveis, da qual a ciência e as investigações não podem ter sido extraídas senão do inferno. Não há, de modo nenhum, um cristão, ou mesmo um homem de bom senso, que não deva ver tal livro com horror. O autor empreende a ruína da religião cristã e de todas as nossas esperanças que dela dependem; no lugar da qual ele introduz o ateísmo, ou quando muito uma religião natural forjada segundo o capricho ou o interesse dos soberanos. O mal é ali unicamente reprimido pelo temor ao castigo; mas, quando não se teme nem o carrasco, nem a justiça, um homem sem consciência tudo pode atentar para se satisfazer, etc.

Eu devo acrescentar que li atentamente este livro de Spinoza, do começo ao fim; porém ao mesmo tempo devo protestar diante de Deus de não ter nada encontrado nele de sólido nem que fosse capaz de inquietar-me no menor do mundo na profissão que fiz de crer nas verdades evangélicas. Em lugar de provas sólidas, encontra-se suposições e o que as escolas chamam petitiones principii. As coisas mesmas que afirma e passam por provas, uma vez negadas e rechaçadas, somente sobram a este autor as falsidades e blasfêmias. Sem ser obrigado a dar razões e provas do que afirma, quer a sua vez obrigar ao mundo a crer cegamente em sua palavra?

Enfim, diversos escritos que Spinoza deixou depois de sua morte, foram impressos em 1677, que foi também o ano em que ele morreu. São chamados suas OEuvres posthumes, Opera posthuma. As três letras maiúsculas B.D.S. se encontram na frente do livro, que contém cinco tratados: o primeiro é um tratado de moral demonstrado geometricamente (Ethica more geometrico demonstrata); o segundo é uma obra de política; o terceiro trata do entendimento e dos meios de retificá-lo (De emendatione intellectus); o quarto volume é uma coletânea de cartas e respostas (Epistolæ et responsiones); o quinto um manual de gramática hebreia (Compendium grammatices linguæ hebreæ). Não se faz menção nem ao nome do impressor e nem ao lugar onde esta obra foi impressa; o que demonstra suficientemente que aquele que se encarregou da impressão não tinha o desejo de deixar-se conhecer. Entretanto, o hospedeiro de Spinoza, o senhor Henri Van der Spyck, que está ainda pleno de vida, testemunhou-me que Spinoza havia dado ordem de que imediatamente depois de sua morte se enviasse a Amsterdã, a Jean Rieuwertzen, impressor da cidade, sua escrivaninha onde suas cartas e papéis estavam trancados; o que Van der Spyck não deixou de executar, segundo a vontade de Spinoza. E Jean Rieuwertzen, por sua resposta ao senhor Van der Spyck, datada de Amsterdã, em 25 de março de 1677, reconhece ter recebido a escrivaninha em questão. Ele acrescenta ao fim de sua carta que os parentes de Spinoza queriam saber a quem havia sido endereçada, porque eles imaginavam que ela estava cheia de dinheiro e que eles não deixaram de interrogar a respeito aos barqueiros a quem ela tinha sido confiada; mas, diz ele, se não se tem em Haia registro dos pacotes que se envia aqui por barco, eu não vejo como poderiam ser esclarecidos, e é melhor, com efeito, que eles não saibam nada, etc. E por estas palavras, com as quais ele termina sua carta, nós vemos claramente a quem temos que ter gratidão por uma produção tão abominável.

As pessoas sábias já tinham descoberto suficientemente as impiedades contidas nessas OEuvres posthumes, e ao mesmo tempo prevenido todo mundo a ter cuidado. Eu muito pouco acrescentarei ao que eles escreveram. O tratado de moral começa pelas definições ou descrições da divindade. Quem não acreditaria, a princípio, com tão belo início, que é um filósofo cristão que fala? Todas estas definições são belas, particularmente a sexta, onde Spinoza diz que Deus é um ser infinito; isto é, uma substância que encerra em si mesma uma infinidade de atributos, cada um dos quais representa e exprime uma essência eterna e infinita. Porém quando se examina de mais perto essas opiniões, encontra-se que o Deus de Spinoza não é mais do que um fantasma, um Deus imaginário, que pode ser tudo, menos Deus. Assim, é a este filósofo que se pode bem aplicar o que o apóstolo diz dos ímpios, tít. 1[lxvi], 16: Eles proferem abertamente que reconhecem um Deus em seus discursos, mas eles o renegam em suas obras. O que David diz dos ímpios, Salmo 14, 1, também lhe convém: O insensato diz em seu coração que não há Deus. O que quer que tenha dito Spinoza, é isto verdadeiramente o que pensa. Ele se dá a liberdade de empregar o nome de Deus e de o apreender em um sentido desconhecido para todos aqueles que sempre foram cristãos. Assim o atesta ele mesmo em sua Carta vigésima primeira[lxvii] a Oldenbourg: Eu reconheço, diz ele, que tenho de Deus e da natureza uma ideia muito diferente daquela que os cristãos modernos querem estabelecer. Eu estimo que Deus é o princípio e a causa de todas as coisas, imanente e não transitória. (Deum, rerum omnium causam immanentem, non vero transeuntem, statuo). E para apoiar sua opinião ele se serve destas palavras de São Paulo, que ele desvia de seu sentido: Em Deus vivemos, nos movemos e somos. Atos 17, 28.

Para compreender seu pensamento, é preciso considerar que uma causa transitória é aquela cujas produções são exteriores e fora dela mesma, como alguém que joga uma pedra ao ar ou um carpinteiro que constrói uma casa; por sua vez, uma causa imanente atua interiormente e se detém em si mesma sem sair de nenhum modo. Assim, quando nossa alma pensa ou deseja alguma coisa, ela está e se detém nesse pensamento ou desejo sem sair dele, e ela é sua causa imanente. E é desta maneira que o Deus de Spinoza é a causa do universo, no qual ele é, e não mais além. Mas como o universo tem limites, segue-se que Deus é um ser limitado e finito. E ainda que diga de Deus que Ele é infinito e encerra uma infinidade de propriedades, o que ele faz é jogar com os termos eterno e infinito, porque com essas palavras ele não pode entender um ser que subsistiu por si mesmo antes dos tempos e antes de que qualquer outro ser fosse criado; porém ele chama infinito àquilo que o entendimento humano não pode encontrar o fim nem os limites; porque as produções de Deus, segundo ele, são em tão grande número, que o homem, com toda a força de seu espírito, não consegue conceber. São por outra parte, tão bem consolidadas, tão sólidas e tão bem ligadas umas as outras, que elas durarão eternamente.

Ele assegura, não obstante, em sua vigésima primeira carta, que estão enganados aqueles que lhe imputaram haver dito que Deus e a matéria na qual Deus atua não são mais do que uma só e mesma coisa. Mas, enfim, ele não pode se abster de admitir que a matéria é qualquer coisa de essencial à divindade, que existe e atua unicamente na matéria, isto é, no universo. O Deus de Spinoza, portanto, não é outra coisa do que a natureza, infinita em verdade, porém corporal e material, tomada em geral e com todas suas modificações. Porque supõe que há em Deus duas propriedades eternas, cogitatio e extensio, o pensamento e a extensão. Pela primeira destas propriedades, Deus está contido no universo; pela segunda, Ele é o universo mesmo; as duas juntas formam o que chama Deus.

Pelo que eu pude compreender das opiniões de Spinoza, eis aqui sobre o que gira a disputa existente entre nós que somos cristãos e ele, a saber: se o Deus verdadeiro é uma substância eterna, diferente e distinta do universo e de toda a natureza; e se, por um ato de vontade inteiramente livre, Ele tirou do nada o mundo e todas as criaturas, ou se o universo e todos os seres que Ele encerra pertencem essencialmente à natureza de Deus, considerado como uma substância cujo pensamento e extensão são infinitos. Esta última é aquela proposição que Spinoza sustenta. Pode-se consultar o Anti-Spinoza de L. Vittichius, páginas 18 e seguintes. Assim, ele admite que Deus é a causa geralmente de todas as coisas; porém pretende que Deus as produziu necessariamente, sem liberdade, sem escolha e sem consultar seu próprio beneplácito. Da mesma maneira, tudo o que acontece no mundo, bem ou mal, virtude ou crime, pecado ou boas obras, parte Dele necessariamente; e por conseguinte, não deve ter nem juízo, nem punição, nem ressurreição, nem salvação, nem danação; porque senão, esse Deus imaginário puniria e recompensaria sua própria obra, como uma criança faz com sua boneca. Não é este o mais pernicioso ateísmo que jamais houve no mundo? Isto foi também o que deu ocasião ao M. Burmannus[lxviii], ministro dos reformados em Enkhuise, de nomear a justo título, Spinoza, como o mais ímpio ateu que jamais viu a luz do dia.

Não foi meu propósito examinar aqui todas as impiedades e os absurdos de Spinoza; eu me reportei a  alguns, atendo-me concretamente ao mais importante, somente tendo em vista inspirar ao leitor cristão a aversão e o horror que deve ter por uma doutrina tão perniciosa. Eu não devo entretanto esquecer de dizer que é visível que na segunda parte de seu tratado de moral é evidente que ele faz um só e mesmo ser da alma e do corpo, cujas propriedades são, como ele se exprime, a de pensar e a de ser extenso, pois é assim que ele se explica à página 40: Quando eu falo de corpo, eu não entendo outra coisa do que uma modalidade que exprime a essência de Deus de uma maneira certa e precisa, enquanto ela é considerada como uma coisa extensa. (Per corpus intelligo modum, qui Dei essentiam, quatenus ut res extensa consideratur, certo et determinato modo exprimit). Mas, com respeito à alma que é e que atua dentro do corpo, é somente um outro modo ou maneira de ser que a natureza produz ou que se manifesta ela mesma pelo pensamento; não é um espírito ou uma substância particular, não mais do que o corpo, mas sim uma modalidade que exprime a essência de Deus, enquanto ela se manifesta, atua e opera pelo pensamento. Jamais se ouviu semelhantes abominações entre os cristãos! Desta maneira, Deus não poderia punir a alma nem o corpo, a menos que queira punir-se e destruir-se a si mesmo. Ao final da vigésima primeira carta, elimina o grande mistério da piedade, como expresso na primeira Epístola a Timóteo, capítulo 3, versículo 16, sustentando que a encarnação do filho de Deus não é outra coisa do que a sabedoria eterna, que, estando revelada geralmente em todas as coisas, e particularmente em nossos corações e em nossas almas, está enfim manifesta de uma maneira extraordinária em Jesus Cristo. Ele diz, um pouco mais abaixo, que é verdadeiro que algumas igrejas acrescentam que Deus se fez homem; mas, diz ele, assinalo positivamente que eu não conheço nada do que eles querem dizer. (Quod quœdam ecclesiæ his addunt, quod Deus naturam humanam assumpserit, monui expresse me quid dicant nescire, etc). E isto, diz ele ainda, parece-me tão estranho quanto alguém afirmar que um círculo assumiu a natureza de um triângulo ou de um quadrado. O que lhe dá ocasião, ao final da vigésima terceira[lxix] carta, de explicar a célebre passagem de São João, o Verbo se fez carne, capítulo 1, versículo 14, como uma forma de falar familiar aos orientais, e de modificá-la assim: Deus se manifestou em Jesus Cristo de uma maneira muito particular.

Em meu sermão, eu expliquei simplesmente e com poucas palavras como, em suas vigésima terceira e vigésima quarta[lxx] cartas, trata de destruir o mistério da ressurreição de Jesus Cristo, que é uma doutrina capital para nós, e o fundamento de nossas esperanças e de nossa consolação. Eu não devo deter-me longamente em reportar as outras impiedades que ensina.

Alguns escritos de Spinoza que não foram impressos

Aquele que se aplicou em publicar as Œuvres posthumes de Spinoza inclui entre os escritos deste autor que não foram publicados um Traité de l’iris[lxxi] ou do arco-íris. Eu conheço aqui, em Haia, várias pessoas distintas que viram e leram esta obra, mas que aconselharam a Spinoza de não a deixar vir a público; o que talvez lhe tenha inspirado lástima e o tenha feito resolver lançar este escrito ao fogo seis meses antes de sua morte, como as pessoas que se alojaram na casa onde viveu me informaram. Ele também havia começado uma tradução do Velho Testamento para flamengo, sobre a qual manteve frequentes conversações com pessoas sábias em idiomas, e informando-se sobre as explicações que os cristãos davam a diversas passagens. Já havia muito tempo que ele tinha acabado os cinco livros de Moisés, quando, poucos dias antes de sua morte, lançou toda esta obra ao fogo em seu quarto.

Vários autores refutam suas obras

Suas obras nem bem foram publicadas e Deus, ao mesmo tempo, suscitou para sua glória e pela defesa da religião cristã, diversos campeões que as combateram com todo o sucesso que era de se esperar. O doutor Théoph. Spitzelius, em seu livro que tem por título Infelix litterator, nomeia dois, a saber: François Kuyper de Roterdã, cujo livro, impresso em Roterdã em 1676, é intitulado Arcana atheismi revelata, etc., les Mystéres profonds de l’athéisme découverts; o segundo é Régnier de Mansveld, professor de Utrecht, que, no ano de 1674, imprimiu nesta mesma cidade um escrito sobre o mesmo assunto.

No ano seguinte, a saber, em 1675, saiu da prensa de Isaac Næranus, com o título Enervatio, Tractatus theologico-politici, uma refutação ao Tratado de Spinoza composta por Jean Bredenbourg, cujo pai foi ancião da igreja luterana de Roterdã. O senhor George Mathias Koenig, em sua Bibliotèque d’Auteurs anciens et modernes, achou conveniente chamá-lo [Jean Bredenbourg], página 770, um certo tecelão de Roterdã: textorem quemdam roterodamensem. Se ele exerceu uma arte assim mecânica, eu posso assegurar com verdade que jamais homem de sua profissão não trabalhou tão habilmente nem produziu uma obra similar; porque ele demonstra geometricamente, neste escrito, de uma maneira clara e que não permite réplica, que a natureza não é e nem poderia ser Deus mesmo, como o ensina Spinoza. Como ele não dominava perfeitamente a língua latina, ele foi obrigado a compor o seu tratado em flamengo e a servir-se da pluma de outro para traduzi-lo ao latim. Assim procede, como o declara ele mesmo no prefácio de seu livro, afim de não dar nem desculpas nem pretextos a Spinoza, que ainda vivia, no caso de acontecer deste nada replicar.

Entretanto, eu não considero que todos os raciocínios deste sábio homem foram decisivos. Ele parece, por outra parte, que no corpo de sua obra, se inclina muito até o socinianismo em alguns trechos, este é ao menos o julgamento que eu faço; e não creio que ele difira muito daquele das pessoas esclarecidas, a quem deixo a decisão. O que é sempre certo é que François Kuyper e Bredenbourg fizeram imprimir diversos escritos um contra o outro por ocasião deste Tratado[lxxii], e que Kuyper, nas acusações que formulou contra seu adversário, não pretendia nada menos do que convencê-lo de ateísmo.

No ano de 1676 apareceu o tratado da moral de Lambert Veldhuis de Utrecht: De la Pudeur naturelle et de la dignité de l’homme (Lamberti Velthusii Ultrajectensis tractatus moralis de naturali pudore et dignitate hominis). Ele abate completamente nesse tratado os princípios sobre os quais Spinoza pretendeu estabelecer que o que o homem faz de bem e de mal é produzido por uma operação superior e necessária de Deus ou da natureza. Eu já fiz menção acima a Guillaume Van Blyenburg, comerciante de Dort, que, desde o ano de 1674, se alinhou para refutar o livro ímpio de Spinoza que tem por título Tractatus theologico-politicus. Eu não posso aqui abster-me de compará-lo com o mercador de quem fala o Salvador em São Mateus, XIII, v. 45 e 46, visto que não nos apresenta riquezas temporais e perecíveis quando da publicação de seu livro, mas sim um tesouro de um preço inestimável e que não perecerá jamais; e seria fortemente desejável que se encontrasse muitos mercadores semelhantes a ele nas bolsas de Amsterdã e Roterdã.

Nossos teólogos da confissão de Augsbourg também se distinguiram entre aqueles que refutaram as impiedades de Spinoza. Assim que seu Tractatus theologico-politicus saiu a luz, tomaram da pluma e escreveram contra ele. Pode-se pôr à frente destes o doutor Musæus, professor de teologia em Jena, homem de grande gênio, talvez sem igual em sua época. Durante a vida de Spinoza, a saber no ano de 1674, ele publicou uma dissertação de doze folhas, cujo título era Tractatus theologico-politicus ad veritatis lumen examinatus (le Traité de théologie et de politique examiné par les lumières du bon sens et de la vérité) [O Tratado de teologia e de política examinado à luz do bom senso e da verdade]. Ele declara nas páginas 2 e 3 a aversão que tem por uma produção tão ímpia e a exprime nestes termos: Jure merito quis dubitet num ex illis ipse dæmon ad humana divinaque jura pervertenda magno numero conduxit, repertus fuerit, qui in iis depravendis operosior fuerit quam hic impostor, magno Ecclesiæ malo et Reipublicæ detrimento natus: O diabo seduz um grande número de homens, que parecem estar em suas mãos e se empenham unicamente a derrubar o que há de mais sagrado no mundo. Entretanto, cabe duvidar se entre estes alguém trabalhou para arruinar todo direito humano e divino com maior eficácia do que este impostor, que não tem outra coisa em vista do que a perdição do Estado e da religião. Nas páginas 5, 6, 7 e 8 ele expõe muito nitidamente as expressões filosóficas de Spinoza, explica aquelas que podem ter um duplo sentido, e mostra claramente em qual sentido se serviu delas Spinoza, para compreender na mesma proporção melhor seu pensamento. Na página 16, parágrafo 32, ele mostra que faz ver que em publicando tal obra, os objetivos de Spinoza são os de estabelecer que cada homem tem o direito e a liberdade de determinar sua crença em matéria de religião, e de restringi-la unicamente às coisas que estão em sua capacidade intelectual e que pode compreender. Ele já havia anteriormente, na página 14, parágrafo 28, exposto perfeitamente bem o estado da questão, e assinalado em que Spinoza se separava da opinião dos cristãos; e é desta maneira que ele continua examinar o Tratado de Spinoza, no qual ele não deixa passar nada, nem a menor coisa, sem a refutar com boas e sólidas razões. Não há dúvida que Spinoza leu esse escrito do doutor Musæus, porque ele se encontrava entre seus papéis depois de sua morte.

Ainda que se tenha escrito muito contra o Tratado de política e teologia, como eu já assinalei, não houve outro autor entretanto, segundo minha opinião, que o tenha refutado mais solidamente do que este sábio professor; e este julgamento que eu faço é aliás confirmado por muitos outros. O autor que, sob o nome de Theodorus Securus, compôs um pequeno tratado que porta por título: l’Origine de l’Athéisme (Origo atheismi), diz em um outro pequeno livro intitulado: Prudentia Theologica, do qual é também o autor: Eu estou muito surpreso que a dissertação do doutor Musæus contra Spinoza seja tão rara e tão pouco conhecida aqui na Holanda; deve-se fazer mais justiça a esse sábio teólogo, que escreveu sobre um assunto tão importante: porque ele certamente o logrou melhor do que ninguém. M. Fullerus in Continuatione Bibliothecæ universalis, etc, se expressa assim, falando do doutor Musæus: O ilustre teólogo de Jena refutou solidamente o livro pernicioso de Spinoza com a habilidade e o sucesso que lhe são habituais. (Celeberrimus ille Jenensium theologus Joh. Musæus Spinozæ pestilentissimum fœtum acutissimis, queis solet, telis confodit).

O mesmo autor faz também menção a Frederic Rappoltus, professor de teologia em Leipzig, que, em uma oração pronunciada quando tomou posse de sua cátedra de professor, refutou igualmente as opiniões de Spinoza; ainda que depois de haver lido sua arenga, eu encontro que somente a refutou indiretamente e sem o nomear. Ela tem por título: Oratio contra naturalistas, habita ipsis Kalendis junii ano 1670; e pode-se ler nas Œuvres théologiques de Rappoltus, tomo I, págs. 1386 e seguintes, publicadas pelo doutor Jean Benoit Carpzovius e impressas em Leipzig em 1692. O doutor J. Conrad Dürrius, professor de Altorf, seguiu o mesmo plano em uma arenga que, na verdade, eu não li, porém dela me falaram com elogio como uma muito boa peça.

O senhor Aubert de Versé publicou em 1681 um livro que tem por título L’impie convaincu; ou Dissertation contre Spinoza, dans laquelle on réfute les fondements de son athéisme. Em 1687, Pierre Yvon, parente e discípulo de Labadie, e ministro de sua seita em Wiewerden, na Frise, escreve um tratado contra Spinoza, que publicou com o título: L’impiété vaincue, etc. No Supplément au Dictionnaire de Moréri, no artigo Spinoza, ele faz menção de um Traité de la conformité de la raison avec la foi (De concordia rationis et fidei), do qual M. Huet é o autor. Este livro foi reimpresso em Leipzig em 1692; e os jornalistas desta cidade publicaram dele um bom extrato, no qual as opiniões de Spinoza são expostas muito nitidamente e refutadas com muita força e habilidade. O sábio M. Simon e M. de La Motte, ministro de Savóia em Londres, trabalharam ambos sobre o mesmo assunto. Eu vi bem as obras destes dois autores; porém eu não conheço muito de francês para poder julgá-las. O senhor Pierre Poiret, que vive atualmente em Rynsburg, perto de Leiden, na segunda impressão de seu livro De Deo, anima et malo, acrescentou-lhe um tratado contra Spinoza, cujo título é: Fundamenta atheisme eversa, sive especimen absurditatis, Spinozianæ (Les principes de l’athéisme renversés, etc.). Esta é uma obra que merece bem que se tenha o trabalho de a ler com atenção.

A última obra a qual eu farei menção é aquela de M. Wittichius, professor em Leiden, que foi impressa em 1690, após a morte de seu autor, com o título Christophori Wittichii professoris Leidensis anti-Spinoza, sive examen Ethices B. de Spinoza. Este aparece novamente algum tempo depois traduzido em flamengo, e impresso em Amsterdã na casa dos Wasbergen. Não é de estranhar que, em um livro tal como aquele que tem por título: Suite de la Vie de Philopater, se tenha tratado de difamar a esse sábio homem e de desacreditar sua reputação após sua morte. Palavreia-se, nesse escrito pernicioso, que M. Wittichius era um excelente filósofo, grande amigo de Spinoza, com quem estava em estreitas relações, que eles cultivavam um ao outro por cartas e por conversações particulares que mantinham frequentemente; que eles tinham, em uma palavra, ambos, a mesma opinião; que, entretanto, para não passar perante todos por spinozista, M. Wittichius havia escrito contra o Tratado de Moral de Spinoza; e que não se imprimiu sua refutação senão após sua morte, com o objetivo de lhe conservar sua honra e reputação de cristão ortodoxo. Eis aí as calúnias que esse insolente afirmou; eu não sei de onde as tirou, nem sob qual aparência de verdade ele apóia tantas falsidades. De onde ele supôs que esses dois filósofos tinham conversações tão particulares; que eles se viam e se escreviam tão frequentemente um ao outro? Não se encontra nenhuma carta de Spinoza escrita a Wittichius, nem de M. Wittichius escrita a Spinoza, entre as cartas desse autor que se imprimiu, e não há nenhuma também entre as que ficaram sem imprimir; de sorte que há motivo para crer que essa ligação estreita e as cartas que eles escreveram um ao outro são criação e invenção desse caluniador. Eu não tive jamais, para dizer a verdade, a ocasião de falar com M. Wittichius; porém eu conheço muito particularmente M. Zimmermann, seu sobrinho, ministro atualmente da igreja anglicana, e quem viveu com seu tio durante seus últimos anos. Ele não me comunicou nada a este respeito que não fosse fortemente oposto ao palavreado do autor da Vie de Philopater; até mostrou-me um escrito que seu tio lhe havia ditado, no qual as opiniões de Spinoza eram igualmente bem explicadas e refutadas. Para o justificar inteiramente, faria ele outra coisa além desta última obra que compôs? É ali que se vê qual é sua crença, e ali ele fez de certo modo uma profissão de fé pouco tempo antes de sua morte. Qual homem, tocado por algum sentimento religioso, ousará pensar, e menos ainda escrever, que tudo isso não é mais do que hipocrisia, feita unicamente com o objetivo de poder ir à igreja, salvar as aparências e não ter a reputação de ímpio e de libertino?

Se isto pode ser inferido de semelhantes coisas, de que houve alguma correspondência entre duas pessoas, eu mesmo não estaria muito seguro, e não haveria pouco pastores que não pudessem temer o mesmo que eu por parte dos caluniadores; porque às vezes nos resulta impossível de evitar todo contato com pessoas cuja crença não é sempre das mais ortodoxas.

Eu me recordo aqui com prazer de Guilaume de Deurhof, de Amsterdã, e o nomeio com toda a distinção que merece. É um professor que em suas obras e particularmente em suas lições teológicas, sempre atacou vivamente as opiniões de Spinoza. O senhor François Halma lhe faz justiça em sua Remarques sur la vie et sur les opinions de Spinoza, página 85, quando diz que ele refutou as opiniões desse filósofo de uma maneira tão sólida, que nenhum de seus partidários jamais ousou até o presente  enfrentá-lo e medir-se com ele. Ele acrescenta que esse sutil escritor está, além disto, em condições de repelir, como ele o faz, o autor da Vie de Philopater sobre as calúnias que foram despejadas à página 193 e de lhe fechar a boca.

Eu não direi mais do que uma palavra sobre dois autores célebres, e os juntarei, ainda que no presente eles estejam um pouco opostos entre si. O primeiro é M. Bayle, muito conhecido na república das letras para que se tenha que fazer aqui o seu elogio. O segundo é M. Jacquelot, antigamente ministro da igreja francesa em Haia, e atualmente pregador ordinário de sua majestade o rei da Prússia. Fizeram um e outro sábias e sólidas observações sobre a vida, os escritos e as opiniões de Spinoza. O que publicaram sobre esta matéria, com a aprovação de todo mundo, foi traduzido ao flamengo por François Halma, livreiro de Amsterdã[lxxiii] e homem de letras. Ele acrescentou à sua tradução um prefácio e algumas observações judiciosas sobre a Suite de la Vie de Philopater. Isto tem também o valor e o mérito de ser lido[lxxiv].

Não é necessário falar aqui de vários escritores que atacaram as opiniões de Spinoza muito recentemente por ocasião de um livro intitulado Hemel op Aarden, o Paradis sur la terre, composto por M. Van Leenhoff , ministro reformado em Zwol; no qual pretende-se que este ministro Awol, construiu sobre os fundamentos de Spinoza. Estas coisas são muito recentes e muito conhecidas pelo público para determo-nos nela, eis porque eu sigo adiante para falar da morte desse célebre ateu.

Da última doença de Spinoza e de sua morte

Se fez tantos relatos diferentes e tão pouco verdadeiros no tocante a morte de Spinoza, que é surpreendente ver as pessoas esclarecidas dedicarem-se tenazmente em informar o público sobre rumores, sem primeiro estarem eles mesmos melhor instruídos sobre o que palavreiam. Encontra-se um exemplo das falsidades que eles afirmam sobre este assunto na Menagiana, impresso em Amsterdã em 1695, cujo autor se expressa assim: Eu ouvi dizer que Spinoza morreu pelo medo que tinha de ser encerrado na Bastilha. Foi à França atraído por duas pessoas de qualidade que queriam vê-lo. M. de Pomponne o preveniu; e como é um ministro muito zeloso pela religião, não julgou conveniente tolerar Spinoza em França, pois ele era bem capaz de causar desordem, e para impedi-lo resolveu encerrá-lo na Bastilha. Spinoza, que foi avisado, se salvou vestindo um hábito de franciscano, mas eu não garanto sobre esta última circunstância. O que é certo é que muitas pessoas que o viram me asseguraram que ele era pequeno, amarelado, que tinha qualquer coisa de negro em sua fisionomia, e que portava em sua face um ar de reprovação.

Tudo isso não é mais que um emaranhado de fábulas e falsidades, por que é certo que Spinoza nunca esteve em sua vida na França; e ainda que pessoas de distinção tenham tentado atraí-lo até lá, como ele afirmou a seus hospedeiros, ele entretanto, ao mesmo tempo assegurou veementemente que não esperava ter jamais tão pouco juízo para fazer uma tal loucura. Se julgará facilmente, ademais, pelo que eu vou dizer aqui mais adiante, que não é de nenhuma maneira verdade que ele morreu de medo. Para este efeito eu relatarei as circunstâncias de sua morte sem parcialidade, e não afirmarei nada sem prova; o qual eu estou em condições de executar tanto mais facilmente porquanto foi aqui em Haia que ele está morto e enterrado.

Spinoza era de uma constituição muito débil, doentio, magro, e atacado de tuberculose desde mais de 20 anos; a qual o obrigava a viver de regime, e a ser extremamente sóbrio em seu beber e em seu comer. Entretanto, nem seu hospedeiro, nem aqueles da casa acreditavam que seu fim estivesse tão próximo, mesmo pouco tempo antes que a morte o surpreendesse, e nem tinham dela o menor pensamento; porque a 22 de fevereiro[lxxv], que foi neste caso o sábado anterior ao carnaval, seu hospedeiro e sua mulher foram escutar a predicação que se faz em nossa igreja para preparar todos que vão receber a comunhão que se administra no dia seguinte segundo um costume estabelecido entre nós. O hospedeiro retorna à habitação após o sermão, às quatro horas ou em torno disto; Spinoza desceu de seu quarto à planta baixa, e teve com ele uma conversação bastante longa, que versou particularmente sobre o que o ministro havia pregado, e após ter fumado um cachimbo ele se retira a seu quarto, que era na parte anterior, e se deitou cedo. No domingo pela manhã, antes que fosse a hora de ir à igreja, ele desceu novamente de seu quarto, e falou com o hospedeiro e sua mulher. Ele havia feito vir de Amsterdã um certo médico que eu só posso designar por duas letras, L. M.[lxxvi] a quem encarregou às pessoas da casa a comprar um galo velho e de o cozinharem logo, afim de que ao meio dia Spinoza pudesse tomar o caldo: assim o fez e comeu com bom apetite depois que o hospedeiro e sua esposa regressaram da igreja. Depois do meio dia o médico L. M. ficou só junto com Spinoza, tendo voltado juntos os da casa às suas devoções. Porém ao sair do sermão eles se inteiraram com surpresa que perto das três horas Spinoza havia expirado em presença daquele médico, que, naquela mesma tarde, retornou a Amsterdã no barco da noite sem preocupar-se o mínimo que fosse pelo defunto. Se absteve de cumprir com esse dever tanto mais rapidamente quanto que depois da morte de Spinoza se havia apoderado de um ducado de prata e um pouco de dinheiro que o defunto havia deixado sobre a mesa, assim como de um punhal de cabo de prata, e se retirou com seu butim[lxxvii].

Tem-se relatado muito diversamente as particularidades de sua doença e de sua morte; e a qual forneceu matéria a muitos contestadores. Se palavreia: 1º que durante o tempo de sua doença ele tinha tomado as precauções necessárias para não ser surpreendido por visitas de gente cujo objetivo não seria outro além de importuná-lo; 2º que estas próprias palavras lhe saíram da boca uma e mesmo várias vezes: Oh, Deus, tende piedade de mim, miserável pecador!; 3º que o ouviram frequentemente suspirar ao pronunciar o nome de Deus. Ele deu motivo aqueles que estavam presentes  de lhe perguntar se agora acreditava na existência de um Deus, cujo juízo depois de sua morte teria razões para temer, ele respondeu que a palavra se lhe havia escapado e que lhe saía da boca por costume ou por hábito; 4º diz-se também que tinha perto de si suco de mandrágora preparado, ao qual ele usaria quando sentisse aproximar a morte; que em seguida correu as cortinas, perdeu toda consciência, caindo em um profundo sono, e que foi assim que ele passou desta vida à eternidade; 5º que havia proibido expressamente que deixassem entrar quem quer que fosse em seu quarto quando ele se aproximava de seu fim; como também que, ao ver-se na extremidade, havia feito chamar ao hospedeiro e lhe havia pedido que impedisse a presença de qualquer ministro, porque queria, disse ele, morrer pacificamente e sem disputa, etc.

Eu procurei cuidadosamente a verdade de todos estes fatos, e perguntei várias vezes a seu hospedeiro e a sua hospedeira, que ainda vivem, o que era que eles sabiam; mas eles me respondiam constantemente, um e outro, que eles não tinham o menor conhecimento, e que estavam convencidos de que todas estas particularidades eram o mesmo que falsidades: porque jamais ele lhes proibiu de admitir quem quer que fosse que desejasse vê-lo. Por outra parte, quando seu fim se aproximou, não estava em seu quarto mais do que o médico de Amsterdã que eu já referi; pessoa alguma ouviu as palavras que se pretende que ele tenha proferido: Oh, Deus, tende piedade de mim, miserável pecador! e não parece tampouco que houvesse saído de sua boca, porque ele não acreditava estar tão perto de seu fim, nem aqueles da casa tinham disto o menor pensamento. E não ficou na cama durante sua doença, porque, na manhã mesmo do dia em que expirou, ele novamente desceu de seu quarto à planta baixa, como já assinalamos; seu quarto era o da frente onde dormia numa cama construída à moda do país e que se chama bedstede. Que ele tenha encarregado sua hospedeira de dispensar aos ministros que pudessem se apresentar, ou que ele tenha invocado o nome de Deus durante sua doença, isto é o que nem ela, nem os da habitação ouviram, e do qual eles não têm conhecimento algum. Aquilo que lhes persuadiu do contrário, é que depois que ele debilitou-se mostrou sempre, nos males que sofria uma firmeza verdadeiramente estóica, a ponto dele mesmo repreender aos outros, quando acontecia deles lamentarem e testemunharem em suas enfermidades pouca coragem ou excessiva sensibilidade.

Enfim, a respeito do suco de mandrágora, do qual se diz que usou quando estava no fim, o que lhe fez perder toda consciência; é novamente uma particularidade inteiramente desconhecida aos da casa. Entretanto, eram eles quem lhes preparavam tudo o que necessitava para comer e beber, assim como os remédios que tomava de tempos em tempos. E não se faz menção a esta droga na nota do boticário, que, no entanto, é o mesmo a quem o médico de Amsterdã enviou os da casa para pegar os remédios que Spinoza necessitou nos últimos dias de sua vida.

Após a morte de Spinoza, seu hospedeiro tomou conta de fazê-lo enterrar. Jean Rieuwertz, impressor da cidade de Amsterdã, lhe havia pedido, e lhe prometeu ao mesmo tempo reembolsar-lhe toda despesa, da qual aceitou ser fiador. A carta que ele lhe escreveu, muito extensa, a este respeito, está datada de Amsterdã, a 6 de março de 1678[lxxviii]. Ele não esquece de mencionar aquele amigo de Schiedam do qual nós falamos mais acima, quem, para mostrar o quanto a memória de Spinoza lhe era cara e preciosa, pagava exatamente tudo o que Van der Spyck podia ainda pretender de seu defunto hóspede. A soma a que suas pretensões podiam remontar lhe era ao mesmo tempo devolvida, como Rieuwertz mesmo tinha recebido por ordem de seu amigo[lxxix].

Como se dispunham a sepultar o corpo de Spinoza, um boticário chamado Schroder apresentou uma oposição e pretendia antes ser pago por alguns medicamentos que ele havia fornecido ao defunto durante sua doença. Sua nota remontava a dezesseis florins e dois soldos, nesta eu encontrei a conta de tintura de açafrão, de bálsamo, pós, etc.; mas não se faz nenhuma menção nem a ópio, nem a mandrágora. A oposição foi levantada no mesmo instante, e a conta paga pelo senhor Van der Spyck[lxxx].

O corpo foi sepultado a 25 de fevereiro, acompanhado por muitas pessoas ilustres e seguido por seis carroças. Ao retorno do enterro, que se fez na nova igreja junto ao rio Spuy, os amigos particulares ou vizinhos foram regalados com várias garrafas de vinho, segundo o costume do país, na casa do hospedeiro do defunto[lxxxi].

Eu mencionarei, de passagem, que o barbeiro de Spinoza apresentou, depois de sua morte, uma nota concebida nestes termos: M. Spinoza, de bem-aventurada memória, deve a Abraham Kervel cirurgião, por havê-lo barbeado durante o último trimestre, a soma de um florim e dezoito soldos. O prior do enterro e dois ferreiros fizeram ao defunto um cumprimento semelhante em suas notas, assim como o mercador que forneceu as luvas para o luto do enterro[lxxxii].

Se esta boa gente soubesse quais eram os princípios de Spinoza em matéria de religião, provavelmente não teriam assim jogado o termo bem-aventurado que eles empregaram; ou o teriam usado segundo o hábito comum, que comete algumas vezes o abuso que se faz com semelhantes expressões usadas inclusive para pessoas mortas em desespero ou em impenitência final?

Sepultado Spinoza, seu hospedeiro fez o inventário dos bens móveis que havia deixado. O notário que empregou apresentou uma conta de honorários redigida nesta forma: Guillaume Van den Hove, notário, por haver trabalhado no inventário dos móveis e roupas do finado senhor Benoit de Spinoza... Seus honorários remontavam à soma de dezessete florins e oito soldos; mais abaixo ele reconhece ter sido pago desta soma, a 14 de novembro de 1677.

Rebecca de Spinoza, irmã do defunto, se apresentou como sua herdeira, e entrega sua declaração na casa onde ele morreu. Entretanto, como ela recusava a pagar antecipadamente os gastos do enterro, e várias dívidas requeridas à sucessão, o senhor Van der Spyck a citou em Amsterdã e a intimou a satisfazê-los, por Robert Schmeding, portador de sua procuração. Libertus Loef foi o notário, fez a ata e a assinou, a 30 de março de 1677. Porém, antes de pagar, ela quis ver claro e saber se, as dívidas e encargos pagos, lhe restaria alguma coisa da sucessão de seu irmão. Enquanto ela deliberava, Van der Spyck obteve autorização da justiça para vender publicamente os bens e os móveis em questão; isto foi o que executou; e o dinheiro proveniente da venda foi consignado no lugar ordinário, a irmã de Spinoza embargou; porém vendo que após o pagamento dos gastos e encargos restaria pouca coisa ou nada, ela desiste de sua oposição e de todas suas pretensões. O procurador Jean Lukkas, que serviu a Van der Spyck neste assunto, lhe credita trinta e três florins e dezesseis soldos, dos quais lhe passa o recibo em 1 de junho de 1678. A venda dos ditos móveis foi feita aqui em Haia, a 4 de novembro de 1677, por Rykus Van Stralem, leiloeiro juramentado, como aparece pela conta que ele apresentou datada do mesmo dia.

Basta passar os olhos sobre esta conta, para julgar no mesmo instante que se trata do inventário de um verdadeiro filósofo: encontra-se alguns pequenos livros, algumas gravuras ou estampas, alguns pedaços de lente polidas, os instrumentos para as polirem, etc.

Pela roupa que serviu a seu uso, vê-se ainda como foi econômico e bom administrador. Um casaco de camelão e um calção foram vendidos a vinte e um florins e quatorze soldos; um outro casaco cinza, doze florins e quatorze soldos; quatro lençóis, seis florins e oito soldos; sete camisas, nove florins e seis soldos; uma cama e um travesseiro, quinze florins; dezenove colarinhos, um florim e onze soldos; cinco lenços, doze soldos; duas cortinas vermelhas, uma colcha e um pequeno cobertor de cama, seis florins; sua ourivesaria consistia em duas vasilhas de prata, que foram vendidas a dois florins. Todo o inventário ou a venda dos móveis não alcançou mais do que quatrocentos florins e treze soldos; deduzidos os encargos da venda e impostos, sobraram trezentos e noventa florins e quatorze soldos.

Eis o que eu pude informar de mais particular no tocante à vida e a morte de Spinoza. Ele tinha a idade de quarenta e quatro anos, dois meses e vinte e sete dias. Ele morreu a 21 de fevereiro de 1677, e foi enterrado a 25 do mesmo mês.

Johannes Colerus


Tradução de Emanuel Angelo da Rocha Fragoso (Doutor em Filosofia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro - UFRJ e Professor de Ética na Graduação e no Mestrado em Filosofia da Universidade Estadual do Ceará - UECE).


Notas

[i] Para nossa tradução, utilizamos o texto de Émile Saisset, La Vie de Benoit de Spinoza, da edição  Charpentier, 1842 (Premiére Série, p. 1-50), cotejado com a edição francesa de 1706. Segundo Luis Machado de Abreu, esta biografia de Colerus foi traduzida para o Português em 1934, como Vida de Bento de Espinosa, por J. Lúcio de Azevedo, e editada pela Imprensa da Universidade, Coimbra, conforme citação em Spinoza y España: Actas del Congreso Internacional sobre Relaciones entre Spinoza y España, Universidad de Castilla-La Mancha, Colección Estudios, Coordinador Atilano Domínguez, 1994, p.119. Acerca do texto, Saisset escreve em sua Bibliographie Générale des Oeuvres de Spinoza (op. cit. p. CCVII) que Colerus escreveu inicialmente a obra Vie de Spinoza em holandês, publicando-a em Amsterdã no ano de 1706, com o subtítulo: Cum sermone eclesiastico a se habito de ressurrectione Jesu non allegorice cum Spinoza interpretanda. Pouco tempo depois, esta aparece em francês sob o título La Vie de B. de Spinoza, tirée des écrits de ce fameux philosophe et du témoignage de plusiers personnes dignes de foi, qui l'ont connu particuliérement, par Jean Colerus, ministre de l'Église luthérienne de La Haye. A La Haye, chez T. Johnson, marchand libraire, dans le Poote. M. DCC. VI. Na edição das Obras Completas de Spinoza da Acervo Cultural (1977), na Advertencia (Volume V, p. 8) está escrito que a primeira edição da obra de Colerus foi publicada em holandês no ano de 1705, aparecendo logo depois as edições francesa e inglesa no ano seguinte, em 1706, em Haia e Londres, respectivamente. Atilano Domínguez, em sua obra Biografías de Spinoza (Alianza Editorial, 1995), traduz para o espanhol utilizando a versão original (1705), holandesa, ressaltando que esta não foi reeditada até 1880, 1899 e 1910. Em sua tradução, podemos ler o seguinte subtítulo: Breve, porém fidedigna biografia de Benedictus de Spinoza, redigida a partir de documentos autênticos e de testemunhos orais de pessoas que ainda vivem, por J.C., pregador alemão da comunidade luterana de Haia (op. cit. p. 97).

[ii] Na tradução de Atilano está Baruch Spinoza (Ibidem).

[iii] Conforme a versão de Saisset. Em conformidade com este, utilizaremos em nossa tradução sempre o termo Benoit para o prenome de Spinoza. O texto francês da Pléiade (Roland Caillois, Madeleine Francès et Robert Misrahi, 1954), utiliza Benoit. Na versão inglesa (1880) de Frederick Pollock está Benedict. Mario Calés, em sua tradução espanhola (1977), utiliza Benito. Atilano Domínguez (1995) em sua tradução para o espanhol utiliza Baruch.

É interessante notar que nas dez assinaturas em cartas e nas cinco em documentos notariais que chegaram até nós, Spinoza assinou Benedictus ou ocultava o prenome sob a inicial “B.” (cartas); ou ainda, assinou o seu nome português Bento e, segundo a hipótese firmemente defendida por Atilano Domínguez - No cabe duda - depois da excomunhão passou também a ocultá-lo sob a inicial (documentos notariais), conforme a Introdução do citado autor à tradução das cartas de Spinoza, Correspondencia (Alianza Editorial, 1988, p. 26-27).

Em relação ao nome de Spinoza, também é digno de nota que o fac-símile das edições francesa e inglesa de 1706 trazem o nome de La Vie de B. de Spinosa (com S) e The Life of Benedict de Spinosa (com S também), respectivamente (Obras Completas de Spinoza da Acervo Cultural, 1977, V vol., p. 146 e Spinoza His Life and Philosophy, de Frederick Pollock, London, 1880, p. 411).

[iv] Na tradução de Atilano está tal como Colerus escreveu: Nació em Amsterdam, en el mes de diciembre de 1633; por el dia de su muerte es fácil de calcular tambiém el de su nacimiento (Biografías de Spinoza, p. 97).

[v] Na tradução de Atilano está iglesia (Ibidem).

[vi] Na tradução de Atilano está estudiante (op. cit. p. 98).

[vii] Na tradução de Atilano está [...] que han dado gracias a sus difuntos padres por haberles alejado de la escuela de este ateo (Ibidem).

[viii] Na tradução de Atilano está pintura (Ibidem).

[ix] Émile Saisset escreve [...] mieux faites. Na tradução de Atilano está [...] era algo coja e contrahecha de cuerpo (Ibidem).

[x] Moeda de ouro espanhola. Na tradução de Atilano está [...] valorado en varios miles de florines (op. cit. p. 99).

[xi] Na tradução de Atilano está [...] prefacio de su hijo (Ibidem).

[xii] Conforme Émile Saisset.

[xiii] Na tradução de Atilano está [...] más hábil para los objetos de las ciencias naturales (op. cit. p. 100).

[xiv] Na tradução de Atilano está [...] en su [Descartes] ciencia de la naturaleza la mayor luz (Ibidem).

[xv] Nota de Émile Saisset: É um extrato do Dicionário de Bayle.

[xvi] Na tradução de Mario Calés está escrito 4.000 florins (cuatro mil florines - op. cit. p. 151). Tanto a edição da Pléiade, quanto a de Pollock, assim como a de Atilano, citam 1.000 Florins. Tal fato (a troca do número 4 pelo número 1) ocorre algumas vezes na edição espanhola da Acervo Cultural. Conforme forem ocorrendo, iremos assinalando com notas de tradução.

[xvii] Está faltando esta sentença inteira na tradução de Pollock.

[xviii] Mario Calés inverte o sentido desta afirmativa, acrescentando um No no início da mesma (op. cit. p.152).

[xix] Pollock substitui os parágrafos a seguir até o início da próxima seção (Spinoza aprende...) por uma nota de rodapé (op. cit. p.417).

[xx] Na tradução de Mario Calés está Livro IV. Na edição da Pléiade, assim como na de Atilano, está liv. 1.

[xxi] Na tradução de Mario Calés está página 644. Na edição da Pléiade, assim como na de Atilano, está p. 641.

[xxii] Conforme Émile Saisset. Na tradução de Atilano está herem (op. cit. p. 102).

[xxiii] Conforme Émile Saisset. Na tradução de Atilano está Disput. Theol. et Philolog. (op. cit. p. 103).

[xxiv] Na tradução de Mario Calés está página 349. Na edição da Pléiade, assim como na de Atilano, está p. 319.

[xxv] Conforme Émile Saisset. Na tradução de Atilano está [...] en sus Horae hebraicae sobre 1 Cor. 5,5 (Opera, t. II, p. 890) (op. cit. p. 103).

[xxvi] Na tradução de Atilano está iglesia (Ibidem). Todavia, Atilano assinala em nota o engano de Colerus (op. Cit. Nota 14, p. 249).

[xxvii] Conforme Émile Saisset.

[xxviii] A tradução de Atilano e a edição da Pléiade têm entre este parágrafo e o próximo, uma Fórmula de la excomunión general judía e um Formulaire D’Éxcommunications Générale en Usage Parmi les Juifs, respectivamente, ausente em Saisset.

[xxix] A tradução de Mario Calés omite a palavra inicial desse parágrafo (Spinoza), alterando seu sentido. Tanto a edição da Pléiade, quanto a de Atilano, a mantém.

[xxx] Conforme Émile Saisset.

[xxxi] Pode-se verificar a semelhança entre Spinoza e o lider dos pescadores Masaniello na reprodução ao lado. Também podemos conferir a semelhança na reprodução deste desenho na capa do livro da Prof. Marilena Chauí intitulado Espinosa - uma Filosofia da Liberdade (Editora Moderna, São Paulo, 1995).

[xxxii] Atilano Domínguez sustenta que Spinoza transladou-se de Rynsburg para Voorburg em abril de 1663, baseado no fecho das Cartas 12 (Rynsburg, 20 de abril de 1663) e Carta 13 (17/27 de julho de 1663). (Correspondencia, Alianza Editorial, 1988, nota 121, p. 158).

[xxxiii] Corresponde a Carta 17 (Correspondencia, Op. Cit., p. 157).

[xxxiv] A tradução de Mario Calés, assim como a versão de Saisset, utilizam o termo sueldo. Pollock utiliza o termo pence. Atilano utiliza o termo céntimos, explicando em nota que o termo holandês original, stuiver, foi traduzido por ele como cinco céntimos; e, o termo penning por céntimo.

[xxxv] Antiga medida portuguesa (do grego pinte). A tradução de Mario Calés, assim como a versão de Saisset, utilizam o termo pinta. Pollock utiliza o termo pints. Atilano utiliza o termo litros y cuarto.

[xxxvi] A tradução de Mario Calés, assim como a versão de Saisset e a de Pollock, referem-se a cinco, cinq e five anos, respectivamente. Atilano Domínguez refere-se a seis anos.

[xxxvii] Na tradução de Atilano este parágrafo final tem uma conotação amarga: Mis amigos no van a heredar nada de mi; tampoco han hecho nada por ello.

[xxxviii] Na tradução de Atilano este parágrafo final tem a seguinte redação: Mala cosa es que el saco sea mejor que la carne que va dentro.

[xxxix] Conforme Émile Saisset, a edição da Pléiade e a tradução de Mario Calés. Na edição de Pollock tem uma nota: sic (op. cit. p. 421). Na tradução de Atilano está amicum integerrimum. Corresponde a Carta 8 (Correspondencia, Op. Cit., p. 113).

[xl] Conforme Émile Saisset, a edição da Pléiade e a tradução de Mario Calés. Na edição de Pollock tem uma nota: A mistake for 1677? (op. cit. p. 422). Na tradução de Atilano está 6 de marzo de 1677 (Biografías de Spinoza, Nota 64, p. 114).

[xli] Na edição de Pollock está Walloon Church.

[xlii] Na edição de Pollock está Civil War.

[xliii] Na tradução de Atilano está teólogos de la iglesia reformada.

[xliv] Corresponde a Carta 68 (Correspondencia, Op. Cit., p. 377).

[xlv] Na tradução de Atilano não tem esta referência à omissão de Stoupe em refutar e contestar Spinoza.

[xlvi] Conforme Émile Saisset, a edição da Pléiade, a tradução de Mario Calés e a versão de Pollock. Na tradução de Atilano está Jean Brun (Biografías de Spinoza, Op. Cit., p. 115).

[xlvii] Na tradução de Atilano há referência ao ano de 1673.

[xlviii] Na tradução de Atilano não há referência ao Senhor Halma. (op. cit. p. 116).

[xlix] Na tradução de Atilano está amigos suyos, que aún viven. (Ibidem).

[l] Na versão de Saisset, assim como na tradução de Mario Calés e na edição da Pléiade, tem a seguinte nota: O rei de França dava pensões a todos os sábios, particularmente aos estrangeiros, que lhe apresentavam ou dedicavam alguma obra. Colerus. Na versão de Pollock tem a nota sem a referência a Colerus. Na tradução de Atilano não tem esta nota.

[li] Na tradução de Mario Calés está página 564. A citada Epístola 53 corresponde a Carta 47 (Correspondencia, Op. Cit., p. 299).

[lii] Corresponde a Carta 48 (Ibidem, p. 300).

[liii] Erro crasso de Colerus: o PPC foi publicado em 1663 (Freudenthal, p. 68, 1899).

[liv] Conforme Émile Saisset e a edição da Pléiade. Na tradução de Mario Calés está en 4º. Na edição de Pollock está Twelves. Na tradução de Atilano não há referência ao formato do livro.

[lv] A tradução de Atilano inicia o próximo parágrafo com as palavras: Este execrable, impío y calumnioso escrito ha sido atribuido por muchos a Spinoza.

[lvi] Nota de Saisset, sem referência a Colerus: T. III du Dictionnaire, p. 2773. Reproduzida na tradução de Mario Calés. Na tradução de Atilano o tomo e a página, estão no próprio texto, entre parêntesis. Nota ausente na edição da Pléiade e na de Pollock.

[lvii] Nota de Saisset, com referência a Colerus: Imprimé in-4º en 1666. Col. Reproduzida na tradução de Mario Calés como Impresso in 4º en 1666. Col. Na tradução de Atilano está no próprio texto: publicada in 8º en 1666, entre vírgulas. Nota ausente na edição da Pléiade e na de Pollock.

[lviii] Conforme Émile Saisset, a edição da Pléiade, a tradução de Mario Calés e a versão de Pollock (L. M.). Na tradução de Atilano está Lodowijk Meyer.

[lix] Conforme Émile Saisset, a edição da Pléiade e a tradução de Mario Calés. Na versão de Pollock tem uma not: sic (Op. Cit. p. 426). Na tradução de Atilano está rechtzinnige.

[lx] Corresponde a Carta 68 (Correspondencia, Op. Cit., p. 377). Na tradução de Atilano tem a seguinte nota: La carta aludida es Ep 69 (op. Cit., nota referente ao parágrafo 37, p. 250).

[lxi] Na tradução de Mario Calés está pág. 234.

[lxii] Conforme Émile Saisset, a edição da Pléiade, a de Pollock e a tradução de Mario Calés. Na tradução de Atilano está Regnerus van Mansfeldt.

[lxiii] Spinoza tinha este livro em sua biblioteca. Mas, o seu testemunho na Carta 50 nos indica o que pensava sobre o livro e o seu autor: [...] lo consideré indigno de una lectura y más todavia de una respuesta. Así que dejé el libro y a su autor. Y, sonriéndome, pensaba que los más ignorantes son por doquier los más audaces y los más dispuestos a escribir.(Correspondencia, Op. Cit., p. 310).

[lxiv] A Carta 31 da Œuvres posthumes de Spinoza corresponde a Carta 19 (Correspondencia, Op. Cit., p. 166). Todavia, o trecho citado por Colerus, encontra-se na Carta 30 dasŒuvres..., que corresponde à Carta 18 (Correspondencia, Ibidem, 1988, p. 165).

[lxv] Neste ponto Colerus interpreta mais do que cita, conforme podemos verificar pela própria citação de Blyenburg; pois este refere-se apenas ao seu ofício profissional ou às suas ocupações cotidianas [...] já que sou uma pessoa livre que não depende de nenhuma profissão [...]. Colerus sugere que Blyenburg não abraçou nenhum partido ou vocação; ou seja, estende o comentário de Blyenburg muito além do pretendido por este.

[lxvi] Na tradução de Mario Calés está tít. 4,16.

[lxvii] Corresponde a Carta 73 (Correspondencia, Op. Cit., p. 387).

[lxviii] A tradução de Atilano cita o nome e a página do livro de Burmannus: Het hoosgste goed der spinozisten - El supremo bien de los spinozistas, p. 21. (Biografías de Spinoza, p. 126).

[lxix] Corresponde a Carta 75 (Correspondencia, Op. Cit., p. 394).

[lxx] Corresponde a Carta 77 (Correspondencia, Ibidem, p. 402).

[lxxi] Conforme o original de Émile Saisset. Na tradução de Atilano está De Iride, «Sobre el arco iris» (Biografías de Spinoza, p. 128).

[lxxii] Nota de Émile Saisset: Voyez Bayle, Dictionn. Crit. p. 2764.

[lxxiii] Na tradução de Atilano está distinguido e culto librero de Utrecht (Biografías de Spinoza, p. 134).

[lxxiv] Na tradução de Atilano inicia-se no próximo parágrafo a última parte.

[lxxv] Na tradução de Atilano tem uma nota corrigindo a data: o sábado foi dia 20, pois o domingo foi dia 21 (Biografías de Spinoza, Nota 64, p. 252).

[lxxvi] Na Nota 64 da tradução de Atilano está que o doctor L.M. es sin duda Lodowijk Meyer (Biografías de Spinoza, Nota 64, p. 252). A versão de Émile Saisset, a edição da Pléiade, a tradução de Mario Calés e a versão de Pollock não tem referência alguma a Lodowijk Meyer.

[lxxvii] Na Nota 64 da tradução de Atilano está escrito que las monedas e el cuchillo llevados por Meyer fueron un obsequio del propio Spinoza (Biografías de Spinoza, Nota 64, p. 252).

[lxxviii] Conforme Émile Saisset, a edição da Pléiade e a tradução de Mario Calés. Na edição de Pollock tem uma nota: A mistake of the French version for 1677? (op. cit. p. 441). Na tradução de Atilano está 6 de marzo de 1677 (Biografías de Spinoza, p. 138).

[lxxix] Na tradução de Atilano entre este e o próximo parágrafo, tem o seguinte parágrafo:

El cantor de nuestra iglesia luterana, que era un buen carpintero, hizo el ataúd de acuerdo con la siguiente nota: “Nota de lo servido por Paulus Van der Haard al señor Spinoza: 1) Un ataúd confeccionado  - 18 florines. 2) Otros 9 tornillos servidos - 3,15 florines. Total: 21,15 florines. Agradecido por el pago, a 26 de febrero de 1677. Firmado: Paulus Van der Haard” (Biografías de Spinoza, p. 138).

[lxxx] Na tradução de Atilano este parágrafo termina assim:

Esta conta fue pagada  por el hospedero con 14,60 florines de acuerdo con el seguiente recibo: “Este importe, de 14,60 florines, fue abonado por el señor Hendryck Van der Spyck el 10 de noviembre de 1677. Jonh Frederyck Schroder, boticario” (Biografías de Spinoza, p. 139).

[lxxxi] Na tradução de Atilano consta duas Notas de serviços:

“el 25 de febrero de 1677 fue enterrado Benedictus Spinoza (sic). Los derechos son 20 florines. Reconozco que esto está pagado. Teuntje Pieters, viuda del inspector Norwiths”(Biografías de Spinoza, p. 139).

“Año 1677. En la casa mortuoria del señor Spyck: se debe a Geredina Boom, el 24 de febrero, 50 litros de vino, con impuestos y gastos de porte: 19,65 florines. La que suscribe, reconoce que se le ha abonado el total el 28 de febrero de 1677. Geredina Boom” (Biografías de Spinoza, p. 139).

[lxxxii] Na tradução de Atilano consta estas Notas de serviços:

Do prior do enterro: “los herederos del bienaventurado Spinoza deben a Cornelius Brekeveld, empleado de funeraria de La Haya, un total de 13,22 florines. Conforme con el pago, a 28 de febrero de 1677» (Biografías de Spinoza, p. 139).

Do ferreiro, Libertus Van der Burg: “memoria de lo suministrado a mi señor, el bienaventurado Spinoza, et. Son 4,40 florines. Conforme con el pago, a 14 de septiembre de 1677”(Biografías de Spinoza, p. 139).
De outro ferreiro: “el 6 de diciembre de 1676 suministrado a mi señor, el bienaventurado Spinoza, por mí, Adriaan Van Til, um embudo de hojalata, provido de un caño, para laboratorio por 2,75 florines. recibí el importe: Adriaan Van Til” (Biografías de Spinoza, p. 140).

Do mercador: “servido para el entierro de mi señor, el bienaventurado Spinoza, a 25 de febrero de 1677: 6 pares de pañuelos blancos, a 0,65 florines el par, hacen 3,90 florines. Conforme con el pago: Thomas Talbot” (Biografías de Spinoza, p. 140).

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