Cinema Deleuze, por Julio Bressane

por Julio Bressane

“As conchas são os ossos do oceano, disperso esqueleto, desvago”, escreve Guimarães Rosa em “Aquário”,

estamos em maio de 1954,

é minha travessia na água-viva,

sorvo e inflamo Deleuze como flor colhida num sonho,

Jerônimo lutador no deserto,

argonauta do trans e observador do des

(o temível prefixo que transtorna o radical!),

passageiro clandestino do fora-do-lugar,

Espinosa o Barroco Nietzsche Carroll Proust Kafka Bergson Artaud Godard:

busca da inspiração como outros se obstinam em receber o raio...

“Tudo o que pode ser entendido é plebeu”,

arriscou um letrado com escárnio...

Além do escárnio, há a ideia de que o que se propõe ao entendimento é dominado pelo sinal-signo, sema

no sentido da sepultura, do finito, do passado, perdido, esgotado de um corpo que cai, Vertigo...

Compreender com Gilles Deleuze significa desentender-se.

Pelo corpo que ele traça,

o desenho de seu pensamento escapa à vala comum dos sistemas, transpassa com sua visão de inseto sensível

todas as ficções, todas as facções,

simultaneamente.

Vasta rede do interior da qual circula a eletricidade dos sentidos.

Homem-mosca ou aranha sagrada,

semelhante sem semelhante.

A cena barroquizante de sua escrita contábil, tátil transmuta todos os ares

para vir devorar o sonho da crisálida

e ser assim por rapto o olho-ideia móbile que se movimenta em contraponto

em diferentes linhas de fuga e de ataque,

instantaneamente.

Deleuze,

filósofo-criador,

criador-filósofo,

fez do cinema um meio de investir o sentido da superfície

contrariando a profundidade clássica da filosofia.

Cineasta radical, ele é o homem dos olhos de raio-X

do cinema dos circuitos conexões disjunções agenciamentos

em curto-circuitos cerebrais.

Cinema-crise, de epilepsia rigorosamente controlada.

Sangue de um poeta, de Michaux ou de Ghérasim Luca...

 

Um pensamento, uma mirada que atualiza o cinema, focaliza sua complexidade em seus murmúrios metafísicos.

Como liberar a imagem de todos os seus clichês?

Que o cinema entre em relações ainda com outras forças. Que ele se abra para as revelações poderosas e diretas da Imagem-tempo (crono-signos), da Imagem legível (lecto-signos) e da Imagem-pensamento (noo-signos).

Deleuze sente que o cinema é um organismo intelectual quase demasiadamente sensível que faz fronteira com todas as artes, todas as ciências,

e com a própria vida.

Nômade, tudo o transpassa.

Corpo-máquina, conecta-se com todo o universo.

Cinemancia, expõe-se, imprime-se diretamente no devir.

Luz-Enquadramento: um arrasta o outro num fluxo circular que deixa no fotograma granulado um sinal, uma nódoa: mancha-pensamento de um cinema que se insurge e surge

como um cometa em coma.

O que diz Deleuze da luz (sim, porque o que há antes de tudo é a luz – herança de outra fronteira: a pintura. A luz, sua compreensão e sua apreensão. Sua primazia.):

... tudo existe para o movimento, até a luz.

Há no cinema um luminismo onde a luz vale por si própria. Mas justamente o que ela é para si própria é movimento, puro movimento de extensão que se realiza no cinza.

O célebre cinza luminoso da escola francesa...

Duas luzes que se alternam: a solar e a lunar.

 

Cinema-Deleuze.

Pois Deleuze fez filmes.

Um deles contém todos os filmes de Losey, sem se superpor a nenhum deles.

São vários topoi de Losey, reinventados, remontados em outro circuito.

Uma mulher nua desce uma escada...

Pântano de pulsões e de fragmentos convergentes, eis a imagem de uma alta falésia plana, povoada de grandes pássaros, de helicópteros, de esculturas inquietantes, enquanto em baixo jaz uma pequena cidade vitoriana.

Anatomia de um crime, plano a plano:

a) através de uma alta falésia plana: imagem recorrente, riocorrente, em muitos filmes de Losey, como Boom!, Modesty Blaise;

b) povoada de grandes pássaros: é o caso de Boom!, Cerimônia secreta;

c) de helicópteros: Figures in a Landscape (os helicópteros são grandes pássaros e esculturas inquietantes); The Damned (a escultura inquietante e o helicóptero surgem no mesmo enquadramento);

d) de esculturas inquietantes: é lugar comum em The Damned, Eva, Blind Date, Trotsky;

e) enquanto em baixo jaz uma pequena cidade vitoriana: certamente The Go-Between, e ainda The Gipsy and the Gentleman.

Mas o “jaz uma pequena cidade” é quase todo o cinema de Joseph Losey; The boy with Green Hair, The Lawless, The Big Night, The Sleeping Tiger, The Criminal: mundo das origens, fim do mundo, usura, degradação, besta humana.

E nesse domínio em que a Imagem-afeto e a Imagem-ação não podem representar

surge a Imagem-pulsão,

ela rasga, desarticula o próprio tempo...

É uma desmontagem-remontagem da mancha Losey.

Por escolha e mistura de verdadeiros topoi visuais,

expressão de um movimento do espírito transformado em imagem.

É um cinema inatual, novo.

(Ele pertence à tradição do novo, que ele contra-efetua.)

Cinema do cinema.

Ele fez outros filmes: com Dreyer, Bresson, Hitchcock (“a câmera desvelada”: o enquadramento, o movimento de câmera que manifestam relações mentais. Não é câmera-olho, mas olho-espírito, cinema-vidência onde a descrição substitui o objeto), com Orson Welles, sobretudo.

Ele foi o primeiro cineasta filósofo.

É a primeira vez.

Porque os filósofos não se ocuparam do cinema, mesmo quando o frequentavam,

por um temor de precedência:

pois a filosofia estava por si só ocupada numa tarefa análoga à do cinema.

Pôr movimento no pensamento, como o cinema o põe na imagem.

Se há taxicófago em Gilles Deleuze, ele o deve ao cinema.

Durante mais de quarenta anos, ele viu nos filmes, filmes que ninguém viu.

Pensou cinema quando este foi desprezado por intelectuais e acadêmicos.

Com ele, o signo cinematográfico contaminou a filosofia.

Só uma vontade de arte pode nos salvar – escreve, sentencioso, o filósofo da imanência.

Chamado selvagem a duas ou três coisas de um deserto vermelho...

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Julio Bressane é cineasta e escritor, nascido no Rio de Janeiro, em 1946, dirigiu mais de quarenta filmes, entre os quais: Matou a Família e Foi ao Cinema; O Anjo Nasceu; Memórias de um Estrangulador de Loiras; Agonia; O Monstro Caraíba; O Rei do Barulho; Gigante da América; Tabu; Brás Cubas; Sermões; O Mandarim. 

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