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Aula de 19/05/1992 – A arte tem que lidar com a aurora do mundo

A nossa preocupação com a matéria, ao longo da nossa existência, é permanentemente a mesma: que o presente reproduza o passado. Porque se o presente não reproduzir o passado, não reconheceremos o que estamos vendo. E o reconhecimento é o fundamento para ultrapassarmos o caos objetivo, assim como as regras da associação de ideias são o fundamento para ultrapassarmos o caos subjetivo. Esse caos objetivo e subjetivo é anterior ao homem. (...) O homem vai nascer dotado de uma percepção, mas tudo nele – a própria percepção, a memória, o hábito, a afecção, a ação – será comandado pelas regras e pela semelhança. Veremos o mundo a partir destas regras, ou então do reconhecimento exterior. Nossa constante preocupação – terrível – é de que o passado possa não coincidir com o presente. Imaginem se amanhã o Roberto entra aqui na aula e não é mais o Roberto; se o Roberto da terça-feira passada não coincidir com o Roberto de hoje. Estes princípios do sujeito humano o afastam do caos. (...) Falemos de Cézanne, agora. O ponto de partida da obra dele é definitivo: só posso fazer uma obra de arte se fizer uma prática de desumanização. O que seria esta desumanização? Seria sair destas regras, sair do reconhecimento, voltar ao caos. Ele diz: a minha percepção de maneira alguma me dá o caos original, o caos irisado, o mundo anterior aos homens, a aurora do mundo. A arte tem que lidar com a aurora do mundo, o mundo antes de ser governado por estas regras. Para Cézanne, então, a primeira coisa que tem que ser quebrada no artista é a percepção, porque a percepção está regulada pelo princípio da semelhança.

Parte 1:

Parte 2:

Parte 3:

Parte 4:

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