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Ballet mecanique – Fernand Leger (1924)

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Os anos 20 foram realmente modernos, como podemos constatar ao ver este impressionante curta metragem experimental de 1924. Com seu espírito livre, os artistas Man Ray (câmera), Fernand Legér e Dudlay Murphy (direção) e George Antheil (trilha sonora) transformam o mundo em um Ballet Mecânico. Uma mulher se balança em um jardim e do balançar brotam delírios caleidoscópicos intensificados pela alucinante música de Antheil. O filme usa técnicas inovadoras de filmagem como o loop-printing, uma técnica que só veio a tornar comum no cinema experimental dos anos 60!     

"No ensaio «A New Realism: the Object (its Plastic and Cinematic Graphic Value)», publicado em 1926, Léger manifestou com clareza a intenção de trazer à tona os valores do objecto. Relegando para segundo plano as noções tradicionais da narrativa cinematográfica (os melodramas românticos, os épicos históricos, o suspense…), Léger centrou a sua atenção nos objectos do quotidiano, como um cachimbo, uma cadeira, uma máquina de escrever ou um chapéu. Ao descobrir e mostrar as afinidades entre o movimento e a dinâmica das formas, Ballet Mécanique divorcia o aspecto visual dos objectos da função subjacente à sua criação. Esta separação proporcionou a Léger a liberdade para explorar e desenvolver inovações abstractas em torno das possibilidades plásticas dos objectos comuns." 
 
O pintor cubista e idealista Fernand "Léger devotou toda a sua vida ao estudo das formas das máquinas e dos objectos técnicos, acreditando sempre no poder de transformação da arte e na sua importância para o estabelecimento de uma sociedade mais justa e igualitária, baseada no progresso técnico e científico." 

Curiosidade: O filme e o som foram criados separadamente e depois unidos: o resultado é incrível. O filme tem aproximadamente 16 minutos e a música, originalmente 30 minutos.   
  

(fontes: http://olugardosangue.blogspot.com/2008/06/ballet-mcanique-fernand-lger-1924.html, http://www.imdb.com/title/tt0014694/plotsummary)     

   

por Renata Aguiar    

    

    

   

  

  

Anémic Cinéma – Marcel Duchamp (1926)

Anémic Cinéma. Várias versões foram feitas para este curta metragem experimental mudo de Marcel Duchamp, em 1920, 1923 e 1926, quando esta última foi realizada. A brincadeira começa com o título do filme que é um jogo de letras, um anagrama. Os Rotorelevos de Duchamp nos entorpecem, assim como seus trocadilhos em espiral. Este trabalho é uma dentre tantas experiências que o artista fez na tentiva descobrir os efeitos do movimento sobre a percepção humana. Podemos sentir no filme a atmosfera de humor mordaz  presente em toda a obra do artista. Anémic Cinéma foi realizado no studio de Man Ray com ajuda do cineasta Marc Allégret. É uma animação de sete minutos de 10 imagens em espiral alternando com nove trocadilhos em francês de Rrose Sélavy (alter ego de Duchamp):

"On demande des moustiques domestiques (demi-stock) pour la cure d'azote sur la côte d'azur."

"Inceste ou passion a coups trop de famille, à coups trop tirés."

"Esquivons les ecchymoses des Esquimaux aux mots exquis."

"Avez-vous déjà mis la moëlle de l'épée dans le poêle de l'aimée?"

"Parmi nos articles de quinquillerie par essence, nous recommandans le robinet qui s'arrête de couloir quand on ne l'ecoute pas."

"L'aspirant habite Javel et moi j'avais l'habite en spirale."

(fontes: http://www.ubu.com/film/duchamp_anemic.html e http://en.wikipedia.org/wiki/Anemic_Cinema)

Entr'acte – René Clair (1924)

(curta em 2 partes)

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Francis Picabia comissionou o diretor René Clair para a produção deste curta, originalmente criado para ser exibido na pausa entre'acte (entre atos) do ballet Relâche, de sua autoria e com coreografia de Jean Börlin. Em sua busca pelo cinema puro, Clair usa técnicas originais e ângulos inovadores e não tradicionais, para encontrar "o lugar de encontro de mil lugares". O expectador é bombardeado com fotomontagens e justaposições de imagens "non-sense" ao estilo Dada. Os acontecimentos mais improváveis estão interligados e se dão de forma simultânea. É o instantaneísmo* questionando a realidade e dando realidade ao virtual.

Eric Satie compôs as trilhas sonoras do filme e do ballet. Satie e Picabia atuaram no filme, bem como Marcel Duchamp e Man Ray, na famosa cena do jogo de xadrez.

Entr'acte é citado por Deleuze no livro A Imagem-Tempo, no capítulo “Da lembrança aos sonhos”, pág. 73. Editora Brasiliense, 1990 – tradução de Eloísa de Araújo Ribeiro.

"Qual é, mais precisamente, a diferença entre uma imagem-lembrança e uma imagem-sonho? Partimos de uma imagem-percepção, cuja natureza consiste em ser atual. A lembrança, ao contrário, o que Bergson chama de “lembrança pura”, necessariamente é virtual. Mas, no primeiro caso, ela própria se torna atual na medida em que é chamada pela imagem-percepção. Ela se atualiza numa imagem-lembrança que corresponde à imagem-percepção. O caso do sonho faz com que apareçam duas importantes diferenças. Por um lado, as percepções da pessoa que dorme subsistem, porém no estado difuso de uma nuvem de sensações atuais, exteriores e interiores, que não são apreendidas por si  mesmas, escapando à consciência. Por outro lado, a imagem virtual que se atualiza não se atualiza  diretamente, mas em outra imagem, que desempenha o papel de imagem virtual, atualizando-se numa terceira, ao infinito: o sonho não é uma metáfora, mas uma série de anamorfoses que traçam um circuito muito grande. Estas duas características estão ligadas. Quando a pessoa que dorme  está entregue à sensação luminosa atual de uma superfície verde com manchas brancas, a pessoa que sonha, que habita a que dorme, pode evocar a imagem de um prado salpicado de flores, mas esta só se atualiza tornando-se uma mesa de sinuca cheia de bolas, que por sua vez, não se atualiza sem se tornar ainda outra coisa. Não se trata de metáforas, mas de um devir que pode, em direito, prosseguir ao infinito. Em Entr'acte, de René Clair, a roupa da bailarina vista de baixo “se abre como uma flor” e a flor “abre e fecha sua corola, estende suas pétalas, estica seus estames”, tornando-se novamente pernas de bailarina que se abrem; as luzes da cidade tornam-se um “monte de cigarros em brasa” nos cabelos de um homem que joga xadrez, cigarros que por sua vez se tornam “as pilastras de um templo grego, e depois um silo, enquanto o tabuleiro de xadrez deixa transparecer a Place de la Concorde”.

*Técnica de montagem criada pelos Dadaístas para este filme.

Eaux D'artifice – Kenneth Anger (1953)

[youtube Q2UU-B0Uf8E]

Uma sofisticada e delicada figura feminina avança pelas longas escadarias do Tivoli, na Itália, impulsionada por seu desejo. O cenário de sonhos é construído com luzes e nuances de azul. Apenas um detalhe dourado: ela balança seu leque em um gesto insinuante e usa toda sua feminilidade cortejando seu amante: as águas. Com rosto pintado, vestes fluidas e uma coroa de plumas, passeia pelo jardim das delícias e se confunde com as luzes e os  jorros de água das fontes e chafarizes. Onírica e contemplativa, sua movimentação se intensifica e se ralenta ao rítmo da música de Vivaldi – a estação é o Inverno. Ela admira cada detalhe das cascatas e acaba por se desfazer completamente ao alcançar o clímax em suas bodas contra-natura.

Este curta tem linguagem bastante sutil se comparado à violenta e homoerótica filmografia do controverso artista e cineasta experimentalista Kenneth Anger. O nome "Eaux D'Artifice" referencia "Feu D"artifice" (Fireworks, 1947) e é visto como parte do ciclo Lanterna Mágica (filmes aonde as luzes assumem um caráter de substância e não apenas de iluminação). A atriz em cena é uma artista de circo que foi apresentada a Anger por Fellini.

(fontes: Deborah Allison – http://archive.sensesofcinema.com/contents/cteq/08/46/eaux-artifice.html, cinemavirtualis no Youtube – http://www.youtube.com/watch?v=nABlcJJvzYE&feature=related)