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Aula 3 – 23/01/1995 – O Empírico e o Transcendental

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[Temas abordados nesta aula são aprofundados na Introdução e nos capítulos 1 (Implicar – Explicar); 6 (Do Universal ao Singular); 7 (Cisão Causal); 10 (Estoicos e Platônicos); 11 (Conceitos); 12 (De Sade a Nietzsche) do livro "Gilles Deleuze: A Grande Aventura do Pensamento", de Claudio Ulpiano. Para pedir o livro, escreva para: webulpiano@gmail.com]

 


O que eu vou falar - não importa o quê, eu ainda não sei nem mesmo o que vai ser... - tem como objetivo mostrar para vocês, nesta aula, por exemplo, o que é o transcendental.

Bom. Duas questões - ambas medievais. A primeira é a ideia de um Deus; o medieval pensava assim, São Tomás pensava assim - um Deus dotado de duas faculdades. (Atentem para isso: a palavra faculdade) Essas duas faculdades seriam o intelecto e a vontade. (É estranho que eu coloque a vontade como faculdade!) E o intelecto de Deus seria povoado pelo que se chama essência. Então, o que estaria no intelecto de Deus seriam as essências.

Mas - o que quer dizer exatamente essência ?

Essência é tudo aquilo que é possível de tornar-se real. Ou seja, a essência é tudo aquilo que não possui uma contradição interna que a impeça de se tornar real. Por exemplo: o que define o objeto lógico, o que define uma essência, é que ela tenha, seja regida, por dois princípios: o de identidade e o de não-contradição.

Então, tudo aquilo que puder/for regido pelo princípio de não-contradição chama-se possibilidade lógica. Ou seja: tudo o que não tiver contradição interna, tem a possibilidade de se tornar real. Por exemplo: no medieval, Deus tem seu intelecto povoado de possibilidades. Ou seja: é povoado de essências. E esses possíveis tornam-se reais; quer dizer, tornam-se existentes - desde que Deus tenha vontade de torná-los existentes. Então, a vontade de Deus, no medieval, se submete ao intelecto. No sentido de que o intelecto [divino] possuiria todos os possíveis. (Certo?)

Então, pelo que eu disse aqui, a realidade pressupõe - antes de ela se dar - o possível. Pressupõe o mundo das essências, que estaria no intelecto de Deus. Voltando: no intelecto de Deus nós encontraríamos os possíveis.

- O que é possível? Por exemplo: a mesa, a cadeira, a árvore - por que esses três elementos são possíveis?

Porque eles não trazem nenhuma contradição interna. Mas eles só se tornam reais se a vontade de Deus quiser transformá-los em reais. Então, digamos, a vontade de Deus tornou, esses possíveis, reais. Quando eles se tornam reais, eles se chamam individuais. Ou seja: tudo aquilo que é real, é individual. E tudo aquilo que está no intelecto de Deus chama-se universal.

Então, a diferença de universal para individual, é que o universal é do campo da possibilidade e o individual é do campo da existência. Por exemplo: eu - Claudio - sou um indivíduo existente. Mas o homem é uma possibilidade no intelecto de Deus. Logo, aquilo que eu estou chamando de universal não teria a mesma realidade que o individual - porque o individual teria uma realidade existencial. Ou de uma maneira mais clara: tudo aquilo que existe é - necessariamente - individual. Tudo o que existe é necessariamente um sistema individuado. Enquanto que o universal passa para o campo dos possíveis - no caso dessa explicação que eu dei para vocês. Ainda que a gente encontre determinadas teses que afirmem a realidade existencial tanto do universal quanto do individual. O grande mestre que tirou os universais do campo existencial foi Guilherme de Ockham. Ele tira os universais do campo existencial, [mantendo ali] apenas o individual. Mudando a linguagem: o indivíduo é o único ser ontológico- porque é o ser que existe - independente de qualquer coisa. Enquanto que o universal torna-se semiológico. Havendo aqui uma distinção entre a semiologia dos universais e a ontologia dos individuais. A filosofia, até o princípio do século XX, manteve essa distinção, embora muitos pensadores ainda admitissem que o universal pudesse ter realidade. Mas essa distinção foi praticamente mantida e o universal tornou-se signo - a cadeira, a mesa, o lápis, o cavalo, pouco importa o que, todos esses universais se tornaram signos. E os indivíduos - que nós costumamos nomear pelo dedo apontado, pelo nome próprio, pelo adjetivo demonstrativo - ganharam existência real. (Certo?)

Então, a realidade passou a ser constituída e habitada por indivíduos (tá?). Os indivíduos são aqueles que povoam o que se chama realidade.

Vamos dizer, da década de 40 para cá, determinadas linhas de pensamento - prestem atenção, hein? Agora as coisas vão ficar um pouco difíceis! Eu vou voltar antes de entrar! - Os universais não ganharam realidade ontológica. Mas têm uma espécie de realidade - uma realidade mental ou uma realidade de linguagem, uma realidade linguística: o universal existe na linguagem; existe na subjetividade. Mas não existe independente ou da linguagem ou da subjetividade. Enquanto que o individual, o indivíduo tem uma realidade autônoma - por isso, ontológica. Agora, a partir mais ou menos de 1940 aparece um termo - singularidade ou singular - que inicialmente é tomado como sinônimo de individual. Ou melhor, já no século XIV a palavra indivíduo e a palavra singular, a palavra individualidade e a palavra singularidade eram tomadas como sinônimos. Mais ou menos a partir de 1940 a singularidade se separa da individualidade. O singular aparece como outra realidade. Vamos dizer: o universal, que é Mental ou Linguístico; o individual, que é ontológico, que é real. E, agora, uma terceira realidade - chamada singularidade.

Antes de penetrar, eu vou colocar os territórios de cada uma:

Os universais são objetos mentais. Ou seja, se não houvesse isso que se chama mente, não existiriam os objetos chamados universais. Os individuais ou os indivíduos são aqueles que povoam a realidade empírica.

- O que é a realidade empírica? Tudo o que existe neste ou noutro planeta qualquer. Empírico é o vivo, o objeto técnico, o objeto físico, o objeto químico, a combinatória de duas moléculas, um átomo - tudo isso é um indivíduo porque tem uma realidade empírica. (Certo?) E o universal é uma realidade mental. O Singular, a singularidade - que seria o outro elemento, o terceiro elemento, sempre foi confundido com o individual. E neste momento de aula, nós não temos poderes para distinguir o singular do individual. Mas - esse singular - também vai ter o seu território. E o território do singular - ainda que rompendo com todas as tradições das filosofias clássicas, sobretudo a filosofia kantiana - chama-se transcendental.

Como nós estamos num trabalho de compreensão - que às vezes torna-se longo e difícil - a minha questão, neste momento, é simples: é marcar a presença de três territórios:

•  O território do universal - que seria o território do mental;

• O individual - que seria um território empírico, ou seja: para existir, o individual não depende senão dele próprio (enquanto que o universal, para existir, depende da mente ou da subjetividade);

• A singularidade - que à semelhança do indivíduo não depende de nada para ter a sua realidade.

Conclusão : o universal não é real - porque é mental.

Mas o individual e o singular são ambos reais - apenas diferem, porque o individual é do campo empírico e o singular é do campo transcendental. (Eu sei da dificuldade extremada disso daqui!)

O que eu estou levantando para vocês - e que eu vou fazer diversos procedimentos para alcançar os meus objetivos - é que a ciência do real tem como objeto de trabalho, o individual. Ela trabalha com o individual.

- Por quê? Porque o individual é aquilo que existe - aquilo que tem realidade empírica.

Mas eu coloco essa noção de transcendental e povoo esse universo que eu estou chamando de transcendental - ainda sem explicar - com esses elementos que eu estou chamando de singularidades. O que vai acontecer de original é que a partir disso daí, as ciências - ao invés de trabalharem com o individual - passam a ter duas metades: de um lado o individual; de outro, a singularidade. (Ainda ficou muito difícil!)

O que eu estou dizendo para vocês? Nesse primeiro investimento, eu estou constituindo aqui - acredito que com uma total facilidade - três componentes: um componente mental, que eu povoo com os universais; um componente empírico - por exemplo, esta sala que está aqui, que é povoada de indivíduos; e um terceiro território, que eu chamo de transcendental, onde eu introduzo o que eu chamei de singularidade.

Vamos avançar!

Uma filosofia do século II a.C. - chamada filosofia estoica - que tem uma repercussão imensa na formação do pensamento ocidental, vai fazer uma prática inteiramente original. Uma prática que nenhuma filosofia até então havia feito: ela vai pegar as três dimensões do tempo - passado, presente e futuro - e separar em duas partes, colocando de um lado o presente e, de outro, o passado e o futuro. ´

- O que os estoicos fizeram? Eles fizeram uma divisão no tempo que, até então, nenhuma filosofia teria feito. Porque todas as filosofias, quando trabalham no tempo, trabalham nas três dimensões - passado, presente e futuro; os estoicos, não! Os estoicos pegaram as três dimensões e colocaram o presente de um lado, e de outro, o passado e o futuro - ligando o presente ao indivíduo; e o passado e futuro à singularidade. (Já começa a clarear! Já começa a aparecer!)

Então, como eu disse para vocês, é de uma dificuldade extremada envolver-se nesse processo - saber o que está acontecendo realmente! Provavelmente - pelo menos no platonismo e no aristotelismo - o pensamento esteve sem vias para fazer grandes envolvimentos com o tempo - porque no modelo Platão e Aristóteles o tempo nada mais é que uma imagem móvel da eternidade. Enquanto que, nos estoicos, o tempo se liberta; e nessa libertação do tempo, eles vão colocar o presente do lado do indivíduo e o passado e o futuro do lado das singularidades.

Presente - o indivíduo.

Passado e Futuro - as singularidades.

Empírico - presente e indivíduo.

Transcendental - passado e futuro; e singularidades.

O que nós temos que fazer é isto: vocês têm que seguir esse quadro que eu estou montando, que nós vamos entender!

Atenção, porque agora vai aparecer um momento dificílimo:

- O que nós já temos do lado do indivíduo? Presente e empírico, (não é?) Do lado do indivíduo estão todos e quaisquer corpos - o corpo está do lado do indivíduo.

Então, se nós chamarmos alguma coisa de corpo, essa coisa que se chama corpo pertence ao presente, ao indivíduo e ao empírico. Logo, no singular, no transcendental, no passado e futuro não existe corpo. Melhor dito, agora: a palavra existência é literalmente - no caso desta explicação que eu estou dando - sinônimo de corpo. Ou seja: só pode existir o corpo - nada mais pode existir!

Por exemplo:

- Deus existe? Se existir - é um corpo! (Certo?)

- O fantasma de Getúlio Vargas existe? Se existir, é um corpo.

A existência e o corpo se identificam.

Então, de um lado: existência, corpo, indivíduo, presente, empírico.

Ora, a partir daí, a singularidade, que já tem o seu próprio campo - que é o transcendental, seu próprio tempo - que é o passado e o futuro; a singularidade - lamentavelmente - não existe.

Está surgindo - na ordem do pensamento - uma realidade, porque a singularidade não é um objeto mental; pois, se ela fosse objeto mental, ela seria universal. Ela tem uma realidade autônoma -, mas ela não existe e não é um corpo.

Os estoicos, com a maior facilidade, chamaram essa realidade - que não existe, que não é um corpo - de incorporal. Então, o universo dos estoicos - eu acho que agora está ficando mais claro! - é, de um lado, o corpo: o corpo está no presente do tempo. De outro lado, o incorporal, que é dilacerado, esquartejado: ao mesmo tempo no passado, e ao mesmo tempo no futuro.

O corpo é empírico, observável, experimentável.

A singularidade é transcendental.

O corpo existe e o singular não - existe. (Foi bem?)

Aluna: Por que você disse assim: lamentavelmente a singularidade...

Claudio: Lamentavelmente para a compreensão. Lamentavelmente - no sentido pedagógico; não no sentido ontológico. (Certo?) Porque eu nunca iria considerar lamentável o fato de um singular não ter existência. Mas como nós estamos no campo da pedagogia e que isso começa a ser expresso, (não é?) oprime: é difícil para a gente entender!

- Por que [é difícil para a gente entender]? Porque eu estou mostrando para vocês, de um lado, o que seria a ciência moderna - essa ciência implicando os dois componentes: o singular e o individual. De outro, a filosofia - que seria sempre do singular, ou seja: a matéria da filosofia seria o singular; e, mais surpreendente ainda, a matéria da arte - que também seria esse singular. (Vamos outra vez!)

Aluno: O corpo histérico seria um corpo, seria o singular?

Claudio: O "corpo histérico" seria incorporal, seria o singular - porque o único corpo que existe é o corpo orgânico. Seria o único que existe. Então, o corpo orgânico está do lado do individual; o histérico estaria do lado do incorporal. O corpo histérico - literalmente - não existe! Qualquer psiquiatra sabe disso, (não é?)

Aluna: Por isso, naquela hora, você ficou devendo a explicação daquela palavra?

Claudio: Exatamente! Não havia como - naquela hora - falar sobre isso.

Então, o que nós temos que fazer, é literal: é o melhor processo pedagógico - é fazer uma divisão... e ir colocando os termos. (Depois eu desfaço isso!) Porque eu identifiquei o individual ao corpo; E no caso - como o M. falou, eu concordei: é individual; o corpo funcional - é individual. Agora, esse corpo está no presente do tempo.

- O que se chama presente do tempo ?

Vamos colocar que o presente no tempo é constituído por um conjunto de instantes: presente, presente, presente, presente... (Certo?)

Por exemplo: os seres que estão do lado do indivíduo não necessitam de tempo para existir: basta, para eles, a dimensão presente. Enquanto que o singular - que é o grande enigmático desta aula - ele está num tempo estranhíssimo, porque ele é - simultaneamente - passado e futuro. Ou seja: tudo aquilo que é simultaneamente passado e futuro é esquartejado - nunca aparece no presente!

Então, essa singularidade, esse transcendental, esse "passado e futuro simultâneo" começam a perturbar o que nós chamamos - o nosso pensamento. O nosso pensamento começa a se ver quebrado: [a ver quebrados] todas as suas referências e todos os seus eixos. Porque, a chegada da singularidade, a chegada do transcendental - é a chegada do paradoxo.

O paradoxo começa a fazer parte de uma investigação científica; fazer parte de uma investigação filosófica; ou a fazer parte de uma prática artística - porque desde que nós aceitemos essas ideias, (vou repetir) transcendental, singularidade, passado e futuro simultâneos, incorporal - nós temos que incluir nelas a ideia de paradoxo.

E agora, eu vou voltar, para vocês entenderem!

(virada de fita)


[...] que até então não tinha aparecido.

É possível que os estoicos, que a filosofia estoica, seja a responsável pela descoberta desse território. E esse território - que é descoberto pelos estoicos - vai ser re-descoberto (sem que eles conhecessem os estoicos) por lógicos do século XIV; e vai ser re-descoberto (sem que ele conhecesse os lógicos do século XIV ou a filosofia estoica) por um pensador magnífico - chamado Whitehead - no século XX. (Certo?)

E, então - novamente - nós estamos diante de uma matéria muito difícil! Não difícil em si mesma; mas em função da constituição da nossa subjetividade - que é organizada sob o regime e a lei do princípio de identidade e do princípio de não-contradição.

Então, sempre que o nosso pensamento - ou aquilo que nós chamamos de pensamento - se defronta com o paradoxo, o que classicamente se faz, é jogar o paradoxo para o fundo dos oceanos... à semelhança do que Platão queria fazer com os sofistas - porque os paradoxos seriam [recusados como] aquilo que impediria o pensamento de pensar. E os que [trilham] o caminho de pensamento por essa [outra] linha afirmam que o paradoxo - ao invés de ser aquilo que impede o pensamento de pensar - ele, o paradoxo - é a paixão do pensamento.

(Então, é essa entrada, é essa a divisória que nós vamos ter que fazer, que nós vamos acompanhar, lutar para compreender. Nós vamos usar pares... porque... - eu não sei se a minha pedagogia é boa. É uma invenção minha (não é?) Ela pode falhar! E na hora que ela falhar, vocês consertam...)

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Eu vou fazer o seguinte: eu vou colocar, de um lado, o individual, de outro, o singular. De um lado o empírico, de outro o transcendental. De um lado o presente, do outro o passado e o futuro. De um lado o corpo, de outro o incorporal.

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Bom, o incorporal e corpo: Essa noção de incorporal foi magnificamente trabalhada (essa informação é apenas para garantir teoricamente o que eu estou falando...) por um lógico do século passado chamado Meinong. Ele fez um trabalho excepcional sobre isso, e na obra dele fica claríssimo, mas claríssimo, que o nosso pensamento não tem que se submeter aos existentes - o nosso pensamento pode penetrar naquilo que não existe. Eu vou falar muito sobre o Meinong.

Quando a gente toma o primeiro contato com esse incorporal - fica muito difícil para nós entendermos. Eu vou tentar, durante umas duas ou três aulas, usar estratégias [pedagógicas] e depois disso eu sigo uma carreira acadêmica - eu acredito que então vocês já terão meios para [enfrentar] isso.

Eu vou dizer que todo corpo orgânico, ou seja: todo ser vivo seria um corpo orgânico; logo, estaria do lado do individual, do presente e do empírico (está claro, não é?) Todo ser vivo tem um comportamento (vamos anotar isso!) e ele, esse comportamento, se manifesta no meio em que o vivo está integrado. Ou seja: esse meio pode variar, mas o vivo tem sempre um comportamento integrado ao meio, que eu vou chamar de - meio geográfico ou meio histórico.

O indivíduo vivo está - necessariamente - integrado ao meio geográfico ou ao meio histórico onde ele se efetua, pelo seu comportamento. É o seu comportamento que efetua a sua existência. E as emoções e os sentimentos desse indivíduo vivo regulam ou desregulam o comportamento. Não tem nenhuma dificuldade no que eu estou dizendo! O indivíduo vivo e o meio geográfico: eu, no Rio de Janeiro, e o meu comportamento... E esse comportamento sendo regulado e desregulado pelas emoções e pelos sentimentos.

Então, pelo que eu falei para vocês, necessariamente, comportamento é corpo, emoção é corpo, sentimento é corpo. Por quê? Porque eu coloquei comportamento, emoção e sentimento do lado [esquerdo do quadro]. Tudo o que eu colocar do lado [esquerdo do quadro] é corpo. (Até aqui, é da maior facilidade!)

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Existe - na literatura, no cinema, na filosofia, na ciência, pouco importa o quê; vamos usar na ciência, para ficar mais claro - algo que se chama imagem-ação ou realismo. Então, imagem-ação e realismo vão para o lado [esquerdo do quadro], (certo?) O que nós chamamos de realismo é o indivíduo vivo, com um comportamento, regulado ou desregulado pelos sentimentos ou pelas emoções, num meio geográfico e histórico. Isso se chama ação: é o mundo da ação. É o mundo em que todos os indivíduos vivem. Eles agem e reagem dentro desse mundo. Então vamos ver uma coisa aqui:

O cinema se aproveitou disso - logo, se aproveitou do corpo, se aproveitou do indivíduo, se aproveitou do movimento que o indivíduo faz, se aproveitou das ações e das paixões dos indivíduos, das emoções, dos sentimentos, do comportamento - e constituiu um cinema chamado cinema realista, que é o cinema propriamente de Hollywood. O western é um exemplo disso. Seria o cinema ação. (Tá?)

- Quais os elementos que nós temos aqui?

Presente, Corpo, (Agora, já é uma massa, não é?) Indivíduo, Comportamento, Meio-Geográfico, Meio-Histórico, Ação, Sentimento, Emoção - já é uma massa, já é uma massa! Todos esses elementos pertencem ao que se chama - em Cinema, vamos botar assim: imagem-ação. Ao que pertence - não importa o quê - ao realismo. Tudo isso que está aqui [do lado esquerdo] é real.

Agora eu vou usar um nome para - como se fosse um carimbo: eu vou carimbar - pah! - segundidade! É o termo de um filósofo chamado Peirce.

- O que o Peirce chama de segundidade? O Corpo, o Indivíduo, o Comportamento, o Meio-Geográfico, o Meio-Histórico, a Ação, a Reação, a Paixão, a Emoção (que beleza!) Tudo isso para ele receber esse nome - segundidade (tá?).

Agora, vamos passar para o [lado direito]: para o transcendental, para o incorporal... E aqui começa a ficar tudo difícil, porque - em primeiro lugar - o Incorporal não existe; logo, ele não é real! De maneira nenhuma ele pode ser chamado de real. E agora eu vou colocar uma palavra do lado do incorporal - e essa palavra vai dar problema, eu tenho certeza - eu vou colocá-la do lado do incorporal, ou seja, do lado daquilo que não existe - afeto.

Ou seja: o afeto ou os afetos não se confundem com sentimentos, emoções e comportamentos. Os afetos pertencem ao Incorporal. (Certo?) Nós vamos ter que descobrir nesta aula o que é afeto! Agora:

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Incorporal, Transcendental, Passado e Futuro - o Peirce vem com seu carimbo brilhante e pah! - Primeiridade!

Aí, nós temos a primeiridade e a segundidade. A segundidade, nela vamos agora fazer uma espécie de pasta de colégio, e botar de um lado a pasta da segundidade e do outro lado a pasta da primeiridade. Nessa pasta da primeiridade é onde está o afeto, onde está o incorporal, o transcendental, etc. Quando o cinema quis mostrar a primeiridade, o que ele fez? Ele fez três práticas: o primeiro plano - que é a mostra dos afetos ou das singularidades. (Tá? Ninguém precisa ficar preocupado, que daqui a pouco eu vou explicar melhor)

Então, o primeiro plano é o lugar em que a singularidade ou o afeto - a primeiridade aparece. Mas a singularidade ou o afeto aparecem também no que se chamam sombras expressionistas. Então, primeiro plano, sombras expressionistas - e deixem passar essa palavra que eu vou dizer agora - espaços desconectados. Não importa isso daqui, o que importa é o seguinte:

Vamos pegar o que eu acabei de falar - de que lado eu coloquei a singularidade e o afeto?

Alunos: Do lado da primeiridade!

Claudio: E o primeiro plano? Também! Agora vamos fazer um exame aqui. Vamos examinar o rosto. Pode ser o meu mesmo: o meu rosto.

O rosto - qualquer rosto - é necessariamente socializante. O rosto tem que trazer marcas de socialização. É uma coisa muito fácil de entender, quando nós nos defrontamos, por exemplo, com o problema do mongolóide, que ele tem o rosto absolutamente igual, e você não pode fazer as caracterizações de socialização. Todo rosto traz com ele marcas socializantes.

De outro lado, todo rosto traz, com ele, as características comunicantes - os rostos servem para comunicar. Nada melhor do que ver os retratos dos políticos na hora das eleições: eles fazem tudo para comunicar alguma coisa. Eles [ostentam] um riso que vai até o nariz ou então um sorriso que cai de baixo do... - fazem qualquer coisa!

Então, o rosto tem duas características muito claras - socialização e comunicação. Mas há uma terceira mais poderosa. A mais poderosa chama-se individuação. Todo rosto é individuante. Calculem se o meu rosto revelasse o Chico, ao invés de mim! Meu rosto me individua.

Comunicação, socialização e individuação são características do rosto; logo, são características do corpo - pertencem à segundidade.

Quando nós passamos para o primeiro plano, ali nós não temos mais as características corporais. O rosto, no primeiro plano, perde essas três características - a socialização, a comunicação e a individuação - e se torna um pacote de afetos: um feixe afetivo; um pacote de sensações. (Certo?) Ou seja: nós começamos agora, - através da noção de rosto, da pura noção de rosto, da simples noção de rosto -, nós já podemos entender Cézanne, Paul Klee, Van Gogh...

Vamos dizer que um girassol tivesse três características: comunicar, socializar e individuar - menos o girassol de Van Gogh. Que são exatamente essas características que ele retira do seu objeto, para deixar com que aquilo que ele está pintando só expresse afetos. (Certo?)

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Então, o primeiro plano, no cinema, teria a capacidade estranhíssima - de des-individualizar, des-comunicalizar e des-socializar o rosto (e nós vamos ter que ver isso, nem que seja por projeção).

Dizem que, um dia, a Liv Ulman e a Ingrid Tulin estavam conversando e olhando um primeiro plano que supostamente uma delas teria feito, e a Liv Ulman disse:

- Olha você ali! E a Ingrid Tulin retrucou:

- Não, não sou eu não, é você!

Ela já não se reconhecia - não havia mais o processo de reconhecimento. Porque o rosto, o primeiro plano, teria passado para esse campo dos afetos. Mas, não seria somente com o primeiro plano que esses afetos e esses incorporais apareceriam. Haveria mais dois processos - que seriam as sombras expressionistas (depois eu vou mostrar!) e o que eu chamei de espaço desconectado.

Agora eu vou crescer, vou crescer:

Do lado do indivíduo, eu coloquei a existência do indivíduo orgânico, (não foi isso?) E esse indivíduo orgânico, com todas as suas características; e - seguindo Nietzsche - o organismo, ou melhor, o indivíduo tem como seu último órgão, como o mais aperfeiçoado dos seus órgãos, a consciência.

- De que lado está a consciência?

Do lado do corpo. A consciência é um órgão da segundidade.

Logo, eu vou colocar o inconsciente do lado do incorporal. E essa prática de colocar o inconsciente do lado do incorporal chama-se - tirar o inconsciente do modelo orgânico ou desumanizar o inconsciente. O inconsciente sai desse modelo orgânico, e passa para o outro lado. O inconsciente, então, passa a ser uma complexidade afetiva, uma complexidade temporal, (tempo, não é? passado e futuro) de singularidade, de esquartejamento, mas, ao mesmo tempo, esse inconsciente seria o responsável pela produção dos indivíduos corporais. Logo, o lado do incorporal passa a ser genético - passa a ser a gênese. Por isso, que eu comecei a aula dizendo que nesse modo de pensar você não pode se limitar a pensar apenas um dos domínios. O pensamento passa agora a ter duas partes - a parte incorporal e a parte corporal. Ou melhor: o pensamento passa a ter duas metades. (Foi bem, não é? Foi bem!)

Aluno: Você falou também que a ciência teria atualmente duas metades.

Claudio: Sim.

Aluno: Eu gostaria de alcançar um pouco mais.

Claudio: É, nós vamos alcançar isso. Nós vamos alcançar! Porque isso tudo que eu estou fazendo para vocês agora, depois eu entro numa série mais... com uma linha até mais nômade, mais abstrata... para mostrar isso para vocês. Deixem-me continuar... (certo?)

Vejam bem: o presente é a dimensão do tempo do lado da segundidade, não é? O presente é aquilo que tem limites. Por isso, todo indivíduo tem... limites. O presente traz o limite para os corpos, enquanto que o passado e o futuro é o ilimitado. Logo, pode-se dizer - numa outra linguagem - que quem está do lado da primeiridade está do lado do infinito; enquanto que, quem está do lado da segundidade está do lado do finito. (Ficou muito ruim aqui?)

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O infinito, do lado direito, na primeiridade - que é o ilimitado do passado e do futuro.

E o finito, do lado esquerdo, do presente - que é dos corpos.

Então, eu aqui já defino de forma definitiva: a ciência é sempre ciência dos corpos. Não quer dizer que ela não pense no infinito - depois eu mostro para vocês. Então, toda ciência é - necessariamente - finita. Enquanto que a arte e a filosofia são infinitas.

Então, a arte e a filosofia seriam infinitas - mantendo esses dois lados que eu coloquei.

Bom. No cinema, o lado do corpo, chama-se imagem-ação. E o lado do incorporal chama-se imagem-afecção.

PosterEu citaria [inclusive] um filme, cheio de Imagens Afecções, que passou há pouco tempo - Europa, de um diretor chamado Lars Von Trier, não sei se vocês viram. Ele é muito marcado por imagens afecções e inclusive as imagens do trem, no túnel. O que mostra - que os afetos - não são orgânicos. Eles - os afetos - independem de qualquer organismo. Os afetos são anteriores, ou melhor, todo o incorporal é anterior ao corpo.

Agora, vou lançar mais dois elementos do lado do corpo - uso e função. Então, por exemplo, eu filmo a Ponte Rio - Niterói, num plano fixo, não sei de onde, das barcas, por exemplo (não é?) E aí essa ponte aparece enquanto funcional, orgânica e com suas propriedades de uso. Ou seja: a maneira como eu a filmo, qualquer observador sabe que um carro pode transitar por ali. No entanto, se por acaso eu filmar um pedaço de ponte, depois outro pedaço de ponte, e amontoar esses pedaços, o que eu tiro desses pedaços de ponte é a função e o uso - é isso que se chama espaço desconectado.

Espaço desconectado é quando você retira do espaço esses dois [inaudível] função e uso.

(intervalo para café)

(Eu consegui dar essa aula sem AR NENHUM!)


[---] corpo, individual, etc., é onde estão a história e a narrativa. (Olha, cada elemento desses, que eu for dando para vocês, depois eu vou retornar, viu?)

A história e a narrativa pertencem à segundidade. Logo, tudo o que ocorre na segundidade tem uma história!? Ou melhor, os membros da segundidade têm uma história pessoal.

Quando eu falo do Cassavetes e do Godard e aponto os dois como sendo o cinema do corpo, o que eu estou chamando de corpo aí é o incorporal (viu?) - no Cassavetes e no Godard, utilizando uma categoria do Brecht, que se chama Gestus. Aqui vocês veriam dois encadeamentos: o encadeamento do mundo dos corpos, do mundo do indivíduo é sempre um encadeamento histórico. São procedimentos históricos que vão se encadeando. Enquanto que do lado do incorporal, do lado do Gestus, os encadeamentos são completamente diferentes, porque as personagens perdem a história pessoal. Elas vão romper com a história pessoal. Nós vamos ver isso para poder compreender.

(Bom. Eu estou inteiramente satisfeito com essa apresentação que eu fiz, eu acho que foi um sucesso... eu vou seguir com ela)

A gente pega um objeto, por exemplo: esse copo que está aqui, e nitidamente - é fácil de entender - que este objeto, o copo - que é um objeto técnico - tem um valor de uso. O valor de uso dele - pelo menos classicamente - é beber água, (não é?) Poderia ser "jogar na cabeça dos outros...", não quer dizer nada - mas ele tem um valor de uso. E além do valor de uso, ele tem um valor de troca, porque você pode levar este copo para o mercado e trocá-lo por uma banana. Então, este objeto que está aqui, tem um valor de uso e um valor de troca nítidos, (não é?) Inteiramente nítidos. E, em terceiro lugar, ele é um signo, no sentido de que este objeto aqui foi dado por um amigo. Um amigo me deu este copo! Então, um dia qualquer, quando eu for beber água, eu pego o copo e em vez de me preocupar com o valor de uso ou com o valor de troca do copo, eu evoco o meu amigo. Essa evocação transforma o copo num signo. Então, o que a gente apreende aqui com a maior facilidade é que qualquer corpo pode ser valor de uso, valor de troca e pode ser signo. Indiferentemente, todos os corpos...

(virada de fita)


II -

[---] envolver todo o campo teórico e todo o campo das nossas vidas. Ou seja: não é que entender o nascimento do tempo signifique que a nossa vida irá mudar - não é exatamente isso! Mas, a partir do instante em que nós começarmos a nos interessar por [esse tema], e a verificar que os "modelos de subjetividade" que estão por aí não são absolutamente necessários... e que nós poderemos produzir outros tipos de subjetividade... Numa divisão como a que eu estou fazendo aqui nesta aula, de modo a seguir essa trilha que eu estou fazendo, eu colocaria do lado da segundidade uma subjetividade material; e do lado da primeiridade, uma subjetividade espiritual.

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É um momento difícil, é uma exposição cruel, (não é?) porque ela quebra tudo aquilo que vocês fizeram hoje, (não é?) tudo aquilo que vocês vão fazer depois desta aula... É como se nós entrássemos num reino de ficção científica; habitássemos aquele reino de ficção científica; e depois fechássemos a porta dele e voltássemos para a nossa vidinha miserável!

Então, essa primeira entrada no que eu vou passar a chamar de sínteses do tempo, eu vou utilizar - fortuitamente - um filósofo de língua inglesa do século XVIII chamado - Hume. Vamos tentar compreender a primeira entrada nisso daqui, que ao fazer essa explicação, eu vou fazer a mesma oposição - colocar um do lado da primeiridade; e o outro do lado da segundidade.

Uma ideia, que já é grega: a ideia de instante.

Instante é a ideia de menor quantidade de tempo. Da mesma forma que segundo é a menor quantidade de tempo do relógio; o instante é a menor quantidade de tempo em termos metafísicos. Então, o tempo teria a sua unidade mínima, que seria o instante. Mas acontece que um instante traria com ele uma lei - a Lei da Descontinuidade.

- O que é a lei da descontinuidade? É que um instante está sempre separado de outro instante. Eles são descontínuos; eles não aparecem juntos - aparecem separados. Por isso, o instante é regido por essa lei da descontinuidade.

Toda a questão do nascimento do tempo se dará (e eu já fiz isso na primeira aula com vocês) pela tentativa de tornar os instantes contínuos - o que se chama síntese passiva.

Se eu digo para vocês que os instantes são descontínuos... e se essa descontinuidade dos instantes é anterior ao nascimento do tempo... isso aqui fica complicado; complicado eu dizer que a descontinuidade dos instantes é anterior ao nascimento do tempo! Eu, então, vou introduzir a ideia de tempo - que é uma ideia arbitrária; mas [que] eu vou introduzir como sendo a uma pequena ou grande duração. Ou seja: o que se chama tempo é um conjunto de instantes. Mas esses instantes - no tempo - não seriam descontínuos; estariam juntos!

Então, o tempo suporia um processo que transformaria a descontinuidade dos instantes em continuidade. A descontinuidade dos instantes em duração ou em pequena extensão. Para isso, para que haja esse processo da passagem da descontinuidade dos instantes para uma continuidade - que seria a duração - o intermédio, o ser para executar isso se chama - alma. Ou melhor: o ser que vai executar isso se chama contemplação. Ou melhor: o ser que vai executar isso se chama contemplação contraente.

Então, instantes separados, descontínuos; depois, instantes juntos, contínuos. Entre os dois, o que eu chamei de - contemplação contraente. (Vamos tentar então isso!)

- O que é contemplação contraente.?

Um filósofo chamado Hume - como eu falei para vocês - constituiu uma tese excepcional, em que ele fala de uma - imaginação contraente...

(Vamos tentar compreender aqui, sem o menor problema, porque nas próximas aulas isso tudo vai se resolver, viu?)

Existe uma noção do ser vivo que se chama faculdade - por exemplo: a inteligência, a memória, a linguagem, a percepção, são chamadas faculdades.

As faculdades são forças ativas dos seres vivos. A imaginação, por exemplo, é considerada uma faculdade do sujeito humano. Logo, a imaginação seria uma atividade exercida pelo sujeito vivo. Porque toda faculdade é o exercício que o sujeito vivo faz dela, exercendo, com ela, determinadas práticas.

Hume vai afirmar que a imaginação não é uma faculdade! Então, sempre que pensamos nessa ideia de imaginação - para nós, a imaginação é uma faculdade: [em virtude d]a capacidade que ela, a imaginação, tem de ligar imagens. Hume diz: não! A imaginação é apenas o nome de um lugar qualquer em que as imagens se juntam e se separam.

Ou seja: o que Hume está dizendo é que - na natureza - existe um processo que não é produzido pela imaginação - que é o processo das imagens se juntarem e se separarem, independentemente de qualquer força que as junte ou as separe.

O que ele está dizendo - é muito fácil para se compreender - é que as imagens têm um poder plástico assustador: qualquer imagem pode se misturar com qualquer imagem! Nada impede que uma imagem se misture com outra. Logo - no universo das imagens - existe o que se chama trânsito livre: não há lei regulando a trajetória das imagens.

Por exemplo: se, neste instante, eu quiser fazer esta garrafa com a cara do Sarney, é imediato, imediato - puh - aparece! Por quê? Porque as imagens têm esse processo de se associarem com as outras imagens. É um procedimento das próprias imagens associarem-se umas com as outras. Por isso, o Hume vai dizer que a imaginação não é uma faculdade ativa. A imaginação é o lugar onde se dá a associação das imagens. Nada mais do que isso. Ela é apenas o lugar em que essa associação vai se dar.

Então, nós podemos dizer que esse universo possui um lugar onde as imagens se combinam livremente - qualquer imagem se combina com qualquer imagem - livremente! Vocês podem fazer essa experimentação no que se chama hipnagogia - que é um estado - quando nós estamos entre a vigília e o sono - em que as imagens começam a passar por nós, e nós não temos poder sobre elas. E elas vão se misturando umas com as outras inteiramente livres.

Então: se as imagens podem se misturar umas com as outras livremente, significa que este universo é percorrido por um enorme delírio. Ou seja: há um enorme delírio percorrendo este universo!

- Qual delírio?

O delírio da combinação livre das imagens. Então, é daí que nascem os centauros, os cavalos alados, os dragões de fogo, as sereias... exatamente dessa combinação livre de imagens. (Vocês entenderam aqui?)

Agora, diz o Hume: aqui vem um momento muito difícil, muito difícil: um momento essencial de compreensão. Essas imagens se originam em impressões. Ou seja: a natureza - a única coisa que a natureza envia são impressões. Mas essas impressões que são - por exemplo - a impressão do azul daquele vestido. Eu fecho os olhos e faço uma imagem daquele azul. A imagem se difere da impressão em força. As impressões são fortes, as imagens são fracas.

Então, o Hume diz que a natureza é constituída de impressões; e essas imagens são o espírito. Logo, o espírito ou como diz o Hume: o fundo do espírito é delírio. Ou seja: o fundo do espírito de cada um de nós é esse delírio das imagens. Delírio insuperável - ou seja: necessariamente esse delírio está presente no momento em que o espírito se constitui. Porque o espírito se constitui por um conjunto de imagens. Conjunto de imagens esse que não é regido por nenhuma lei. Ou seja: as imagens se combinam livre e francamente.

Ora: esse é o fundo do espírito! Todo e qualquer espírito, diz o Hume, é absolutamente idêntico ao conjunto de imagens que o constitui. Ou seja: não diferença entre o espírito e o conjunto de imagens em termos delirantes - isso é o espírito para ele. Mas acontece que essas imagens se originam das impressões. Ou seja: a impressão do azul provoca a imagem do azul. Todas as imagens que aparecem, se originam nas impressões - o que mostra que o espírito é um produto da Natureza. O espírito não é filho de Deus: ele é filho da Natureza. Porque o espírito são as impressões enfraquecidas. Isso que é o espírito. Então, o espírito - não ele, mas as imagens que o percorrem; logo, ele - porque ele não é nada mais do que as imagens que o percorrem - tem a capacidade, as imagens têm a capacidade, de se fundirem uma na outra. Isso é uma coisa notável! Porque - na natureza - as impressões não se fundem uma na outra: elas estão separadas!

Eu vou passar para o Bergson e eu vou pedir que vocês utilizem aqui essa expressão que eu vou usar... é... No espírito existe uma interpenetração de fusão! Ou seja: há uma fusão entre as imagens: elas se inter penetram; enquanto que - na natureza - elas estão separadas.

Vamos de outra forma:

Na natureza - elas são descontínuas;

No espírito - elas são contínuas.

Há uma fusão no espírito e uma descontinuidade na natureza.

(Está difícil demais ?)

Coloquem assim:

Duas multiplicidades: a multiplicidade da natureza é descontínua; e a multiplicidade contínua ou de interpenetração do espírito. O espírito é onde tudo se interpenetra.

Aluna: Esse é o território do espírito?

Claudio: Esse é o espírito! O espírito é o território da interpenetração; é o território da fusão; é o território em que - quando dois elementos se fundem - outra natureza aparece. Então, o espírito é aquilo que não para de mudar de natureza.

Bom. Com essa interpenetração, o espírito tem uma diferença com relação à natureza: a diferença entre eles é que os elementos - que são as impressões - estão separados na natureza e no espírito estão juntos. Ou seja: o que estão separados na natureza - são os instantes; o que estão juntos no espírito - são os instantes. Então, esses instantes - quando se juntam - chamam-se síntese.

Síntese quer dizer - juntar aquilo que estava separado. É o oposto de análise. Quer dizer: a síntese dá-se no espírito.

- Mas dá-se no espírito, porque o espírito produz isso - ou são os elementos do espírito que são assim? São os elementos que são assim. Por isso, chama-se síntese passiva.

Essa síntese passiva é a invenção do tempo.

O que eu coloquei para vocês, é um momento muito difícil; mas, nós já temos um caminho. O nosso caminho é a imaginação contraente do Hume.

- Por que contraente?

Porque ela contrai uma imagem na outra! É o poder de contração que ela tem.

Então, o que marca o espírito é contemplar e contrair - é contemplação e contração. É a marca do espírito.

O "elemento básico" dessa exposição que eu fiz para vocês é lembrar-se que as imagens não se interpretam uma na outra porque uma imaginação lhes determina - elas se interpenetram porque é do ser delas se interpenetrarem. É do ser delas! Então, essa interpenetração provoca um diferencial em relação à natureza: enquanto na natureza existem as impressões separadas - no espírito existem as impressões transformadas em imagens inter-penetradas. Então, nasceu aqui o que eu vou passar a chamar de multiplicidade de interpenetração.

- O que é uma multiplicidade de interpenetração?

É exatamente a multiplicidade subjetiva, [ou] espiritual - enquanto que a multiplicidade física é uma multiplicidade que não se interpenetra.

Então, eu vou dizer para vocês - em outra linguagem - que na multiplicidade física, você pode aplicar números inteiros - 1,2,3,4,5,6; enquanto que isso não é possível, ou melhor, você não pode aplicar esses números inteiros na multiplicidade de interpenetração.

- Por quê? Porque, nessa multiplicidade, no momento em que dois elementos se interpenetram, aparece um terceiro elemento.

O nascimento do tempo - a tradição filosófica para a compreensão do nascimento do tempo fora da linha platônico-aristotélica - pressupõe (o Hume usou a palavra imaginação, eu vou usar a palavra espírito) um espírito que contempla e que contrai. (Eu vou dar isso para vocês na próxima aula!)

- Contempla, o quê? O que esse espírito contempla? Ele contempla os elementos com os quais ele é constituído.

- De que é constituído o espírito?

O espírito é constituído dessas imagens! E são essas imagens que ele contempla - e, ao contemplar, ele contrai. (Não sei se vocês entenderam bem...)

Aluna: Como se esse espírito contemplasse a natureza?

Claudio: Ele contempla as próprias imagens, é isso que ele contempla. Ele se contempla: ele se auto-contempla. Mas ao se contemplar - ele contrai: ele produz a contração. Eu vou passar a chamar [esse processo] daqui de narcisismo formal. ( Tudo isso eu vou tentar explicar na próxima aula!)

O que apareceu aqui foi uma noção de contemplação, que não é uma contemplação à distância - é uma contemplação próxima. Ou seja: você contempla os elementos com os quais você se constitui. E ao contemplar esses elementos que te constituem - você os contrai. E, ao contraí-los, você introduz o tempo. Ou seja - muito difícil o que eu vou dizer! - no momento em que esse procedimento se dá, vai nascer o corpo orgânico.

O corpo orgânico é um resultado da contemplação contraente. O corpo orgânico vem como resultado...

Não faz mal que tenha sido muito difícil isso hoje. Não faz mal! Eu acredito que mantendo a linha que eu coloquei na primeira parte da aula - e agora eu vou dizer que a contemplação contraente é um processo que se dá do lado direito da linha... Que essa contemplação contraente é o procedimento do nascimento do tempo... Ou seja, a pergunta é essa:

- Como a vida apareceu no planeta? O que é - exatamente - a vida? A qual linha a vida que nós conhecemos pertence - ao incorporal ou ao corporal? Ao corporal! A vida que nós conhecemos é orgânica. Mas eu estou mostrando para vocês que existe uma potência não-orgânica - que é a geradora da vida. Essa potência não-orgânica chama-se espírito contemplante e contraente. Ela é não-orgânica e gera a vida. (Vamos voltar!)

(Poderia arranjar um café para mim?)

Aluno: Claudio, o que o espírito contempla são as impressões da natureza?

Claudio: As impressões da natureza! Mas o ato de ele contemplar torna essas impressões imagens. E as imagens se interpenetram. Por isso, o espírito contemplando, contrai. O processo é esse!

(Bem, na próxima aula a gente organiza mais isso daqui. Foi bom para alguns, eu sei que foi bom para alguns! Essas noções finais, que eu estou passando, já é um preparativo para a próxima aula)

Eu estou tentando colocar para vocês duas noções dificílimas: contemplação e contração. Eu já falei sobre contemplação: falei sobre contemplação científica, templária e filosófica, lembram-se? Essas três contemplações são humanas! Essa contemplação contraente não é humana. Ela não é humana!

Aluno: É anterior?!

Claudio: Ela é anterior! Ela é a gênese do orgânico. Nós estamos na trilha: necessariamente nós vamos alcançar! [Essa contemplação] é a gênese do orgânico.

- Quer ver uma coisa interessante? Essa contemplação contraente chama-se síntese passiva. Ela gera o organismo, ela produz o organismo. Ela é uma coisa; o organismo é outra - são duas coisas diferentes! Ela é a gênese e a força da vida. E o organismo - é a vida aparecendo no mundo! Quando vocês pegam um pensador de teatro - Samuel Beckett, por exemplo. Samuel Beckett é um pensador do corpo? Mas só que do corpo incorporal. Só que do corpo da síntese passiva. Do corpo da contemplação contraente. O que nos confunde, o que nos leva quase à loucura, quando nós nos encontramos com a arte moderna - não importa se na literatura, na pintura ou no cinema - é que esses grandes artistas estão lidando com o incorporal, com a síntese passiva, com a contemplação contraente... Então, nós - que carregamos os nossos hábitos e o nosso senso comum, que só pressupõem a presença do corpo orgânico - quando lidamos com [o incorporal], não entendemos. (Certo?) É a dificuldade de entendimento [originária n]aquilo que eu chamei do domínio - emnós - da subjetividade material.

Então, eu vou pedir a vocês que, a partir de hoje, a gente faça mais uma separação: subjetividade material e subjetividade espiritual.

(eu estou com muito pouca respiração!)

A subjetividade material - não tem como caminhar agora... - essa subjetividade material é a subjetividade do realismo.

Eu vou parar aqui um instante, (viu?) E vou dar uma marca final nesta aula.

- Todo mundo conhece ou já ouviu falar no Naturalismo? Por exemplo, no Brasil, quem é o naturalista? Aluísio de Azevedo - O Cortiço? E na França? Èmile Zola, (não é?) O Naturalismo não será algo oposto ao Realismo. O Realismo é tudo o que eu falei... corpo, organismo... tudo o que eu falei.

O Naturalismo vai realçar o organismo, ele vai realçar o organismo ou o Naturalismo - que eu estou citando, porque ele é o instrumento que eu vou ter para nós obtermos compreensão. O Naturalismo estaria entre esse incorporal e o corpo orgânico. Então, para nós começarmos a fazer um trabalho para entender o que eu estou falando, eu pediria que vocês assistissem filmes do [Joseph] Losey e do Buñuel para entenderem a imagem Naturalista; para entrarem em contato com a imagem Naturalista.

Aluna: Mas o Buñuel é surrealista, não é bem naturalista!?

Claudio: Não toda a história do cinema dele, viu? Mas grande parte do cinema dele está dentro dessa linha que eu estou colocando aqui.

O que eu estou fazendo com vocês é o seguinte: eu dividi, na primeira parte da aula, Corpo e Incorporal, Individual e Singular, Orgânico e...etc. A linha que divide, eu passo a chamá-la de imagem-pulsão.

Então, Imagem-Ação, Imagem-Pulsão e Imagem-Afecção. Três imagens!

- Por que eu estou chamando a atenção dessa Imagem-Pulsão?

Porque ela vai ser um instrumento muito poderoso para nós compreendermos as outras duas. Por exemplo: há um filme do Dirk Bogarde, chama-se - O Criado. Se vocês virem, vocês vão ver: é uma coisa inacreditável! Num determinado momento do filme o Dirk Bogard se transforma num predador. Ele já não é mais um homem! Ele abandona o sentimento, o comportamento, o meio geográfico - ele abandona tudo! - e se torna um predador. Então, é importante que a gente entre nesse tipo de compreensão - o que é o cinema pulsão! - para distinguir com mais clareza o Incorporal e o Corporal.

Eu estou um pouco sem ar.

Alunos: Já tem duas horas!

Claudio: Tá? Já tem duas horas, eu estou um pouco sem ar, eu gostaria de continuar um pouco mais nas sínteses, mas não dá mais. Então, eu peço desculpas a vocês...

Alunos: Não, foi bom demais!

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Aula 1 – 16/01/1995 – Corpo orgânico e corpo histérico

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[Temas abordados nesta aula são aprofundados nos capítulos 1 (Implicar – Explicar); 5 (A Fuga do Aristotelismo); 8 (As Singularidades Nômades); 13 (Arte e Forças) do livro "Gilles Deleuze: A Grande Aventura do Pensamento", de Claudio Ulpiano. Para pedir o livro, escreva para: webulpiano@gmail.com]


"O que se torna primeiro para a vida de cada um de nós, é a liberação das forças da psicologia, para o exercício dessa liberdade do pensamento. Essa prática não precisa ser feita por um grande filósofo ou por um grande artista. Ela pode ser feita por qualquer um de nós: é fazer do pensamento a busca de novos mundos; e, a produção desses novos mundos, gerando o que é inteiramente impossível fora da arte - a comunicação entre as nossas almas."

Fita 1

Quando eu falo pensamento, corpo e tempo - e faço uma associação do pensamento com o corpo - aparece uma ideia aparentemente confusa, porque a tradição da filosofia marcou que o corpo seria o grande obstáculo do pensamento. Inclusive, quando a filosofia emerge na cidade grega - com Platão - essa relação entre o corpo e o pensamento é inteiramente impossível: o corpo seria exatamente aquilo que barraria a passagem do pensamento. Ainda assim, é essa associação "pensamento e corpo" um dos pontos principais desse curso que eu vou dar para vocês. E a terceira questão - o tempo - que irá surgindo ao longo da minha exposição.

Neste momento, eu começo a entrar na aula - e tudo o que eu vou dizer terá uma importância enorme para a compreensão de vocês. Nesta primeira aula, eu vou fazer a exposição - e uma pequena experimentação de como vocês estão ouvindo: de como vocês estão recebendo essa maneira de pensar. Por exemplo:

Olivier Messiaen

Um músico do nosso tempo - chamado Olivier Messiaen - vai fazer uma distinção entre quatro tipos de canto de pássaros. Diz ele que, na primavera, os pássaros, praticamente todos eles, fazem o canto do amor - que é um canto de sedução, geralmente feito pelos machos. Esse canto de amor - evidentemente - tem uma função específica: serve à espécie - porque o amor permite a reprodução; e serve aos prazeres do indivíduo. Seria esse canto - que eu chamei de canto de amor - que ocorre em todas as primaveras.

O outro tipo de canto, diz ele, que é entendido por todo e qualquer pássaro - é o grito de alarme. Os pássaros - através do gorjeio - fazem o canto de amor e o grito do alarme: dois cantos que estão a serviço do que eu passarei a chamar, nesta aula, de corpo orgânico. Ambos os cantos estão a serviço do organismo - das funções dos órgãos; no sentido de que um canto - o canto de amor - tem como único objetivo prestar um enorme serviço à espécie; ou seja - à evolução da espécie; e assim por diante.

Mas, de outro lado, Messiaen vai falar num terceiro canto (por enquanto, eu vou deixar o [quarto] entre aspas). Esse terceiro canto, de que Messiaen nos fala, é o canto que alguns pássaros fazem para o pôr do sol - ou [melhor]: para o crepúsculo e para a aurora. Esse canto não tem nenhum objetivo orgânico e não presta nenhum serviço à espécie ou ao indivíduo: é o canto gratuito - que o pássaro produz, não importa os perigos que ele corra. Segundo Olivier Messiaen, [o canto gratuito] é de uma extraordinária beleza! E quanto mais forte for o crepúsculo; quanto mais se espalhar a cor violeta; e quanto mais bonita for a aurora - mais esplendorosos os temas e motivos que o pássaro canta.

A partir dessa colocação, é evidente que há uma diferença do canto da primavera e do grito de alarme para o canto gratuito - porque esse canto é gratuito [exatamente] porque não presta nenhum serviço ao organismo ou à espécie.

Se, de algum modo, eu me fiz entender; se alguma coisa do que eu falei atravessou... (caso contrário, mais adiante eu farei com que vocês entendam!) - eu marquei claramente a existência - pelo menos nos pássaros - de dois tipos de corpo: um corpo orgânico, que está sempre a serviço da espécie e do indivíduo; e um corpo que, por enquanto, eu só posso chamar de um corpo estético. No caso dos pássaros, é um corpo que fica de tal forma tocado diante das luzes, da claridade e das cores que o crepúsculo e a aurora produzem, que começa a [emitir] - Atenção! - ondas rítmicas: ele gera ondas rítmicas, que se encontram com as forças da natureza. E quando o ritmo se encontra com as forças da natureza - isso se chama sensação.

- O que é a sensação?

A sensação é a potência de um corpo vivo, que produz uma onda de intensidade - que no caso dos pássaros são os ritmos; e no caso das forças caóticas da natureza, as misturas das cores, dos calores e das luzes... E quando essas duas linhas se encontram, emerge o que Olivier Messiaen vai chamar de personagem rítmico. O personagem rítmico não é um sujeito, não é um pássaro. O personagem rítmico é uma onda, que se serve do corpo do pássaro.

Então, através do encontro das ondas estéticas e da composição do personagem rítmico - que é exatamente o pássaro ao fazer esse canto; com as forças do sol, as forças da natureza - que eu passarei a chamar de paisagem melódica - alguma coisa em termos de corpo, em termos de pensamento e em termos de tempo se produz.

John Cassavetes

Essa mesma exposição (que provavelmente, por enquanto, nem todos puderam entender...) poderemos encontrar no cinema de um diretor de Nova York - que é o John Cassavetes. Todo o cinema do John Cassavetes é um cinema do corpo - mas de modo nenhum do corpo orgânico. Usando [o que eu falei sobre] os pássaros... - o cinema do Cassavetes é um cinema do personagem rítmico e da paisagem melódica. Repetindo: Cassavetes introduz no cinema o corpo - mas de modo nenhum o corpo orgânico.

O nome do pássaro em português é tordo e em francês "grive".

Eu vou passar a chamar o corpo do Cassavetes, da mesma maneira que o corpo do pássaro... Eu vou chamar o corpo, com que o Cassavetes trabalha - literalmente - de corpo histérico. E aí, com uma certa facilidade, eu já faço a distinção de que, no nosso corpo, nós teríamos - misturados - o corpo orgânico e o corpo histérico. Esse corpo histérico foi apresentado teoricamente no Ocidente pela obra de Artaud - que dá a esse corpo o nome de corpo-sem-órgãos.

A nossa apreciação dessa questão não é difícil: de um lado um corpo orgânico - sempre a serviço da espécie, a serviço do indivíduo; e de outro lado, um corpo estético, ou melhor, um corpo histérico - ligado à produção da beleza.

Nesse começo de aula, eu vou aproximar a obra do Cassavetes da obra do Tordo. Cassavetes, o Tordo ou o Tordo Cassavetes - tanto faz.

Da mesma maneira, se eu sair do plano do cinema - desse plano belíssimo do cinema ([cujos] filmes nós teremos que tentar ver...) - e entrar na pintura, por exemplo, nós vamos apreender o mesmo processo, porque a pintura traz uma marca muito clara [dele]. O século 20, em termos de artes plásticas - afora certas tolices que existem por aí - foi um rompimento com a arte figurativa. Para facilitar, eu vou chamar, aqui, a arte figurativa de arte propriamente orgânica.

O que aconteceu no século 20, fundamentalmente nas artes plásticas, foi a emergência da arte abstrata: Mondrian - que está sendo recuperado agora; Kandinsky; e, mais para frente, os expressionistas abstratos: Pollock, e assim por diante. Mas também, já no final do século, um pintor chamado Francis Bacon - cuja questão é a mesma do Tordo e a mesma do Cassavetes: a produção, na pintura, de um corpo histérico. Ou seja, nesse instante, em termos ornitológicos, em termos picturais e em termos cinematográficos, eu estou começando a constituir uma nova estética - a estética das ondas rítmicas, a estética das forças da natureza e a estética das sensações. Se quisermos nos apropriar mais do que eu estou dizendo, vamos encontrar a mesma questão na literatura, na poesia... - em Fernando Pessoa, por exemplo, que é chamado o poeta das sensações! As sensações - são a mesma coisa que os ritmos do Tordo e as atitudes e as posturas das personagens do Cassavetes.

A ligação que eu vou fazer do pensamento com o corpo não é a ligação do pensamento com o corpo orgânico, porque essa separação do corpo e do pensamento - que tem origem no platonismo - é a separação do corpo orgânico: que se separa do pensamento.

- Mas, o que eu estou chamando de corpo histérico?

No caso do cinema, o corpo histérico se manifesta por atitudes e posturas - que se originam numa expressão do Brecht chamada "gestus".

Francis Bacon - Head III 1961Gestus - por enquanto - seria [apenas] uma maneira do corpo histérico se manifestar. E o cinema do Cassavetes não é, de forma nenhuma, um cinema fundamentado na história, na intriga ou no enredo. Nada disso! O que se dá no cinema do Cassavetes é uma associação das atitudes e das posturas (que nós vamos entender de qualquer maneira!). Mas, a partir disso, eu posso dizer que é esse corpo das atitudes e das posturas - o corpo do gestus, o corpo da deformação do Francis Bacon, ou então o corpo do personagem rítmico - que vai fazer uma associação com o pensamento. Ou melhor: esse corpo - que eu chamei de histérico - força o pensamento a pensar.

Essa expressão, que eu acabei de usar aqui, é realmente muito difícil, porque - classicamente - nós entendemos o pensamento como aquilo que funciona sempre por sua boa vontade - e eu estou dizendo que não; que o pensamento é forçado a pensar por este corpo que eu chamei de "corpo histérico" - o corpo das atitudes e das posturas, o corpo do gestus. Ele força o pensamento a pensar.

- Força a pensar, o quê?

Ele força a pensar o impensado - a pensar o corpo, a pensar a vida. É como se, de repente - diante de toda essa história pesada da filosofia - nós tivéssemos a viabilização, a possibilidade do pensamento pensar. E o pensamento, quando pensa, o que ele pensa é - o corpo e a vida.

Então, vocês vão ver - o cinema de Cassavetes é um cinema explicitamente do pensamento! Quando o Cassavetes se junta com a Gena Rowlands - [onde quer que] aquele par magnífico se reúna... - pode ser em Glória, Love Streams, Faces - o que está passando por ali são gestus, posturas e atitudes - e o pensamento dando conta daquilo. Ou seja, quando eu fiz essa distinção de corpo orgânico e corpo histérico; e, no caso de Cassavetes, liguei o corpo histérico às posturas e atitudes, o que eu quis dizer para vocês é que - a função do pensamento é pensar todas as atitudes e as posturas do corpo - insônias, sono, tristeza; todas as linhas de errância - abstratas e difíceis - que o corpo produz.

Então, de um outro lado, a minha aula tem (olhem o nome:) uma postura ética, - postura é coisa de corpo, não é? -, uma postura espinosista; no sentido de que - sem temores, sem medo da morte - o que nós vamos fazer é pensar o corpo.

Esse é o meu curso para vocês!

Mas quando o pensamento e o corpo começam a fazer essa associação estranha - associação no cinema, associação no teatro, associação na pintura, na dança, etc. - quando essa associação começa a se dar - o corpo começa a secretar o tempo. E o pensamento começa exatamente porque ele fez essa associação com o tempo. Ele invadiu o corpo para pensar e dar conta do que ele é... - esse corpo começa a gerar o tempo.

Então, eu posso falar, sem o menor problema, que o cinema de Cassavetes é um cinema do tempo - ou o cinema do Godard... etc. Por quê? Porque a composição do pensamento com o corpo faz com que o corpo secrete tempo. Essa ideia de tempo é uma ideia absolutamente trágica - porque é ela que nos e nos tira a vida. Pelo menos, é assim que nós pensamos o tempo.

Acontece que toda a tradição do Ocidente compreendeu o tempo segundo o modelo orgânico, ou seja - aquele modelo que não passa; funcional, organizacional. O tempo foi compreendido, pelos pensadores do Ocidente, em termos de tempo orgânico ou tempo cronológico. Como? Porque o organismo produz o tempo que lhe interessa. E o homem, na sua pequena humanidade, não faz nada mais do que servir a esse organismo.

Agora, o que eu estou falando, é que nós vamos romper com esse tempo cronológico, para encontrar outras formas do tempo, ou melhor - a pura forma vazia do tempo.

- Como eu consegui atingir essa posição nesta aula - a posição de chegar a um momento e dizer que o corpo secreta o tempo?

Para Proust, esse tempo secretado pelo corpo - agora vem um enunciado assim terrível - talvez seja o único índice de imortalidade. Ou seja: Proust afirma que as religiões não podem - em nenhum momento - nos indicar a possibilidade de que nossa alma seja eterna. Mas quando o pensamento mergulha no corpo e encontra o tempo... - ele começa a conhecer os segredos da eternidade. Então, a partir daqui, eu mostro para vocês que, ao pensar o tempo, nós pensaremos juntos também a eternidade.

Em função do que eu acabei de dizer, eu acredito que, agora, a aula possa começar. Eu acho que nós já temos todos os elementos básicos, pelo menos para esta aula... - corpo, pensamento e tempo.

Falar sobre o tempo - entrar no tempo - provavelmente é um dote - e, sem dúvida nenhuma, filosófico: porque esse procedimento tem início no século IV com o neo-platonismo - Plotino - que é penetrar no tempo, e entender exatamente o que é isso; entender o corpo; e entender o pensamento.

Então, começamos a fazer a nossa viagem...

Há uma doutrina que provavelmente tem início no séc. I d.C. - chamada animismo - que afirma que tudo aquilo que existe tem vida. Ou seja, o animismo coloca a alma em todas as coisas. Essa doutrina, por sua própria maneira de se apresentar, cai num misticismo exagerado... - e praticamente se perde. E [se perderia para sempre,] caso não fosse adotada pela filosofia do Plotino.

Para pensar o tempo, o corpo e o próprio pensamento, eu estou utilizando agora como instrumento teórico (poderia ser outra coisa!) uma tradição que nasce com o neo-platonismo no séc. III ou IV d. C. - tradição que vai trabalhar com a noção de contemplação - que eu vou passar a explicar. Toda a razão de ser da noção de contemplação está diretamente ligada à questão do tempo. Essa noção já é platônica... - mas no Plotino ganha uma diferença.

Essa tradição que nasce com Plotino, vem até hoje, na obra do Gilles Deleuze. Ou seja, sem medo de errar - Deleuze é neo-platônico.

- O que é exatamente isso, e por que eu estou usando esse instrumento difícil - chamado contemplação - para poder penetrar nas questões do tempo e nas questões da eternidade; nas questões do corpo e nas questões do pensamento?

Essa tradição, que começa em Plotino, prossegue com Santo Agostinho, com os ingleses - com Samuel Butler na Inglaterra, por exemplo...

Samuel Butler diz que uma semente de rosa, jogada na lama - sem mãos, sem pés e sem nenhum instrumento - é capaz de transformar essa lama na qual ela está inserida em macias e perfumadas pétalas de rosas, de forma magnífica! O que eu estou dizendo, é que as rosas são produzidas pelas sementes; e essas sementes fazem as suas roseiras e as suas rosas com a lama, - a água e a terra -, que é a matéria que elas utilizam para transformar aquilo num determinado ser: a roseira, apinhada de rosas...

Ao fazer isso, a semente não produz nenhuma atividade. A única coisa que a semente faz... - é contemplar!

Ouvir uma tese dessas, é quase enlouquecedor! Uma tese de que a natureza produz - não pela atividade - mas pela contemplação. Essa afirmação que eu fiz, de forma muito ligeira... - nós temos dez aulas para poder sustentar isso... Eu estou dizendo que, na natureza, a geração não se dá por processos de atividade... mas por processos contemplativos. Quando a gente fala "contemplação", vem logo à nossa mente a ideia de narcisismo.

Narciso era aquele que contemplava a sua imagem... Por isso, existe uma distinção, também neo-platônica, entre narcisismo formal e narcisismo material. O narcisismo material é quando Narciso contempla a sua imagem e se esgota naquela contemplação. Enquanto que contemplação formal, ou o narcisismo formal, é quando essa semente de planta - sem olhos - contempla a natureza; e, ao contemplar, sintetiza os elementos, de tal maneira, que novos objetos começam a ser gerados. Ou seja, [a partir] da contemplação de uma semente - na lama - uma série de sínteses irão se processar... - e essas sínteses vão gerar os objetos que existem na natureza.

O que eu acabei de [passar] para vocês, numa apresentação ainda muito ligeira, foi a ideia de contemplação. É uma ideia muito difícil - sobretudo para nós, que traduzimos toda a nossa vida em práticas! Nós só acreditamos na atividade; quando [o que eu] estou dizendo [é] exatamente o contrário. Eu estou dizendo que a natureza como a arte produzem quando contemplam. Então, entrou uma nova ideia - a ideia de contemplação.

Essa ideia de contemplação - como eu coloquei para vocês - tem origem no pensamento platônico; se deforma ou toma outra linha no pensamento neo-platônico - no pensamento de Plotino; e vai explodir no séc. XVIII. Nesse século, os pensadores ingleses, os pensadores da ilha - Hume, Locke, mas sobretudo Hume - tomam essa ideia de contemplação como a ideia fundamental de sua obra.

[virada de fita...]

Há uma ideia que nós utilizamos nas práticas quotidianas, mas que é muito poderosa nessa filosofia que eu trabalho - é a ideia de repetição. Aliás, é a ideia de repetição física, de repetição psíquica e a ideia de repetição ontológica. Inicialmente, eu vou trabalhar com essa ideia de repetição - ideia terrível! ideia terrível! - que praticamente dirige a obra filosófica do Deleuze. A ideia de repetição. Vamos tentar entender essa ideia e vocês não precisam se preocupar se vocês tiverem perdido tudo aquilo que eu já disse.

Não faz mal - eu vou ajeitando... até que vocês possam tranquilamente dizer: "Eu estou compreendendo o que está se passando..."

A ideia de Repetição. Para vocês entenderem, a repetição pode ser exemplificada como a repetição do barulho de um relógio - tic-tac, tic-tac, tic-tac. Qualquer um de nós - no silêncio da noite - [percebe claramente] essa repetição do relógio... "tic-tac, tic-tac, tic-tac" (não é?) - Isso se chama repetição! Quando ouvimos esse "barulho", passamos a achar que sempre que o tic aparecer, logo em seguida virá o tac - nosso espírito fica na absoluta convicção de que esse fenômeno vai ocorrer! Ora, se é tic, em seguida tac, depois tic, depois tac - tic-tac, tic-tac... - O que faz o espírito? Quando o espírito ouve o tic-tac. .. - de tanto ouvir essa repetição... - quando aparece o tic - ele, o espírito - antecipa o tac; isto é: o espírito não espera que o tac chegue... - antecipa-o. Ou seja, o processo de antecipação é um processo que se dá - em nosso espírito - quando a natureza se repete; e nós acreditamos - temos a crença - de que aquela repetição vai permanecer. Sempre que acreditamos que uma repetição vai permanecer - antecipamos um de seus elementos. Neste caso - antecipamos o tac.

Quem antecipa não é a natureza - quem antecipa é o espírito! Então, quando o espírito contempla a natureza e a natureza lhe oferece um processo de repetição... - esse processo é infatigável! A natureza sempre repete [o mesmo processo...] - e o espírito começa a produzir uma diferença naquilo: começa a introduzir a retenção e a antecipação.

- O que quer dizer isso?

De tanto ouvir tic-tac, o espírito retém o tic, antecipa o tac e junta os dois - no tic-tac. Isso porque - fora do espírito - o tic e o tac são dois elementos separados: ou seja, quando aparece o tic; em seguida aparece o tac. Mas o tic não pode re-aparecer, se o tac não tiver des-aparecido!... O que implica em dizer que, o processo de repetição na natureza, pressupõe (Olha lá, heim?) a noção de instantes descontínuos. A natureza nos mostra isso. Ela nos mostra o que se chama - "Os Instantes Descontínuos..."

- O que são os Instantes Descontínuos?

É a aparição de um elemento... e a des-aparição desse elemento - para que um outro elemento surja. Ou seja: os dois elementos jamais apareceriam ao mesmo tempo na natureza! Isso se chama - descontinuidade dos instantes. O espírito contempla essa descontinuidade dos instantes - [antecipa] um instante e retém o [outro]. Na natureza, esses dois elementos estão separados; no espírito, eles se juntam. No espírito, não existe mais um tic e um tac - porque o tic e o tac formam uma pequena extensão. Na filosofia do tempo, de Bergson, esta "pequena extensão" chama-se duração; ou seja - o espírito, que reteve e antecipou..., reteve e antecipou esses dois elementos descontínuos produzidos pela natureza. Esse "procedimento espiritual" é - simultaneamente - a invenção do tempo. (Eu sei que foi muito difícil!...)

O que eu acabei de dizer para vocês, é que, para que o tempo surja, ou melhor: a condição para que surja o tempo - é que exista o espírito que contempla. (Eu ainda não espero nenhum resultado dessa afirmação que eu fiz para vocês. Esses resultados, nós devemos obter na segunda aula!)

O que eu falei agora para vocês, é que na natureza existiria um processo de repetição: um processo de repetição descontínuo. O espírito contemplaria essa repetição descontínua, juntaria os elementos que na natureza estão separados, e ao juntar esses dois elementos, o espírito formaria uma pequena linha: uma pequena extensão, ou seja - formaria uma duração.

Ou melhor: o tic aparece. Quando o tic des-aparece, o tac aparece; quando o tac desaparece, o tic aparece, (não é?) Então, o tic e o tac - cada um deles é um presente que se dá na ausência do outro; ou seja: cada instante, quando aparece, para que o outro instante apareça, ele tem que desaparecer.

Quando esses dois instantes se juntam no espírito, o instante anterior passa a se chamar passado; e o instante posterior passa a se chamar futuro. O tic - que é presente na natureza; e o tac - que é presente na natureza; no espírito - tornam-se passado e futuro. Ou seja: o espírito - que contempla - produz o tempo! (Ninguém se preocupe que, na próxima aula, eu vou voltar a isso daqui!)

faixa-doacao

- Como o espírito produz o tempo?

Ele produz duas dimensões - o passado e o futuro. Esse momento, em filosofia, é simultaneamente de uma dificuldade extremada... e a grandeza do pensamento: é o pensamento perdendo os seus limites - e indo além deles - para alcançar o impensado: o tempo e o corpo. (Agora - para obter um pequeno resultado - nós vamos voltar para uma outra maneira de pensar... que acompanha essa que está aqui.)

Eu chamei a natureza de um processo de repetição. Mas ela é um processo de repetição muito estranho - porque ela é um processo que aparece e desaparece para que o outro apareça. Então, é como se a natureza fosse um permanente piscar. Essa maneira de ser da natureza constituiria os instantes - um separado do outro. Então, nós teríamos uma sucessão de instantes... e cada instante estaria eternamente separado do outro instante. A presença do espírito seria o que se chama - síntese.

- O que quer dizer síntese?

Síntese quer dizer - juntar aquilo que está separado. O espírito pratica uma síntese, porque junta - dentro dele - os instantes que estão separados. E ao juntar os dois instantes... - ele faz uma síntese; mas acontece que o espírito não produziu nenhuma atividade. Ele fez essa síntese apenas por contemplar. Por isso, essa síntese é chamada de síntese passiva.

- O que quer dizer passivo?

Passivo quer dizer - aquilo que não produz modificação no objeto contemplado, ou seja: o espírito não produz nenhuma modificação na repetição da natureza - mas ele próprio se modifica. Então - a repetição da natureza e a diferença do espírito.

Voltando: eu disse contemplação; disse que o espírito contempla; e disse que o espírito faz uma síntese.

Hume, o filósofo que eu estou citando, chama - orgulhosamente - essa síntese de Espírito ou Imaginação Contraente. O espírito tem o poder de contemplar os instantes separados na repetição da natureza..., contraí-los no seu interior, e, ao fazer essa contração - dentro de si - ele gera o tempo. O tempo emerge: o tempo emerge no espírito. (É um momento difícil... Claro, que é um momento difícil... porque, subitamente, vocês saíram da cidade - dos movimentos da cidade - para cair dentro de sínteses passivas e das contrações do espírito!...)

Nós ficamos praticamente assustados. Mas, por quê? Porque - quando o pensamento se associa com o corpo; ao pensar o corpo... - ele verifica que o corpo secreta tempo: abandonamos definitivamente o senso comum!

Ou seja - tudo aquilo de que eu estou falando, é impossível de ser compreendido pelo senso comum! Por quê? Porque são as experiências mais possantes que o espírito humano pode fazer. Essas experiências, que eu estou mostrando para vocês, é a repetição da natureza - que seria a eternidade; e a contemplação do espírito - que seria o nascimento do tempo.

Esse nascimento do tempo - que evidentemente não ficou claro... que evidentemente produziu uma dificuldade imensa, (não é?) - é difícil de entender... Mas é exatamente esse nascimento do tempo que vai ser a maneira como eu poderei explicar para vocês o canto do tordo, o personagem rítmico, a paisagem melódica, as atitudes e posturas do Cassavetes, a deformação do Francis Bacon, e assim por diante.

Ou seja: o que faz o pensamento - sua única questão - é conquistar o tempo.

Parece uma coisa simplória..., mas não é, porque o modelo do organismo predomina inteiramente sobre nós - e nós não podemos compreender o tempo exatamente por causa do modelo que ele projeta sobre a gente.

A primeira aula é dificílima... - é dificílima! - ...porque nós começamos a fazer um contato, um agenciamento: cada um de nós se torna o intercessor do outro - o olhar de vocês é intercessor para mim, as minhas falas são intercessoras para vocês! Nós começamos a fazer uma combinação, que começa a nascer num determinado período da aula - onde alguns começam a sentir maiores facilidades, outros maiores dificuldades em entrar na questão levantada.

Claudio: Quanto tempo eu falei?

Aluno: 45 minutos...

Claudio: Eu vou fazer o seguinte: eu vou falar mais vinte minutos, depois vocês tomam um café, uma coisa qualquer... - porque essa aula pesa muito. Ela pesa! É preciso ter uma certa pacificação...

Aluno: Claudio, a ideia de contemplação?...

Claudio: Não conseguiu?

Aluno: Ainda não!...

Claudio: Vamos tentar, então.

Aluno: Partindo da semente da...

Claudio: É o seguinte: esse autor que eu citei - chama-se Samuel Butler - é inteiramente desconhecido dentro do campo da filosofia. Na literatura, ele tem um certo conhecimento... Butler é um pensador dessa tradição neo-platônica. E ele diz o seguinte: você joga uma semente na lama: a semente cai na lama... Essa lama é água, terra, luz e ar. Ou - quimicamente mais bem explicado - é fósforo, é carbono, etc. E a semente está ali! Qual é o procedimento que essa semente tem para se transformar numa rosa, sabendo-se que a matéria da qual ela vai se servir, para que a rosa nasça, é a lama que a circunda? É essa a questão! Ou seja: quando você encontra uma roseira, essa roseira se originou numa semente; e essa semente retira da lama os componentes para produzir as suas rosas.

Aluno: A contemplação dá uma ideia de passividade!

Claudio: Inteira passividade! Você não viu que, quando eu falei no espírito, eu disse que ele era passivo? É exatamente isso: é uma contemplação passiva! A dificuldade inicial que nós temos para entender isso, é que todas as tradições psicológicas são de uma psicologia ativa. A psicologia não parou de rejeitar a contemplação. Então, a dificuldade é exatamente essa. Mas se você pensar uma coisa... - é muito simples! - você joga... uma semente de qualquer coisa na terra... e ali vai brotar alguma coisa!...

Aluno: Não há uma interação?

Claudio: Como, interação!? A terra cede seus elementos para semente.

Aluno: E a semente não faz nada?

Claudio: Faz! Ela.. contrai! Da mesma maneira que esse espírito contraiu... Depois você vai entender perfeitamente isso: o processo da semente é um processo de contração. Ela contrai os elementos - e ao contrair esses elementos - ela começa a gerar esse mundo lindíssimo que nós temos. Da mesma forma que um pássaro canta para o sol - uma semente contempla a natureza. É o mesmo procedimento! (Eu estou tentando mostrar para vocês que o nascimento do tempo pressupõe o espírito; - e se fundamenta na contemplação. Eu não quero nenhuma vitória excepcional numa primeira aula!?... Evidente, que não! O meu procedimento nessa aula é, inclusive, muito estratégico!)

Aluno: Quer dizer que o corpo histérico força o pensamento a pensar?

Claudio: Força!

Aluno: O corpo orgânico também?

Claudio: Não! Pelo contrário! O corpo orgânico se submete ao organismo; e o órgão principal é a consciência. Ou seja: o corpo orgânico é todo governado pela consciência.

Aluno: E a natureza humana?

Claudio: A natureza humana é orgânica - e dominada pela consciência. É preciso romper com o humanismo para chegar a essa posição que eu estou colocando. O maior adversário dessa posição é, sem dúvida nenhuma, o humanismo; porque o homem enquanto tal é orgânico e - como diz Nietzsche - a consciência é o órgão mais jovem. O que eu estou mostrando para vocês... é que o pensamento só pode pensar se a consciência for paralisada - porque a consciência é um obstáculo para o pensamento.

O homem projeta o organismo que ele é - projeta sua "pequena humanidade" sobre a natureza... - e quer encontrar nela o espelho de si próprio: é o narcisismo material. O homem quer se rever por toda a natureza e, a tal ponto, que nós vimos nascer, neste século, essa coisa notável, que foi a descoberta do inconsciente... - para afinal o inconsciente ser barbaramente humanizado: passamos a ter um inconsciente humano...

Eu vou tentar mostrar para vocês que não é nada disso! O que nós temos que [fazer] é produzir a libertação do pensamento, através das forças do corpo que forçam o pensamento a pensar... O pensamento é forçado pelo corpo: pense! Mas pense, o quê? Pense a mim! Pense a mim - o corpo. O pensamento pensar as posturas e atitudes do corpo - e é nesse procedimento que nós ultrapassamos o humanismo.

O que o M. citou... (não é?) - e eu acredito que a resposta foi precisa... - porque se nós tomarmos a consciência como um órgão, a função da consciência é - permanentemente - a mesma: servir ao organismo! Em termos nietzscheanos, a consciência é uma força reativa. Em termos espinosistas, a consciência é uma força conservativa. [Enquanto que] o pensamento é avassalador, é conquistador, é criador. Ou seja, a única questão do pensamento é criar e inventar - não importa como!

Então aí a gente teria - nitidamente - não uma dialética, não um confronto do pensamento com a consciência, porque o pensamento - em momento nenhum - faz confrontos. Quem faz confrontos é a consciência, que vive sob regime das opiniões. O pensamento, não! Por isso, a questão de um pensador não é apresentar opiniões - para serem debatidas; mas constituir problemas - para serem pensados. Não haveria nem possibilidade de dizer dialética entre o pensamento e a consciência... porque a oposição, a dialética - esses conceitos - eles pertencem à consciência: não pertencem ao pensamento.

De uma outra maneira, para vocês entenderem... Vou citar até uma aluna minha, que está aqui. No século XVI, se eu não me engano... - parece que é uma loucura o que eu vou dizer, viu? No século XVI, a indústria têxtil americana estava funcionando exacerbadamente; magnificamente. E ela produzia bordados. O bordado são linhas que se põem sobre os tecidos... Ela produzia vestidos que eram só bordados. Eram de uma beleza extraordinária. Mas chegou um momento em que a indústria têxtil entra em crise... Quando isso ocorre, começa a desaparecer o pano, surge o patchwork.

Os patchworks são [feitos de] remendos... (certo?) Eu diria... - há uma certa dificuldade!... - ...que o bordado se origina no organismo... - e o patchwork, no pensamento.

Numa outra linguagem, quando nós acompanharmos esse curso vocês vão ver, que vai haver uma distinção - que eu vou fazer - entre espaço nômade e espaço sedentário. O espaço sedentário é exatamente o espaço do organismo, que quer, a todo tempo, a conservação. Quer tanto a conservação que inventou a vida depois da morte. Vida orgânica, depois da morte. E de outro lado, o pensamento - cuja questão é nomádica, a questão dele é - sempre - inventar e criar. (Então, agora vocês vão tomar um café!)

O procedimento desta aula se assemelha às atitudes e posturas - que forçam o pensamento a pensar. Ou seja, o que eu objetivo nesta aula é fazer com que vocês pensem - não importa o caminho que eu siga! Por exemplo... eu já recebi uma observação magnífica, feita por E., onde ela encontrou uma semelhança entre a semente contemplativa e os pássaros da primavera - sem dúvida nenhuma!

Resultado de imagem para o criado joseph loseyEsse cinema do Cassavetes, que eu chamei de cinema de "atitudes e posturas" - ele secreta tempo. O que eu estou dizendo aqui? A obra de Deleuze sobre cinema traz uma divisão definitiva: o cinema que não produz tempo e o cinema que produz tempo. O Cassavetes estaria entre os cineastas do tempo. Mas por que eu estou dizendo isso? Porque haveria um cineasta - que eu pediria demais que vocês vissem - é o Joseph Losey. E o filme, que eu gostaria que vocês vissem, tem em vídeo, é O Criado. Certo? Quer dizer, se vocês puderem... não digo já para depois de amanhã - isso vai ser demais, não é? Mas, vamos dizer, para segunda-feira que vem, já ter um Cassavetes e um Losey vistos, já é bastante para mim. Do Cassavetes, Glória - que tem em qualquer vídeo.

Por exemplo: vejam a estratégia desta aula. O mecanismo desta aula, é como se ela fosse quebrada. Ela produz um espaço assim rompido... e esse é meu objetivo.

[fim da fita 1]


Fita 2

O Proust considera que a prática do artista é inicialmente um confronto que o artista faz consigo próprio. É o sujeito artista buscando quebrar o domínio do pessoal em nós: romper com a personalidade, romper com a pessoa, quebrar esses esquemas - para poder produzir a obra de arte.

É muito semelhante a tudo o que eu passei para vocês... - ainda que com certa equivocidade... - quando eu falei no pássaro, quando eu falei no histérico do Cassavetes, quando eu falei no figural do Francis Bacon. O que eu vinha mostrando a vocês é que - por exemplo, Proust; por exemplo, Cassavetes; por exemplo, Olivier Messiaen - todos eles sabem que qualquer homem que queira fazer uma obra arte, que queira produzir uma obra filosófica ou mesmo produzir uma obra científica, o confronto fundamental que ele faz é consigo próprio. Um confronto consigo mesmo. Esse confronto consigo mesmo é um confronto terrível, um confronto dificílimo, mas que seria a única maneira, diz o Proust, que poderia surgir o sujeito artista. Então, o artista, o histérico, o tordo - esses se marcariam pelo deslocamento que eles fariam em relação à vida pessoal. É o rompimento com a estrutura psicológica, rompimento com a história pessoal, rompimento com o passado. Outra vez: rompimento com a história pessoal, rompimento com o passado.

- Por que eu estou insistindo nisso? Porque esse filme do Cassavetes - o Glória - é exatamente isso: exatamente uma personagem (a Glória) e outra personagem (o garotinho chamado Phil), e o que eles fazem no filme é romper com a história pessoal, romper com todo o passado deles, e - a partir daquele rompimento - através das atitudes e das posturas - eles produzem história; ou seja: as atitudes e as posturas não se originam numa história pessoal, as atitudes e as posturas rompem com a história pessoal - e começam a gerar mundos novos.

Essa citação do Proust e essa associação do Proust com o Cassavetes é para vocês poderem arrancar desse filme, vocês vão verificar que tanto a Glória - personagem-título ­ - sobretudo ela, vai romper com sua história pessoal para poder gerar as atitudes e as posturas que são um conjunto de gestus. Isso, que eu estou dizendo, marca o grande inimigo do pensamento, do corpo e do tempo - que é o sujeito pessoal, o sujeito psicológico, a história pessoal. É exatamente [contra] essa figura que Proust - ao longo de toda a obra dele - faz uma guerra sem quartel. Romper com tudo aquilo que gera, em nós, o medo da morte - no sentido de que o medo da morte é aquilo que produz Deus; e aquilo que produz Deus nos paralisa. E ao nos paralisar, nos impediria de produzir uma obra de arte.

Então, é de uma radicalidade excessiva, é como se de repente o pensamento estivesse afirmando que - a única saída que ele tem - seria o ateísmo radical; e esse ateísmo radical revelaria para nós outros mundos - mundos que não apareceriam se não houvesse o sujeito artista para produzí-los. A arte - que seria conquistada através do pensamento; e de um pensamento radical - seria a produção do que Proust chama, do que Leibniz chama de mundos possíveis. Esses mundos possíveis pertenceriam ao nosso espírito - fariam parte do nosso espírito e não da nossa história pessoal. A função do pensamento seria extrair, colocar no mundo esses mundos possíveis. Proust diz isso de uma maneira radical, e o motivo pelo qual eu estou levando esta aula para esse caminho, é para fazer um acordo ou um desacordo entre nós: é que - se não houvesse o artista - nós seríamos forçados a viver num só mundo: sempre no mesmo mundo. Quem produz os novos mundos, os novos afetos, as novas formas de vida, é exatamente a arte.

Então, o que se torna primeiro para a vida de cada um de nós, é a liberação das forças da psicologia, para o exercício dessa liberdade do pensamento. Essa prática não precisa ser feita por um grande filósofo ou por um grande artista. Ela pode ser feita por qualquer um de nós: é fazer do pensamento a busca de novos mundos; e, a produção desses novos mundos, gerando o que é inteiramente impossível fora da arte - a comunicação entre as nossas almas.

O que eu estou dizendo para vocês, é que nós todos estaríamos encerrados num solipsismo assustador, nós todos estaríamos encerrados na mônada que nós somos - sem portas e sem janelas - e sem possibilidades de comunicação de um homem com outro homem. Isso não seria alcançado, diz Proust, nem pela amizade nem pelo amor... Ele vai a extremos, quando rompe com a possibilidade de o amor e da amizade nos dar as composições com outros homens. Isso só aconteceria na obra de arte. Na obra de arte haveria como que a comunhão das almas - comunhão essa que não seria possível nem na amizade, nem no amor.

- Por que, nesse momento, eu citei Proust? Eu abandonei todos os meus interesses teóricos da primeira parte da aula, para usar Proust como instrumento estratégico para vocês. Para que vocês percebam, que um pensador - Proust - altamente contemplativo - que fez da obra dele aparentemente um trabalho de memória, um trabalho de recordação, é simultaneamente de uma agressividade assustadora, querendo romper com os quadros da psicologia, que impediriam a nossa liberdade.

Então, a minha aula é simultaneamente teórica - como eu mostrei na primeira parte para vocês; mas passa também um quadro existencial e figuras práticas, no sentido de que ouvir a minha aula como se fosse alguma coisa que pudesse ser ouvida... e deixar de lado - não teria o menor sentido. O que a minha aula fundamentalmente objetiva - é a modificação das subjetividades. É nós sairmos desse modelo de dominação que existe sobre nós, desde que nós nascemos até que nós morremos - que é uma subjetividade material - toda constituída em termos de hábitos e sentimentos; para produzir uma subjetividade espiritual - capaz de lidar com o pensamento, com o corpo e com o tempo.

Eu acho que aqui não há nem um tema de dificuldade... Essa exposição, que eu estou fazendo para vocês, é para mostrar que não pertence a homens excepcionais essa potência de fazer da arte o caminho da sua vida. Ou seja - quando lemos a obra de Deleuze, ela - literalmente - não pode ser compreendida, se nós não fizermos uma modificação [nas nossas vidas]. Ou seja: se nós não fizermos uma modificação, nós não a compreendemos. Não é que ela queria modificar alguém - é porque o ato de passagem dela, imediatamente produz uma imensa modificação, como vocês vão passar a assistir na próxima aula.

Eu considero a primeira aula como uma aula impossível - uma aula impossível de ser compreendida - porque todo um jargão, todo um modo de me expressar, que vocês nunca ouviram - que a maioria nunca ouviu... - citando pássaros, sementes, contemplações, espíritos, repetições, que parece que entramos num grande delírio... Muitos podem pensar assim - entramos num grande delírio! Mas não é exatamente isso. O meu procedimento - ao dar uma aula - visa fazer, daquele que está estudando comigo, torná-lo uma espécie de heterônimo meu, fazer dele um intercessor. Ou seja: fazer com que ele exerça os procedimentos dele - mas seguindo essa linha que eu passo para vocês.

A história da arte, com muito mais potência que a própria história da filosofia, marca a distinção de uma arte clássica - que ela chama de arte orgânica; e de uma arte gótica - que ela chama de potência histérica. Se nós começarmos a entender os procedimentos de conflito entre o instinto e a inteligência - entre as nossas forças instintivas e as nossas forças intelectuais - nós vamos começar a verificar que a arte não é apenas um procedimento de entretenimento. Ela é uma luta, um confronto no interior de cada um de nós, e os objetivos dela são sempre os mesmos: a liberdade. A história da arte nos revela que - permanentemente - houve um confronto entre o instinto e a inteligência. O instinto predominou na arte primitiva ao ponto de produzir uma arte inteiramente angustiada, uma arte sofrida, uma arte dilacerada, uma arte instintiva, em que o homem se julgava uma metade separada da natureza... e, por causa disso, nasceria uma arte profundamente angustiada.

Quando esse tipo de arte aparece entre os gregos... - e os gregos são aqueles que superaram os instintos e elevaram o intelecto, elevaram a razão - ...nasce o que se chama a arte orgânica - a arte da felicidade; uma arte em que o homem e a natureza fazem uma harmonia - porque o homem é dotado de razão e a natureza de racionalidade. Então, a natureza e o homem formam um bloco só - e é nessa arte, nesse momento, que nasce a arte que eu chamei de arte orgânica - uma arte em que o homem projeta o seu organismo sobre a natureza.

A arte gótica - que vai romper com essa arte orgânica - é como se fosse o retorno das forças instintivas. As forças do instinto retornam, mas já não retornam como eram no primitivo; elas retornam para produzir uma nova arte, uma nova geometria, uma nova figuração, ou seja - a arte gótica é de tal forma criativa, que ela investe no Caos, para do Caos gerar novas linhas. À diferença da arte grega, que é uma arte representativa - que supõe um modelo - um modelo da natureza, que deve ser copiado; a arte gótica é uma arte que se supõe lidar com o Caos; e ao lidar com o Caos, o que ela pretende é produzir no Caos novas formas. Então, esse exemplo que eu dei agora, da diferença da arte orgânica para a arte gótica - a arte gótica, sendo a arte histérica - é que é uma arte que lida com o Caos e uma arte que supõe que lida com um universo inteiramente formado.

O que o gótico traz de original e magnífico é a liberação do Caos. Essa posição é que o pensamento, quando se produz, a sua matéria não é uma matéria organizada e harmônica. O que o pensamento lida é com o Caos. A matéria do pensamento é o Caos. Nós, os humanos, procuramos, ao longo das nossas vidas, encobrir [essa questão através de] um jogo incessante de opiniões, onde procuramos nos proteger das forças insaciáveis desse Caos. O que Deleuze comunicou para nós, é que o pensamento tem afinidade com o Caos; e que as razões principais das nossas infelicidades não são a relação do pensamento com o Caos, mas a relação da opinião com as harmonias.

O que eu disse para vocês, é que não é só a produção do pensamento - o pensamento sendo forçado a pensar o corpo - mas é o pensamento nos dirigindo para um "sem volta", para um "sempre", nos dirigindo para o Caos. O Caos que levaria o homem a produzir cidadelas, guarda-chuvas, proteções, é, segundo a obra de Deleuze, a única linha possível de salvação para a vida. É nós nos confrontamos com o Caos e produzimos, nele, um ritmo e uma melodia.

Esse final de aula, em que eu citei o Proust, quando Proust fala no sujeito artista, e no confronto que o sujeito artista vai fazer com o sujeito psicológico, e esse confronto vai se passar sempre em nossa vida; e de outro lado, o pensamento quando ele se confronta com o Caos. Se, de outro lado, o nosso pensamento não se confrontasse com o Caos, e do Caos arrancasse novos mundos, nós estaríamos sempre prisioneiros da mesma forma de viver. Então, tudo aquilo que dizem para nós, que o mundo orgânico nos diz - que só existe um mundo - mundo esse que precisa ser reformado e restaurado, se origina nos ideais orgânicos. Mas nós não temos que restaurar e reformar esse mundo: o que nós temos que fazer é inventar outros.

Ou seja, o processo da associação da vida, do corpo e do pensamento é um processo que exalta a nossa própria existência. Exalta, no sentido de que nós saímos do nada de vontade, saímos das tolices, que geralmente governam a nossa existência, para compreender que essa passagem que nós fazemos aqui é um processo de criação permanente.

Eu agora vou - como um processo só da primeira aula, na segunda e na terceira eu não farei isso - eu abro para vocês me fazerem perguntas.

Aluno: Claudio, aquilo em relação ao tempo, que você falou no final da primeira parte, esse tempo produzido seria o tempo cristalino?

Claudio: Seria o tempo cristalino. A sua pergunta de tempo cristalino, é um conceito deleuzeano, é um conceito que vem num livro dele chamado Imagem Tempo, é o cristal do tempo, onde ele opõe tempo cristalino ao tempo orgânico. Sem dúvida nenhuma, seria o tempo cristalino, eu não pude mostrar isso hoje, na próxima aula eu vou mostrar.

Aluna: Na disposição de trabalhar e ver trabalhados, vamos dizer, esses conceitos... não seria que nós estaríamos sempre empenhados em não refazer, mas repetir [inaudível] quer dizer, todas as conquistas que se possa ter, em determinadas situações, elas não deixam de fazer valer a necessidade de entrar novamente nessa luta?

Claudio: Eu não diria luta. É um processo expressivo, permanente. Ainda não ficou claro, na minha exposição, mas nós teríamos como que duas subjetividades. Uma subjetividade psicológica - que está o tempo todo marcando seus sentimentos, seu organicismo; e uma subjetividade propriamente espiritual - de onde sairiam os processos de pensamento; ou seja: uma subjetividade que expressaria os mundos possíveis. No procedimento que eu expliquei sobre Proust ou mesmo Cassavetes, ou Godard, ou que importa quem seja... - são as mesmas coisas que eles estão pensando.

Aluna: O que eu queria colocar é que você não pode pensar em fazer um acervo de contemplação, você está entendendo? Fazer um arquivo de contemplação... A contemplação é sempre novamente aquele desconhecido que impõe a você... se você contempla!? É sempre "de novo"! A experiência já feita, ela retornará a ser necessária...

Claudio: Essa experiência da contemplação recebe, inclusive, uma nomenclatura diferente. Porque o campo experimental, que nós temos, é a experiência do mundo que nos é dado. Essa experiência da contemplação chama-se experimentação fantástica - experimentação transcendental. Você vai como que penetrar em novos mundos. Na próxima aula, nós já vamos entrar nisso! Essa aula de hoje foi uma aula inteiramente inicial, onde eu apenas trabalhei de uma maneira que vocês pudessem ouvir, com certa tranquilidade, aquilo que eu estava dizendo... - mas devido à velocidade do nosso curso, quarta-feira já é um processo de entrada mesmo dentro do campo da filosofia, sem retorno!

Então, o que eu peço para vocês, a única coisa que eu peço para vocês, é um filme - um Losey, um Cassavetes, ­ pode ser um Godard, também, no lugar do Cassavetes... Se vocês quiserem olhar, nessas revistas de pintura, o Egon Schiele, o Francis Bacon, o Lucien Freud. Esses - entre aspas - figurativos..., tá? Em questão de música, uma música eletrônica - bastaria ­um Stockhausen... porque, em matéria de arte, são os elementos que nós vamos trabalhar na próxima aula.

Eu vou tentar ajudar um pouco fazendo projeções. Enquanto eu estou dando a aula, as projeções serão feitas... Eu não estarei falando sobre aquilo, mas vocês estarão observando para "preencher" [os dados], (não é?) devido à pequena quantidade de tempo que nós temos.

Aluna: Você já ouviu aquela... Monk?

Claudio: Meredith? A Meredith Monk é minha namorada há muitos anos!

[risos...]

Aluno: Eu tenho a impressão de que o pensamento não tem nenhuma função utilitária...

Claudio: Nenhuma!...

Aluno: Eu vou pensar no que esta aula vai ser útil para mim, para o meu trabalho!

Claudio: Nada!

Aluno: No entanto, a gente vai continuar a ouvir, para abrir as portas...

Claudio: Do paraíso?!

Aluno: Do amor... do dinheiro...

Claudio: O que nós vamos fazer, em função dele, é uma distinção muito grave entre intelecto e pensamento. É uma distinção que nós vamos fazer! A noção de intelecto e a noção de pensamento não se recobrem. Ou melhor, de outra maneira: isso é um modelo do Nietzsche, ouviu? A razão é um instrumento propriamente platônico. O Nietzsche não identifica razão e pensamento. A razão é o pensamento a serviço do orgânico. Acho que já dá para entender o que eu disse...

Aluno: Ah, dá!

Claudio: Perfeitamente! A razão é filha do orgânico. Por isso, a razão trabalha com dois elementos - conhecimento e moral. Pronto! Dê-me conhecimento, dê-me moral! Dê-me um fio de Ariana! É isso que a razão quer: ela quer conhecer e quer moralizar. Por isso o Nietzsche diz: "a razão é o pensamento governado pelo organismo". Acho que eu respondi a vocês, certo?

Aluna: Claudio, você falou que a obra de arte é única coisa que traz a comunicação entre as almas.

Claudio: Isso!

Aluno: E a filosofia?

Claudio: Olha, classicamente, a filosofia quando nasceu, ela nasceu em função do amor. O filósofo é aquele que ama a sabedoria. Como existiam, na Grécia, diversos amantes da sabedoria, formou-se um bando de filósofos - que eram os amigos, os homens da philia. E esses homens eram - simultaneamente - rivais. Logo, eles não se comunicavam: eles tinham uma rivalidade entre eles. O que eu disse, é que a filosofia, segundo o seu modelo clássico - o modelo do intelecto e o modelo da rivalidade - ela não produz a possibilidade da intersubjetividade, nem da comunicação. Pelo contrário! O que eu estou querendo mostrar, é que é preciso romper com os quadros clássicos das nossas faculdades - liberar o pensamento - e essa figura complexa, (não é?) da comunicação entre as almas - que o amor parece não conseguir realizar, pela sua própria inconstância, pelo próprio fugidio, que é o amor... O amor assim, mais ou menos, segundo os versos do Bizet - ele foge, sempre, não é?

Essa questão que o Proust levantou acerca do amor e da amizade tem uma gravidade imensa! Porque todos nós - ao longo das nossas vidas - o que nós exaltamos é a amizade e o amor. E Proust radicaliza: os amigos estão sempre de acordo uns com os outros... e os amantes estão permanentemente em inconstância. Olha, há uma saída para o amor... amar a inconstância. É a saída...

[risos...]

Claudio: Eu sei que é grave, isso que eu estou falando, (não é?) Eu aconselharia, aqui, um livro que saiu em português - é sobre Proust - de um autor chamado Grimaldi - O ciúme. Leiam esse texto: é muito bonito! É um texto sobre Proust, mas só a questão do ciúme. Porque o ciúme é devorador, (não é?) O ciúme é devorador! O Proust chega ao extremo! Ele diz: o ciúme não se origina no amor. O amor é uma produção do ciúme. O ciúme inventa o amor... - para ele poder passar.

Quando nós nos deparamos com esse tipo de pensamento, é como se entrássemos em linhas tão diferentes do senso comum, que elas nos assustam, elas nos assustam!

Então, esse livro do Grimaldi vai ser magnífico para vocês!

FIM

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Aula de 01/08/1995 – O tempo negativo e seus predicados – De que matéria é feito o espírito?

Vocês sabem o que é organismo? Organismo é a matéria viva, tá?!
 
Por exemplo: esse óculos é de vidro, o vidro não é uma matéria viva, então pro Leibiniz, o vidro é uma matéria? Elástica. A matéria é elástica.
 
Claudio pega um objeto e pergunta: Então isso aqui é o que?
Os alunos respondem: Elástico.
 
Ele repete a pergunta pegando outros objetos e depois segue com a aula.
 
A vida é a matéria orgânica.
Por exemplo:
Claudio pega um objeto (uma planta) e pergunta: Isso aqui é o que?
Os alunos respondem: Orgânico.
 
A vida para o Leibiniz é plástica.
 
A duas matérias no universo: A matéria elástica inorgânica e a matéria plástica orgânica.
 
Entendeu? Elástica e plástica.
 
Um aluno pergunta: O que que é a matéria plástica?
Claudio responde: A plástica é a orgânica.
O que é a matéria plástica, o que é? A matéria plástica é a síntese de dois instantes.
É quando dois instantes estão juntos um do outro, chama-se matéria plástica.
 
O que quer dizer isso? Só há vida quando houver síntese.
Só há vida quando houver síntese.
 
Vou voltar outra vez.
Ninguém precisa se preocupar, porque vocês vão entender.
 
Eu vou voltar para a natureza e retirar o espírito.
 
Claudio: O que é a natureza sem o espírito?
Alunos: Mens momentanea.
Claudio: O que é a mens momentanea?
Alunos: Tica tac...
Claudio: Tica tac...
 
Claudio: Tá. Então vê se eu posso chamar a natureza de sensações vibratórias...
 
Silêncio.
 
Claudio prossegue: Vocês não entenderam... A natureza vibra. Ela é uma vibração. A natureza é um processo vibratório. Entenderam? (...)
É vibrar. Claudio gesticula e fala: Pá! Pá! É um processo de vibração.
O processo vibratório é a natureza elástica. A natureza elástica é vibratória. Ela vibra o tempo todo. E a natureza plástica, ela é contraente. Então a vida contrai a vibração. É difícil pra burro, né?!
 
A natureza é processo vibratório e a vida vai ¬Claudio tá um tapa na mão¬ e contrai aquilo.
Junta elementos que estão separados... na natureza... junta. A vida junta. E essa junção...
 
Não se preocupem, nem que com trinta aulas, mas vocês vão entender isso.
 
A vida, ela produz sínteses nos elementos vividos. (...) A vida é quando duas vibrações se juntam. Por isso a vida, ela pega a matéria elástica e dobra a matéria elástica; junta o que tá aqui com o que tá aqui (Claudio apontando de uma ponta a outra no espaço).
 
Não sei se vocês entenderam?
 
O ser vivo é constituído de mil, mil, mil e mil dobras. Nós somos como se fosse um tecido barroco. Nós somos cheios de dobras. Se você pegar o estômago e abrir ele, ele é imenso. Porque são as dobras feitas pelas contrações. Essas contrações geram a matéria plástica. A matéria plástica é o organismo.
 
Tá muito difícil isso?
Mihaela, você, eu vou cobrar muito de você, viu? Você é muito jovem e isso implica em dizer que nada te impede de entender essas coisas. (...)
 
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Então eu estou dizendo pra vocês que uma força... Vê se eu posso dizer isso e se alguém não entender, levanta o dedo... Uma força contemplativa...
 
Claudio: O que é essa força contemplativa?
Alunos: O espírito.
Claudio: O espírito.
 
Então ... marca isso: força contemplativa não é ação. É contemplação. A força do espírito contempla e contrai. E quando contrai, nasce o organismo.
 
Claudio: Então o organismo é o espírito? Ou é um resultado do espírito?
Alunos: Resultado.
Claudio: Resultado.
 
O organismo é o que se chama vida orgânica. O espírito que contempla é o corpo sem órgãos.
Alunos: ?
Claudio: Corpo sem órgãos.
 
Por exemplo: pra você entender o que eu estou dizendo. O Rubens Correa, ele costuma representar o Artaud... não sei se vocês já viram, muito bem. É um Artaud muito cheio de gritos. Não tem nada a ver com o Artaud.
 
O Artaud criou uma figura na obra dele chamada corpo sem órgãos. Corpo sem órgãos é uma categoria que vai nos explicar, depois que nós entendermos ela, vai nos explicar o que é o desejo, o que é o prazer, o que é o instinto de morte, vai nos explicar tudo isso. Eu estou dizendo pra vocês que o nascimento da vida pressupõe a vibração dos instantes separados.
 
Primeiro elemento: a vibração dos instantes separados.
 
Claudio; Qual é o nome da vibração dos instantes separados?
Alunos e Claudio: Mens momentanea.
Dois: Um espírito que contempla.
 
Agora, quando eu falo espírito que contempla, eu vou abrir um parênteses:
A contemplação foi feita, na história da humanidade aparece o Mito de Narciso. Narciso é aquele que contempla a sua própria imagem. Sabia disso? Narciso contempla a sua própria imagem. O narcisimo vai ser dividido em dois: narcisismo material e narcisismo formal.
 
O narcisimo material é quando alguém contempla a sua imagem fora dele. Você contempla a sua imagem fora de você. (...)
 
Por exemplo: Narciso contemplando a imagem dele refletida nas águas. Agora é um momento magnífico, vamos ver se eu consigo explicar isso daqui pra vocês. O narcisismo formal é quando o espírito contempla e ao contemplar contrai os elementos do qual ele é feito. Os elementos com os quais ele é feito. E os elementos com os quais o espírito é feito são os instantes. Dificílimo, não é?
 
Vamos fazer alguma coisa... vou pegar um objeto aqui assim. E aqui vai ficar um pouco diferente do que eu quero dizer. Porque quando você pega a natureza. A natureza vista sob o modelo clássico, ela é constituída por quatro elementos: água, terra, fogo e ar. Esse é o modelo clássico, os quatro elementos que constroem a natureza. A partir da descoberta atômica, não se fala mais nos quatro elementos, fala-se fósforo, enxofre, silício, carbonos... você fala em elementos atômicos. Mas vamos dizer que a natureza seja constituída pelos quatro elementos. Então esse instante que faz assim [Claudio gesticula com as mãos, uma dobra] são os quatro elementos. A matéria do instante são os quatro elementos.
 
A natureza, ela é constituída de quatro elementos: terra, fogo, ar, água. Um filósofo chamado Empédocles disse que existe na natureza os quatro elementos e duas forças. Uma força chama-se amor e a outra força chama-se ódio. Na hora que a força do amor prevalece , os quatro elementos se juntam. Na hora que a força do ódio prevalece, os quatro elementos se separam. Então para o Empédocles a natureza é um ciclo que oscila entre o amor e o ódio. O que eu estou dizendo é que o processo do espírito contemplativo é um processo de amor. O espírito contempla os quatro elementos. Mas o espírito quando contempla os quatro elementos, ele próprio é os quatro elementos. E ele junta os quatro elementos.
 
Eu vou agora explicar de outra maneira: você pega uma semente de vagem e joga a semente de vagem na terra. Não sei quanto tempo depois você vai naquele lugar com uma semente de jasmim... você joga na terra. Seis meses depois você volta e tem um jasmineiro. Um jasmineiro. O que é o jasmineiro? É a semente que contrai a matéria que a circunda. A matéria que circunda a semente é a lama. Ela contrai aqueles elementos que estão ali. E aqueles elementos vão se transformando em jasmins. Vocês entenderam?
 
Como é que de uma pequena semente pode nascer uma árvore imensa? É porque a árvore é constituída desses elementos que a semente juntou e contraiu e transformou em folha, fruto, casca... madeira. É uma contração que a semente faz.
 
Então o que ocorre no nascimento da vida é exatamente isso: a matéria com a qual a natureza é constituída se contrai, se junta, e na hora que ela se junta ¬usando Leibiniz¬ ela se transforma em matéria elástica e matéria plástica. E a vida é isso. A vida é orgânica. É importante que se isso for entendido, a gente distinguir o processo do nascimento do organismo e quem produz a vida não é o organismo. O produtor do organismo é o espírito que contrai. Por isso você pode dizer: a vida, ela não é orgânica, ela torna-se orgânica. Ficou difícil...
 
Até onde nós fomos? Até onde nós conseguimos ir nessa aula? E até onde nós não conseguimos ir?
 
Essa aula é uma aula que eu adiei durante umas três aulas. Eu fui impedido de dar ela. Mas agora eu vou começar a seguir nessa aula.
 
O que eu estou dizendo para vocês é que a tese que eu estou passando é que o tempo é subjetivo. Não há tempo se não houver contemplação.
 
Essa agora... num processo terminal, essa explicação que eu dei para vocês, ela teve dois conceitos básicos: o conceito de repetição da vibração e o conceito de diferença no espírito que contempla, que junta as (penetrações ? 15:15). Vocês entenderam isso? Repetição e...? Diferença. Repetição e diferença. A contemplação que o espírito faz introduz, dentro da natureza, a diferença. (...) Eu vou dar essa aula até vocês entenderem. Eu vou dar ad nauseam.
Porque com essa compreensão nós vamos poder entender todos os processos da vida. Foi bem a aula, não é?!
 
(...)
 

Parte 1:
Parte 2:
Parte 3:
Parte 4:

 
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