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Aula de 12/04/1989 – Acontecimento e sentido

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[Temas abordados nesta aula são aprofundados no capítulo 7 (Cisão Causal) do livro "Gilles Deleuze: A Grande Aventura do Pensamento", de Claudio Ulpiano. Para pedir o livro, escreva para: webulpiano@gmail.com]


Lado A

A intenção, nesta aula, é mostrar para vocês os filósofos antiplatônicos. Inicialmente apenas duas filosofias da Grécia - Epicuro/Lucrécio, e os estoicos. O objetivo seriam esses dois, (certo?). Agora, eu tenho que levá-los a entender o problema. A minha questão, a questão que eu considero a principal - é sempre o problema entendido. Aí fica muito fácil de trabalhar.

Eu vou começar a mostrar a questão para vocês. [Para atingi-la], [no entanto], eu posso utilizar outros filósofos. Meu problema não é o filósofo... Meu problema é o problema. É essa a minha questão. Eu posso usar qualquer coisa - indiferentemente - desde que aquilo sirva. É uma prática importante no pensamento: a gente utiliza alguma coisa, a partir de que aquilo sirva. Depois, se não servir mais, joga-se fora - é um descartável! É exatamente o pensamento descartável.

Eu vou começar devagar porque provavelmente vai chegar mais gente. E chegando mais gente, não vai entender o que eu estou falando. Aí morre tudo, não tem jeito - não chegou no começo, não entende.

Primeira questão. Uma questão muito fácil. Nós usamos as palavras para falar. Usamo-las para nos comunicar. Mas cada palavra é dotada de muitos significados. Uma palavra não tem um único significado. Isso se chama equivocidade - a palavra é equívoca. Significa que ela teria, com ela, diversos significados - dependendo da maneira como você a usa. [Usada] de uma maneira - ela significa uma coisa. [Usada] de outra maneira - ela significa outra.

A palavra está articulada com o contexto e [é] por causa disso [que] ela é equívoca. Dizem os aristotélicos que ser inteiramente equívoca - é da essência da linguagem Por [isso], [quando] fazemos uma prática de comunicacação, para podermos nos entender uns com os outros ao longo de uma conversa, procuramos manter o mesmo significado [de uma] palavra que está sendo usada. Senão, correremos o perigo de dizer a palavra em determinado momento, e dali a pouco repeti-la com outro significado - e o interlocutor não entende. (Certo?) Devido à equivocidade das palavras - portanto - nós procuramos manter uma palavra repetida - na seqüência de um raciocínio - com o mesmo significado. É uma prática para evitar confusão. Há um exemplo muito claro disso na obra do Aristóteles.

Aristóteles concorda que as palavras sejam equívocas; logo, que tenham muitos significados. Mas diz que o raciocínio científico não poderia se processar se utilizasse palavras equívocas. Se eu construir um silogismo [do tipo] "Todo homem é mortal"; "Sócrates é homem" (etc.)... E o homem de "todo homem é mortal" tiver um significado... [diferente] do homem de "Sócrates é homem" - [essa diferença de significação] produzirá, de imediato, um desentendimento. [Daí], no decorrer de um raciocínio, [ser necessário] manter um mesmo significado. (Acho que todo mundo entendeu isso, não é?) [Manter] o mesmo significado - é o que permite a você ouvir tranqüilamente aquilo que está sendo dito. (Acho que está bem claro o que eu disse, não está?)

Em segundo lugar. Você pega Freud, por exemplo - ele tem uma obra. Pega o Marx - ele tem uma obra. Pega um cientísta qualquer - ele tem uma obra. Agora, as obras, quando são feitas - por exemplo, a obra do Marx; por exemplo, a obra do Freud - vão, ao longo da sua existência, se articular com diversos pensadores. Freud - por exemplo - se articula com um psicanalista francês, com a psicanálise inglesa e com a psicanálise americana... Cada um desses pensadores faz uma articulação diferente com a obra do Freud. O que implica em dizer, que a gente só pode entender uma obra, não naquilo que ela é - mas no seu devir. Ou seja - no processo da obra. Nos agenciamentos que a obra faz. Uma mesma ideia, na obra do Freud, vai ser [diferentemente] apreendida pela psicanálise inglesa e pela psicanálise americana. Então, nós não entendemos uma obra pelo que ela é - mas pelo seu devir.

O que quer dizer devir? Os agenciamentos que a obra faz. (Ficou claro isso?) Os agenciamentos que a obra faz com diferentes pensamentos. O que mostra que uma ideia da pasicanálise ou uma ideia da obra do Freud só pode ser entendida [conforme] a composição que ela fizer. Ela faz uma composição aqui, faz uma composição lá! Não adianta querer entender a obra nela mesma. Entende-se [uma obra] em suas composições. Isso se chama - o devir da obra.

Vocês pegam o Marx, por exemplo, e vocês sabem as diversas composições que a obra de Marx fez na história - Lukács, Althusser, Gramsci... e vai embora... - cada um faz uma articulação com ela. E eu estou dizendo que a obra não é A obra. A obra é o devir obra. Devir obra - são as composições. (Vocês entenderam bem?)

Essa segunda ideia se opõe à primeira. Porque na primeira eu coloquei a existência de uma ideia que não muda pelas composições. (Foi assim que eu coloquei.) A ideia de homem é a mesma em "todo homem é mortal" e em "Sócrates é homem". Na segunda posição, eu coloquei as composições das ideias. Então, nós teríamos a noção de que uma ideia [pode ser] compreend[ida] pelo que ela é; e [outra] noção de que uma ideia [pode ser] compreend[ida] pelas composições que ela faz. (Como é que foi isso daqui?) Compreender [uma ideia] pelas composições que ela faz... Isso é o movimento do pensamento - você não tem uma ideia em si mesma. Você só pode compreender a ideia através [dos] tipos de composição ela fez. (Eu gostaria que vocês me dissessem se vocês entenderam.)

Vou dar um exemplo concreto: eu pego a ideia de cavalo. Porque cavalo é um ser real - de quatro patas, de dois olhos, que anda pelo mundo. Mas além de ser real - ele é uma ideia no meu pensamento. Eu posso ter a ideia de cavalo. Na hora em que eu penso "um cavalo puxando carroça" - eu faço um agenciamento da ideia de cavalo com a ideia de carroça. Na hora em que eu penso "um cavalo correndo no Jóquei Clube" - eu faço um agenciamento da ideia de cavalo com o Jóquei Clube - e produzo dois cavalos diferentes... porque a ideia se compôs - composição da ideia.

A ideia é aquilo que só pode ser pensado nas suas composições. [Segundo o] que eu disse... - o que é a criança? Ou, de outro modo - o que é a ideia de criança? Você só pode responder, dizendo que [tipos de] composição ela está fazendo. E aí vocês investigam a história e [verificam] que a ideia de criança, quando se conjuga com alguma outra ideia no século XVII, dá um tipo de criança diferente da criança moderna - porque são outros tipos de composição. Então, é pelas composições que nós vamos entender qualquer coisa. [E] isso é um modelo de pensamento.

Então eu vou reforçar mais uma vez: não estou pensando a ideia em si mesma. Ideia em si mesma tem um sinônimo - essência. A famosa palavra essência quer dizer - uma ideia em si mesma. Eu estou pensando as ideias - em composição. (Como é que você achou, O...?)

O que é a criança? Mais ou menos isso - "Diga-me com quem andas e eu te direi quem és"; diga-me com que ideia [alguma coisa] [se] compôs - e você passa a entender o que é aquilo. (Eu vou dar por entendido!)

Em segundo lugar. Ainda que uma ideia só possa ser entendida pela composição, ainda assim, uma ideia traz as suas forças próprias. O que eu quero dizer é [que] o cavalo se entende pelas composições que ele faz. [Se] ele faz duas composições diferentes -composição com a carroça e composição com o Jóquei - são dois cavalos. Mas o ser do cavalo traz as mesmas forças - a ideia traz as mesmas forças, em composições diferentes. Este maço de cigarros, por exemplo, está agenciado com a mesa. Eu [o] jogo na água... - ele [passa a se agenciar] com a água. Mas o ser deste maço de cigarro é o mesmo [nesses] diferentes agenciamentos. (Eu não sei se foi bem assim.) É o mesmo ser - em agenciamentos diferentes, (certo?) Não importa qual seja o agenciamento - o ser é o mesmo. Mas são os agenciamentos que vão fazer a diferença. (Eu vou esperar para ver se entenderam. O que você achou, A...?)

Aluna: [inaudível]

Claudio: O que eu estou dizendo, é o que está sendo passado nesta aula. Quando você pega a obra do Platão e do Aristóteles - a essência de um ser é o significado daquele ser, (certo?) O significado daquele ser é a essência do ser. E aquele significado não pode mudar, porque se o significado mudar - muda a essência do ser... Porque a essência é o significado. Na [outra] tese que eu estou passando, a essência de um ser não é o significado - é a potência daquele ser.

Aluno: [inaudível] a ideia de movimento.

Claudio: Sim, e daí, A..., a ideia de movimento? Olha, não faz assim, A..., que assim você se complica! É a coisa mais simples! A essência pensada por Platão e Aristóteles é o significado. O Lucrécio e os estoicos estão pensando essência = potência. Então para eles...

Qualquer coisa para o Lucrécio tem uma essência? Tem! Este maço de cigarro tem uma essência? Tem! Qual a essência dele? A [sua] potência! Ele tem um significado? Não! Ele vai ter significado através do agenciamento. O significado é um efeito das potências: não é originário - é secundário.

(A...., vou repetir - para você pegar bem. Porque, talvez, muitos [dos] problemas que você tem em relação a esse tipo de filosofia - essas questões, marcas, signos, etc.- essas coisas que aparecem - você venha a resolver aqui. Veja o que eu estou dizendo:) Todo ser tem, o quê? Tem potência! Mas não tem, o quê? Significado! Ele não tem siginificado - ele tem potência. Agora, quando a potência de um ser entra em contato com a potência de outro ser, há um efeito - o efeito é o significado. (Entenderam? Vou tentar para ver se vocês entenderam mesmo,viu?)

Quem é que trabalha com potência, quem é que trabalha com significado?

Quem trabalha com significado é a linguagem; quem trabalha com potência é a física. Então, o campo do significado - logo, o campo dos efeitos das potências - é a linguagem. [Que] trabalha nele. Agora - a potência é o campo da física. (Vocês entenderam? Vocês têm que me dizer - porque nós estamos passando para uma fase muito bonita, muito bonita!) Quem é que trabalha com o significado? É a linguagem! Mas os significado é alguma coisa que pertence ao ser? Não! O ser não tem significado - tem potência. Então, a potência de um ser e a potência de outro ser se encontram... - e produzem um significado. Então, olhem o que aconteceu aqui. Eu não estou falando que a potência de um ser e a potência de um outro geram um efeito? O efeito é o significado. Mas eu não falei da potência dos dois seres? Logo, eu falei na potência de dois seres! O que implica em dizer, que aqui estão passando duas semióticas - uma semiótica da potência e uma semiótica do significado. (Vamos voltar outra vez. Vamos voltar outra vez. Vamos retornar. Vamos fazer uma elaboração, porque aí as coisas ficam muito claras!)

O que é uma essência para Platão? Para Platão a essência é o significado. E a essência para os estoicos? É uma potência. Logo, tem uma distinção rápida aqui. Rápida. A essência, para o Platão, é campo lógico e campo da linguagem. A essência, para os estoicos, é campo da física - porque fala em potência, em força.... então é física. Ambos trabalham em essência, mas para um, que são os estoicos - a essência é campo de força. Para o outro, que é o Platão, a essência é da ordem linguística - é campo do significado. (Entendeu, A...?)

Agora - os estoicos também vão falar em significado. O significado para eles é apenas um efeito do campo das potências. O significado pressupõe a composição das potências -cavalo com carroça, por exemplo. Aí produz o significado. O significado não é originário - é secundário. (Entendeu, A...?)

Aluno: [inaudível]

Claudio: O que você tem aqui é o mundo dividido em duas metades. A metade do significado e a metade das potências. Você tem dois mundos aqui - da potência e do significado. O campo da potência e o campo dos significados - dois mundos! (Não sei se vocês já conseguiram entender, não sei. Olha, eu estou com todas as disposições para vocês perguntarem... Porque tem muita informação para eu dar, então precisa me avisar se houve domínio. A..., vou visar você:)

Diferença da essência dos estoicos para a essência do Aristóteles e do Platão - Platão e Aristóteles - ambos - chamam a essência de... significado. [Enquanto que] os estoicos chamam a essência de... potência. Pronto!

Agora - há um campo do significado nos estoicos? Há! Esse campo do significado dos estoicos não é um campo de forças - é um efeito. Um efeito das potências. (Daí emerge uma questão, que eu tenho que ver se vocês entenderam, senão [será preciso] retornar.)

Eu estou falando do campo das potências? Estou falando do campo dos significados? Então. Eu disse para vocês que o campo das potências não era da ordem da linguagem... (Vamos voltar novamente. Vamos ver se vocês dão conta e vocês me avisam: Óh, dei conta! - Eu sei que alguns já deram conta.)

É só uma mudança de nomenclatura. Mudança na ideia de essência. Ideia de essência em Platão = significado. Ideia de essência nos estoicos = potência. Na aula passada, eu falei que a essência nos estoicos é um germe que visa a expansão. Isso que é a essência deles - um germe expansivo. Enquanto que a essência em Platão é campo do significado. (Tá certo?)

Agora, para os estoicos, existe o campo do significado, mas o campo do significado não é o campo das potências. É um efeito das potências. Na linguagem estoica, o campo das potências [é] o campo dos corpos; o campo do significado [é] o campo do acontecimento. Então, são dois mundos para os estoicos. O dos corpos - [é] a física. E o dos acontecimentos - [é] a lógica. (Como é que foi? Eu ainda não estou satisfeito, viu? Não estou. Ainda não foi, não é? Não foi. Ainda não foi. Só há como ir se vocês me perguntarem... porque eu não fico sabendo onde é que não está indo.)

Aluno: [inaudível]

Claudio: Não, não A... Vamos primeiro entender o que é isso que eu estou dizendo. Por exemplo - eu sou um corpo? Qual é a essência do meu corpo? Potência! A essência do meu corpo é potência... Meu corpo tem algum significado? Não! Ele não tem significado. Ele tem potência. É isso que ele tem. Agora, quando o meu corpo se encontra com outro corpo, ele produz - junto com o outro corpo - um efeito. O efeito não é potência. É significado.

Aluno: [inaudível]

Claudio: Se esses corpos são os poderes?? São!!

Aluno: [inaudível]

Claudio: Exatamente, exatamente. Só que a resposta foi só para você, não é? Os outros não vão entender. Fala, A....

Aluno: [inaudível]

Claudio: Não, A... Você não pode falar em nenhum corpo que não esteja conjugado com outro corpo - eu expliquei isto na aula passada. Um corpo é sempre uma conjugação com outro corpo. É sempre uma conjugação de potências. Sempre que você encontrar um corpo, ele está conjugado com outro corpo. Então - necessariamente - aparece o campo do significado. Porque o campo do significado é um efeito da composição das potências. Então, aparece o campo do significado. Mas o campo do significado não é potência. É, apenas, efeito da potência. (Eu não sei mais como eu falo, ouviu? Sinceramente, eu já não sei mais. Só se vocês fizerem perguntas, aí eu quebro o galho. Agora eu já me repeti... Aliás isso ocorre! É muito interessante que o Gilles Deleuze, quando escreve a "Lógica do sentido", repete uma mesma coisa umas 35 vezes até que ele diz: Bom, eu não tenho mais nada a dizer! Ele repetiu 35 vezes aquilo. O Deleuze...)

(Não há mais o que falar... - a não ser que vocês perguntem. eu dou derivadas. Bom, vamos lá.)

Aluno: [alguém afirma que já está claro]

Claudio: Não para todos. Não para todos. Para ela não está.

Aluno: [inaudível]

Claudio: É! A lei de um corpo.

Aluno: [inaudível]

Claudio: Sim, Heidegger. Poderia chamar diferencial, a diferença ontológica, será que é isso? Provavelmente é. É o campo da diferença. Que esses corpos quando se encontram... eles produzem um efeito - esse efeito é o campo do significado. O campo do significado. Eu vou tentar melhorar tua pergunta.

(Bom, vamos pegar assim... Agora, prestem atenção ao que eu falei.) Olhem o que eu falei: Eu falei... quando nós usamos a linguagem - e nós não paramos de usar a linguagem - qual é a função que nós [exercemos] quando a usamos? É para produzir, o quê? Significados!! Todo mundo usa a linguagem para produzir significados! É nítido, é facílimo entender isso. Todos nós estamos usando a linguagem, produzindo significados... ainda que a palavra significado possa ser uma palavra muito geral. Mas é evidente que se eu chego para você e digo assim: bláblábláblá. Você diz - não entendi, porque não tem significado! A linguagem está sempre articulada com essa questão do significado. Então, é evidente que a linguagem está articulada com o efeito do campo das potências. (Entenderam, ou não?)

Mas aparece um problema. Por que aparece um problema? Porque eu falei dos corpos!!! Eu falei da potência, falei dos corpos, mas disse que o campo das potências não é o campo do significado. Eu estou usando a linguagem para falar de alguma coisa que não é do reino do significado. (Não sei se vocês entenderam!) Eu estou usando a própria linguagem para falar de algo que não é do reino do significado... Então, complica! Complica! Se a linguagem tem a função de falar do significado... e nós usamos a linguagem para falar de alguma coisa que não é do reino do significado, pois a linguagem fala dos corpos.... Então ou a linguagem não poderia falar daquilo, ou não poderia existir na hitória o que se chama semiótica... [trecho duvidoso... defeito na fita]

O que é semiótica? É a ciência dos signos. E a semiótica que fala dos efeitos é uma semiótica do significado; a semiótica que fala dos corpos é uma semiótica energética. Apareceu alguma coisa nova - uma semiótica que não trabalharia com o campo da significação. (Eu não sei se foi bem aqui, se deu para entender...) Imediatamente alguma coisa de nova apareceu. Ou seja: nós temos uma ilusão de que a semiótica é sempre uma semiótica da significação. Mas, por este exemplo que eu estou passando para vocês, a semiótica não precisa ser somente da significação. No caso, ela também pode ser uma semiótica energética. (Agora vamos ver se passou! Não, eu acho que não, que eu fracassei. Devido ao meu fracasso, eu peço a alguém para me dar um café.)

(Vamos tentar um exemplo miserável. Da ordem da miséria total: para vocês entenderem.)

Qual o significado, digamos, do amor? Então, eu daria essa prova para vocês. E aí, cada um de vocês iria escrever o significado do amor. Viriam provas lindíssimas, (não é?). Eu ficaria aqui deslumbrado! Coisas lindíssimas!! Ai eu perguntaria a vocês... Qual é o significado da enzima. (Quer falar um pouco sobre a enzima, L...?) Você vai verificar que quando os biólogos estudam a enzima, eles não estão preocupados com o significado da enzima, mas com as funções dela.

Aluno: O significado não é conseqüência da função?

Claudio: É, é conseqüência da função! Mas quem está trabalhando numa semiótica energértica não está procurando significações. Está procurando o funcionamento. A ele não interessa o que significa aquilo. A ele interessa como aquilo funciona.

Aluno: Há aqui também uma certa linguística.

Claudio: [Sim.] Uma certa linguística, exatamente. Uma certa linguística, que, em vez... -pode-se falar até na filosofia analítica inglesa -...em vez de você se preocupar com a significação, você está preocupado em saber a função daquilo. Como aquilo funciona.

Aluno: Pode-se [inaudível] o amor [inaudível] uma energética, não é?

Claudio: Pode... deve-se, inclusive. Deve-se inclusive!! Porque o amor é um corpo. O amor é um corpo! Se o amor não fosse um corpo, a R... Não estava grávida. (Você entendeu, ou ainda não, A...? Está melhorando, B...?, fala lá!)

Na semiótica energética - o que eu estou chamando de semiótica energética - não é a investigação da significação. É a investigação da força, da função, do uso daquilo. (Certo? Eu agora vou dar uma pausa e ver se eu consegui ser entendido. Fui entendido? Heim!? Você entendeu, C...? Olha lá, heim? Você me responde assim... Há alguns que eu sei que entenderam. Outros, eu fico em dúvida! Bom. Vou dizer que entenderam.)

O que ocorre na história - segundo alguns pensadores - é que existiriam diversas semióticas, e não só essas duas. Eu coloquei duas: semiótica energética e semiótica do significado. Mas existiria mais do que isso. Existiriam múltiplas semióticas. A nós vão interessar as duas que os estoicos estão trabalhando: uma, a do significado; outra, a energética. (Como você está indo, T...?)

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Agora eu sou um filósofo estoico. E vou começar a falar dos corpos. Eu estou fazendo uma pesquisa de significado? Não! Eu estou fazendo uma pesquisa de potência, de funcionamento - como é que aquilo funciona. Os corpos funcionam... porque os corpos - literalmente - não significam nada! (É muito duro isso daqui!) Eles não têm nenhuma significação - mas funcionam. Não são do campo da significação: o campo da significação é efeito dos corpos. (Pronto! Dei por entendido!)

Aluno: Quer dizer que o corpo só tem sentido quando aliado à sua função?

Claudio: Mais grave ainda! O corpo não é aquilo que se entende por sentido e por significado. O corpo se entende pela função, pelo uso e pelas práticas potenciais - assim que se entende o corpo. (Certo?).

[Ao dizer] que os corpos não podem ser explicados pela semiótica do significado, [os estoicos] estão fazendo um longo deslocamento. Utilizar a semiótica do significado para compreender os corpos, [é] uma tremenda tolice - porque corpo é campo de potência. (Como é que você foi, E...?)

Agora, [a questão do] significado. O que é o significado? O significado é um efeito da composição dos corpos. O que mostra que o mundo estoico é dividido em duas séries - a série acontecimento e a série corpo. [É] assim que eles dividem o mundo. De um lado, o corpo e do outro, o acontecimento. O acontecimento é uma entidade significativa. Mas não é uma entidade potência. A potência é o corpo. (Eu acho que foi bem!) Aqui você tem literalmente a física estoica. (Atenção para os domínios do que vai aparecer aqui.) A física estoica é facílima - é potência, corpos, germes e expansão. Isso é a física deles.

E você tem a lógica dos estoicos: a lógica dos estoicos é o campo do significado. (Entenderam?) Se você for um lógico, trabalha em significados. Se você for um físico, trabalha [com a] potência. (Pronto! Não tem dificuldade de se entender. Você entendeu, P...? Não tem dificuldade de se entender.)

(Agora nós vamos entrar numa página difícil... Vamos entrar num momento muito difícil. E eu pergunto novamente se isso está entendido... porque é a base para entender o que vem [em seguida]. (Certo?) Vamos trabalhar:)

Aluna: [inaudível]

Claudio: Olha, não! Não. Nós vamos examinar o que é exatamente o acontecimento. Mas a natureza dos acontecimentos é diferente da natureza dos corpos. A natureza dos corpos é a potência. A natureza do acontecimento é o significado. (Vamos começar, agora, a fazer um trabalho radical. Radical e rigoroso... para vocês entenderem o que vai acontecer aqui. Então vamos.)

Primeira parte do trabalho - (que só pode ficar entendida se vocês [tiverem compreendido o que eu [acabei de] explicar.)

Há uma lógica dos estoicos. A lógica dos estoicos é a dos corpos? Não. A lógica é dos acontecimentos. É isso a lógica dos estoicos. Agora - no Aristóteles há, também, uma física e uma lógica... Mas a lógica aristotélica... - A lógica, não estou falando dos corpos! -... não é a lógica do acontecimento, é a lógica do conceito. Nós, agora, temos que distinguir a lógica do conceito de uma lógica do acontecimento. Não sei se vocês entenderam aqui: há uma diferença inicial e uma identidade entre Aristóteles e os estoicos - porque para Aristóteles há corpos e lógica - física e lógica; para os estoicos [também] há física e lógica. A física dos estoicos é a potência dos corpos, a lógica dos estoicos é o acontecimento; a lógica do Aristóteles é a lógica dos conceitos. (Entenderam? Agora eu vou fazer uma explicação para vocês. Você entendeu, B...? São coisas totalmente novas, não é? Inteiramente novas.)

Todo corpo vivo tem a capacidade de representar os corpos que o afetam. Todo corpo vivo representa [em si] o corpo que o afeta. Por exemplo, a imagem do B.... me afeta... - eu represento B.... dentro de mim. Para ficar bem claro: todos os corpos vivos ou - para ficar ainda mais claro: antropológicos... (e aí não tem como errar...) Ou seja: todo corpo humano pode representar, nele, os corpos que o afetam. Afetou - conseqüência - representação. Certo? Então, C.... me afetou... - eu represento C....

O que quer dizer representação? Representação quer dizer que alguma coisa que está presente fora de mim, está re-presente dentro de mim. (Não sei se vocês entenderam...) E.... está presente. E eu tenho a imagem da E.... Isso é a representação. Eu represento aquilo que está fora de mim, a partir do instante em que aquilo que está fora de mim me afeta. Se não me afetar, não [faço a representação]. Segundo [um aluno] físico, eu não posso ter, por exemplo, a capacidade de representar determinados sons que o cachorro representa. Não é isso? Porque [esses sons] não me afetam. Eu represento aquilo que me afeta - representação é sinônimo de marca. Eu represento, porque eu sou marcado por aquilo. Nos estoicos, isso se chama - representação sensível. Nós, os humanos, somos capazes de fazer representações sensíveis de tudo aquilo que nos afeta. (Entendido?)

Além disso, nós somos capazes de fazer a representação racional. A representação racional é extrair, das representações sensíveis, semelhanças e identidades. (Vocês entenderam?) Por exemplo - neste instante, eu estou sendo afetado por vocês. Então, de cada um de vocês [aqui presentes], eu faço uma representação sensível. A representação racional é retirar de vocês o que é diferente e ficar com o que em vocês é semelhante. (Não sei se entenderam...). Ou seja: pela representação racional, eu construo a ideia de homem. A ideia de homem não é uma representação sensível. Ela é uma representação racional originada no conjunto das representações sensíveis. Aí eu constituo a ideia de homem. De onde eu tirei a ideia de homem? Eu tirei a ideia de homem das representações sensíveis... porque eu excluo, das representações sensíveis, as diferenças: não me importa que o B.... seja maior que a O.... - me importa que o B.... e a O.... tenham um tamanho. Não me importa se o B.... pensa diferente da O.... - me importa que ambos pensam. Eu fico com o comum, excluo o singular - e formo a representação racional. O conceito é a representação racional. (certo?) Para quem? Para os estoicos. O conceito para eles seria a representação racional. (Entenderam?)

Aluno: [inaudível]

Claudio: Não, mas a teoria dos conceitos do Aristóteles não é exatamente dessa maneira. Mas não importa! O que importa aqui é a teoria dos conceitos dos estoicos, depois eu [explico] a do Aristóteles - que tem muita semelhança com isso aqui. Muita semelhança. Mas não importa... - o que importa agora é a dos estoicos. Logo, para os estoicos, existe ou não representações sensíveis e representações racionais? Existe! Mas a representação sensível e a representação racional são práticas corporais: são dos corpos - porque afetam os corpos. E a questão da lógica deles não é dos corpos. Então - a lógica dos estoicos não é uma lógica da representação. (Se não entendeu, nunca mais vai entender!) Os estoicos vão gerar uma lógica fora da lógica-modelo do Ocidente, que é a lógica da representação. Eles vão fazer uma lógica do acontecimento - que eu passo a explicar depois de tomar um café e descansar um pouquinho.


Lado B:

A segunda parte que eu vou dar, não vai ser difícil, não. (B.... ficou assustado!) [O] difícil, não é difícil para vocês - é para mim também, pela intensa originalidade do que os estoicos estão dizendo.

Há um texto em que os estoicos dizem que se Adão... - Por que Adão? Porque Adão é o primeiro homem! - ...que, se Adão olhar para uma lagoa, de maneira nenhuma ele conseguirá descobrir que se entrar lá no fundo [de suas águas], ele morrerá asfixiado. Dizem eles, que olhar para a lagoa, não [é suficiente para] descobrir que a lagoa afoga. Nem olhar para o fogo [dá para] descobrir que o fogo queima. O que os estoicos estão dizendo, é que a representação sensível, pelo menos da água e do fogo, não gera conhecimento. Você tem aquela representação sensível, mas [com ela] você não descobre nada daquilo dali. De alguma maneira, eles estão colocando em crise um conhecimento fundado na representação sensível. Ponto.

Segundo: Para os estoicos, na hora em que você faz uma representação racional, você utiliza substantivos comuns - a mesa, a cadeira, o homem. [Faz-se] representações racionais, utilizando[-se] substantivos para representar o objeto racional. O objeto racional é diferente do objeto sensível. O objeto sensível é individual, e o objeto racional é a coleção dos indivíduos menos a suas diferenças. Aí, utiliza-se substantivos para fazer a representação racional. (Entenderam?) Mas quando você for trabalhar no acontecimento, você [emprega] os verbos no infinitivo. O que nós descobrimos aqui? Que no campo das representações sensíveis e das representações racionais, você tem dois tipos de linguagem: a linguagem do nome próprio, para as representações sensíveis; e a linguagem do substantivo comum para as representações racionais. Mas, o acontecimento, não se diz nem com substantivo nem com o nome próprio - diz-se com verbos no infinitivo. (Até aqui tudo bem?) Então, se eu disser, [de modo] ainda muito vago, mas se eu disser - "amar" - o que é isso? É um acontecimento. Porque o acontecimento é dito por um verbo no infinitivo - ou no gerúndio, amar/amando, tanto faz. Enquanto que as representações racionais são feitas por substantivos comuns e as representações sensíveis com substantivos próprios. (Está certo?) "Bento" - esse nome representa, o quê? Uma representação sensível; "O homem" - é uma representação racional. (Tá certo?)

Agora vamos ver o que é o acontecimento. é que é barra pesada! Vamos tentar entender o que é o acontecimento:

Na primeira parte da aula, eu falei na existência de uma física - que seria das potências dos corpos; e falei de uma lógica - que seria a lógica do acontecimento. A primeira grande e terrível distinção estoica [é que] a natureza é constituída de corpos e incorporais. O incorporal - não sabemos o que é - é do campo do acontecimento. A única coisa que nós sabemos é que quando eu falar em acontecimento, eu não estou falando em corpo, eu não estou falando em potência. Eu estou falando em acontecimento e incorporais. E, o que é mais importante: o acontecimento é um efeito, ele nunca é causa - ele é efeito do campo dos corpos. É o campo dos corpos que produz o efeito acontecimento. (É dificílima essa colocação!)

O que está ocorrendo aqui? Adão olha a água, e nesse olhar, ele não compreende que a água é capaz de afogar. Ele não compreende! Mas, no momento em que Adão fizer uma experiência com a água, ele vai descobrir que se ficar [sob] a água... - ele vai-se afogar. O que vai acontecer aqui? Na hora em que Adão olha para a água, ele tem [dela] uma representação sensível. Logo, Adão está numa dimensão do tempo - na dimenão presente. Então - corpos, potência de corpos e as representações sensíveis se dão na dimensão presente [do tempo]. Mas depois de ter feito essa experiência, e de compreender que a água afoga... - ele é capaz de fazer dentro dele uma ideia do futuro.

O que é uma ideia do futuro? Ele faz a ideia: "se meu corpo se conjugar com o corpo da água, eu vou-me afogar". Já - afogar - não vem da experiência - é alguma coisa que está no futuro. Ou seja: o acontecimento traz para o mundo o que o mundo não tem - porque o mundo é constituído de corpos e potências no presente. O acontecimento traz o futuro. Traz o futuro. Adão consegue agora ir além da experiência - ele vai mais longe. Ele vai à compreensão do que acontecerá... - se ele entrar debaixo daquela água. Isso não está no presente. Isso está no futuro. O acontecimento é a chegada de uma nova dimensão do tempo. (Não sei se foi bem!? Entenderam?)

O acontecimento está trazendo para dentro da natureza uma dimensão do tempo que os corpos não têm - porque os corpos só teriam a dimensão presente. O acontecimento é a possibilidade do homem ultrapassar a experiência. Ele ultrapassa a experiência. Ele vai além da experiência. Ele sabe o resultado dos encontros dos corpos. Por isso que o acontecimento é dito por um verbo no infinitivo. Afogar, queimar... - botar a mão no fogo e queimar.

Por que o homem não bota a mão no fogo? Porque ele tem dentro dele um sentido que não está no mundo - está no espírito dele. (Entenderam?) O espírito dele é que contém aquilo - mas o acontecimento é inteiramente real. (Não sei se entenderam...) Está aparecendo alguma coisa que não é dada nas representações, mas é o poder que o sujeito humano tem de ultrapassar o campo das experiências, e se projetar para o futuro. Ele se projeta para o futuro - por causa do acontecimento. Porque o acontecimento é o resultado do encontro dos corpos e o espírito humano tem o sentido dele. (Eu acho que ficou difícil, heim? Ficou difícil, C...? Vocês tinham que falar um pouco. Eu vou voltar - com outras terminologias. Mas já falando comigo - para ver se eu consigo passar isso para vocês.)

Aluno: [inaudível]

Claudio: Olha, é abstração - de alguma maneira... porque ele acontece no espírito. Mas, simultaneamente, ele acontece no real. Ele acontece no real. Ele é inteiramente real... e é espiritual - mas não é algo do corpo - é uma conseqüência do encontro dos corpos. Queimar e afogar não são corpos - são consequências. .. consequências! É exatamente porque os homens possuem o acontecimento - que eles ultrapassam o campo experimental. Eles vão acima da experiência. Eles trazem - para a natureza - o futuro. (Não foi bem não, não é? Foi muito cruel...)

Aluno: Claudio, você pode ultrapassar o acontecimento em algum momento, já sabendo...

Claudio: Sim, mas o importante, O..., o importante aqui é que essa tese mostra que o sujeito humano não está dependente das representações - ele pode ir mais longe. Ele vai além das representações. Ele vai além da natureza. Ou seja: o espírito humano é aquilo que ultrapassa a natureza. Ele ultrapassa a natureza - exatamente pelo processo do acontecimento. Ele tem - nele - o sentido dos encontros dos corpos. É isso que ele está trazendo de novo. A lógica do acontecimento não é uma lógica prisioneira da representação. Ela vai além da representação. É uma lógica que ultrapassa, inclusive, o tempo presente - remete-nos para o futuro. Eu digo: "eu não boto a mão no fogo porque eu vou me queimar..." E eu digo isso - porque eu tenho o sentido.

Vamos voltar: o mundo da representação é um mundo presente. Você só pode representar aquilo que está no presente. Eu represento Bento. Re-presento. Retorno com o presente. O mundo do acontecimento libera para nós - pelo menos nesta aula - uma dimensão do tempo que o mundo dos corpos não liberou. A dimensão futuro só pode aparecer em nós pelo acontecimento - não pelos corpos.

Pelos corpos só temos o presente. Mais nada. Enquanto que o acontecimento já nos leva a ter saber - sem que nada tenha acontecido. Construímos um saber que não é dependente das representações. (É óbvio demais para ser claro! O problema é de verdade! É a clareza do que [os estoicos] estão dizendo.) Porque você só tem esse saber porque o acontecimento. (Vou tentar de outra maneira:)

Uma teoria do tempo dos estoicos, vamos tentar por aí. Quando os estoicos falam dos corpos, eles fazem uma física; e eles colocam que falar em corpo e falar presente é a mesma coisa. Porque o corpo é aquilo que está limitado - necessariamente - pelo hic et nunc - o aqui e o agora. Todo corpo tem um limite... Qual é? É o aqui e o agora. Qualquer corpo necessariamente está num aqui e num agora - não há outro jeito. Se vocês fizerem alguma hipóteses de que [isso é possível], digam para mim. Nenhum corpo pode estar fora do seu lugar e fora do seu presente. Está no presente e no lugar. Necessariamente.

Então, quando você trabalha com os corpos, quando você trabalha com a física, é uma física do presente. Tudo é presente! E o acontecimento introduz duas dimensões do tempo que o corpo não tem - o passado e o futuro. Neste instante, eu só estou falando do futuro. Ou seja, o acontecimento, o efeito dos corpos, traria - como conseqüência de sua aparição - novas dimensões do tempo - que é o passado e o futuro, que no mundo dos corpos nós não teríamos. Se nós estivéssemos presos às representações, nós estaríamos presos ao aqui e agora. (Eu não sei se foi bem, se vocês entenderam...)

O grande problema não é ter dúvida sobre o que eles estão dizendo - é aceitar -literalmente - o que eles estão dizendo. E se vocês quiserem fazer uma experiência... vejam se um corpo pode estar fora do presente e do lugar. Não pode! Todo corpo está no presente... - é isso que eles estão dizendo. O ser dos corpos, a dimensão dos corpos é o presente. Então, toda a nossa experiência é uma experiência de quê? É uma experiência de corpo, é uma experiência de presente! De que maneira nós podemos ultrapassar a experiência? De que maneira nós podemos sair da prisão do presente? Através do acontecimento. É o acontecimento que vai permitir a emergência dessas duas dimensões: passado e futuro. (Eu acho que está muito forte por hoje, não é? Eu vou abrandar um pouquinho alguma coisa aqui... Deixa que eu retorno na próxima aula. Acho que já está muito forte por hoje, já está havendo problema. Eu vou dar só um exemplo e vou sair.)

Há um autor moderno, um lógico inglês - que escreveu muito sobre o acontecimento. É o Lewis Caroll. Alice no país das maravilhas, etc. Isso tudo é lógica do acontecimento. Por isso é que nós temos dificuldade de entender - porque nós estamos acostumados a trabalhar com conceitos. Conceitos na representação sensível e na representação racional. Quando ele introduz a noção de acontecimento, o que ocorre? No acontecimento, o que não existe, em termos de dimensões temporais? Não existe o presente. No acontecimento não existe o presente. O presente é só do corpo. Então, a grande originalidade dos estoicos - esta é a grande originalidade deles - é ter dividido o tempo em duas dimensões: de um lado o presente - dos corpos; de outro lado o passado e o futuro - dos acontecimentos. (Eu acho que está bom por hoje, viu?)

Fala, K....

Aluna: O acontecimento não pode ser re-presentado.

Claudio: Não pode, não é presente!?...

Aluna: A representação [inaudível] que ela é, reproduz a [inaudível] passada. Porque quando [inaudível] e eu re-apresento.

Claudio: Olha, eu acho que você mesma disse que não reproduz. O que você tem presente é a imagem... Agora - você codifica ou pontua essa imagem como do passado... - mas o que você tem é o presente. A imagem é inteiramente presente. (Entendeu?)

Aluna: [inaudível] o passado [...] da imagem [...].

Claudio: Não, o passado é do acontecimento. É uma pergunta heideggeriana. Heidegger já fez essa pergunta. O que torna, digamos, este móvel antigo? O que torna isto aqui antigo? Porque quando você está no campo do corpo, tudo que você tem é presente. Isto daqui é presente. [inaudível] Mas o que eu tenho dentro de mim é uma imagem presente.

Aluno: [inaudível]

Claudio: Não, não, porque, veja bem - a imagem é um corpo presente em mim, não importa. Não há como o corpo sair do presente. Não há. Ele não tem como sair - ele está sempre prisioneiro do presente. A lei do corpo é o presente. (Ficou difícil, B.?)

É muito fácil. Neste instante eu estou com a imagem de Macaé - que é a minha cidade. Mas eu estou com a imagem em "mil novecentos e antigamente". (Tá certo?) Mas a imagem que eu tenho aqui, em mim, é presente. É presente! O corpo não tem como escapar disso - ele só vive no âmbito do presente. A dimensão do corpo é o presente. Se não houvesse o acontecimento... (Eu volto na aula que vem, eu volto com muito mais firmeza, porque nós já passamos pelas dificuldades do corpo... É o acontecimento que vai trazer essas duas dimensões - passado e futuro. O que mostra que o acontecimento é o poder que um corpo tem de sair do presente. O corpo sai do presente pelo acontecimento).

Agora eu vou deixar de lado, e vou dar pequenos exemplos de outra teoria que pega isso daqui:

Eu vou fazer uma coisa simples para vocês. Eu vou pegar um relógio. Um relógio tem um ponteiro de minutos e um de segundos. O segundo é a menor unidade de tempo do relógio. Eu vou chamar de menor unidade de tempo metafísica o instante. No relógio da metafísica - o instante é a menor unidade. (Entenderam?) Então - Agora, eu vou dizer que a natureza seria um conjunto de instantes. Agora, eu estou no instante A. Agora, eu estou no instante B - o instante A virou passado. Agora, eu estou no instante C - o instante B virou passado. Então, o tempo seria pensado numa sucessão de instantes. (Certo?) A cada tempo eu estou, eu estou no tempo presente. Eu saio de um tempo presente - saio de um instante - e passo para outro instante. Eu passo de um presente para outro presente. Eu vou fazendo isso, saindo de um presente para outro presente, para outro presente... [indefinidamente...] Isso seria uma teoria do tempo.

Agora - eu não sei se vocês conhecem um [fenômeno famoso] chamado dejà vu? Vocês conhecem, o dejà vu é quando você chega em um lugar e você diz: "Eu conheço este lugar" - ainda que você nunca tenha ido a ele.

Um acontecimento que se dá com os atores. Muitos atores estão representando - Hamlet, por exemplo - e estão, simultaeamente, se vendo representar. Eles representam e se vêem representar. Vocês conhecem esse fenômeno? É um fenômeno comum... Você está fazendo alguma coisa e está se vendo fazer aquilo. (Entenderam?)

O dejà vu - que é muito mais claro - é quando você mistura aquilo que você está vendo com alguma coisa que "tivesse" acontecido na sua vida. É exatamente a tese dos estoicos - eles dizem que nós não convivemos com o tempo como se o tempo fosse presente - o tempo é imediatamente, para nós, presente e passado. Ou seja: ao olhar para o Bento, eu estou - [ao mesmo tempo] - percebendo e memorizando o Bento. O tempo não pode ser pensado como uma entidade apenas presente, ele é - simultaneamente - presente e passado. Por isso é que você entra em contato com alguma coisa no presente e - ao mesmo tempo - aquela coisa já é passado. Simultaneamente. É esse o fenômeno de você se ver representado. É esse o fenômeno do dejà vu. Aquilo é simultaneamente presente e passado. É exatamente essa a tese que eles estão querendo explicar pela teoria do acontecimento.

Eu vou dar por terminada essa aula, porque eu não aguento mais... Nós voltamos à teoria do acontecimento, muito mais fortalecidos, na próxima aula, muito mais fortalecidos!

Aqueles que quiserem algum texto, eu tenho os textos básicos... e eu acredito que na próxima aula eu já possa passá-los para vocês.

Fim.

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Aula de 16/06/1994 – Pensamento: Lucrécio e Espinosa

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[Temas abordados nesta aula são aprofundados nos capítulos 2 (O Extra-Ser e a Similitude); 8 (As Singularidades Nômades); 12 (De Sade a Nietzsche); 15 (Ecceidade e Espinosa, o mais Poderoso dos Deleuzianos) e 20 (Linha Reta do Tempo) do livro "Gilles Deleuze: A Grande Aventura do Pensamento", de Claudio Ulpiano. Para pedir o livro, escreva para: webulpiano@gmail.com]


Parte 1

Há um texto de comentário em que aparece um fato estranho: o confronto que uma determinada filosofia faz entre dois deuses ― Eros, deus do amor; e Vênus Voluptas (voluptas traduzindo prazer), Vênus do prazer. Essa filosofia afirma que Eros não seria propriamente um deus; mas uma invenção humana ― enquanto que a Vênus Voluptas seria realmente uma deusa. O que essa filosofia quer dizer é que Eros, o deus do amor, não tem existência divina real e é uma invenção da arte humana; e que a arte humana só tem um poder: produzir felicidade.  Então, está sendo colocado que esse deus do amor, Eros, é um deus que nos traz a felicidade. Conforme essa filosofia está colocando, Eros não é realmente um deus, porque ele impede o supremo movimento de alegria da vida ― que seria o homem encontrar a plenitude da liberdade. Liberdade, essa, que o amor impede, porque nos faz depender de um outro, externo a nós.

Aluno: Inclusive, Platão, no Banquete, coloca que desconhece um deus que seja carente...

Claudio: Para o Platão, Eros era um deus; e aqui está sendo colocado que não, que Eros é uma invenção dos homens, é uma arte. Deus, realmente, seria a Vênus Voluptas, porque ela seria uma deusa apenas do prazer, que não conduziria os homens a essa posição do amor, porque o amor nos dá uma imediata dependência: para encontrar a nossa felicidade ou a nossa alegria nós passamos a depender de um outro, que não nós mesmos.

Essa filosofia está nitidamente condenando o amor como um empecilho e um impedimento para que o homem atinja a liberdade; e decantando a Vênus Voluptas, que seria o prazer. E esse prazer poderia ser alcançado através de comunidades humanas: os homens viveriam em comunidades ― como, de alguma maneira, houve com os hippies na década de sessenta; ou com os beatniks na década de cinqüenta, por exemplo.

Pela Vênus Voluptas, a alegria e a prática do prazer se dariam integralmente. Então, apareceu uma coisa muito estranha. É que nós estamos vendo uma filosofia se confrontar com algo considerado pelos homens, talvez, como o mais importante de suas vidas ― que é o amor. Então, essa filosofia está surpreendentemente afirmando que o amor ― de maneira alguma ―  nos traria a felicidade. E essa filosofia é toda ela dedicada às práticas; e ela diz que há duas práticas ― a prática do prazer e a prática da dor. E ela vai afirmar que o amor é aquilo que nos traz muita dor ― porque nós dependeríamos permanentemente de alguma coisa exterior a nós mesmos. Enquanto que Vênus Voluptas, que é a amizade, comunidades de amizade gerando prazeres, independentemente de relações de qualquer um com qualquer um, não nos conduziria a essa posição do amor. Faria aparecer o que é mais importante na vida ― que é a liberdade. A liberdade seria conseguida pela Vênus Voluptas, mas seria impedida pelo Eros.

Eu vou fazer uma colocação, que é, inclusive, para frente, que pode até mesmo se debater com o que eles estão dizendo e afirmar que Eros não seria propriamente um deus, Eros seria alguma coisa, algo da invenção da arte humana. A arte humana teria produzido Eros e a Vênus Voluptas seria realmente uma deusa. Isso, porque essa filosofia, que é a filosofia dos atomistas (nós temos um especialista lá no canto, que é o Estevão, que vai inclusive fazer uma conferencia sobre isso...), do Epicuro e do Lucrécio, está afirmando ― por isso que estou dizendo ― que a arte do homem é sempre a mesma: produzir infelicidade. Então, a única maneira de nós encontrarmos o que é importante e o que é importante é a prática...

Prática se opõe a especulativo, prática e especulativo se opõem. Especulativo é algo que pertence exclusivamente ao pensamento e a prática é aquilo que se faz.

Então, para essa filosofia, a única coisa que importa é a prática; e a prática nos mostra dois resultados permanentes: o prazer e a dor. Então, a experiência fundamental da vida é a busca do prazer. E a vida não para de nos ensinar como se conquista o prazer e se afasta da dor. Para essa filosofia, o homem faz da sua vida um mal permanente, porque ele se deixa perturbar. O quadro da humanidade, afirma essa filosofia, é um quadro de perturbação permanente ― mas não de perturbação do corpo, e sim de perturbação da alma. Nós, os homens, teríamos a alma excessivamente perturbada e toda a filosofia teria uma única  função: servir para produzir uma prática com prazer. Ou seja, o serviço da filosofia seria nos ensinar o que pertence à natureza. É a maneira como eu expliquei Eros e Vênus Voluptas, dizendo que Eros não seria algo que pertenceria à natureza, mas seria da invenção da arte dos homens. Então, é função da filosofia, nos ensinar a distinguir o que pertence à natureza e o que pertence ao mito; porque aquilo que pertence ao mito é que vai nos trazer a infelicidade. E se nós partirmos para entender a natureza, ou seja, fizermos da nossa vida uma prática constantemente de entendimento, se nós procurarmos entender, nós vamos entender a natureza e vamos suprimir de nós a infelicidade. Então, está se lançando para vocês uma filosofia e ela tem como objetivo fundamental o que estou chamando de prática e a prática se divide em prazer e dor. Nitidamente, o prazer e a dor são fatos que nós experimentamos e podemos distinguir. Ninguém precisa nos ensinar o que é o prazer, nem o que é a dor, nós aprendemos. O que nós temos que fazer é abandonar todo o regime do comando e da obediência para entrar no regime do entendimento. Porque é somente entendendo a natureza que nós superaremos as nossas infelicidades. (Ponto aqui, viu?)

Eu dei uma entrada na filosofia do Lucrécio, e essa explicação, que eu ia dar no meio da aula, não tinha como objetivo dar Lucrécio para vocês. Não, eu não vou fazer isso, porque eu se eu desse Lucrécio eu iria isolar muito esse curso. Neste curso daqui, junto com tudo que estou dando, eu preciso dar um excesso de cultura: dar, assim, muita informação junto com as aulas. Então, não vou poder dar Lucrécio pra vocês. O que eu vou dar vai ser Plotino, século III e IV d.C.; e Espinosa, século XVI e XVII d.C.. Nós vamos estudar basicamente esses dois. Agora, estudando Espinosa e Plotino vocês vão ver que Espinosa é um resultado da filosofia do Lucrécio, um prolongamento da filosofia de Lucrécio ― e eu acabei de colocar pra vocês que Eros seria a razão da nossa infelicidade. Então, Eros é uma paixão triste. (Vamos manter esse nome agora, esse sintagma: paixão triste).

De onde se originam as paixões tristes? Não se originam da natureza. Elas se originam sempre da arte do próprio homem, que é a arte de produzir constantemente a infelicidade. (É uma coisa assustadora, mas que é real). Então, eles estão dizendo, Lucrécio está pregando para nós que nós devemos aprender o que é a natureza. Eu vou um pouco por Lucrécio para depois passar para Plotino e Espinosa.

Para Lucrécio, a natureza é constituída de dois elementos ― e essa aula é definitiva, é para ficar, nós não podemos esquecer! Para Lucrécio, fundamentalmente, são dois os elementos que constituem a natureza: o vazio e os átomos. A questão dos átomos, eu vou explicar pra vocês o que é, mas ele vai afirmar que o vazio ― “O” vazio: é um vazio só! ― é infinito e a quantidade dos átomos também é infinita. Então, já no despertar da filosofia dos atomistas, eles estão nos explicando que existem três infinitos (vão existir mais!), mas existe o infinito do vazio, o infinito dos átomos e o infinito da combinatória dos átomos com “o vazio” (um vazio só). Agora, a palavra átomo é uma palavra que nós utilizamos no século XX, segundo as informações da física quântica. E a física quântica nos informa que o átomo é uma estrutura.

Estrutura é um elemento constituído por partes, ou seja, quando você tem alguma coisa que é uma estrutura, significa que aquilo tem partes e cada parte tem uma função. Então, o átomo, esse átomo com que nós trabalhamos aí e com que fizeram a bomba atômica é uma estrutura, que é constituída de prótons, elétrons, etc., os prótons também têm estrutura, etc.

Agora, o átomo do atomista não tem estrutura, ele é uma unidade; e essa unidade ― sem partes, sem estrutura ― é eterna; ou seja, os átomos nunca nasceram e nunca vão desaparecer: eles são eternos; como o vazio também é eterno. E um corpo é constituído de átomos. Um corpo pode ser esta xícara, um corpo pode ser o átomo da física quântica, um corpo pode ser uma galáxia. Então, todos os corpos são constituídos de átomos. Os elementos que constituem os nossos corpos são eternos; os nossos corpos nascem e morrem, porque todas as estruturas se fazem e se desfazem.

Então, eles estão afirmando que nós não precisamos de nenhum deus, de nenhuma entidade superior para compreender a natureza. A natureza é o vazio e esses átomos; os átomos compõem os nossos corpos, esses átomos são os compostos dos nossos corpos, nossos corpos não podem, então, ter uma existência infinita, uma existência eterna, porque são estruturas. Eles se desfazem ― se fazem e se desfazem ― e os elementos que compõem os nossos corpos enquanto tais são eternos, porque eles são os átomos.

Então, esse universo vai ter sempre presente dentro dele corpos e mundos, porque os átomos vão se chocar, vão se juntar entre eles e formar mundos e corpos enquanto tais.  Mas, agora, já fica lançado pra vocês que um corpo é um conjunto de átomos e que todos os corpos fazem emissões.

(Começa a aparecer, agora, uma doutrina muito difícil; e eu acho que é até onde eu vou ― depois eu vou parar com o Lucrécio!)

Por exemplo, o fogo emite fumaça, a luz emite calor, as flores emitem aromas, os nossos corpos emitem imagens ― porque todos os corpos fazem emissões de átomos. Então, nesse instante, o nosso corpo aqui está emitindo conjuntos de átomos ou compostos de átomos: é por isso que eu estou vendo vocês e vocês estão me vendo. Agora, esses compostos de átomos, que os corpos emitem, vão se encaminhar para o infinito, vão embora. Os corpos estão emitindo átomos, eles são conjuntos, alguns nos pegam e outros seguem em direção ao infinito. Esses conjuntos de átomos que seguem em direção ao infinito vão ser chamados corpos distantes das fontes. Ou melhor, simulacros distantes das fontes, ou ainda melhor, fantasmas distantes das fontes.

O que eles estão dizendo com isso, é que todos os nossos terrores, todos os nossos medos se originam nesses simulacros distantes das fontes, que vão formar o que eles chamam ― isso é fundamental ― de simulacros teológicos, oníricos e eróticos. Ou seja, a ilusão percorre a natureza. Agora, o que tem que ser feito é entender essa natureza, porque o entendimento vai nos afastar dos temores que esses simulacros vão no causar. Então, essa filosofia afirma ― e aqui eu gostaria que vocês declarassem para vocês de forma definitiva, porque eu não vou abandonar essa forma de pensar ― que a única maneira de nós ultrapassarmos os mitos e os temores é pelo entendimento. Ou seja, a única maneira de nós conseguirmos a liberdade é pelo pensamento ― não há outra! Qualquer outra maneira que nós vivermos, conforme eu estou colocando pra vocês, nós seremos banhados e subjugados por esses simulacros. Então, para vencê-los, a única maneira que existe é ― o pensamento.

Então, aqui vocês recebem a informação principal do que é exatamente a minha maneira de trabalhar em filosofia: a filosofia, a arte e a ciência ou a vida só têm um instrumento de libertação ― o pensamento. Então, isso se torna simples? Não. Isso se torna muito complexo, porque a partir de então, nós temos que verificar o que é o pensamento.

Então, eu comecei essa aula com o Lucrécio, (Eu dou três cursos por semana: o Lucrécio é um curso que eu estou dando na terça-feira; não o de vocês), mas a função dessa introdução ao Lucrécio é que, a partir de agora, eu vou começar a falar sobre o que é o pensamento. Vocês já estão sabendo por que eu estou falando o que é o pensamento. Porque o pensamento...

E aí vocês não se iludam com nada mais, porque o pensamento é a única possibilidade que nós temos de encontrar a liberdade e de suprimir o domínio desses fantasmas teológicos, oníricos e eróticos, que vão nos banhar ao longo das nossas vidas. (Acho que foi bem. Certo?). O meu objetivo nesse começo de aula foi exclusivamente colocar a questão do pensamento para vocês.

Então, a partir de agora, eu começo a falar no que é o pensamento em termos de Espinosa. Então, eu abandono Lucrécio, Lucrécio está no século I a.C., e passo para Espinosa. Espinosa é século XVII.

É muito interessante que o Espinosa e o Lucrécio tenham morrido mais ou menos com a mesma idade, quarenta e poucos anos. Lucrécio morreu completamente louco, mas não é louco por terrores dos simulacros, mas alguma coisa como o cérebro mole, como se dizia no século passado. E o Espinosa morreu mais ou menos aos quarenta e poucos anos de idade também, perseguido por todos os simulacros existentes na época, ou seja, perseguido por todas as religiões, perseguido pelo fanatismo, perseguido pela ignorância.

Então, o que estou dizendo para vocês é que o pensamento ― aquilo que nós vamos tentar investigar pela primeira vez nesta aula ― não tem como objetivo o encontro da verdade; não é esse o objetivo do pensamento! O objetivo do pensamento é afastar a ignorância e o fanatismo.

Ou seja, o negativo (usem essa palavra), o negativo do pensamento para Aristóteles e para Platão, por exemplo, é o erro. Para Espinosa, o negativo do pensamento não é o erro, o negativo do pensamento é a ignorância e o fanatismo. Como por exemplo, para Nietzsche, o negativo do pensamento é a tolice.

Então, nós não sabemos, mas o pensamento tem adversários terríveis. Adversários terríveis do pensamento que não são, de maneira nenhuma, o erro, ― mas a tolice, o fanatismo, a ignorância, a alienação (como se dizia na década de sessenta), que seriam os grandes adversários do pensamento, tomando-se o pensamento como o único ------.

(Vou dar um exemplo, depois eu vou voltar, tá?).

São três as práticas para se encontrar a essência: Eros... Olha só, olha que coisa interessante: Eros vai encontrar a verdade. O que Lucrécio disse de Eros?  Que é o pai da infelicidade. No Platão, é para encontrar a verdade. Então, para Platão encontrar a verdade, são as três maneiras de se encontrar a essência: Eros, o amor; a dialética; e o demônio. (Eu não vou explicar!). O demônio (o daimon, não é?); o amor e a dialética.

― Uma vez encontrada a essência, o que nós encontraríamos? Encontraríamos a verdade! Então, para Platão, na hora em que o sujeito humano for governado pelo pensamento, ele vai tender para a verdade. Então, o corpo e as paixões estariam impedindo a verdade de ser encontrada. É preciso dobrar o corpo, dobrar as paixões, dar poder ao pensamento, para que este encontre a verdade ― e aí estaria organizado o destino do homem. Foi nítido o que Platão colocou: é que o drama da filosofia seria suprimir a doxa e encontrar a episteme. Na realidade, isso nunca aconteceu. Nós nunca saímos da doxa, nós nunca saímos da opinião.

Vinte e quatro séculos depois, Proust vai falar uma coisa muito semelhante: a questão do Proust, de toda a obra dele, ― e isso é surpreendente para os seus leitores ―, é abandonar o sujeito, encontrar o pensamento e ir procurar a essência. Logo, Proust é... platônico ― ele é  altamente platônico! ― só que a essência de Proust e a essência de Platão não têm nada a ver, não são sequer parentes. A essência de Platão (isso ainda é muito difícil para vocês) é regida pelo princípio de identidade, pelo princípio de não-contradição, pelo princípio que vai organizar todo campo da ciência do Ocidente. Enquanto que as essências proustianas são alógicas, supralógicas, elas não têm logicidade; por isso, elas são diferenças puras e são chamadas por Proust de mundos possíveis. Então, a questão do Proust é ultrapassar o sujeito psicológico que nós somos, (ou seja, Swann nunca entendeu o Proust), e atingir o pensamento; porque o pensamento é que vai fazer essa viagem nos mundos possíveis. E a função do pensamento é dar esses mundos possíveis em forma de arte para os outros homens. Só há comunicação entre os homens, quando esses mundos possíveis emergem em forma de arte. Fora isso, os homens ficarão sempre submetidos a um solipsismo insuportável, ou seja, cada um fechado no seu próprio gueto psicológico. A única maneira de suprimir esse gueto psicológico é através do pensamento, encontrando esses mundos possíveis. Então, para o Proust, à diferença do Lucrécio, nem a amizade salva. É preciso que se abandone o amor, que se abandone a amizade e se faça da obra de arte o objetivo da vida. Eu não estou sendo proustiano, não estou sendo lucreciano, nada disso; estou apenas dizendo como eles dizem, porque a única coisa que resiste no que estou dizendo pra vocês é que a única maneira que nós temos para alcançar a liberdade é pelo pensamento. Então, o pensamento, aqui, apareceu com muita facilidade ― o pensamento em Platão e o pensamento em Proust se assemelham muito: é livrar-se do sujeito psicológico que nós somos.

Aluno: Claudio, eu poderia dizer que as essências no Proust se aproximam mais das essências dos estoicos do que de Platão?

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Amadeo Modigliani

Claudio: Não. Elas não se aproximam das essências dos estoicos. (Vou te dar uma resposta rápida, porque senão fica só para nós dois, não é?). As essências dos estoicos são corpos; e as essências do Proust são puro espírito. Mas é o espírito conquanto não pertencente a um sujeito psicológico. É como se o que Proust chama de essências fossem outros mundos, outras luas, como ele diz, outros Saturnos ― que só o pensamento pode visitar. O pensamento visita esses mundos e é capaz de construir nesse mundo, fazer uma montagem estética e expressá-lo. Então, a arte é uma expressão. Expressão de quê? Expressão desses mundos possíveis, expressão dessas essências. Agora, essas essências não são regidas pelo princípio de identidade, conforme em Platão (não vou explicar já, que não vai dar). Agora, essas essências, na verdade, são o caos. O pensamento encontra essas essências e ergue nelas a obra de arte. Ou seja, quando Modigliani fez aqueles pescoços e aqueles olhos, ele mergulhou em mundos possíveis. Ou seja, para fazer uma obra de arte, você tem que abandonar o psicologismo, o sujeito psicológico que você é, fazer um mergulho no caos e arrancar do caos alguma coisa. A obra de arte é, necessariamente, esse mergulho que você faz no caos. Daí, a grande dificuldade que é você abandonar a facilidade do sujeito psicológico que você é... O sujeito psicológico é a coisa mais fácil do mundo ― a gente apenas não consegue viver (não é?). Abandonar o sujeito psicológico que a gente é, entrar nessas forças terríveis do pensamento e com ele fazer esse mergulho no caos e de lá arrancar alguma coisa. A obra de Proust começa a ficar mais clara no texto O Tempo Redescoberto. Vocês já podem até ir direto pra lá, inclusive se vocês quiserem focalizar o Proust com o Visconti. Aliás, a maneira que eu vou usar aqui vai ser é essa: sempre pegar a obra de arte, para facilitar para a gente poder entender. O Visconti é um proustiano. Então, toda aquela filmografia do Visconti vai nos  liberar tudo isso. Mas como eu estou dizendo: não é o sujeito psicológico que vai poder alcançar esses mundos possíveis; ele não alcança nunca! Você tem que quebrar o sujeito psicológico.

― O que Proust está chamando de sujeito psicológico? Sobretudo a associação de ideias. Porque o sujeito psicológico que nós somos é constituído por associações de ideias. Nós vamos passando de uma ideia para outra, de um fato para outro: diz outra coisa meu amigo! Aí nós vamos conversando de uma coisa para outra, de uma coisa para outra, aí não abandonamos nunca o sujeito psicológico que nós somos. Para entrar no pensamento é fazer esse percurso em direção aos mundos possíveis, é sobretudo quebrar essas associações de ideias. Porque essas associações de ideias são exatamente a doxa e aquilo que nos dá um conforto, uma segurança. Nós passamos a achar que está tudo bem, que está tudo tranquilo, que está tudo calmo: não está; não está! Nós estamos diante do caos. Nós estamos diante do caos, nós estamos diante do vazio e é o pensamento que tem que confrontar com ele e de lá trazer alguma coisa. (Eu acho que foi bem essa exposição).

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Vocês, então, têm aqui a tríade: sujeito psicológico, objeto e pensamento. Como minha primeira exposição de pensamento, o pensamento seria, no caso do Espinosa, o que ele vai chamar de ideia expressiva. A ideia expressiva é porque o pensamento é aquilo que expressa esses mundos possíveis, enquanto que o sujeito manifesta as suas psicologias. Nós vamos diferir um sujeito humano ― ele está sempre manifestando os seus fantasmas, as suas biografias... E quando você lê esses textos de best-seller, o sujeito é sempre fantástico (não é?). É sempre um sujeito fantástico, que é diferente do que o Proust está dizendo do pensamento ― que é a entrada nos mundos possíveis. Isso vai se chamar ideia  expressiva. (Eu acho que foi bem, não é?). Chama-se ideia expressiva, no sentido de que expressa os mundos possíveis. E o sujeito é aquele que manifesta a sua psicologia.

[fim de fita]


Parte 2

A representação representa os nossos estados psicológicos, a nossa biografia, os nossos fantasmas. Enquanto que a expressão, a ideia expressiva, à diferença da ideia representativa, (aí que vai começar a ficar difícil, eu vou fazer um esforço enorme para vocês entenderem...), a ideia expressiva não expressa o psicológico. Ela vai expressar o que em Proust chama-se mundos possíveis e em Espinosa chama-se terceiro gênero do conhecimento. Aí, veja bem, é possível que nós possamos dizer algo que não seja da nossa psicologia, dizer algo que está em nós, mas não é psicológico. É como se fosse uma unidade diferente, alguma coisa que nos pertencesse, mas não fosse nosso; alguma coisa do espírito, mas não da nossa biografia, não da nossa subjetividade. Ou seja, a função da arte não é contar os nossos sofrimentos pessoais, a função do pensamento não é dizer da nossa história, da nossa biografia, mas é expressar isto que eu estou chamando de mundos possíveis. (Dois pontos, que eu vou começar a explicar. Acho que foi bem outra vez, não é?).

O que eu quero que vocês marquem, que não se esqueçam, é a distinção entre ideia expressiva e ideia representativa ― e a propriedade que eu coloquei na ideia representativa, que é a distância. Isso daqui é fundamental no momento em que a gente for trabalhar em arte. Que a distância faz parte da representação. E um outro fato que eu distingui, fiz uma distinção entre manifestações psicológicas e expressões de alguma coisa que está dentro, mas que não é psicológico.

(Então, vamos fazer essa passagem, eu vou parar dois minutinhos para tomar um café. Podem perguntar também).

É o que vocês vão fazer para fazer o uso da vida de vocês. Ou seja, tornar esse planeta magnífico ou, mais do que nunca, torná-lo paranoico e insuportável, como ele é. Quase que já explodindo, de tão insuportável que ele é.

(Então, só um instante...)

Aluna: Claudio, uma vez, falando em Platão, você falou no simulacro no sentido quase positivo, de que o simulacro seria aquele que não se submeteria à lei.

Claudio: É parecido. Os simulacros perdem contornos porque se distanciam das fontes, ele é muito parecido com o simulacro platônico. Agora, nos simulacros platônicos são as conquistas sofistas para se libertarem dos modelos platônicos. Têm dois funcionamentos diferentes. São essas questões, que vocês precisam estar sempre acesos, que são as ambiguidades dos termos. (Não é?). Saber que nós vivemos enfiados na ambiguidade. A ambiguidade, a polissemia não seria um acontecimento equívoco que aparecesse. Não, isso se dá sempre! Nós estamos sempre envolvidos nisso que eu chamo de ambiguidade. Inclusive, já dei uma aula para vocês que é o problema da... alma isolada... como como se chama?  Do solipsismo. O problema do solipsismo. Eu dificilmente poderia afirmar que a gente se comunica, porque a gente está sempre dando uma produção de sentido e o outro está ouvindo de maneira diferente.

Agora, vamos tentar entender (Tá?). Eu vou chamar o homem, (não tem nenhuma discussão teórica nisso que eu vou dizer, é a coisa mais fácil do mundo, não vou nem fazer explicação), o homem, seja qual for, eu vou chamar de sujeito. Depois, mais na frente, eu faço uma teoria do sujeito; agora, não precisa disso. Então, o homem é o sujeito e o sujeito tem como correlato (a palavra correlato quer dizer que se A é correlato de B, sempre que A aparecer, B tem que aparecer.). Então, o sujeito tem como correlato o objeto. (Certo?).

Nós, os sujeitos humanos, temos como correlato o objeto, que é o mundo. O mundo é o correlato do sujeito, o mundo é o objeto com o qual o sujeito está sempre em contato. Nós, como sujeitos, vivemos incluídos num campo físico, num campo político, num campo social, num campo econômico ― que é onde a nossa vida se desenvolve: nós, enquanto sujeitos psicológicos, sujeitos sociológicos. Agora, além desses dois termos ― sujeito e objeto, que eu coloquei como correlatos ― Platão constituiu a ideia de essência.

A minha visada, ao falar isso para vocês, no meio do caminho vocês vão entender como o platonismo funciona ― mas o meu objetivo é Espinosa.

Então, sujeito é o homem. Objeto é tudo aquilo com o qual o homem entra em contato ― pode vir de qualquer tipo de mundo: físico, social, econômico, religioso, seja ele qual for chama-se objeto. Mas, além desse objeto, Platão coloca uma figura chamada essência.

A essência, para o Platão, seria algo que o nosso corpo enquanto tal, o nosso corpo chamado de sensível, não apreenderia. Quem apreenderia as essências seria apenas o pensamento.

O que o Platão está colocando, então, é que o homem seria dotado de pensamento, mas o pensamento dele seria para apreender as essências. Então, enquanto o sujeito humano discutisse sobre os objetos, ele viveria no campo da doxa, no campo das opiniões. E para atingir as essências, ele teria que abandonar a doxa e entrar na episteme. A episteme é o pensamento! Então, quando vocês ouvirem a palavra epistemologia ― que faz muito sucesso por aí ―  essa palavra quer dizer que o homem abandonou a opinião, abandou a doxa e passou para a episteme. Então, diz-se que o grande sonho da filosofia, ou seja, todo o programa da filosofia é a superação da doxa para o encontro da episteme. Ou seja, superação da opinião para o encontro do pensamento.  E o pensamento não lidaria com os objetos clássicos enquanto tais: objetos físicos, químicos, sociais, mas com a essência. A essência seria alguma coisa colocada fora do tempo; ela teria eternidade. Aqui começa a surgir algo terrível teoricamente, não dá para trabalhar já, seria insuportável para vocês: a essência seria o objeto do pensamento. Ou seja, quando o pensamento estivesse no campo da episteme o que seria o objeto dele? As essências. (Entendido?). A essência seria a unidade...

[O final desta aula está na aula em áudio com o mesmo nome: Pensamento: Lucrécio e Espinosa. O trecho faltante nesta aula transcrita começa no áudio aos 2:40 min. da Parte IV]


[Outro final: na ocasião em que esta aula foi transcrita, não tínhamos encontrado ainda a gravação completa dela. Acrescentamos então a transcrição a seguir, de um trecho de uma outra aula incompleta (s/ data - gravação do Tadeu), pois achamos que ele poderia complementar a aula acima]

(...)

Todos nós vivemos, não só psiquicamente ― o nosso psiquismo apreende no mundo a sucessão do tempo, mas, o nosso organismo é determinado pela sucessão do tempo. (Ou não é?) Então, o que nós passamos a saber? Que o psíquico e o orgânico são governados pela sucessão do tempo. (Vocês entenderam o que eu disse?).

Então, para você encontrar a simultaneidade do tempo, você tem que sair do psíquico e do orgânico. No começo da aula, eu disse que o Worringer fala numa arte orgânica e numa arte cristalina. Então, se eu seguir o Worringer é sair do orgânico para encontrar o cristalino. E esse cristalino? É imaginário ou é real como o princípio orgânico? (Vocês entenderam a questão agora ou não? Hein, Silvia?). O cristalino é real, como o orgânico?

Aluna: Não, como o orgânico não.

Claudio: Como o orgânico não, mas ele também é real, ele não é um produto do imaginário. Agora, nós temos que dividir o  real em virtual e  atual. Que é a forma  mais fácil que eu estou achando. O que eu estou chamando de virtual é exatamente a síntese passiva. (Ficou muito difícil, não é?).

Aluna: “Peraí”, “peraí”!

Aluna: É porque você não tinha falado ainda sobre síntese passiva! Você deu um recuo depois voltou.

Claudio: Eu voltei.

Aluna: É porque ele fala também [inaudível].

Aluna: Ah, bom. Desculpe.

Claudio: Eu não tenho pressa nenhuma nessa aula. Ela é riquíssima! Eu vou até onde vocês puderem ir. Quem vai falar?

Aluna: Eu pedi para esperar um pouco para eu me organizar. Mas estou acompanhando.

Claudio: Agora, novamente eu apontei para a tal da síntese passiva. Apontei para ela. Usei um instrumento até um pouco inválido, para ajudar a vocês... falei em virtual e atual. Nem devia ter falado. A única coisa que importa agora é que não sabendo o que é, uma coisa eu já sei:  a imagem direta do tempo e a síntese passiva são a mesma coisa. Então, agora nós vamos começar a entrar na síntese passiva. (Está bem, Cristina?).

Aluna: Está. Eu só consigo...  eu fiquei pensando se não é nem o psíquico nem o orgânico que são as vias que afetam a imagem pura do tempo...

Claudio: Explica, por exemplo, porque Proust rompeu com a associação de ideias na sua estética.

Aluna: Eu sei, mas eu estou pensando assim: se não é o psíquico e o orgânico, quer dizer, eu sei que não é. Porque esse é o real atual. Não, eu estou pensando na...

Claudio: Isso está ótimo!

Aluna: Eu estava pensando na impessoalidade. Quer dizer, é claro que é, mas... É uma espécie de----- ou é...?

Claudio: A síntese passiva?

Aluna: Não, é quando Deleuze fala muito da impessoalidade. É quando ele fala da contingência...

Claudio:----- quando você falar na impessoalidade... Não, não pode fazer isso

Aluna: Não?

Claudio: a gente tem que ter a mesma lucidez de... O pensamento tem que entender, não importa o quê, mas ele tem que entender, ele não pode ser dominado por nada. Nós temos que entender exatamente o que estou falando.

Aluno: Claudio, um dos motores da coexistência e da simultaneidade que apareceriam, não seria a associação de ideias?

Claudio: Se for associação de ideias é ----, mas se você estudar Proust, você vai ver que todo mundo confundiu muito Proust pensando que Proust achava que a obra de arte, à maneira de Swann, porque Swann pensava assim, era uma associação de ideias. De forma nenhuma! Para fazer arte você tem que sair --------  você tem que sair do psicologismo.

Aluna: É aquela coisa dessa emergência do passado entrando no presente..

Claudio: Não... Mas cuidado, porque essa emergência do passado entrando no presente, de que você está falando, ainda é psíquico.

Aluna: Ainda é psíquico?...

Claudio: Por exemplo, eu vou te dar uma explicação.

Quando eu mergulho no passado, quando qualquer um de nós mergulha no passado, para recuperar, para encontrar no passado alguma coisa que foi vivida, -----. Então você viveu alguma coisa no passado, então, você quer recuperar essa coisa que você viveu, o que você faz? Você faz um mergulho no passado para recuperar aquilo que você viveu. Por exemplo, lá em Macaé tinha o footing que as meninas faziam e os rapazes ficavam olhando. E para contar  isso para vocês eu tenho que mergulhar no passado. E quando eu mergulho no passado o que eu encontro? O antigo presente da minha vida. Então, quando o psíquico vai ao passado para buscar as suas  lembranças, o que o psíquico encontra são antigos presentes. De forma alguma vai ao passado puro, ele vai aos antigos presentes. (Vê se vocês entenderam isso). Distinguir antigos presentes  de passado puro.

Aluna: O passado puro é um passado que não foi presente?...

Claudio: Não vou nem falar sobre isso.

Então, quando a gente vai recuperar nossa vida passada nós estamos recuperando... os antigos presentes. Nós não estamos lidando com o passado puro.

Aluna: ------

Aluno: O passado puro seria correspondente ao presente puro também?

Claudio: Olha, nunca ouvi ninguém  falar em presente puro, mas a gente pode falar isso.

Alunos: Pode?

Claudio: Pode. De uma certa forma, pode. Por que?...

Agora, eu vou começar a explicar para vocês toda a questão, através da compreensão do que vem a ser a síntese passiva.

(Conversa entre os alunos sobre um filme: Julia e Julia).

Vou começar a explicar o que é síntese passiva para vocês. Agora, o que vocês têm que fazer? Vocês têm que abandonar todo o antigo presente de vocês, mas o antigo presente no sentido do que foi presente quando eu expliquei para vocês.  Vocês esqueçam o que eu venho falando até agora. Não se lembrem do que eu estava falando, cuidem só do que eu vou dizer. Se vocês vierem... Por exemplo, se a Tatiana vier com formas da verdade (tá?), se a Cristina vier com a impessoalidade ou etc., vocês não vão entender o que eu estou falando. Nós vamos entrar na síntese passiva. Então, tudo o que eu falei até agora não importa, quando nós concluirmos a compreensão da síntese passiva eu volto às imagens puras do tempo e, aí, vocês vão entender com a maior clareza. (Está bom? Então, vamos lá.).

Vocês já notaram que ao raio sucede o trovão? Ou não? Geralmente a gente vê aquela claridade no céu, (não é?). Assim, ao raio sucede o trovão. Isso de ao raio se suceder o trovão chama-se uma conjunção constante.  Uma conjunção constante que está ocorrendo no mundo. O mundo está sempre nos apresentando essa conjunção constante. Mas agora se, por acaso, você for fazer um sério exame no raio você vai verificar que no raio não está contido o trovão. O trovão não está contido no raio. Ainda assim, eles estão na natureza em conjunção constante. Conjunção  constante quer dizer o quê? Quando aparece um, necessariamente o outro aparece. Ou seja, na conjunção constante você supõe que o primeiro é causa do segundo. (Vocês entenderam?). Então, qual é a causa do trovão?

Aluna: O raio.

Claudio: O raio. (Está certo?). É aquilo que você acha que é. Mas vejam que coisa interessante! O trovão só aparece quando o raio desaparece. Porque eles são sucessivos, são sucedâneos. Um aparece, o outro desaparece. Se eles estão numa relação de causa e efeito, foi isso que eu disse para vocês, é necessário que apareça primeiro o quê? A causa. E depois, o efeito. Então, a causa aparece, desaparece, aparece o efeito. Aparece o raio, depois ---- Não é claríssimo isso? Então agora nós vamos botar... vou botar quem? Vou botar a Silvia, que é uma mulher calma, tranquila,  sentada numa cadeira, observando durante quinhentos anos, uma tempestade interminável. Então, de segunda a segunda ela vê um raio, em seguida o barulho. Então, raio... trovão, raio... trovão. Então o que está acontecendo lá na natureza? Um fenômeno, que eu queria que vocês marcassem, chamado repetição dos mesmos elementos. É isso que está acontecendo? Ou não? Silvia está vendo o quê?

Aluna: Repetição dos mesmos elementos.

Claudio: Está vendo ou não está?

Vamos dizer que Silvia está fazendo uma prática chamada contemplação. Contemplação quer dizer: ela pode ver mas não pode intervir. Silvia pode fazer o quê?

Aluna: Contemplação.

Claudio: Contemplação, mas não pode intervir nada. Eu usei Silvia porque ela é super-agitada e na hora em que ela contemplar o raio, você acha que Silvia vai esperar chegar o trovão? Dentro dela faz: bum! (Vê se entenderam...). Silvia faz o quê? Ela antecipa dentro dela o trovão.

Silvia: Ainda bem. Porque eu estava pensando que eu era indecisa e ia ficar quinhentos anos para poder...

Claudio: Ela antecipa o trovão, mas quando ela antecipa o trovão, ela retém o raio. Na hora em que ela faz a retenção do raio e antecipa o trovão ela junta dentro do espírito dela o que estava separado. Raio e trovão no espírito de Silvia se interpenetram. (Entenderam?). Eles se interpenetram. Mas se interpenetraram onde?

Aluna: No espírito.

Claudio: E lá no mundo?

Aluna: Continuam separados.

Claudio: Então, a contemplação produz uma diferença no espírito sem alterar o objeto. (Entenderam?). O espírito se altera sem que o objeto se altere. Agora, o raio aparece, desaparece e aparece o trovão. Então, o raio aparece num instante  e no instante seguinte é o trovão. Então, lá no mundo o que nós temos é  sucessão de instantes. Sucessão de instantes ou não. O que é a sucessão de instantes? Aparece uma coisa, desaparece e a outra surge. Então, os instantes são separados ou descontínuos. (Vocês não entenderam?...). O que quer dizer descontínuo? Só aparece quando outro desaparece. Então, os instantes são descontínuos. Mas, no espírito da Silvia o instante do raio e o instante do trovão se interpenetraram, se fundiram. Enquanto que no mundo eles estavam em coesão, em justaposição, no espírito  de Silvia eles estão fundidos. (Você entendeu, Cristina?). Quem é que fez a fusão? Quem fez a fusão foi o espírito que contempla. Então, o espírito  que contempla contrai os instantes. Então, nós vamos chamar esse espírito que contempla de quê? De eu contraente. Eu contemplativo e contraente. Ele contempla e contrai. Na hora em que ele contrai ele funde os dois instantes. Ele funde os dois instantes. Ao fundir os dois instantes ele produz o que o instante em si mesmo não tinha: extensão. A fusão de dois instantes cria uma extensão. (Entendeu bem, extensão?). Uma extensão no espírito. Porque o instante antecipado é o trovão. O instante retido é o raio. Quando os dois se fundem o raio se torna passado do trovão e o trovão futuro do raio. Mas no mundo eles não eram passado e futuro, eram apenas dois instantes separados.

Aluno: Agora, porque você chama isso de extensão? Isso você deu  numa aula há dez anos atrás, agora, quando ---- falou nisso eu...

Claudio:  A extensão é porque dois instantes se juntaram. Então, quando se junta os dois instantes, o primeiro é passado do segundo e o segundo é futuro do primeiro!

Aluna: Então, eles se tornaram como se fosse uma unidade...

Claudio: Essa contração, essa prática que a Silvia acabou de fazer, chama-se a invenção do tempo. Lá nos instantes não havia tempo. O tempo aparece no espírito que contrai.

Aluna: É impressionante porque isso é exatamente igual ao que acontece no espaço. Por isso é que é o tempo...

Claudio: Eu ainda vou explicar toda a questão do espaço...

Aluna: O espaço é exatamente assim. Eu tenho vários pontos, eu só tenho uma continuidade quando os pontos se fundem. E, aí, eu tenho uma extensão. É exatamente assim... É o modelo ----

Claudio: Essa extensão chama-se duração. O que é duração?

Aluna: Agora eu entendi o que é extensão. Agora eu entendi! Extensão é a duração do tempo. Você está falando de extensão, é exatamente a duração.

Claudio: Extensão e duração é a mesma coisa. Então, a duração está onde?

Aluna: No espírito!...

Claudio: A duração está no espírito. (Certo?). Vocês já podem até escrever: a essência da duração é a contração. Então, no espírito já há passado e futuro. (Está indo bem?).

Fundiu o raio e o trovão (não é?). Lá no mundo raio e trovão estão separados? No espírito estão juntos? Lá no mundo eles se chamam conjunção constante? No espírito chama-se conexão necessária. (Bota aí).

Aluna: Mas a conjunção constante é não mais duração, é sempre os instantes separados. Enquanto que conexão necessária...

Claudio: Não. Agora você vai encerrar definitivamente. A duração está no espírito? Qual é a essência da duração? A contração. O que se opõe à duração? Instantes separados. Exatamente, o que se opõe à duração é a repetição.

Aluna: A repetição dos mesmos...

Claudio: ... instantes. A repetição dos mesmos elementos. Bota assim: o que se opõe à duração é a repetição. Numa outra linguagem essa duração é a diferença. Mas não vou entrar por aqui senão vai complicar muito. O que importa agora é que a fusão dos dois instantes, que se deu no espírito, é a invenção ou, vamos dizer melhor, a fundação do tempo. Quem é que funda o tempo? O espírito que contempla e contrai. Ele juntou então, o passado ao futuro. (Certo?). Juntou os dois instantes. (Entenderam aqui?). Então, esses dois instantes... o primeiro se torna passado e o segundo se torna futuro. E o presente é aquilo que passa do passado para o futuro. (Depois eu vou melhorar mais isso para vocês. Está certo?).

Aluna:  E vai falar  de pontas do presente...

Claudio: Ah! Não faz isso. Porque eu posso falar de pontas do  presente aqui, Silvia? Esgotou, não preciso dizer mais nada. Não posso falar de pontas do presente nenhum aqui, Silvia. Como é que posso falar de pontas do presente aqui, Silvia?

Aluna: Não, nesse instante você não pode, mas é por causa de que isso existe que pode falar desse presente...

Claudio: Então, está. Então, você vai falar. Vai concluir. Mas como você pode fazer uma conclusão dessas, Silvia?

Aluna: Não estou fazendo conclusão, Claudio, estou só estou falando...

Claudio: Isso aqui não é uma lógica racional, não estou dentro de uma lógica racional, pelo contrário, eu estou numa irracionalidade absoluta, eu estou entrando nos paradoxos.

Aluna: Não estou fazendo conclusão, quem vai concluir é você...

Claudio: Então, deixa. Vejam bem. Vamos agora fazer uma mentira, uma mentirinha. O raio é um instante separado do trovão? Não foi isso que eu disse? São dois instantes, o raio aqui e o trovão. Então vamos pegar três instantes lá no mundo da repetição. Posso fazer isso? Pegar três instantes no mundo da repetição? (Não entenderam....). Esse três instantes no mundo da repetição estão separados? Estão. Vocês podem chamar o mundo da repetição de mundo da matéria. Então, no mundo da  matéria os instantes estão separados? Estão. Tudo isso é um jogo que estou fazendo para vocês entenderem. Então, vamos chamar esse três instantes um de passado, um de presente e um de futuro. Então, se eu chamo um de passado, um de presente e um de futuro eu vou dizer que o passado está separado do presente?

Aluna: Sim...

Claudio: Sim. Eu vou dizer que o presente está separado do futuro? Eu vou dizer que o futuro está separado do presente? O futuro está separado do passado? Eles são descontínuos? Separados? (Certo?). Agora, quando eu entro cá na duração os instantes se fundiram? O passado está separado do futuro?

Aluna: Não.

Claudio: Não está na mesma fusão? Então, quando você  vai para a duração  o passado e o futuro não estão separados do presente, são dimensões do presente. Lá nos instantes estão separados, cá no espírito não estão  separados. (Não sei se vocês entenderam...). Então, eu vou chamar o passado e o futuro de dimensões do presente. Porque fazem parte do presente. E quando eu digo dimensões do presente eu estou dizendo que o passado já  não é mais passado, é  o presente do passado e o futuro é o presente do futuro, porque é no presente que eles estão se dando. (Vê se vocês entenderam...).


[Durante a transcrição desta aula, tentando encontrar o trecho que faltava, acabamos descobrindo uma outra gravação com o mesmo tema – Lucrécio – e uma data semelhante – 16 de junho. O ano marcado, porém, era 1992, ao invés de 1994. Achamos a princípio que era a mesma aula, com um erro de anotação. Mas logo constatamos que se tratava de uma aula diferente – Lucrécio e a Ontologia da Ilusão - dada dois anos antes, mas que esclarecia e completava a primeira, cujo final não conseguimos encontrar. As duas, portanto, embora ministradas em datas diferentes, são complementares, e podem ser lidas como uma única aula.]

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Aula de 21/03/1989 – O novo objeto da metafísica

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[Temas abordados nesta aula são aprofundados nos capítulos 5 (A Fuga do Aristotelismo); 12 (De Sade a Nietzsche) e 15 (Ecceidade e Espinosa, o mais Poderoso dos Deleuzianos) do livro "Gilles Deleuze: A Grande Aventura do Pensamento", de Claudio Ulpiano. Para pedir o livro, escreva para: webulpiano@gmail.com]

 

 


Parte I

Claudio: [...] e chegar ao final de uma forma altamente devagar.

Aluno: [fala inaudível na fita]

Claudio: É a questão dos megáricos, exatamente essa questão que vai ser levantada. [...] é a filosofia não-platônica. É isso que eu estou passando para vocês. Mas eu tenho que ser muito lento, porque primeiro eu quero que vocês dominem o tema... Dominado o tema, aí eu trabalho. Eu não trabalho antes que vocês tenham a mais integral dominação - inclusive disso, que você acabou de levantar agora. A partir da dominação integral, eu passo, então, à exposição - com a maior das lentidões... - até que vocês apreendam; e depois eu imprimo uma certa velocidade, porque aí eu entro pensando a questão. Então, vamos!

Há, na obra do Aristóteles, uma pequena confusão, uma pequena complicação. No sentido de que Aristóteles, em primeiro lugar, vai falar do real - do que ele entende como sendo real; e em seguida, vai falar sobre - o que ele entende como sendo o instrumento da razão. Ou seja: ele coloca aquilo que ele pensa do real - aquilo que ele acha que vem a ser o real; e em seguida, vai colocar o que ele acha que seja a razão pensando esse real. Bom. Segundo Aristóteles...

(Quando eu for obscuro na minha explicação, vocês me ajudem, fazendo perguntas... É só isso! Se eu for obscuro, vocês perguntam e eu procuro clarear.)

O real para Aristóteles é constituído de indivíduos. Então, para alguma coisa ser real, essa coisa tem que - necessariamente - ser individual. Não pode haver algo que seja real - que não seja da ordem da individualidade. Então, por exemplo: isto aqui [Claudio mostra um objeto] é um indivíduo... - logo isto é real; esta mesa é um indivíduo... - logo é real; este copo é um indivíduo... - logo é real.

Aristóteles não usa a palavra indivíduo. Ele usa a palavra substância. O real, para ele, é constituído de substâncias! Agora: esse real... (É muito simples, não tem nenhuma complicação teórica!) Nós, os sujeitos humanos - mas, eu posso dizer: todos os seres vivos - somos capazes de apreender esse real pela sensibilidade. Então, nós - os humanos - seriamos dotados de sensibilidade e a sensibilidade seria o meio que nós teríamos para fazer a apreensão do real. Se nós fôssemos "roubados" da nossa sensibilidade, nós não entraríamos em contato com esse real. Então, o que abre para nós as portas do real - é a nossa sensibilidade. O que eu estou chamando de sensibilidade é o que - classicamente - chamam aí de cinco sentidos !... É o meio - que nós temos - de apreender a realidade: pela sensibilidade! E esse real, que nós apreendemos, é um real individual. É isso, o real.

Agora: a partir do instante em que a nossa sensibilidade apreende o real, esse real vai - para a nossa imaginação ou a nossa memória - como imagem. Então, nós somos capazes de apreender o real pela sensibilidade e reter esse real na nossa imaginação-memória. Então, o real é retido, por nós, através da nossa imaginação-memória. Exemplo: eu olho para a O. e apreendo a O. pela sensibilidade. Daqui a pouco eu saio, vou embora para a rua, a O. retorna em mim por imagem. Então, nós aprendemos o real pela sensibilidade... e conservamos esse real em nós pela imaginação. Ficou claro? Então, é muito simples!

- O que se diz aí? O que Aristóteles vai dizer?

Nós os sujeitos humanos somos capazes de apreender a realidade e retê-la dentro de nós - mas de uma maneira muito original. Porque, quando eu apreendo o real, o real é individual. E os indivíduos reais são constituídos de matéria e de forma. Mas aquilo que eu retenho do real é a forma do real. Então, eu retenho as formas sensíveis do real. (Entenderam?) Aqui, pode-se fazer uma distinção, digamos, entre a prática da alimentação e a prática da percepção. Quando eu como uma cenoura, eu como a matéria e a forma da cenoura. Mas quando eu apreendo uma cenoura - eu apreendo apenas a forma dela. Essa forma, que eu apreendo pela sensibilidade, chama-se fantasma sensível.

Então, todos nós - humanos - podemos apreender o real e torná-lo um fantasma sensível. O fantasma sensível perdura dentro da gente porque a memória conserva esse objeto na ausência do próprio objeto. (Eu acho que foi claro. Certo?)

Em seguida, a razão entra em contato com esse fantasma sensível. Então, a razão não entra em contato direto com o real. Ela entra em contato com aquilo que a sensibilidade lhe oferece. Então, a matéria da razão é dada pela sensibilidade. A razão vai, lida com esse fantasma sensível - que é a matéria desse real que a memória deteve - e extrai do fantasma sensível o objeto racional - que é o conceito. Então, a sensibilidade apreende estas mesas. A razão vai, e extrai - destas mesas que a sensibilidade apreendeu - a semelhança e a identidade: funda o conceito de mesa. A razão não apreende "estas mesas". A razão apreende "a mesa". (Não sei se foi bem claro!?)

O que mostra que o objeto com o qual a razão lida não é real. Porque os objetos conceituais não existem no real - existem apenas na razão. Pois os objetos da razão não são individuais - são gerais ou universais. A razão lida com objetos gerais ou universais - e não com objetos individuais. Mas esses objetos - gerais ou universais - com os quais a razão lida, ela os extrai da sensibilidade. (Vejam se foi bem!? O que vocês acharam, deu para entender?)

O que vocês têm que guardar disso daqui:

A sensibilidade apreende o real. O real é o real concreto. O nosso real concreto. Mas a razão não teria dentro dela o concreto. A razão teria o abstrato. Então, por essa tese: o abstrato é um ser de razão - mas o real é concreto. (Entenderam?)

O abstrato é o instrumento pelo qual a razão categoriza e entende a realidade. Mas não existiria nenhum abstrato, nenhum geral, nenhum universal fora da razão. O abstrato pertence à razão. Diz-se: é um ser de razão. (Como é que vocês foram... entenderam bem? Todo mundo compreendeu o que eu disse?)

- Qual é a tese que eu vou retirar daqui? A tese que eu retiro é que o real é individual, concreto e apreensível pela sensibilidade. E o abstrato é um objeto de razão que - simultaneamente - é o instrumento que a razão tem para apreender o real. Então, Aristóteles vai dizer - com toda a clareza - que fazer ciência é fazer ciência do abstrato. Porque o abstrato é o instrumento que a razão tem para pensar o real concreto. Esse abstrato é o que nós chamamos na modernidade - mas, também, já na Idade Média - de conceito.

Conceito é o abstrato, é o geral, é o universal - aquilo que a razão tem para apreender o concreto real. (O que vocês acham - eu posso dar por entendido? Posso, não é? Então, vocês guardem isso, que eu agora vou passar uma tese diferente! Vou passar uma tese diferente.)

Determinados pensadores gregos vão fazer uma nova tese em cima das mesmas questões levantadas pelo Aristóteles. Vocês viram que as questões que eu levantei foram o real e o pensamento. O real é individual e apreensível pela sensibilidade. E o pensamento seria aquilo que lidaria com o abstrato , o geral, o universal.

Agora Lucrécio, que é um pensador do século I a.C., herdeiro de um pensador chamado Epicuro. Para o Lucrécio, o real é constituído de corpos. Vejam bem: o real é constituído de corpos. E aqui, ele não tem diferença nenhuma para o Aristóteles - porque o Aristóteles diz que o real é constituído de corpos.

Os corpos, para o Lucrécio, são apreensíveis pela sensibilidade - nenhuma diferença para o Aristóteles. (Tá?) Porque para o Aristóteles o real concreto é constituído de corpos; e para Lucrécio o real concreto é constituído de corpos. Para ambos, nós apreendemos esse real concreto pela sensibilidade.

O real concreto do Aristóteles é o corpo. O corpo é constituído de matéria e de forma. E aqui aparece a primeira diferença. Para o Lucrécio, o corpo não é constituído de matéria e de forma; o corpo é constituído por um conjunto de átomos.

Então, para Aristóteles, o real é o indivíduo; para Lucrécio, o real é o indivíduo. Para Aristóteles, o real é o corpo; para Lucrécio, o real é o corpo. Agora - os componentes do corpo aristotélico são a matéria e a forma. Os componentes do corpo para o Lucrécio são os átomos. Então, o Lucrécio está trazendo alguma coisa muito original - porque ele está dizendo que aquilo que compõe os corpos são os elementos atômicos. O que já traz para nós uma nova força de investigação. Porque, já que os corpos são constituídos de átomos, a nossa questão é:

- O que são esses átomos?

Esses átomos são pontos eternos: são seres eternos. E os corpos, que os conjuntos de átomos constituem - são seres temporais. Então, isso daqui [Claudio aponta um objeto] é um corpo - logo, é um ser temporal. Mas os elementos que compõem esse corpo - ou seja: os átomos - são eternos.

- Por que os átomos são eternos?

Porque para o Lucrécio os átomos não podem ser quebrados: eles são as unidades mínimas - que se mantêm absolutamente iguais pela eternidade afora. O que varia - são os corpos. Porque os corpos são conjuntos de átomos. Mas os elementos que compõem os corpos são eternos - porque não podem ser destruídos ou divididos. É possível que alguém diga: - Bom, o Lucrécio dizia isso, porque não conhecia essas grandes usinas atômicas existentes, que fazem o corte dos átomos. Ou seja: nós poderíamos pensar que a tese do Lucrécio poderia ser destruída por uma tecnologia poderosíssima - uma tecnologia que viesse dividir os átomos. Mas ele diz: não, não é uma questão de tecnologia: esses átomos são in-di-vi-sí-veis. Então, todos os corpos são temporais - porque o corpo é um conjunto de átomos. Um corpo - necessariamente - vai-se desfazer num momento do tempo: são os átomos se separando. Mas esses átomos, que compõem os corpos, são eternos e não podem ser destruídos ou divididos por nenhuma força: não há força que possa dividi-los.

Essa tese é crítica! Porque no momento em que ele coloca que os elementos que compõem os corpos - que são os átomos - não podem ser divididos, nós podemos aplicar uma crítica em cima dele e dizer: - E se no século XXXV inventarem uma máquina altamente poderosa, que venha dividir esses átomos? Ou seja, nós faríamos uma crítica à tese dele - uma crítica à eternidade dos átomos. Mas ele então vai e nos responde: - Nada disso! Esses átomos não podem ser divididos porque eles não são corpos: são os elementos que constituem os corpos - são apenas pensáveis! Eles não podem ser apreendidos pela sensibilidade. Eles são da ordem do pensamento. (Não sei se está indo bem!? Vocês estão conseguindo compreender?)

O que o Lucrécio está dizendo, é que o real não é constituído somente por corpos. Para o Lucrécio - existe um real concreto e um real abstrato. O real abstrato são os átomos. Então, ele está fazendo uma crítica à tese do Aristóteles - porque o Aristóteles diz que o abstrato - é o ser de razão; e o Lucrécio está dizendo que o abstrato - é real. (Eu quero ver se vocês entenderam... - Eu acho que eu não tenho mais nem o que dizer! Eu só posso falar em cima de perguntas que vocês fizerem... - Como é que você foi V.?)

- Quantos reais há para o Lucrécio? Dois!

Dois - um concreto; e um abstrato. Um que é apreendido pela sensibilidade; e um que só pode ser apreendido pelo pensamento. A grande questão aqui é o deslocamento do abstrato. Porque a idéia de abstrato - na linha aristotélica - é o conceito. A ideia de abstrato - na linha lucreciana - é o real. Nós estamos acostumados a utilizar a noção de abstrato como - aquilo que é um instrumento para pensar o real. O Lucrécio não está dizendo que o abstrato é instrumento para pensar o real - ele está dizendo que o abstrato - é real. Ele está fazendo um deslocamento completo na tradição aristotélico-platônica do Ocidente!

Aluno: [fala inaudível na fita]

Claudio: Só pode ser apreensível pelo pensamento. Porque se esse real abstrato pudesse ser apreendido pela sensibilidade, interpunha-se à tese de Lucrécio a possibilidade de uma tecnologia que quebrasse esses átomos! Esses átomos não são quebráveis - porque eles não são entidades sensíveis - eles são pontos do pensamento. Quase que se poderia dizer - pontos matemáticos. (Eu queria uma notícia de vocês... se foi apreendido...)

O que Lucrécio está dizendo, é que pensar - não é pensar os corpos constituídos; pensar - é pensar os átomos. Ele está deslocando a tradição da razão - porque a tradição da razão é a constituição de conceitos para pensar o mundo sensível. Ele está dizendo que a função do pensamento não é constituir conceitos para dar conta do mundo sensível; a função do pensamento é lidar com esse real abstrato.

(Eu ainda não tenho certeza que eu passei com clareza, viu? Só vocês podem me dizer! Vocês que têm que me dizer - se foi entendido, se não foi entendido, se ficou claro ou não... porque o que está acontecendo aqui - e a partir disso eu vou seguir esse plano de aula - é que nós vamos tentar pensar o real em termos de real concreto e real abstrato - ou seja: eu vou começar a introduzir uma prática de pensamento não-conceitual. Então, como nós vamos entrar numa fase muito difícil, o melhor método que nós temos é nesse momento é vocês me fazerem perguntas... - porque eu posso ter falhado na explicação!...)

Aluno: A matéria para o Aristóteles [...inaudível...]

Claudio: A matéria é infinita - mas os átomos são eternos. E indivisíveis. Que é até uma tolice deles falar isso, mas isso não importa para nós - mas eles são indivisíveis. O grande problema é que você tem aqui um corpo. Isso daqui é um corpo - certo? Esse corpo é um concreto sensível. Mas os elementos que constituem esse corpo são os átomos - e os átomos são abstratos reais. A grande questão é essa! (Eu vou tomar como entendido! Bento, não quer falar?)

Aluno: Mas esse abstrato [...inaudível...]

Claudio: Necessariamente. Porque todos os corpos são constituídos por átomos. Então, para você dar conta dos corpos, você tem que fazer uma prática de duas dimensões - pensar os corpos e pensar os abstratos. Duas dimensões. Certo?

Aqui está aparecendo uma coisa muito bonita! Esses átomos - antes de eles se organizarem para fazer um corpo; antes que o corpo apareça - eles são o puro caos. Então - por trás da ordem dos corpos - está o caos. Ou - mais grave do que isso - o objeto e a matéria do pensamento é o caos. Começa a ficar dificílimo! Porque, pelo que eles estão dizendo, o pensamento não é aquilo que tem que dar conta dos corpos. O pensamento é aquilo que tem que dar conta dos átomos. E os átomos - neles mesmos - são caos puro. A matéria do pensamento é o Caos.

Deixem-me dar uma explicação para vocês... Vocês não sabem que - no nosso tempo - há uma aproximação entre o louco e o artista? Que em toda a época da história há uma aproximação entre o louco e o filósofo? Por uma razão muito simples: porque tanto o louco como o filósofo; tanto o louco como o artista - a matéria deles é o caos. Os dois têm a mesma matéria! Só que o louco é aquele que se perde no caos; e o artista e o filósofo são aqueles que vão pensar o caos. Eles estão no mesmo limite! Ou seja: ser louco e ser pensador - é o maior risco da vida... porque é sair da ordem dos corpos. (Olha uma notícia para mim!!!... Como é que você foi, P.? Entenderam bem?)

O problema que eu levantei é simples! Eu fiz um deslocamento no pensamento. Porque... - qual é o instrumento do pensamento em Aristóteles? O abstrato! O instrumento do pensamento é o abstrato - é o conceito.

No Lucrécio, o abstrato não é instrumento do pensamento - é a matéria do pensamento. Isso em primeiro lugar. E em segundo lugar? Eu tornei o abstrato real. Há uma realidade abstrata, por trás da realidade concreta. Essa realidade abstrata por trás da realidade concreta é caos puro. (Eu não sei se eu fui bem, ouviram? Os que estão pensando aí, podem lançar uma pergunta para mim. O que você achou F.?)

Aluno: [fala inaudível na fita]

Claudio: Não só para o filósofo, mas também para a vida. Porque é exatamente isso! O pensador do caos é aquele que é capaz de fazer transformações no mundo. Se não houver o pensamento do caos - o mundo se tona sempre a mesma coisa! Porque é o enfrentamento do caos que vai fazer as invenções e a criação nascerem! Olhem que coisa mais simples! Na hora que Mozart vai fazer uma música, a matéria que ele tem não está organizada - é um caos - que ele transforma numa melodia... Se ele já tivesse uma matéria organizada, ele não seria o Mozart. Ele seria o Zequinha de Abreu! Porque ele iria apenas reproduzir alguma coisa já pronta. Um corpo pronto. A arte - a produção da arte - implica que o artista lide com o caos. É uma experiência trágica, uma experiência limite. Porque senão, ele reproduz tudo o que existe.

Eu vou dar um exemplo para vocês: se vocês me pedirem para eu desenhar alguma coisa neste quadro negro aqui, provavelmente eu vou desenhar duas montanhas - tipo Pão de Açúcar e Morro da Urca - com uma lua atrás e um riozinho por baixo. Porque são as imagens em que o mundo em que eu vivo não pára de me dar.

A função do artista é desfazer as imagens do seu mundo - para produzir o novo. E para produzir o novo... - ele tem que sair exatamente dos limites do seu próprio mundo - quebrar os limites do seu mundo - e entrar no caos. Porque senão ele está subordinado às determinações de um grupo de imagens. (Entenderam?) A criação é uma prática do pensamento: a filosofia, a arte, a ciência. Mas é um enfrentamento com o caos. Senão, você vai reproduzir todo o seu mundo. Todo o seu mundo retorna.

Se um artista fosse apenas reproduzir o seu mundo - não precisaria de artista - bastava o jornal. O artista é exatamente aquele que faz a experiência limite - além do território que lhe é oferecido - para pensar as forças enquanto tais.

Aluno: Esse artista tem que ser abstrato ou poderia ser figurativo?

Claudio: Poderia ser figurativo... Sem dúvida nenhuma, poderia ser figurativo. Ainda que... - (Vocês ouviram a questão que ele fez? Ele colocou uma questão sobre artes plásticas. Se esse artista poderia ser um [artista] figurativo. Eu respondi que sim...) Mas há uma questão na arte moderna. A grande questão da arte moderna está diretamente ligada à arte figurativa - no sentido que a arte figurativa é a representação do que existe. E o que a arte moderna quer produzir... - é exatamente o que não existe. A arte moderna não quer fazer uma prática representativa - ela quer criar novos objetos. Aí nós temos Kandinsky; temos Francis Bacon; temos o Pollock; de alguma maneira, a arte surrealista - um pouco menos, no Salvador Dali; muito no Miró - que são fugas, exatamente, do figurativo - que seria uma arte representativa. Começar a produzir o novo - em vez de apenas re-presentar o mundo como se apresenta para nós: criar outros mundos!... O que mostra que - aquele que pensa - pode inventar novos mundos.

[fim de fita]


Parte II

Se ele pode inventar novos mundos nas artes plásticas, ele pode inventar novos mundos na música, mas pode também inventar novos mundos na ética e na política. Ele pode inventar - uma nova cidade! Ou seja: todas as cidades que existem... foram inventadas! Não sei se vocês entenderam... todas foram inventadas! Exatamente por uma prática de arte. É isso - que é o homem! É isso - que é a prática do pensamento! A prática do pensamento é um enfrentamento com esse Caos! (Como é que está A.? Eu acho que está bem claro, não é?)

Eu vou parar aqui. Eu vou dar um ponto - e ver se ficou bem claro: O que eu quero marcar como franca distinção é o abstrato no pensamento e o abstrato real... Essa a grande distinção que eu quero fazer; levando - de imediato - ao surgimento de um tipo de pensamento não-conceitual - porque o abstrato conceitual é o abstrato no pensamento. Eu não sei se vocês deram conta disso que eu disse agora: é um pouco difícil! Você lá atrás - como é que você foi?

Aluno: Eu tenho uma pergunta da questão anterior...

Claudio: Qual a questão?

Aluno: Quando você fala do louco estar em confronto com o caos, aventando a hipótese de que tanto o louco quanto o artista [inaudível] do código [inaudível]?

Claudio: Não, eles não têm código! Eles vão entrar no caos. O louco é - exatamente - aquele que vai se perder no caos... o mundo dele se torna um caos!... Não há umas expressões que nós usamos muito - "Saiu de órbita!"; "Foi pro espaço!" - que é o louco? É exatamente a entrada dele no caos. E o artista é a mesma coisa! Só que o artista vai pensar aquilo - para produzir uma obra. Se nós pudéssemos tornar os nossos loucos artistas, as coisas iriam bem... - mas o que nós fazemos é tornar os nossos artistas loucos: nós invertemos o processo.

faixa-doacao

Há uma má-fé nítida na psiquiatria. A psiquiatria vai transformar a loucura numa doença mental - ela não é uma doença mental; ela é a aventura das mais violentas da vida - a aventura do caos. Nós vamos encontrar determinados artistas - um exemplo é o Artaud, que é exatamente a mistura desses limites - da loucura e do pensamento. Artaud ora é louco, ora é pensador. Ele não para de se confrontar com o caos. Por isso, a obra de um homem como o Artaud é uma obra de alta angústia. Porque ele não é o homem comum! Porque o homem comum é aquele que se subordina ao campo de saber do seu mundo - reproduz o saber do seu mundo!

“Quero, quando escrevo ou quando leio, sentir minha alma retesar-se como na Charogne, no Martyre ou Voyage à Cythère de Baudelaire. Não gosto de poemas ou linguagens de superfície que falam de momentos felizes de lazer ou de sucessos intelectuais apoiando-se no ânus, mas sem envolver a alma ou o coração. O ânus é sempre o terror e eu não aceito que alguém perca um pedaço de excremento sem dilacerar-se por também estar perdendo a alma (...) Tudo o que não for um tétano da alma, ou não provier de um tétano da alma, como os poemas de Baudelaire e de Edgar Poe, não é verdadeiro e não pode ser aceito como poesia. (...) Baudelaire fazia saírem escarificações de afasia e paraplegia, e Edgar Poe, mucosas ácidas como o ácido prússico, o ácido do alcoolismo, e isto até o envenenamento e a loucura. Pois se Edgar Poe foi achado morto certa manhã em uma sarjeta de Baltimore, não foi por causa de uma crise de delirium tremens provocada pelo álcool, mas sim porque uns canalhas que odiavam seu gênio e detestavam sua poesia o envenenaram para impedir que vivesse e manifestasse o ditame insólito que se manifesta nos seus versos. Pode-se inventar uma linguagem própria, fazer com que a linguagem fale com um sentido extragramatical, mas é preciso que haja um sentimento válido em si, que provenha do horror - o horror, este velho servo da dor, sexo como uma coleira subterrânea de aço produzindo seus versos a partir da sua doença: o ser, e nunca tolerando que o esqueçam. (...) Amo os poemas dos famintos, dos doentes, dos marginais, dos envenenados: François Villon, Charles Baudelaire, Edgar Poe, Gérard de Nerval; poemas de supliciados da linguagem que estão se perdendo para melhor exibir sua consciência e ciência, da perda e da escrita. Os perdidos não estão sabendo dessas coisas, eles mugem e berram de dor e de horror. Abandonar a linguagem e suas leis para retorcê-la, para desnudar a carne sexual da glote de onde saem os amargores seminais da alma e os lamentos do inconsciente, tudo bem com isso, mas desde que o sexo seja o orgasmo de um insurrecto, desesperado, nu, uterino, lamentável, também ingênuo, perplexo por estar sendo censurado”.

Antonin Artaud

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Antonin Artaud

O artista e o louco - se confrontam com o caos. Eles saem do território que foi erguido para eles viverem. De outro modo: eles saem da cidade - literalmente saem! - porque houve épocas na história em que se tirava o louco da cidade, se colocava num navio, e soltava em alto-mar. Ou seja: joga-se o louco no aberto absoluto! No fora absoluto - um navio à deriva! E é esse navio à deriva que o pensador tem que dirigir. Porque as nossas vidas - todas as nossas vidas - são circundadas por esse caos.

Nós temos as nossas vidas apaziguadas exatamente porque nós vivemos num campo de saber. Nós vivemos num campo de reconhecimento. Nós reconhecemos tudo... - e isso apazigua a nossa vida. Nós nos contentamos com isso. A arte é a coragem da vida em ultrapassar o apaziguamento e enfrentar essas [...] do caos - para aí produzir alguma coisa de novo ou não produzir nada!

Um exemplo para vocês:

Há um autor do século XX - de má fama, hein? Muito má fama! - chamado Kafka, que tinha uma questão na vida dele - muito simples!... Ou eu saio para conquistar a felicidade - e conquistar a felicidade será casar-se, reproduzir-se, viver em família, viver na cidade - ou vou fazer uma experiência do Fora. Experiência do fora - fora do mundo em que ele vivia! Mas ele dizia: "Eu sou incurável! Eu só posso viver, fazendo a experiência do FORA." É como se fosse uma "praga" - ele não tinha outro modo de viver... senão fazendo a experiência absoluta da solidão e da angústia - para produzir uma obra. Para sair do modelo do homem apaziguado. Eu citei, aqui, o Maurice Blanchot, viu? Num texto sobre Kafka.

(Eu vou colocar dois pontos e abrir umas aspas... e esperar uma pergunta, para ver se está indo tudo bem. Como é, Chico? Eu estou achando que está indo bem, não é? Eu vejo algumas pessoas inquietas. E esses inquietos, eu gostaria que perguntassem... às vezes eu não expliquei bem!...)

(Então, eu vou seguir...)

Aluno: Só uma pergunta... [inaudível]

Claudio: Ele não para o caos - ele procura apaziguar, vivendo num mundo de crenças, num mundo de ilusões - que é exatamente como nós vivemos! Há, inclusive, no nosso mundo - isso é muito nítido! - temas como a morte , por exemplo, que são bloqueados por nós - porque a morte é uma dessas experiências do Fora. Experimentar a morte no pensamento - são essas coisas que são bloqueadas para nós! São feitas práticas de apaziguamento. Nós somos de tal forma apaziguados... - que nós podemos pensar: - Bom, é melhor se apaziguar, do que enfrentar isso! Mas, não! Não! A morte faz parte da vida! Ela tem que ser pensada!

Diz o Lucrécio, que a morte se tornou um terror para nós - porque nós não a pensávamos; e ela se tornou matéria de trabalho do sacerdote religioso. Na hora que o sacerdote religioso começou a pensar a morte, o que ele fez conosco? Disse para nós que depois de mortos nós estaríamos vivos: ele nos prometeu um segundo mundo - e esse é o ponto de maior atemorização que nós temos. A idéia de estarmos vivos depois da morte é o que mais nos aterroriza! E Lucrécio diz ter sido essa a grande vitória do sacerdote - imaginar seu corpo em decomposição... e ainda estar vivo! E isso se explica: porque, ao longo da história, só o sacerdote se dedicou a esse pensamento.

Aluno: [inaudível] a história da morte [inaudível]

Claudio: Lindíssimo, lindíssimo! Você vê que determinados povos, dos séculos passados, levavam a morte a uma valorização muito bonita: muito bonita! Porque aquele que ia morrer, se cercava de todos os seus familiares e de todos os seus amigos para expressar pensamentos - era de uma beleza muito grande! Somos nós que vamos tornando todos esses fenômenos da vida - tem que verificar o motivo disso! - verdadeiros horrores para as nossas vidas!

(Intervalo para o café!)

Há uma prática em filosofia - chamada metafísica. (Certo?) A metafísica é um pressuposto de que a razão (Olha o que eu falei da razão no Aristóteles! Se vocês não entenderam a razão do Aristóteles, vocês não vão entender!) Por isso, eu falei: Olhem, perguntem, perguntem! A razão do Aristóteles - para funcionar - ela pressupõe a sensibilidade? Pressupõe! Logo, a razão só lidaria com objetos físicos - que são os objetos dados pela sensibilidade. Mas a metafísica - é o encontro da razão com as idéias - sem a mediação da sensibilidade. (Vejam se entenderam!)

A razão entraria em contacto com as idéias, sem ser mediada pela sensibilidade. Por isso, um filósofo chamado Platão construiu - na sua teoria - dois mundos: o mundo da sensibilidade - onde se faz física; e o mundo das idéias - onde se faz metafísica. (Entenderam?) É a razão no encontro com as idéias.

Aluno: Não acho que seja viável você conseguir trabalhar só com as idéias sem --?-

Claudio: O Platão admite que sim!

Aluno: Ele admite, mas [inaudível]

Claudio: Olha, é melhor a gente deixar para verificar as críticas que a gente pode fazer em cima disso, porque vão aparecer! Para o Nietzsche, esse mundo das idéias platônicas é ficção - é a maior tolice! Mas quem pense isso! (Certo?)

Agora, prestem atenção: essa metafísica é a razão entrando em contacto com as ideias - que seria o segundo mundo do Platão. Teria o mundo da sensibilidade e o mundo das ideias... Quando a razão entra em contacto direto com as ideias a razão está fazendo...?

Alunos: Metafísica!

Metafísica! Quando é o encontro direto com os objetos da sensibilidade, ela está fazendo uma física. (Entenderam? Compreenderam o que seria a metafísica? Muito bem!)

- Quantos reais existem para o pensamento do Lucrécio?

Dois: o concreto e o abstrato.

O abstrato é quando o pensamento entra em contacto com o real - sem passar pela sensibilidade. Logo, esse contacto do pensamento com o real abstrato - é uma metafísica!... (Vocês entenderam? Se não , eu repito! Foi bem, Bento?)

- Por que eu chamei de metafísica? Porque não é o contacto com a matéria da sensibilidade - é o contacto com o real abstrato. Então, na hora em que o pensamento entra em contacto com o real abstrato, ele está fazendo uma... Metafísica!

O que vocês acharam? Eu tenho que saber se vocês entenderam... porque eu tenho que dar continuidade - e se vocês não entenderam, eu não posso!

Há uma diferença da metafísica do Platão para a metafísica do Lucrécio - mas muito semelhante! Porque para o Lucrécio há um real concreto - para o Platão, há o real concreto. Para o Lucrécio, há um real abstrato - para o Platão, também há um real abstrato. O real abstrato de Platão - são ideias. E o real abstrato do Lucrécio - são forças. (Ficou difícil, não é?)

O real abstrato - é constituído de átomos; e esses átomos são forças. O que aparece aqui - talvez vocês possam entender! - é que quando a gente estuda cosmologia e a gente estuda física... - são duas ciências - e todas as ciências são experimentais. A física nos fala na existência de quatro forças - da gravidade , eletromagnética , forte e fraca. Forte e fraca são as microforças. Inclusive, eu agora estou identificando a forte à eletromagnética. E há alguns físicos - incluído o meu amigo Salim - que procuram uma quinta força no universo... - mas são forças físicas! O real abstrato - é o pensamento lidando com forças metafísicas. (Ficou muito difícil, não é?)

Forças Metafísicas! (Ficou difícil?) Nós ainda não sabemos o que são essas forças metafísicas - mas estamos admitindo a hipótese de que - se existir um real abstrato - existe uma matéria para o pensamento metafísico. E essa matéria para o pensamento metafísico - são forças.

Eu vou dar um exemplo para vocês:

- Eu tenho algumas rugas no rosto? Tenho! - quase todos nós temos rugas no rosto!

- Quem produz as rugas? - O Tempo! O tempo! Então, o tempo tem força! Se não houvesse o tempo - todos os acontecimentos se dariam de uma só vez - pois é o tempo que separa os acontecimentos. O tempo é uma força que verga a matéria. O tempo é uma força metafísica. (Não sei se vocês entenderam bem.)

Por isso - para vocês entenderem - aparece no mundo moderno um pensador - chamado Bergson - que se opõe à teoria da relatividade do Einstein. Por quê? Porque a teoria da relatividade do Einstein é uma física. E o Bergson - quando pensa o Tempo - pensa em termos metafísicos. O tempo é uma força metafísica, que a razão clássica não pode compreender - porque a razão clássica é aquela que - para trabalhar - supõe a sensibilidade. O pensamento seria um poder - da vida - de pensar diretamente essas forças metafísicas.

Aluno: Não teria espaço?

Claudio: Aí seria um físico - espacializador!

- Então, o Bergson - que nesse nível seria um lucreciano - em vez de pensar o real concreto, está pensando o real abstrato - o campo das forças. Pensando as forças, enquanto tais.

Vou dar outro exemplo para vocês:

Existe um pintor - chama-se Francis Bacon. Cada vez ele fica mais famoso: suas telas já passaram no cinema - na apresentação de um filme, se não me engano, do Bertolucci - Último Tango em Paris. Ele começou a ficar famoso!

Mas se vocês verificarem a obra do Francis Bacon - ela surpreende! Porque o Bacon - é uma tentativa de pintar não as formas - mas as forças; não a força da gravidade ou a eletromagnética - mas pintar as forças metafísicas. Por isso que os objetos que aparecem na obra dele são - torcidos , retorcidos , cortados - porque são objetos fustigados pela força metafísica. (Eu não sei se eu fui bem... eu acho que eu fui profundamente infeliz, hein?)

Na próxima aula, eu vou trazer um Bacon para vocês verem, viu? Um álbum dele - para vocês olharem e eu começar a apresentar [esse trabalho] para vocês. O que eu estou chamando de pensamento torna-se uma coisa muito complexa... - porque nós nunca admitimos que um pintor pensasse para fazer a sua obra... - Pintor, pensar? Não ! Pintor copia !?... Assim que nós pensávamos! Eu estou dizendo para vocês - é nítido que é verdadeiro - que na prática das artes práticas de pensamento. O Bacon é um artista plástico - mas a arte dele é uma obra do pensamento. Não o pensamento enquanto razão clássica, enquanto uma razão que tem que dar conta do mundo sensível. Mas enquanto um pensamento que lida - com as forças metafísicas.

francis-bacon2

Questão:

- O que são essas "forças metafísicas"?

(Eu não sei se eu fui muito longe nessa fase, ouviu? Eu estou olhando os rostos um pouco perplexos, então, eu estou em dúvida...)

(Como é que você foi, T.? Tudo bem?)

Aluno: [inaudível] forças metafísicas [inaudível]

Claudio: As idéias? Em Platão, mas no Lucrécio não. No Lucrécio, é o encontro do pensamento com o real abstrato.

Eu estou dando esse exemplo, para depois começar a explicar para vocês o que é o real abstrato. A diferença aqui é que a velha metafísica trabalha com ideias. A nova metafísica trabalha com forças. Não é uma física - não é a força gravitacional! Não é nada disso! São as forças metafísicas - que nós vamos tentar entender aqui. (Fala!)

Aluno: Pois é...

Claudio: Eu ainda não expliquei... eu ainda estou começando a burilar para vocês o que viria a ser isso... Por exemplo: há um autor no mundo moderno, que é muito criticado e combatido... e inclusive desqualificado... e que muitos contra-sensos são ditos sobre ele - é o Michel Foucault. Por que o Michel Foucault é tão combatido? Porque pensam o Michel Foucault sob o modelo da razão clássica. Ele não está com a razão clássica. O mundo do Michel Foucault é constituído de duas regiões - o real concreto e o real abstrato. Não se entende a obra do Michel Foucault se não se entender isso! Não se pode dar conta do Michel Foucault reproduzindo a história e a filosofia clássicas. Só se entende esse autor se nós entendermos essa questão que eu estou levantando para vocês: real concreto e real abstrato. Então, é um movimento de aula que eu tenho que fazer com vocês, para vocês entenderem! Entenderem mesmo , compreenderem, utilizarem como vocês quiserem - fazerem com isso o que quiserem - mas passarem a entender.

(Bom. Eu não vou apertar muito aqui hoje... porque senão vocês acabam caindo no fora - a gente pira! Muito violento isso. Aos poucos, para vocês tomarem contato, viu?)

Eu vou dar outra explicação para vocês:

Há uma palavra em filosofia que se chama ontologia. É palavra básica em filosofia - básica! Fundamento de filosofia! Então - em primeiro lugar - eu vou levá-los a entender o que é ontologia; e - em segundo lugar - a entender uma ontologia clássica e uma ontologia moderna, para vocês distinguirem.

Vejam isso: os povos antigos - e isso são exercícios de historiadores que eu estou narrando para vocês - como qualquer povo, pressupunham o domínio de um certo território para viver. Eles organizavam um território como qualquer povo organiza um território: construíam uma aldeia, construíam uma cidade, etc. Mas esses povos achavam que a geografia terrestre do lugar em que eles viviam era uma cópia de uma geografia celeste. Os povos antigos viviam como se o mundo deles fosse uma réplica - uma reduplicação de um mundo celeste. Ou seja: para eles, o mundo em que eles viviam era um mundo réplica - um duplo; mas o real era a geografia celeste. Esse real é o que se chama ontologia. Ontologia é o real enquanto tal. (Entenderam?) Então - para esses povos - o mundo em que eles viviam era uma cópia de um real superior. (É muito fácil entender isso!)

Você encontra um determinado povo que vive num mundo cercado de rochas... De repente, esse povo pega uma determinada pedra e a torna sagrada... porque supõe que aquela pedra caiu da geografia celeste. (Entenderam?) Aquela pedra vem da geografia celeste para se instalar na geografia terrestre - motivo pelo qual ela é sacralizada! Ou seja: os povos antigos sacralizam o ontológico.

De outro modo, os povos antigos acham que os homens têm dois tipos de comportamento: os comportamentos físico-musculares - sem nenhuma importância; e os comportamentos rituais - originários nos heróis e nos deuses que vivem na geografia celeste. Então, até as práticas comportamentais pressupõem o ontológico. O mundo em que eles vivem é uma cópia da geografia celeste; e as práticas que eles fazem é uma cópia das práticas dos deuses e dos heróis. (Entenderam? Está bem claro, não é?)

Isso daí é uma ontologia; e é com esse modelo que vai ser feita a ontologia platônica. A ontologia moderna não é o pensamento dessa região celeste. E isso é o que se chama "esvaziar o mundo de deuses". Esvazia-se o mundo dos deuses e supõe-se que nós estamos cercados pelo caos. Essa ontologia é uma ontologia do Caos. (É a coisa mais fácil de entender!)

Os povos antigos, ao saírem de sua cidade para fazer, por exemplo, um safári, uma savana, uma viagem, ao chegarem a uma determinada região, achavam que aquela região, em que haviam chegado, não era modelada pela geografia celeste - logo, era uma região caótica: era o caos. Porque, para eles, no nascimento da região celeste, pressupôs-se que deuses e heróis tivessem posto fim ao caos. Haveria, portanto, determinados lugares ainda caóticos, na Terra - porque não seriam modelados pelos deuses e heróis. É por isso que os povos antigos chegam nesses territórios que consideram caóticos e fazem os rituais de criação: para tornar aquele lugar uma cópia da região celeste. (Entendeu, Bento?)

- Qual é a conclusão a que nós chegamos aqui?

Que quando nós lemos todas as teogonias - todas as teogonias que existem na história - é sempre a mesma luta: luta do sagrado contra o caos. Como - na história - há um domínio da religião, o sagrado se instala e o caos é recalcado. Se nós quebrarmos o religioso e o sagrado, o que existe por trás das ordens das nossas vidas é exatamente o caos. E é exatamente esse o pensamento moderno. Fazer ontologia e fazer metafísica na modernidade é fazer a metafísica e a ontologia do caos - isso é Nietzsche, isso é Bergson, isso são todos eles! (Vocês acham que eu consegui passar? Entenderam o que eu disse?)

Então, pelo que eu estou dizendo para vocês, pensar não é pensar o território que nós vivemos. No território em que nós vivemos, não é necessário pensar. Basta falar e ver - porque ele reproduz tudo do nosso mundo. Pensar é um confrontamento com esse caos. Ou então - na prática religiosa - pensar as regiões celestes.

Com a destruição das regiões celestes, o pensamento se defronta com as forças livres do caos, constituidoras dos territórios em que nós vivemos. Então, vai haver agora uma distin...

[fim de fita]


Parte III

Saber - é saber o mundo em que você vive. E pensar - é pensar o caos. Pensar as forças. Não as forças enquanto físicas - mas as forças enquanto metafísicas - porque será exatamente esse pensamento que permitirá a história, as modificações, o tempo, ou seja - tudo o que se processa no nosso mundo. (Fui muito longo, não é? Eu não consegui fechar bem não, consegui?)

- Como é que vocês ouviram isso? Ficou muito difícil, a questão do caos - pensar o caos?

Vocês têm que notar uma questão. Esses levantamentos que eu estou fazendo para vocês, mostram que a minha aula não tem nenhum objetivo de apaziguamento: ela tem o objetivo de estimular o pensamento. O meu objetivo é esse! Eu não quero levar vocês a se apaziguarem, a se acomodarem ou a terem crenças tolas. Mas a usar o instrumento mais precioso da vida - que é o pensamento. Fazer do pensamento o artista superior da nossa vida. Porque senão - a vida se torna insuportável. Ela se torna uma insuportabilidade. Por um motivo simples - porque a todo o momento em que nós pensamos, as categorias do saber, que estão sobre nós, nos destroem. Porque as categorias do saber só nos convidam para uma racionalidade cotidiana... - que nós não sabemos confrontar com as grandes questões da vida.

Aluno: [inaudível]

Claudio: É uma aventura, é uma aventura! Pensem só uma questão - que quantidade de tempo nós podemos pensar que se passou deste minuto agora, para trás? Que quantidade de tempo já passou? Eu posso dizer - um infinito de tempo? Posso: "Nós temos atrás de nós um infinito de tempo. Nós temos, para frente de nós, outro infinito de tempo." Nós somos um pequenino fôlego entre dois infinitos. Isso é a vida: a vida é isso. Mas é exatamente esse pequenino fôlego - entre dois infinitos - que é capaz de pensar. Pensar, inclusive, esses dois infinitos!

Aluno: [inaudível]

Claudio: Tá tudo ali, não é? Tanto o passado, quanto o futuro.

Aluno: Eu ainda não consegui entender exatamente o que significa pensar algo...

Claudio: Porque eu ainda não expliquei... eu vou dando [ao longo das aulas], entendeu? A única coisa que eu [já] dei, com muita clareza, é que isso que eu estou chamando de caos - que é o novo objeto da metafísica - não é um campo das idéias; é um campo de forças - que eu chamei de "forças metafísicas". (Que nas próximas aulas eu começo a explicar - porque é difícil, realmente, tentar dar conta do que vem a ser isso. Eu acredito que eu vou fazer vocês entenderem: não é tão difícil assim! Mais ou menos, salvo equívoco foi uma pergunta que o Bento fez no início da aula. Todos os corpos - que são os concretos - pressupõem neles os abstratos: são os pontos de força. São os pontos de força que constituem a nossa vida! Eu vou dar um exemplo para vocês. O Nietzsche dizia - uma coisa muito difícil de entender - [Claudio tem um engasgo e comenta: 'falar em Nietzsche é sempre um problema, não é? Produz engasgo, coqueluche, tosse...']

O Nietzsche dizia que o homem seria um ser de pouca potência. Por que ele diz isso? Porque quando nós praticamos os hábitos da nossa vida, muitas vezes fazemos e dizemos: "Eu vou fazer isso agora, mas nunca mais vou fazer! Nunca mais eu faço isso!"

O Nietzsche diz: - Haja, na sua vida, de uma maneira tal, que tudo o que você fizer, você queira que se repita pela eternidade. É uma ética terrível! É uma ética quase que impossível para nós. Nós, os homens, somos seres muito fracos! Por isso é que o Nietzsche quer que o homem desapareça e apareça o super-homem. Só agir na sua vida de uma maneira que tudo aquilo que você faz, você queira - literalmente - que se repita pela eternidade. Por isso, ele diz que se sua questão for ser preguiçoso..., leve isso às últimas conseqüências: faça isso sempre! Ele não está moralizando nenhuma prática: qualquer prática - não importa qual. Mas fazer sempre aquilo que você queira que sempre se repita. Porque , você constitui uma ética superior.

A partir do instante em que você agir dessa maneira - você constrói uma pedagogia da repetição: uma pedagogia em que todos os homens só agirão pensando que aquilo vai se repetir - para sempre! Em termos éticos - é isso a doutrina do eterno retorno do Nietzsche. A partir daí, uma preguiça é uma força. Não sei se vocês entenderam? É força - força da vida! É a força de fazer a sua vida, de cometer os seus atos. São essas as forças metafísicas - é aquilo que constrói a sua existência no mundo: a sua maneira de se compor com isso, de se separar daquilo... Porque, vocês não tenham dúvida: o homem se explica por isso! O homem se explica pelas composições que ele faz: qualquer homem! Pode-se compor com qualquer coisa... mas..., de que maneira?

Por exemplo: há um filme do Sergio Leone - e os filmes do Sergio Leone, vocês já sabem que são barra pesada, não é? Em que há um determinado gângster que se vira para um amigo e diz assim: "Olha, eu tenho que fazer isso que eu faço, porque só duas coisas me afetam: mulher e grana. Nada mais me afeta! Eu não consigo ver mais nada! Eu olho para o mundo e só vejo duas coisas - mulher e grana..."

- O que está sendo dito aqui?

É que as forças que constituem a nossa vida são os nossos afetos! O que - exatamente - me afeta, e o que não me afeta? Aquilo que te afeta, fazer uma composição para elevar ---. O Nietzsche não diria que o gângster é um mau sujeito, não!!!! É esse o afeto dele? Leve-o às últimas consequências... e aguente as consequências! Mas levar seus afetos às últimas consequências..., sabendo que os afetos e as forças que nos constituem podem ser inventados... - nós podemos inventá-los. Se você não tem um afeto... - produza-o! invente-o!

Se eu pegar hoje - por exemplo - um menino de favela, e colocá-lo para ouvir uma Ópera, ele vai cuspir... e, daqui a cinco anos, ele poderá estar composto com a Ópera!? Produzir o afeto; estimular o afeto; gerar composições. São exatamente essas as forças metafísicas. São essas forças metafísicas que explicam o que nós somos. Com o quê, nós vamos compor as nossas vidas!

Então está bom por hoje - tá? Já deu para vocês levarem pensamento à vontade para casa, não é? E eu continuo a insistir nessas teses lindíssimas - para vocês a dominarem amplamente. Eu vou trazer textos para ajudar!

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Aula de 16/06/1992 – Lucrécio e a ontologia da ilusão

capa-grande-aventura[Temas abordados nesta aula são aprofundados nos capítulos 2 (O Extra-Ser e a Similitude); 8 (As Singularidades Nômades) e 12 (De Sade a Nietzsche) do livro "Gilles Deleuze: A Grande Aventura do Pensamento", de Claudio Ulpiano. Para pedir o livro, escreva para:webulpiano@gmail.com]

 

 

"Quando a gente fala nesse tema da inquietação e da perturbação da alma, muitas pessoas pensam que é coisa da antiguidade. Não, não é nada disso. Todas essas inquietações que as nossas almas têm, é porque o pensamento está penetrado por esse negativo. Agora, esse negativo, que são os fantasmas de terceira espécie (é um momento teórico muito difícil), os fantasmas de terceira espécie são a ilusão, e as ilusões são governadas pelo homem criminoso ― o homem criminoso é o religioso, e, daí, nascem as religiões. Mas, se por acaso, o nosso pensamento puder lidar com esses fantasmas de terceira espécie, nós poderemos inclusive gozar com eles. (Não sei se ficou bem...). Nós poderemos gozar, rir com eles, com esses fantasmas de terceira espécie; ter prazeres com eles. Transformá-los em estéticos."

Os corpos são constituídos de átomos e vazio: são dois infinitos. Quando esses átomos se agregam, quando eles se juntam, formam os corpos. (Já começam a aparecer as questões) Ou seja, um corpo, o que se chama de corpo, não é, de modo algum, um átomo. Um corpo é sempre um conjunto de átomos. O que também nos leva a uma conclusão imediata: os corpos, à diferença dos átomos, são duração. Os corpos duram, enquanto que os átomos são eternos.

Por que os corpos duram? Esses agregados de átomos, essas combinações de átomos, fazem-se e se desfazem. O que de imediato nos leva a dizer que não existe nenhum corpo eterno. Não é possível encontrar um corpo eterno. Todos os corpos estão necessariamente na duração. Pode ser até mesmo um corpo com dois átomos. Na verdade, um átomo da Física Quântica é um corpo. (O físico quântico ficaria muito contente com isso, não é?) O átomo deles é um corpo, porque é constituído de partes. O que o atomista grego diria é que o átomo da física quântica é constituído de... átomos, não é? Então, nós aqui temos que, de imediato, opor a eternidade dos átomos à duração dos corpos. (Entenderam?) Todos os corpos estão necessariamente na duração. Não há outra hipótese para se pensar o corpo. Então, o que nós passamos a saber, é que os corpos se fazem e se desfazem. Se a física atual pensasse assim, talvez abandonasse a teoria do Big Bang.

(Nosso amigo, Mário Novello, do Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas, está abandonando a teoria do Big Bang, não é? (Aluno: É!) Há já alguns anos, não é agora no Jornal do Brasil, não. Já faz alguns anos ele vem abandonando essa teoria).

Agora, se esses átomos juntos constroem os corpos, são esses corpos que vão passar a se chamar objetos sensíveis. São os corpos que nós chamamos de objetos sensíveis; não os átomos. O que nós chamamos de objeto sensível são os corpos. Então, é nítido que neste Universo existe o que se chama o sensível.

― O que é o sensível? O sensível é o corpo. Todo corpo é da ordem do sensível ― isso é definitivo! Os átomos percorrem [atenção que eu só vou voltar aqui nas outras aulas...] esse Universo numa velocidade infinita. Difícil falar sobre as velocidades dos átomos neste instante! Mas eles percorrem este Universo numa velocidade infinita. Então, seria um elemento que estaria incluído na lei atômica (vejam bem, eu disse lei atômica, eu não disse lei dos corpos, eu disse lei atômica! – é sempre preciso ter em mente que ao falar em átomo e falar em corpo eu não estou falando a mesma coisa. Átomo é uma coisa, corpo é outra. Então, os átomos que estariam nessa velocidade infinita.

Colocada a ideia de corpo e o corpo identificado como o sensível, numa linguagem não-lucreciana, não-atomística, surge algo que eu posso chamar de fenômeno ― aquilo que aparece: o corpo é aquilo que aparece. O universo é povoado de aparições. Há coisas que aparecem neste universo. As coisas que aparecem neste universo são justamente os corpos, (tá?).

Os atomistas, então, vão dizer que se esse universo é constituído de corpos, logo, de elementos sensíveis, esses corpos podem tocar uns nos outros; podem se encontrar... Os corpos podem se encontrar, da mesma forma que os átomos também podem se encontrar. Na verdade, se os corpos se encontram, os átomos também se encontram. E se por acaso, neste universo sensível, existisse algum ser que tivesse o poder de apreender os outros seres, digamos, um ser que fosse dotado de percepção... Um ser dotado de percepção é um ser que tem o poder de apreender os outros seres. A percepção é exatamente isso: uma potência de apreensão. Se houvesse um ser que pudesse aprender os outros seres, esse ser só faria isso se os outros seres tocassem nele. /, porque isso daqui está parecendo uma teoria da percepção de altíssima dificuldade. O que eles estão dizendo é que se nós percebemos, nós os humanos, ou os seres vivos percebem alguma coisa, é porque, esta alguma coisa que é percebida, emite átomos.

Nós só podemos perceber se os átomos que constroem um determinado ser sensível nos tocarem. Eles estão construindo uma teoria da percepção altamente sensual, ou seja, nós percebemos o mundo pela percepção, olhamos, ouvimos, sentimos temperatura, tato, gosto, palato ― tudo isso porque os átomos nos tocam. Se houvesse um ser sensível qualquer que não emitisse átomos, nós não entraríamos em contato com ele. Ou seja, isso faz com que todo objeto sensível emita átomos. E é uma coisa muito difícil de entender. Todos os objetos sentidos emitem átomos. Eles estão...

Aluno: Emitir, no sentido da palavra?

Claudio: Emitir, no sentido radical; porque eu sempre digo, James, que eu não trabalho com metáfora, é sempre no sentido literal: sempre aquilo que está sendo dito. Então, o que eles estão falando é uma teoria muito bonita e muito difícil, que é a teoria da emissão. O que está sendo colocado aqui é que um corpo é constituído por um conjunto de átomos; e esse corpo, que é constituído por um conjunto de átomos, emite átomos. Por exemplo, nós vamos num jardim e sentimos o cheiro de uma flor. O que é o cheiro dessa flor? É a flor emitindo átomos. Logo alguém pergunta: "e por que essa flor não emagrece? Se ela emite átomos, ela deveria emagrecer!" A teoria atomista se explica não só pela constituição dos indivíduos; ela se explica também pelo meio: todos os seres estão num meio onde há um infinito de átomos. Eles são banhados por átomos. Banhados! Por isso, os átomos se desprendem do corpo deles, mas outros átomos entram para substituir. Ou seja: essa substituição de átomos é permanente.

Se vocês lerem a explicação do que é uma célula, ou do que é uma molécula, vocês vão entender perfeitamente essa questão. Porque se uma molécula viver dez anos, ela vai ter uma permanente troca de moléculas dentro dela. É incrível: o que se mantém é apenas a estrutura. É só uma leitura ligeira e vocês vão se aproximar perfeitamente dessa ideia, porque o que eles estão dizendo é de alta modernidade. Então, não existiria sequer um ser que não fizesse essa emissão de átomos. Essa emissão de átomos vai ser chamada por eles de simulacros. Os átomos emitem simulacros. Esses simulacros são exatamente aquilo dos seres sensíveis com que nós tomamos contato. Neste instante, o Leão está sendo visto por mim e por vocês, porque ele está fazendo emissões de átomos. Nossos corpos, ou todos os corpos, não param de fazer essas emissões ao infinito: sempre emitindo átomos. E eles então...

Aluno: O sensível é o corpo ou é o átomo?

Claudio: O sensível é o corpo.

Aluno: O átomo não é sensível?

Claudio: Não. O átomo, eu ainda não falei; foi a mesma pergunta da Ângela. Eu ainda não falei sobre o átomo. Eu agora estou preocupado com o corpo. Para ficar mais claro, chamem o átomo de simples e o corpo de composto. (Entendeu?) O corpo é um composto de átomos. Então, na hora que eu vejo o Leão, é porque o Leão está emitindo compostos. Todos os corpos emitem compostos.

Aluno: Eles emitem compostos ou simples?

Claudio: Compostos!!! Mas todo composto é constituído de quê? De simples; mas o que ele emite são compostos.

Aluno: Ah, tá! Ele não emite um átomo, eu pensei que...

Claudio: Ele não emite um átomo! Ele emite composto!

Alunos: Ele emite simulacros, é o composto!

Aluna: É a organização desses átomos...

Claudio: Exatamente! Ele emite a estrutura, porque, senão, como é que eu ia ver o Leão? Eu ia confundir o Leão com você... Esses simulacros são compostos.

Lucrécio fala em dois tipos de emissão: a emissão de profundidade e a emissão de superfície. Isso vai nos dar muito trabalho na frente. Não, hoje; que é uma exposição genérica! Ele fala na emissão de átomos de profundidade e átomos de superfície. Então, ao colocar isso, eles estão colocando uma teoria muito difícil, que é a das duas espécies de emissão: a emissão de profundidade e a emissão de superfície ― que é por onde eu acredito que eu vá fazer uma teoria física para vocês. E talvez também uma teoria estética. Mas certamente eu farei uma teoria física.

Agora, pelo que eu estou dizendo, nós temos dois processos de emissões feitas pelos corpos: a emissão de profundidade e a emissão de superfície ― que são as duas primeiras espécies do simulacro. E aí eles introduzem uma coisa terrível... a terceira espécie de simulacro, que eles chamam de fantasmas.

Então, vejam bem hein? Neste instante, se os corpos emitem, eu vou passar a dar um novo nome ao corpo: o corpo é uma fonte. Fonte de quê? Fonte de átomos, fonte de emissões. Todo corpo é uma fonte. Uma fonte em renovação perpétua. Essa fonte não para de se renovar. Então, não há sequer um corpo que não seja uma fonte de emissão de átomos. Essa fonte emite átomos de profundidade e átomos de superfície ― que eu estou deixando um pouco para o lado. E, em seguida, eles vão colocar a terceira espécie de simulacros, que eles chamam de fantasmas. Essa terceira espécie de simulacros ― que são os fantasmas ― eles dividem em teológicos, oníricos e eróticos: Fantasmas teológicos, oníricos e eróticos. Atenção!, a dificuldade aqui é terrível! Então, apareceria um tipo de emissão que é a terceira espécie ― que eles chamam de terceira espécie! ― que são os fantasmas ― onde aparece o erótico, o onírico e o teológico. São os fantasmas.

Vejam: esses fantasmas não são criados por um sujeito. Não são fantasmas criados por uma ficção, são absolutamente reais! Absolutamente reais, esses fantasmas fazem parte da emissão de um corpo: originam-se numa fonte. Agora, o que define a fantasmática, o que define o fantasma do Lucrécio é que o fantasma é o simulacro distanciado da fonte. Enunciado um pouco difícil!

O que eu estou dizendo, é que quando o Leão emite os seus simulacros, os seus compostos, e eu vejo o Leão, esses simulacros ― que o Leão está emitindo ― prosseguem: eles prosseguem; eles vão embora... vão embora toda a vida! Ou seja: os simulacros vão se distanciando da fonte. O que eu estou chamando de fantasma é um simulacro distanciado da fonte.

Aluna: Claudio, não é uma escolha dirigida, então, para um percepto, para uma percepção...

Claudio: Não.

Aluna: ...eles se espalham o tempo todo?

Claudio: Os simulacros não nasceram ― isso aqui é para acabar com qualquer modelo religioso: os simulacros não nasceram para serem apreendidos por uma percepção. São apreendidos por uma percepção; mas não nasceram para isso. É a lei dos corpos. A lei dos corpos é a renovação permanente. Então, a emissão é constante. Mas, esses fantasmas se distanciam da fonte. E ao se distanciarem da fonte, aí eles parecem (a palavra parecer, aqui, é um pouco equívoca) ganhar uma autonomia.

Ganhar uma autonomia é: eles parecem independer das fontes que os emitiram. Não sei se ficou bem aqui, certo? Ao parecer independer das fontes que os emitiram, evidentemente, eles passam a ter, mais ou menos, uma autonomia... E mais: quanto mais distantes das fontes eles ficam, mais perdem suas conformações.

Aluno: Aí, eles podem ser interpenetrados por outros simulacros?

Claudio: Podem! É isso que eu estou dizendo. Mais eles se distanciam das fontes, eles vão perdendo as suas conformações, e vai aparecendo uma coisa estranhíssima, que é a interpenetração. Eles começam a ser penetrados por outros simulacros.

Aluna: Claudio, essa ideia de deformação tem alguma coisa a ver com o conceito de simulacro do Platão?

Claudio: Tem! Eu vou juntar depois, viu?

Aluna: O Lucrécio é contemporâneo do Platão?

Claudio: I a.C.. Morreu aos quarenta e poucos anos, completamente louco... as crianças jogavam pedras nele... Não tinha outro jeito, não é? Esses simulacros se distanciam, não é? Separam-se das fontes. Mas eles podem ser apreendidos pela percepção, da mesma maneira que os simulacros que têm fonte. Então a nossa percepção pode apreender ― eu posso apreender ― tanto o Leão, quanto o simulacro. Tá? Eles têm a mesma característica das práticas emissoras. Eles são seres sensíveis... apreensíveis! Apreensíveis!!

Aluno: E eles são sempre corpos!

Claudio: São corpos, são corpos! São reais, concretos. Inteiramente reais e concretos. Tá?

Então, aqui começa a aparecer uma teoria, cuja importância eu ainda não posso sustentar, mas são esses simulacros, esses fantasmas, que vão ser a origem dos mitos.

Eu tenho que trabalhar muito devagar, porque é dificílima a teoria dele ― é de uma beleza excepcional, mas é dificílima! Origem dos mitos, eu aqui vou usar um autor chamado Michel Tournier, que literalmente é um romancista que, sem dizer, usa muito Lucrécio.  O Michel Tournier conta que uma determinada tribo no deserto africano tinha um mito ― que o vento que vem do norte traz a morte. Então, sempre que soprava o vento do norte, essa tribo admitia que a morte estivesse chegando. E aí ele vai e narra que séculos antes as tribos nômades vinham do norte, e passavam como uma ventania, e devastavam as cidades. Como as tribos nômades do norte desapareceram, desapareceu a fonte, mas ficou o simulacro, ficou o fantasma. Certo? O Mito é produto do distanciamento das fontes.

(Que beleza, não é?) Produto do distanciamento das fontes!

Então, esses fantasmas, como dizem eles, são teológicos, eróticos... (Eu não vou falar no erótico hoje, porque eu tenho certeza que quando eu for falar vai dar um problema terrível, certo?)...e oníricos. O que me faz agora dizer, ― e vocês prestem atenção ao que eu vou dizer! ―, que os nossos sonhos, de modo algum, estão associados às nossas memórias. Estranhíssimo isso que eu estou dizendo. Porque, para ele, o sonho é um enfraquecimento ou uma modificação do corpo ― o nosso corpo se modifica ― fica mais fraco, ou coisa que o valha, perde a potência ascensional, e esses simulacros penetram nele com muita facilidade. O sonho nada mais é do que a apreensão desses fantasmas de terceira espécie. Por isso, nós sonhamos as coisas mais incríveis... que se nós ligarmos com a nossa biografia pessoal, nós não entendemos, é isso que ele está dizendo. Como esses fantasmas estão sempre se misturando, começa a aparecer para nós, cérberos, centauros, dragões de fogo, cavalos alados... E isso tudo que está aí não é, em nada, produzido por um sujeito. É absolutamente real! Isto é absolutamente real, vocês estão entendendo?

Aluno: Uma espécie de ontologia do fantasma?

Claudio: Uma ontologia do fantasma!... Uma ontologia do fantasma! Eles não estão precisando produzir nada fora da natureza. Tudo está no interior da natureza: tanto os átomos, como o vazio, como os compostos, como os fantasmas de terceira espécie. Tudo está na natureza. A natureza é constituída por átomos, pelo vazio, pela composição do átomo e do vazio, pelos excessos... e, por causa das emissões, começa a surgir o teológico, o onírico e o erótico.

O teológico, o onírico e o erótico seriam os responsáveis pelas superstições e pelos terrores. Os grandes terrores e as grandes superstições viriam exatamente dos fantasmas de terceira espécie.

Agora, vamos parar aqui um pouquinho.

O Lucrécio é um físico. Físico. Por que físico? Fácil: é uma teoria atômica. Ele faz uma teoria atômica. Mas ele vai explicar ― eu vou usar uma linguagem moderna! ― que o trabalho dele é especulativo.

― O que quer dizer especulativo? São sínteses do pensamento. Isso é o especulativo! Mas, o objetivo do especulativo é o prático. O que quer dizer isso?

A questão dele não é epistemológica ― a questão dele é ética. Por quê? Por quê? Toda a obra dele é para provar que nós, depois de mortos, estamos mortos. É a única questão que ele tem. Só essa questão: provar que depois de mortos nós estaríamos mortos. Por que isso? Porque, esses fantasmas de terceira espécie ameaçam de tal forma, que nós vamos chegar a admitir estar vivos depois de mortos. E diz ele: nesse momento aparece a coisa mais terrível: o surgimento de mais dois infinitos.

― Quantos infinitos nós tínhamos? Três. Tem mais, mas eu só dei três. Os átomos, o vazio e a composição. Agora, ele vai dizer que esses três infinitos são os verdadeiros infinitos. E vão aparecer agora dois falsos infinitos. Esses dois falsos infinitos, que vão aparecer em função dos fantasmas de terceira espécie, é o poder do corpo para o infinito de prazeres; e o poder da alma para a infinita duração. Estranho! Terrível! O corpo, com o infinito poder de ter prazeres e a alma com o infinito poder de durar. Então, ele coloca que esses dois infinitos ― que o corpo poderia ter prazeres ao infinito ― nos leva a desejar a eternidade. Olha como é que a gente começa a entender as questões!

Aluna: E a eternidade seria um falso infinito?

Claudio: Falso! Porque eternos só são...

Alunos: Os átomos.

Claudio: Os átomos! Então, todo o objetivo de fazer com que os nossos corpos existam eternamente estaria nesse falso infinito da capacidade infinita dos prazeres, diz ele. O outro aspecto do falso infinito é a duração infinita da alma. Mas quando aparece a infinita duração da alma, surgem as dores eternas. Porque se a alma pode durar eternamente, ela também pode sofrer dores eternas. É exatamente isso que vai gerar a aparição do campo social do homem religioso ― que é o criminoso. O criminoso, que é o homem religioso, só pode existir através da tristeza dos outros. Por isso, o religioso só trabalha com falsos infinitos.

Aluno: Por que você fala "criminoso"?

Claudio: Criminoso porque ele é o produtor das tristezas ― que é o maior crime que pode haver para o Lucrécio. Por quê? O Lucrécio diz que se nós fizermos uma panorâmica do homem, o que nós vamos encontrar no homem ― em todos os homens ― é a perturbação das suas almas. O homem tem sua alma inteiramente perturbada. A tal ponto, ele diz, que o grande temor dos homens não é a dor física; o grande temor dos homens é a perturbação da alma. Um exemplo aqui é a AIDS, a AIDS... Porque ele dá exemplo de pestes. Então, para ele, é a alma perturbada ― e essa alma é perturbada exatamente por causa dos fantasmas de terceira espécie ― que provoca a nossa infelicidade.

Aluno¹: A alma também é composta de átomos?

Claudio: Claro! É só átomos e vazio.

Aluno²: A alma também seria um corpo, não?

Claudio: Sim, corpo, corpo! Não há nada que não possa ser corpo.

Aluno¹: Pois é, mas aí você teria o corpo e a alma como dois corpos.

Claudio: Tudo é corpo! Tudo é corpo!

Aluno²: Independentes?

Claudio: Quando se está vivo, não são independentes, não é?

Aluno²: Então, o que são?

Claudio: Um composto, um composto!

Aluno¹: Então, Claudio em que o corpo se diferencia da alma?

Claudio: Provavelmente pelos átomos da alma serem mais finos. Isso tudo eu vou falar na próxima aula que é ― a lei do átomo. O importante aqui é começar a entender que o negativo (eu posso traduzir a palavra “negativo” por ilusão: negativo-ilusão), a ilusão de modo nenhum é uma invenção ― a ilusão é real.  Uma ontologia da ilusão. A ilusão é real, (entenderam?) A ilusão pertence ao campo ontológico. Numa outra linguagem, a ilusão pertence ao plano de imanência. (Ficou muito difícil aqui? Hein, Silvia?) A ilusão pertence ao plano de imanência. (atenção para isso, hein?) A ilusão pertence ao plano de imanência. Eu poderia até dizer mais: que muitas filosofias que nós encontramos são produtos de fantasmas de terceira espécie. Ele vai dizer coisas desse tipo para Platão. A obra de Platão se originaria nos fantasmas de terceira espécie. Não sei se ficou bem aqui. Ou seja: tudo aquilo que nos leva a construir objetos transcendentes ― objetos que não estão no plano de imanência ― são originários no fantasma de terceira espécie. Para ele, só existe o plano de imanência, ― mas é preciso saber que esse plano de imanência é constituído só por positividades. A ilusão também é uma positividade. Nós passamos a descobrir que há um negativo que percorre a natureza. Um negativo que percorre a natureza.

(Não sei se ficou bem aqui).

Aluno: Que negativo é esse?

Claudio: O negativo são os fantasmas de terceira espécie. Ele é real, ele está aí. E é exatamente em cima desses fantasmas de terceira espécie que vai aparecer o homem religioso. O religioso aparece em cima dele para nos dizer que nós somos pecadores, somos não sei o quê, não sei o quê... em função desses fantasmas de terceira espécie. Como a experiência dos fantasmas de terceira espécie é absolutamente real, esse fato de ser real garante o enunciado do homem religioso.  O que vai ser dito agora é que o homem religioso faz uma espécie de composição ― avidez e cupidez, e constrói crimes incessantes: ele vive em função da tristeza dos homens.

A partir daí nós já temos uma entrada no campo político. A entrada no campo político será que é exatamente o medo da morte, ― mas, agora, a noção de medo da morte tomou um cunho muito grande: porque é medo de morrer, [quando ainda não estamos mortos; e de depois de mortos estarmos ainda vivos...  ]

(final de fita)

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Parte 2:

Aluna: De alguma maneira... Os átomos não são eternos? Quer dizer, então, de alguma maneira, o corpo também não seria eterno?

Claudio: Não! O corpo se desmancha, porque o corpo é um conjunto de átomos ― ele se desmancha!... Não há eternidade possível para o corpo.

Aluno: Agora, vamos supor, você morrendo, que o corpo desmancha e os átomos que formavam aquele corpo são eternos?!

Claudio: Eternos, eternos! Ele está trazendo uma coisa muito bonita, ele está constituindo uma eternidade na matéria ― é um materialismo excepcional! A eternidade está na matéria. E, nessa tese dele, ele não vai precisar sequer uma vez de um Deus. Eles não vão precisar de deuses. Ainda assim, ele trabalha com deuses.

Aluna: Isso me lembra aquele negócio do “tu és pó e ao pó retornarás”. Se você substi...

Claudio: Não retorna ao pó, retorna ao átomo.

Aluna: Pois é, mas se você substituir pó por átomo...

Claudio: É. Só que o átomo não é o pó, é a coisa mais ilustre que existe, não é? A coisa mais ilustre que existe!...

Vejam que a apresentação que eu estou fazendo pra vocês é muito simplória, nós não temos ainda idéia do que vai acontecer aqui! Ah, e antes de entrar aqui no Deleuze ― eu vou começar a colocar as questões que o Deleuze vai citar ― para vocês dominarem mais amplamente, eu quero fazer uma colocação para vocês. Colocação difícil e terrível! Que é: isto se chama plano de imanência. Por quê? Porque eu constituí a física e a ilusão no mesmo plano. Dentro da Natureza. Não tem nada fora da Natureza ― tudo vem da Natureza. A própria natureza nos envolve numa miragem. A miragem são os fantasmas de terceira espécie.

Por exemplo: de alguma maneira, o Espinosa reproduz o Lucrécio. Por isso, o Espinosa constrói, na obra dele, um método chamado método reflexivo ou formal ― e nesse método, o objetivo do Espinosa é fortalecer o pensamento. Ou seja, o fortalecimento do pensamento nos livraria da dominação dos fantasmas de terceira espécie. Mas gravem esses fantasmas de terceira espécie, hein? Porque eu vou trabalhar excessivamente neles e possivelmente será a partir deles que eu vou construir o mundo estético, hein? Esses fantasmas terríveis talvez venham me permitir a construção do mundo estético.

Porque ― aqui não fica muito difícil de falar ― vocês sabem que os objetos da obra de arte são pura ficção, são pura ilusão: eles são fantasmas de terceira espécie!

(Foi bem assim?)

Aluno: Claudio, a função fabuladora é parente desse...

Claudio: Aparenta aí. Se eu usasse o Bergson, seria sim. Se eu usasse a função fabuladora, apareceria aí, exatamente. Depois eu explico, está corretíssimo! Corretíssimo!

Bom. Antes de entrar aqui em Deleuze, só mais uma explicação para vocês:

Esses átomos se movimentam: eles têm movimento. E o Lucrécio fez uma teoria das emissões e distribuiu em três: profundidade, superfície e os fantasmas de terceira espécie ― simulacros teológicos, etc. A velocidade desses três é uma velocidade diferente: eles não têm a mesma velocidade. Os emitidos têm velocidade diferente. Então, a velocidade dos simulacros de profundidade é uma, a velocidade dos fantasmas de superfície é outra, a velocidade dos fantasmas de terceira espécie é outra. Se são três velocidades, nós temos três tempos. Os tempos se encaixam um no outro, mas são três tempos diferentes. Nós aí já saímos da tolice de pensar que o tempo é Uno ― o tempo é múltiplo.

(Não sei se vocês entenderam...)

Porque, no começo da aula, eu coloquei que o tempo é dependente dos corpos, o tempo é dependente do movimento. Se você tem movimentos diferentes, você tem tempos diferentes. Essa é a notável teoria que ele está elaborando. Esse vai ser um dos temas difíceis para nós.

E o outro tema difícil, é a exploração desse fantasma da terceira espécie. Que até agora eu coloquei como sendo o homem religioso, não é? Isso vai ser terrível para nós. Vai-nos dar muito trabalho, como também vai dar trabalho a questão do erótico. Porque eles vão fazer uma condenação radical a Eros; uma condenação radical ao amor. E vão fazer o cântico de Vênus Voluptas. Cântico de Vênus.

“Ao descrever a história da humanidade, Lucrécio nos apresenta uma espécie de Lei de Compensação”. Bom, não é isso o que interessa, não.

Ele diz aqui. A questão do Lucrécio eu vou dar umas três ou quatro aulas, viu? Eu não posso dar menos: é impossível!

Eu disse pra vocês a distinção do especulativo e do prático. O especulativo é epistemológico. O prático, ética. Tá? Toda a filosofia lucreciana objetiva a prática. Então, o fim ou o objeto da prática é o prazer. Fantástico o que ele está dizendo: a questão da prática, a questão da ética é o prazer. O prazer se opõe à dor. Então, todo o objeto da prática é o prazer. “Ora, a prática nesse sentido nos recomenda apenas todos os meios de suprimir e de evitar a dor”. Isso como fundamento prático: suprimir e evitar a dor. E aqui vai começar a aparecer a teoria belíssima dele: “Mas nossos prazeres têm obstáculos mais fortes que as próprias dores”. Esses obstáculos são “os fantasmas, as superstições, os terrores, o medo de morrer, tudo o que forma a inquietação da alma.” (Deleuze, Lógica do Sentido - Apêndice 2, p.279, editora Perspectiva, 1975). O grande obstáculo para o prazer não é a dor física. São exatamente as inquietações da alma. “O quadro da humanidade é um quadro da humanidade inquieta, aterrorizada mais que dolorida (mesmo a peste se define não penas pelas dores que transmite, mas pela inquietação generalizada que institui.” (idem).

Então, nós temos que sempre levar em conta essa figura chamada inquietação da alma. Vocês perceberem que ele está conduzindo tudo para uma ética, mas essa ética do Lucrécio se sustenta na Natureza. Se ela se sustenta na Natureza, o fundamento para se chegar a essa ética é que o pensamento possa dominar os fantasmas de terceira espécie para atingir e compreender as leis da natureza. Se o pensamento atingir e compreender as leis da natureza, as inquietações da alma vão ser vencidas. Porque toda a questão do homem está centrada na inquietação da alma. Inquietação da alma em que todos aqui somos mestres, não é? Temos pós-graduação disso. O homem tem pós-graduação em inquietação da alma.

“É a inquietação da alma que multiplica a dor”; (a alma tem esse poder: multiplicar a dor.) “é ela que a torna invencível, mas sua origem é profunda. Ela se compõe de dois elementos: uma ilusão vinda do corpo, que é uma ilusão de uma capacidade infinita de prazeres; depois uma segunda ilusão projetada na alma, ilusão de uma duração infinita da própria alma, que nos entrega indefesos à ideia de uma infinidade de dores possíveis depois da morte”. (ibidem)

Quando a gente fala nesse tema da inquietação e da perturbação da alma, muitas pessoas pensam que é coisa da antiguidade. Não, não é nada disso. Todas essas inquietações que as nossas almas têm, é porque o pensamento está penetrado por esse negativo. Agora, esse negativo, que são os fantasmas de terceira espécie (é um momento teórico muito difícil), os fantasmas de terceira espécie são a ilusão, e as ilusões são governadas pelo homem criminoso ― o homem criminoso é o religioso, e, daí, nascem as religiões. Mas, se por acaso, o nosso pensamento puder lidar com esses fantasmas de terceira espécie, nós poderemos inclusive gozar com eles. (Não sei se ficou bem...). Nós poderemos gozar, rir com eles, com esses fantasmas de terceira espécie; ter prazeres com eles. Transformá-los em estéticos. Foi a questão que o André me perguntou... a questão da função fabuladora: você deslocar o governo. O governo desse fantasma de terceira espécie. Não deixar que ele seja governado pelo religioso. Passar a ser governado por homens que entendem dele, homens que o pensam e, que entrem no campo de pensamento.

Os fantasmas de terceira espécie têm grande independência em relação aos objetos que são suas fontes: eles têm independência em relação às fontes. E são de uma extrema inconstância De uma inconstância terrível. E aqui novamente aparece uma coisa muito difícil. Esses fantasmas são inconstantes, mas sob um céu permanente. Nós os encontramos o tempo inteiro ― uma inconstância terrível! Mas há um céu permanente que eles sobrevoam. (Não entenderam aqui, não?) Esses fantasmas percorrem o universo. Percorrem! Quando você me perguntar o que é o cérbero ― o cão que é porteiro do inferno; o que é o centauro? Não é nada mais do que esses fantasmas, nada mais do que isso. E nós não paramos de ter contato com eles. Nós encontramos uma coisa incrível. É que esses fantasmas de terceira espécie são caóticos. Eles são o caos, o caos integral, e não são produzidos pelo sujeito. Eles são encontrados pelo sujeito. O encontro que o sujeito faz com esse caos é originário em modificações no sistema tensional do sujeito. Modificação no sistema tensional é o sono, é o amor, é a superstição. Modificado o sistema tensional, você começa a fazer a apreensão desses fantasmas. É importante que a gente entenda que há um caos nítido na natureza, e que esse caos se origina nesses fantasmas da terceira espécie. Esse caos não é produzido pelo sujeito, mas é apreendido por ele. Ele se identifica, literalmente, à imaginação do Hume, que eu venho dando pra vocês. É absolutamente a mesma coisa. Vocês se lembrarem que a imaginação do Hume não é uma faculdade ativa. É um poder que as imagens têm de se misturar livremente. Então, o que nós temos agora que aceitar, aceitando Lucrécio, é que nós somos banhados por esse caos de terceira espécie. Banhados por ele.

(Não sei se ficou bem aqui.)

O Lucrécio vê uma única saída para isso. Suprimir esses fantasmas. A supressão deles não é fazer com que eles desapareçam. É ter um outro tipo de relação com eles. É o entendimento das leis da Natureza. Quando ele diz entender as leis da Natureza é a maneira de suprimir a ameaça que esses fantasmas de terceira espécie nos fazem, ele está dizendo que nós temos que levar o pensamento às últimas consequências. E a função do pensamento passa a ser confrontar-se com o caos. (Eu nunca vi coisa tão nítida, tão nítida!) O confrontamento com o caos. Vejam bem, talvez ainda não esteja claro: o caos é sinônimo de velocidade infinita. Isso que é o caos. Caos não é desordem ― é velocidade infinita.

Fala, Jimmy:

Aluno: Vem cá, nesse caso, o pensamento suprimiria o teológico, ou...

Claudio: E o erótico e o onírico. Não quer dizer que ele suprimiria a existência. No momento que você entende as leis da Natureza, você passa a entender o funcionamento desses fantasmas de terceira espécie. Entender o funcionamento dele. Toda questão é o pensamento entender como eles funcionam. Como o caos funciona. No momento em que você passa a entender como ele funciona, ao invés de se submeter a ele, você passa a criar ali dentro. Alguma coisa ficou terrível aqui: é que o pensamento tem como matéria o caos. Isso daqui que é importante. A matéria do pensamento é o caos. Caos = velocidade infinita. O pensamento tem que se defrontar com a velocidade do átomo, com a velocidade das emissões, com a velocidade dos fantasmas de terceira espécie. Ele tem que se defrontar com esse CAOS o tempo inteiro.

Aluna: Agora, o pensamento seria alguma coisa interna à subjetividade, ou seria externa?

Claudio: Nós temos que ver ainda o que é o pensamento, porque seja lá o que for, o pensamento tem que ser o quê? Átomos, não tem jeito. Não tem jeito, porque tudo nesse universo são átomos e vazio. Nós não temos como sair disso daqui. Inclusive, para se compreender melhor, o Lucrécio e o Epicuro combatem ao extremo o homem religioso ― é o criminoso. Esse é o criminoso: produtor das paixões tristes.  Mas eles dizem que existem deuses. Existem deuses. E depois nós vamos ver por que existem deuses. Os deuses deles existem nos intermundos, e são constituídos de átomos muito finos, tão finos são os átomos dos deuses, que eles não tocam nos átomos da matéria. São finíssimos! Então, eles vivem nos intermundos, numa felicidade eterna. Nós devemos fazer hinos para eles, mas sabendo que eles são inteiramente indiferentes a nós. É de uma beleza excepcional. Isso inicialmente... vão aparecer coisas muito maiores!

Aluno: No mundo dele, então, o pensamento seria um corpo.

Claudio: Sim, Corpo! Corpo!

Aluno: Com emissão e tudo. Corpo emissor.

Claudio: Corpo emissor!

Está indo bem? Eu vou dar uma entradinha.

Olhem, vocês vão ver, que esse nosso caminho vai me permitir fazer uma nova teoria da narrativa, viu? Nós vamos mexer com literatura, vamos mexer com física, vamos mexer com uma porção de coisas, com estética, tá? Eu agora estou precisando entrar um pouquinho, um pouquinho de nada, no tempo, tá? Porque, no princípio da aula, eu disse para vocês que o tempo na antiguidade depende do...?

Aluna: Movimento.

Claudio: Movimento. Então, eu quero até fixar isso com vocês, que o tempo depende do movimento, porque se eles são pensadores antigos, eles pensam o tempo, mas o tempo depende do movimento. Aristóteles é um pensador antigo, logo, o tempo depende do movimento. Os estoicos são pensadores antigos, logo, o tempo depende do movimento. Se nós formos para Kant? Nós já sabemos, é o contrário: é o movimento que vai depender do tempo. Então, é muito importante esse curso do Lucrécio e do Espinosa que nós vamos dar umas quatro aulas. É muito importante para mim.  Você podem até me achar um pouco irritante, eu repetir o tempo inteiro, porque eu tenho necessidade. O tempo aqui, literalmente, depende do movimento. (Tá?) Isso vai ser fundamental para o entendimento do que vai se passar. “O tempo se manifesta com relação ao movimento” (Deleuze, LS, p. 283) Enunciado já definitivo pra nós. O tempo se manifesta com relação ao movimento. “É por isso que falamos de um tempo do pensamento com relação ao movimento do átomo no vazio e de um tempo sensível, etc. etc” (idem). Agora começa a aparecer a sua questão; ---- a questão mais difícil que existe. Que é a seguinte:

É clássico, na história do conhecimento... (Atenção aqui, marquem isso:) Na obra do Kant, por exemplo, conhecimento e pensamento são nitidamente distintos; conhecimento e pensamento não é a mesma coisa. (Certo?). É clássico, na história do conhecimento, que há uma distinção das duas maneiras como nós podemos conhecer: pelos órgãos sensíveis ― pelos órgãos sensíveis nós conhecemos os corpos, que são os mecanismos perceptivos, chamados por Kant de intuição finita. Eu já expliquei isso pra vocês, nós apreendemos os corpos pela sensibilidade; e outra forma do nosso conhecimento é o conhecimento intelectual. Duas maneiras de conhecer ― que em Kant gera a estética transcendental e a analítica transcendental: conhecimento pela sensibilidade e conhecimento pelo intelecto. Então, a sensibilidade conhece os corpos e o intelecto conheceria pelo processo de abstração.

A abstração do intelecto (isso é o conhecimento clássico, ouviu?) é que o intelecto abstrairia dos corpos a diferença, e ficaria com a semelhança. Por exemplo: aqui, nesta sala, tem uma série de indivíduos. O intelecto não teria questão do conhecimento do indivíduo. O intelecto quereria conhecer a espécie. Então, o intelecto, ao invés de querer conhecer (e nem poderia conhecer) Leão, Jimmy, Ângela, Zé Luiz, o intelecto quer conhecer “o homem”. E “o homem” é abstrato; não tem realidade concreta. (Certo?). É um processo que o intelecto faz de abstrair as semelhanças dos indivíduos. Então, a abstração é um processo intelectual. (Certo?). O que o Lucrécio vai colocar é que o abstrato não está no intelecto, está no real. O abstrato é o átomo. O átomo é abstrato. Logo, o átomo nunca poderá ser apreendido pela sensibilidade. Ele só pode ser apreendido pelo pensamento. (Não sei se vocês entenderam...)

O que a sensibilidade apreende são os compostos. Quem apreende o átomo é o pensamento. (Viu?) Então, o átomo, apareceu algo excepcional. Esse algo excepcional, com outra linguagem, vai ser retomado no Medieval e na Modernidade: o real não é só o concreto; existe também um abstrato real.

Claudio: Quem é esse abstrato real?

Alunos: O átomo.

Claudio: O átomo. Só quem o apreende é o pensamento. Incrível!

Aluno: Hoje, também, o átomo só é percebido pelo pensamento, não, não é?

Claudio: Ah, sim, sim, claro! O átomo do atomista é uma equação matemática! O pensamento quântico é equação. Esse sucesso da física só pode ocorrer a partir da Revolução Científica, no século XVII, em que se fez a introdução da matemática como aquilo que pode recobrir o real. Então, o matemático pode fazer suas equações e seus sistemas e esses sistemas reproduzirem a realidade. É inteiramente abstrato, inteiramente abstrato! Não é do campo experimental. Aí, é uma coisa muito crítica, porque nós pensamos que a ciência se constitui a partir da experiência. De modo algum! Isso é a maior idiotice. A ciência não é da experiência. A ciência pressupõe o abstrato e a construção. Aí, eu aponto pra vocês a obra do Koyré. A obra do Koyré é magnífica sobre isso.

Há, pra terminar a exposição dele aqui,uma figura que é inclusive é retomada pelo Freud. Freud na teoria do apoio. É o clinamen. Essa teoria do apoio é sensacional, incrível, muito bem colocada, muito bem exposta pelo Laplanche. Excepcional! Excepcional! Então, eu ainda vou falar nas próximas aulas a questão do clinamen em Freud, viu?

Então, o clinamen é um poder que o átomo ― o átomo, hein, não os corpos. O átomo se inclina; ele faz uma pequena inclinação. Essa pequena inclinação, que ele faz, torna-o indeterminado.

(Não sei se deu para entender...)

Prestem atenção: vamos dizer que esse átomo percorre o vazio. Se ele percorre o vazio, eu vou aplicar nele o princípio de inércia. Aplicando nele o princípio de inércia, esse átomo vai percorrer o vazio ao infinito. Vai embora, vai embora... nada vai acontecer! Agora, vamos dizer: ele se encontra com outro átomo. Bate noutro átomo, e volta. Basta eu entender a lei dos choques dos corpos que eu sei quais os movimentos e quais os lugares que esse átomo pode ir. Mas, no momento em que eu incluo no átomo o clinamen ― que é a inclinação ― eu torno a Natureza indeterminada.

(Entenderam?)

O indeterminismo penetrando pela Natureza. Não lembra ----, eu volto a ele,viu?

Então, essa noção de clinamen não é um acidente do átomo: é da essência dele. É da essência dele esse clinamen. Isso vai gerar muitos problemas para nós ― problemas inclusive atuais, na questão da liberdade. Nesse instante, o que parece é que esse átomo é livre; não está regido por nenhum determinismo, por nenhuma necessidade. Ele pode fazer novos caminhos, (certo?) Por exemplo, você encontra um mundo, um mundo constituído, um composto constituído ― esse maço de cigarro ou essa enorme Galáxia. Um átomo faz o clinamen, escapa, atrai os outros ― e a Galáxia se desfaz. Como se fosse um novelo de lã. Ela se desfaz. No puro acaso. E outros mundos vão ser constituídos. Então, ao introduzir essa teoria, eles introduzem o indeterminismo dentro da Natureza.

Aluno: Sem isso não seria possível a existência do caos, não é?

Claudio: Não seria possível. O caos estaria vencido.

Aqui, está sendo vencido o Laplace, viu? É o Laplace que sempre admitiu que se houvesse uma inteligência altamente poderosa, essa inteligência daria conta de tudo o que existe no Universo. Não há como!

Bom, agora eu vou tomar um café e voltar, tá? Foi muito bem a exposição, não foi?

Nós já sabemos alguma coisa do Lucrécio, se vocês quiserem ler o texto do Deleuze, vocês já podem.

Aluna: Qual o texto?

Claudio: Lucrécio e o Simulacro, na Lógica do Sentido. O texto é aparentemente fácil, viu? Aparentemente fácil. É um texto dificílimo, se vocês quiserem pegar, peguem, mas daqui a quatro aulas vocês vão poder pegar realmente porque nós vamos trabalhar no Plano de Imanência. Então, essa ideia de plano de imanência...

Aluna: Ainda está muito confusa essa ideia de plano de imanência.

Claudio: Eu ainda não expliquei sobre o Plano de Imanência.

(Foi bem? É uma beleza, não é?)

[Outros desenvolvimentos da filosofia de Lucrécio nas aulas Pensamento: Lucrécio e Espinosa e Lucrécio e os falsos infinitos]

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