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Aula 3 – 23/01/1995 – O Empírico e o Transcendental

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[Temas abordados nesta aula são aprofundados na Introdução e nos capítulos 1 (Implicar – Explicar); 6 (Do Universal ao Singular); 7 (Cisão Causal); 10 (Estoicos e Platônicos); 11 (Conceitos); 12 (De Sade a Nietzsche) do livro "Gilles Deleuze: A Grande Aventura do Pensamento", de Claudio Ulpiano. Para pedir o livro, escreva para: webulpiano@gmail.com]

 


O que eu vou falar - não importa o quê, eu ainda não sei nem mesmo o que vai ser... - tem como objetivo mostrar para vocês, nesta aula, por exemplo, o que é o transcendental.

Bom. Duas questões - ambas medievais. A primeira é a ideia de um Deus; o medieval pensava assim, São Tomás pensava assim - um Deus dotado de duas faculdades. (Atentem para isso: a palavra faculdade) Essas duas faculdades seriam o intelecto e a vontade. (É estranho que eu coloque a vontade como faculdade!) E o intelecto de Deus seria povoado pelo que se chama essência. Então, o que estaria no intelecto de Deus seriam as essências.

Mas - o que quer dizer exatamente essência ?

Essência é tudo aquilo que é possível de tornar-se real. Ou seja, a essência é tudo aquilo que não possui uma contradição interna que a impeça de se tornar real. Por exemplo: o que define o objeto lógico, o que define uma essência, é que ela tenha, seja regida, por dois princípios: o de identidade e o de não-contradição.

Então, tudo aquilo que puder/for regido pelo princípio de não-contradição chama-se possibilidade lógica. Ou seja: tudo o que não tiver contradição interna, tem a possibilidade de se tornar real. Por exemplo: no medieval, Deus tem seu intelecto povoado de possibilidades. Ou seja: é povoado de essências. E esses possíveis tornam-se reais; quer dizer, tornam-se existentes - desde que Deus tenha vontade de torná-los existentes. Então, a vontade de Deus, no medieval, se submete ao intelecto. No sentido de que o intelecto [divino] possuiria todos os possíveis. (Certo?)

Então, pelo que eu disse aqui, a realidade pressupõe - antes de ela se dar - o possível. Pressupõe o mundo das essências, que estaria no intelecto de Deus. Voltando: no intelecto de Deus nós encontraríamos os possíveis.

- O que é possível? Por exemplo: a mesa, a cadeira, a árvore - por que esses três elementos são possíveis?

Porque eles não trazem nenhuma contradição interna. Mas eles só se tornam reais se a vontade de Deus quiser transformá-los em reais. Então, digamos, a vontade de Deus tornou, esses possíveis, reais. Quando eles se tornam reais, eles se chamam individuais. Ou seja: tudo aquilo que é real, é individual. E tudo aquilo que está no intelecto de Deus chama-se universal.

Então, a diferença de universal para individual, é que o universal é do campo da possibilidade e o individual é do campo da existência. Por exemplo: eu - Claudio - sou um indivíduo existente. Mas o homem é uma possibilidade no intelecto de Deus. Logo, aquilo que eu estou chamando de universal não teria a mesma realidade que o individual - porque o individual teria uma realidade existencial. Ou de uma maneira mais clara: tudo aquilo que existe é - necessariamente - individual. Tudo o que existe é necessariamente um sistema individuado. Enquanto que o universal passa para o campo dos possíveis - no caso dessa explicação que eu dei para vocês. Ainda que a gente encontre determinadas teses que afirmem a realidade existencial tanto do universal quanto do individual. O grande mestre que tirou os universais do campo existencial foi Guilherme de Ockham. Ele tira os universais do campo existencial, [mantendo ali] apenas o individual. Mudando a linguagem: o indivíduo é o único ser ontológico- porque é o ser que existe - independente de qualquer coisa. Enquanto que o universal torna-se semiológico. Havendo aqui uma distinção entre a semiologia dos universais e a ontologia dos individuais. A filosofia, até o princípio do século XX, manteve essa distinção, embora muitos pensadores ainda admitissem que o universal pudesse ter realidade. Mas essa distinção foi praticamente mantida e o universal tornou-se signo - a cadeira, a mesa, o lápis, o cavalo, pouco importa o que, todos esses universais se tornaram signos. E os indivíduos - que nós costumamos nomear pelo dedo apontado, pelo nome próprio, pelo adjetivo demonstrativo - ganharam existência real. (Certo?)

Então, a realidade passou a ser constituída e habitada por indivíduos (tá?). Os indivíduos são aqueles que povoam o que se chama realidade.

Vamos dizer, da década de 40 para cá, determinadas linhas de pensamento - prestem atenção, hein? Agora as coisas vão ficar um pouco difíceis! Eu vou voltar antes de entrar! - Os universais não ganharam realidade ontológica. Mas têm uma espécie de realidade - uma realidade mental ou uma realidade de linguagem, uma realidade linguística: o universal existe na linguagem; existe na subjetividade. Mas não existe independente ou da linguagem ou da subjetividade. Enquanto que o individual, o indivíduo tem uma realidade autônoma - por isso, ontológica. Agora, a partir mais ou menos de 1940 aparece um termo - singularidade ou singular - que inicialmente é tomado como sinônimo de individual. Ou melhor, já no século XIV a palavra indivíduo e a palavra singular, a palavra individualidade e a palavra singularidade eram tomadas como sinônimos. Mais ou menos a partir de 1940 a singularidade se separa da individualidade. O singular aparece como outra realidade. Vamos dizer: o universal, que é Mental ou Linguístico; o individual, que é ontológico, que é real. E, agora, uma terceira realidade - chamada singularidade.

Antes de penetrar, eu vou colocar os territórios de cada uma:

Os universais são objetos mentais. Ou seja, se não houvesse isso que se chama mente, não existiriam os objetos chamados universais. Os individuais ou os indivíduos são aqueles que povoam a realidade empírica.

- O que é a realidade empírica? Tudo o que existe neste ou noutro planeta qualquer. Empírico é o vivo, o objeto técnico, o objeto físico, o objeto químico, a combinatória de duas moléculas, um átomo - tudo isso é um indivíduo porque tem uma realidade empírica. (Certo?) E o universal é uma realidade mental. O Singular, a singularidade - que seria o outro elemento, o terceiro elemento, sempre foi confundido com o individual. E neste momento de aula, nós não temos poderes para distinguir o singular do individual. Mas - esse singular - também vai ter o seu território. E o território do singular - ainda que rompendo com todas as tradições das filosofias clássicas, sobretudo a filosofia kantiana - chama-se transcendental.

Como nós estamos num trabalho de compreensão - que às vezes torna-se longo e difícil - a minha questão, neste momento, é simples: é marcar a presença de três territórios:

•  O território do universal - que seria o território do mental;

• O individual - que seria um território empírico, ou seja: para existir, o individual não depende senão dele próprio (enquanto que o universal, para existir, depende da mente ou da subjetividade);

• A singularidade - que à semelhança do indivíduo não depende de nada para ter a sua realidade.

Conclusão : o universal não é real - porque é mental.

Mas o individual e o singular são ambos reais - apenas diferem, porque o individual é do campo empírico e o singular é do campo transcendental. (Eu sei da dificuldade extremada disso daqui!)

O que eu estou levantando para vocês - e que eu vou fazer diversos procedimentos para alcançar os meus objetivos - é que a ciência do real tem como objeto de trabalho, o individual. Ela trabalha com o individual.

- Por quê? Porque o individual é aquilo que existe - aquilo que tem realidade empírica.

Mas eu coloco essa noção de transcendental e povoo esse universo que eu estou chamando de transcendental - ainda sem explicar - com esses elementos que eu estou chamando de singularidades. O que vai acontecer de original é que a partir disso daí, as ciências - ao invés de trabalharem com o individual - passam a ter duas metades: de um lado o individual; de outro, a singularidade. (Ainda ficou muito difícil!)

O que eu estou dizendo para vocês? Nesse primeiro investimento, eu estou constituindo aqui - acredito que com uma total facilidade - três componentes: um componente mental, que eu povoo com os universais; um componente empírico - por exemplo, esta sala que está aqui, que é povoada de indivíduos; e um terceiro território, que eu chamo de transcendental, onde eu introduzo o que eu chamei de singularidade.

Vamos avançar!

Uma filosofia do século II a.C. - chamada filosofia estoica - que tem uma repercussão imensa na formação do pensamento ocidental, vai fazer uma prática inteiramente original. Uma prática que nenhuma filosofia até então havia feito: ela vai pegar as três dimensões do tempo - passado, presente e futuro - e separar em duas partes, colocando de um lado o presente e, de outro, o passado e o futuro. ´

- O que os estoicos fizeram? Eles fizeram uma divisão no tempo que, até então, nenhuma filosofia teria feito. Porque todas as filosofias, quando trabalham no tempo, trabalham nas três dimensões - passado, presente e futuro; os estoicos, não! Os estoicos pegaram as três dimensões e colocaram o presente de um lado, e de outro, o passado e o futuro - ligando o presente ao indivíduo; e o passado e futuro à singularidade. (Já começa a clarear! Já começa a aparecer!)

Então, como eu disse para vocês, é de uma dificuldade extremada envolver-se nesse processo - saber o que está acontecendo realmente! Provavelmente - pelo menos no platonismo e no aristotelismo - o pensamento esteve sem vias para fazer grandes envolvimentos com o tempo - porque no modelo Platão e Aristóteles o tempo nada mais é que uma imagem móvel da eternidade. Enquanto que, nos estoicos, o tempo se liberta; e nessa libertação do tempo, eles vão colocar o presente do lado do indivíduo e o passado e o futuro do lado das singularidades.

Presente - o indivíduo.

Passado e Futuro - as singularidades.

Empírico - presente e indivíduo.

Transcendental - passado e futuro; e singularidades.

O que nós temos que fazer é isto: vocês têm que seguir esse quadro que eu estou montando, que nós vamos entender!

Atenção, porque agora vai aparecer um momento dificílimo:

- O que nós já temos do lado do indivíduo? Presente e empírico, (não é?) Do lado do indivíduo estão todos e quaisquer corpos - o corpo está do lado do indivíduo.

Então, se nós chamarmos alguma coisa de corpo, essa coisa que se chama corpo pertence ao presente, ao indivíduo e ao empírico. Logo, no singular, no transcendental, no passado e futuro não existe corpo. Melhor dito, agora: a palavra existência é literalmente - no caso desta explicação que eu estou dando - sinônimo de corpo. Ou seja: só pode existir o corpo - nada mais pode existir!

Por exemplo:

- Deus existe? Se existir - é um corpo! (Certo?)

- O fantasma de Getúlio Vargas existe? Se existir, é um corpo.

A existência e o corpo se identificam.

Então, de um lado: existência, corpo, indivíduo, presente, empírico.

Ora, a partir daí, a singularidade, que já tem o seu próprio campo - que é o transcendental, seu próprio tempo - que é o passado e o futuro; a singularidade - lamentavelmente - não existe.

Está surgindo - na ordem do pensamento - uma realidade, porque a singularidade não é um objeto mental; pois, se ela fosse objeto mental, ela seria universal. Ela tem uma realidade autônoma -, mas ela não existe e não é um corpo.

Os estoicos, com a maior facilidade, chamaram essa realidade - que não existe, que não é um corpo - de incorporal. Então, o universo dos estoicos - eu acho que agora está ficando mais claro! - é, de um lado, o corpo: o corpo está no presente do tempo. De outro lado, o incorporal, que é dilacerado, esquartejado: ao mesmo tempo no passado, e ao mesmo tempo no futuro.

O corpo é empírico, observável, experimentável.

A singularidade é transcendental.

O corpo existe e o singular não - existe. (Foi bem?)

Aluna: Por que você disse assim: lamentavelmente a singularidade...

Claudio: Lamentavelmente para a compreensão. Lamentavelmente - no sentido pedagógico; não no sentido ontológico. (Certo?) Porque eu nunca iria considerar lamentável o fato de um singular não ter existência. Mas como nós estamos no campo da pedagogia e que isso começa a ser expresso, (não é?) oprime: é difícil para a gente entender!

- Por que [é difícil para a gente entender]? Porque eu estou mostrando para vocês, de um lado, o que seria a ciência moderna - essa ciência implicando os dois componentes: o singular e o individual. De outro, a filosofia - que seria sempre do singular, ou seja: a matéria da filosofia seria o singular; e, mais surpreendente ainda, a matéria da arte - que também seria esse singular. (Vamos outra vez!)

Aluno: O corpo histérico seria um corpo, seria o singular?

Claudio: O "corpo histérico" seria incorporal, seria o singular - porque o único corpo que existe é o corpo orgânico. Seria o único que existe. Então, o corpo orgânico está do lado do individual; o histérico estaria do lado do incorporal. O corpo histérico - literalmente - não existe! Qualquer psiquiatra sabe disso, (não é?)

Aluna: Por isso, naquela hora, você ficou devendo a explicação daquela palavra?

Claudio: Exatamente! Não havia como - naquela hora - falar sobre isso.

Então, o que nós temos que fazer, é literal: é o melhor processo pedagógico - é fazer uma divisão... e ir colocando os termos. (Depois eu desfaço isso!) Porque eu identifiquei o individual ao corpo; E no caso - como o M. falou, eu concordei: é individual; o corpo funcional - é individual. Agora, esse corpo está no presente do tempo.

- O que se chama presente do tempo ?

Vamos colocar que o presente no tempo é constituído por um conjunto de instantes: presente, presente, presente, presente... (Certo?)

Por exemplo: os seres que estão do lado do indivíduo não necessitam de tempo para existir: basta, para eles, a dimensão presente. Enquanto que o singular - que é o grande enigmático desta aula - ele está num tempo estranhíssimo, porque ele é - simultaneamente - passado e futuro. Ou seja: tudo aquilo que é simultaneamente passado e futuro é esquartejado - nunca aparece no presente!

Então, essa singularidade, esse transcendental, esse "passado e futuro simultâneo" começam a perturbar o que nós chamamos - o nosso pensamento. O nosso pensamento começa a se ver quebrado: [a ver quebrados] todas as suas referências e todos os seus eixos. Porque, a chegada da singularidade, a chegada do transcendental - é a chegada do paradoxo.

O paradoxo começa a fazer parte de uma investigação científica; fazer parte de uma investigação filosófica; ou a fazer parte de uma prática artística - porque desde que nós aceitemos essas ideias, (vou repetir) transcendental, singularidade, passado e futuro simultâneos, incorporal - nós temos que incluir nelas a ideia de paradoxo.

E agora, eu vou voltar, para vocês entenderem!

(virada de fita)


[...] que até então não tinha aparecido.

É possível que os estoicos, que a filosofia estoica, seja a responsável pela descoberta desse território. E esse território - que é descoberto pelos estoicos - vai ser re-descoberto (sem que eles conhecessem os estoicos) por lógicos do século XIV; e vai ser re-descoberto (sem que ele conhecesse os lógicos do século XIV ou a filosofia estoica) por um pensador magnífico - chamado Whitehead - no século XX. (Certo?)

E, então - novamente - nós estamos diante de uma matéria muito difícil! Não difícil em si mesma; mas em função da constituição da nossa subjetividade - que é organizada sob o regime e a lei do princípio de identidade e do princípio de não-contradição.

Então, sempre que o nosso pensamento - ou aquilo que nós chamamos de pensamento - se defronta com o paradoxo, o que classicamente se faz, é jogar o paradoxo para o fundo dos oceanos... à semelhança do que Platão queria fazer com os sofistas - porque os paradoxos seriam [recusados como] aquilo que impediria o pensamento de pensar. E os que [trilham] o caminho de pensamento por essa [outra] linha afirmam que o paradoxo - ao invés de ser aquilo que impede o pensamento de pensar - ele, o paradoxo - é a paixão do pensamento.

(Então, é essa entrada, é essa a divisória que nós vamos ter que fazer, que nós vamos acompanhar, lutar para compreender. Nós vamos usar pares... porque... - eu não sei se a minha pedagogia é boa. É uma invenção minha (não é?) Ela pode falhar! E na hora que ela falhar, vocês consertam...)

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Eu vou fazer o seguinte: eu vou colocar, de um lado, o individual, de outro, o singular. De um lado o empírico, de outro o transcendental. De um lado o presente, do outro o passado e o futuro. De um lado o corpo, de outro o incorporal.

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Bom, o incorporal e corpo: Essa noção de incorporal foi magnificamente trabalhada (essa informação é apenas para garantir teoricamente o que eu estou falando...) por um lógico do século passado chamado Meinong. Ele fez um trabalho excepcional sobre isso, e na obra dele fica claríssimo, mas claríssimo, que o nosso pensamento não tem que se submeter aos existentes - o nosso pensamento pode penetrar naquilo que não existe. Eu vou falar muito sobre o Meinong.

Quando a gente toma o primeiro contato com esse incorporal - fica muito difícil para nós entendermos. Eu vou tentar, durante umas duas ou três aulas, usar estratégias [pedagógicas] e depois disso eu sigo uma carreira acadêmica - eu acredito que então vocês já terão meios para [enfrentar] isso.

Eu vou dizer que todo corpo orgânico, ou seja: todo ser vivo seria um corpo orgânico; logo, estaria do lado do individual, do presente e do empírico (está claro, não é?) Todo ser vivo tem um comportamento (vamos anotar isso!) e ele, esse comportamento, se manifesta no meio em que o vivo está integrado. Ou seja: esse meio pode variar, mas o vivo tem sempre um comportamento integrado ao meio, que eu vou chamar de - meio geográfico ou meio histórico.

O indivíduo vivo está - necessariamente - integrado ao meio geográfico ou ao meio histórico onde ele se efetua, pelo seu comportamento. É o seu comportamento que efetua a sua existência. E as emoções e os sentimentos desse indivíduo vivo regulam ou desregulam o comportamento. Não tem nenhuma dificuldade no que eu estou dizendo! O indivíduo vivo e o meio geográfico: eu, no Rio de Janeiro, e o meu comportamento... E esse comportamento sendo regulado e desregulado pelas emoções e pelos sentimentos.

Então, pelo que eu falei para vocês, necessariamente, comportamento é corpo, emoção é corpo, sentimento é corpo. Por quê? Porque eu coloquei comportamento, emoção e sentimento do lado [esquerdo do quadro]. Tudo o que eu colocar do lado [esquerdo do quadro] é corpo. (Até aqui, é da maior facilidade!)

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Existe - na literatura, no cinema, na filosofia, na ciência, pouco importa o quê; vamos usar na ciência, para ficar mais claro - algo que se chama imagem-ação ou realismo. Então, imagem-ação e realismo vão para o lado [esquerdo do quadro], (certo?) O que nós chamamos de realismo é o indivíduo vivo, com um comportamento, regulado ou desregulado pelos sentimentos ou pelas emoções, num meio geográfico e histórico. Isso se chama ação: é o mundo da ação. É o mundo em que todos os indivíduos vivem. Eles agem e reagem dentro desse mundo. Então vamos ver uma coisa aqui:

O cinema se aproveitou disso - logo, se aproveitou do corpo, se aproveitou do indivíduo, se aproveitou do movimento que o indivíduo faz, se aproveitou das ações e das paixões dos indivíduos, das emoções, dos sentimentos, do comportamento - e constituiu um cinema chamado cinema realista, que é o cinema propriamente de Hollywood. O western é um exemplo disso. Seria o cinema ação. (Tá?)

- Quais os elementos que nós temos aqui?

Presente, Corpo, (Agora, já é uma massa, não é?) Indivíduo, Comportamento, Meio-Geográfico, Meio-Histórico, Ação, Sentimento, Emoção - já é uma massa, já é uma massa! Todos esses elementos pertencem ao que se chama - em Cinema, vamos botar assim: imagem-ação. Ao que pertence - não importa o quê - ao realismo. Tudo isso que está aqui [do lado esquerdo] é real.

Agora eu vou usar um nome para - como se fosse um carimbo: eu vou carimbar - pah! - segundidade! É o termo de um filósofo chamado Peirce.

- O que o Peirce chama de segundidade? O Corpo, o Indivíduo, o Comportamento, o Meio-Geográfico, o Meio-Histórico, a Ação, a Reação, a Paixão, a Emoção (que beleza!) Tudo isso para ele receber esse nome - segundidade (tá?).

Agora, vamos passar para o [lado direito]: para o transcendental, para o incorporal... E aqui começa a ficar tudo difícil, porque - em primeiro lugar - o Incorporal não existe; logo, ele não é real! De maneira nenhuma ele pode ser chamado de real. E agora eu vou colocar uma palavra do lado do incorporal - e essa palavra vai dar problema, eu tenho certeza - eu vou colocá-la do lado do incorporal, ou seja, do lado daquilo que não existe - afeto.

Ou seja: o afeto ou os afetos não se confundem com sentimentos, emoções e comportamentos. Os afetos pertencem ao Incorporal. (Certo?) Nós vamos ter que descobrir nesta aula o que é afeto! Agora:

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Incorporal, Transcendental, Passado e Futuro - o Peirce vem com seu carimbo brilhante e pah! - Primeiridade!

Aí, nós temos a primeiridade e a segundidade. A segundidade, nela vamos agora fazer uma espécie de pasta de colégio, e botar de um lado a pasta da segundidade e do outro lado a pasta da primeiridade. Nessa pasta da primeiridade é onde está o afeto, onde está o incorporal, o transcendental, etc. Quando o cinema quis mostrar a primeiridade, o que ele fez? Ele fez três práticas: o primeiro plano - que é a mostra dos afetos ou das singularidades. (Tá? Ninguém precisa ficar preocupado, que daqui a pouco eu vou explicar melhor)

Então, o primeiro plano é o lugar em que a singularidade ou o afeto - a primeiridade aparece. Mas a singularidade ou o afeto aparecem também no que se chamam sombras expressionistas. Então, primeiro plano, sombras expressionistas - e deixem passar essa palavra que eu vou dizer agora - espaços desconectados. Não importa isso daqui, o que importa é o seguinte:

Vamos pegar o que eu acabei de falar - de que lado eu coloquei a singularidade e o afeto?

Alunos: Do lado da primeiridade!

Claudio: E o primeiro plano? Também! Agora vamos fazer um exame aqui. Vamos examinar o rosto. Pode ser o meu mesmo: o meu rosto.

O rosto - qualquer rosto - é necessariamente socializante. O rosto tem que trazer marcas de socialização. É uma coisa muito fácil de entender, quando nós nos defrontamos, por exemplo, com o problema do mongolóide, que ele tem o rosto absolutamente igual, e você não pode fazer as caracterizações de socialização. Todo rosto traz com ele marcas socializantes.

De outro lado, todo rosto traz, com ele, as características comunicantes - os rostos servem para comunicar. Nada melhor do que ver os retratos dos políticos na hora das eleições: eles fazem tudo para comunicar alguma coisa. Eles [ostentam] um riso que vai até o nariz ou então um sorriso que cai de baixo do... - fazem qualquer coisa!

Então, o rosto tem duas características muito claras - socialização e comunicação. Mas há uma terceira mais poderosa. A mais poderosa chama-se individuação. Todo rosto é individuante. Calculem se o meu rosto revelasse o Chico, ao invés de mim! Meu rosto me individua.

Comunicação, socialização e individuação são características do rosto; logo, são características do corpo - pertencem à segundidade.

Quando nós passamos para o primeiro plano, ali nós não temos mais as características corporais. O rosto, no primeiro plano, perde essas três características - a socialização, a comunicação e a individuação - e se torna um pacote de afetos: um feixe afetivo; um pacote de sensações. (Certo?) Ou seja: nós começamos agora, - através da noção de rosto, da pura noção de rosto, da simples noção de rosto -, nós já podemos entender Cézanne, Paul Klee, Van Gogh...

Vamos dizer que um girassol tivesse três características: comunicar, socializar e individuar - menos o girassol de Van Gogh. Que são exatamente essas características que ele retira do seu objeto, para deixar com que aquilo que ele está pintando só expresse afetos. (Certo?)

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Então, o primeiro plano, no cinema, teria a capacidade estranhíssima - de des-individualizar, des-comunicalizar e des-socializar o rosto (e nós vamos ter que ver isso, nem que seja por projeção).

Dizem que, um dia, a Liv Ulman e a Ingrid Tulin estavam conversando e olhando um primeiro plano que supostamente uma delas teria feito, e a Liv Ulman disse:

- Olha você ali! E a Ingrid Tulin retrucou:

- Não, não sou eu não, é você!

Ela já não se reconhecia - não havia mais o processo de reconhecimento. Porque o rosto, o primeiro plano, teria passado para esse campo dos afetos. Mas, não seria somente com o primeiro plano que esses afetos e esses incorporais apareceriam. Haveria mais dois processos - que seriam as sombras expressionistas (depois eu vou mostrar!) e o que eu chamei de espaço desconectado.

Agora eu vou crescer, vou crescer:

Do lado do indivíduo, eu coloquei a existência do indivíduo orgânico, (não foi isso?) E esse indivíduo orgânico, com todas as suas características; e - seguindo Nietzsche - o organismo, ou melhor, o indivíduo tem como seu último órgão, como o mais aperfeiçoado dos seus órgãos, a consciência.

- De que lado está a consciência?

Do lado do corpo. A consciência é um órgão da segundidade.

Logo, eu vou colocar o inconsciente do lado do incorporal. E essa prática de colocar o inconsciente do lado do incorporal chama-se - tirar o inconsciente do modelo orgânico ou desumanizar o inconsciente. O inconsciente sai desse modelo orgânico, e passa para o outro lado. O inconsciente, então, passa a ser uma complexidade afetiva, uma complexidade temporal, (tempo, não é? passado e futuro) de singularidade, de esquartejamento, mas, ao mesmo tempo, esse inconsciente seria o responsável pela produção dos indivíduos corporais. Logo, o lado do incorporal passa a ser genético - passa a ser a gênese. Por isso, que eu comecei a aula dizendo que nesse modo de pensar você não pode se limitar a pensar apenas um dos domínios. O pensamento passa agora a ter duas partes - a parte incorporal e a parte corporal. Ou melhor: o pensamento passa a ter duas metades. (Foi bem, não é? Foi bem!)

Aluno: Você falou também que a ciência teria atualmente duas metades.

Claudio: Sim.

Aluno: Eu gostaria de alcançar um pouco mais.

Claudio: É, nós vamos alcançar isso. Nós vamos alcançar! Porque isso tudo que eu estou fazendo para vocês agora, depois eu entro numa série mais... com uma linha até mais nômade, mais abstrata... para mostrar isso para vocês. Deixem-me continuar... (certo?)

Vejam bem: o presente é a dimensão do tempo do lado da segundidade, não é? O presente é aquilo que tem limites. Por isso, todo indivíduo tem... limites. O presente traz o limite para os corpos, enquanto que o passado e o futuro é o ilimitado. Logo, pode-se dizer - numa outra linguagem - que quem está do lado da primeiridade está do lado do infinito; enquanto que, quem está do lado da segundidade está do lado do finito. (Ficou muito ruim aqui?)

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O infinito, do lado direito, na primeiridade - que é o ilimitado do passado e do futuro.

E o finito, do lado esquerdo, do presente - que é dos corpos.

Então, eu aqui já defino de forma definitiva: a ciência é sempre ciência dos corpos. Não quer dizer que ela não pense no infinito - depois eu mostro para vocês. Então, toda ciência é - necessariamente - finita. Enquanto que a arte e a filosofia são infinitas.

Então, a arte e a filosofia seriam infinitas - mantendo esses dois lados que eu coloquei.

Bom. No cinema, o lado do corpo, chama-se imagem-ação. E o lado do incorporal chama-se imagem-afecção.

PosterEu citaria [inclusive] um filme, cheio de Imagens Afecções, que passou há pouco tempo - Europa, de um diretor chamado Lars Von Trier, não sei se vocês viram. Ele é muito marcado por imagens afecções e inclusive as imagens do trem, no túnel. O que mostra - que os afetos - não são orgânicos. Eles - os afetos - independem de qualquer organismo. Os afetos são anteriores, ou melhor, todo o incorporal é anterior ao corpo.

Agora, vou lançar mais dois elementos do lado do corpo - uso e função. Então, por exemplo, eu filmo a Ponte Rio - Niterói, num plano fixo, não sei de onde, das barcas, por exemplo (não é?) E aí essa ponte aparece enquanto funcional, orgânica e com suas propriedades de uso. Ou seja: a maneira como eu a filmo, qualquer observador sabe que um carro pode transitar por ali. No entanto, se por acaso eu filmar um pedaço de ponte, depois outro pedaço de ponte, e amontoar esses pedaços, o que eu tiro desses pedaços de ponte é a função e o uso - é isso que se chama espaço desconectado.

Espaço desconectado é quando você retira do espaço esses dois [inaudível] função e uso.

(intervalo para café)

(Eu consegui dar essa aula sem AR NENHUM!)


[---] corpo, individual, etc., é onde estão a história e a narrativa. (Olha, cada elemento desses, que eu for dando para vocês, depois eu vou retornar, viu?)

A história e a narrativa pertencem à segundidade. Logo, tudo o que ocorre na segundidade tem uma história!? Ou melhor, os membros da segundidade têm uma história pessoal.

Quando eu falo do Cassavetes e do Godard e aponto os dois como sendo o cinema do corpo, o que eu estou chamando de corpo aí é o incorporal (viu?) - no Cassavetes e no Godard, utilizando uma categoria do Brecht, que se chama Gestus. Aqui vocês veriam dois encadeamentos: o encadeamento do mundo dos corpos, do mundo do indivíduo é sempre um encadeamento histórico. São procedimentos históricos que vão se encadeando. Enquanto que do lado do incorporal, do lado do Gestus, os encadeamentos são completamente diferentes, porque as personagens perdem a história pessoal. Elas vão romper com a história pessoal. Nós vamos ver isso para poder compreender.

(Bom. Eu estou inteiramente satisfeito com essa apresentação que eu fiz, eu acho que foi um sucesso... eu vou seguir com ela)

A gente pega um objeto, por exemplo: esse copo que está aqui, e nitidamente - é fácil de entender - que este objeto, o copo - que é um objeto técnico - tem um valor de uso. O valor de uso dele - pelo menos classicamente - é beber água, (não é?) Poderia ser "jogar na cabeça dos outros...", não quer dizer nada - mas ele tem um valor de uso. E além do valor de uso, ele tem um valor de troca, porque você pode levar este copo para o mercado e trocá-lo por uma banana. Então, este objeto que está aqui, tem um valor de uso e um valor de troca nítidos, (não é?) Inteiramente nítidos. E, em terceiro lugar, ele é um signo, no sentido de que este objeto aqui foi dado por um amigo. Um amigo me deu este copo! Então, um dia qualquer, quando eu for beber água, eu pego o copo e em vez de me preocupar com o valor de uso ou com o valor de troca do copo, eu evoco o meu amigo. Essa evocação transforma o copo num signo. Então, o que a gente apreende aqui com a maior facilidade é que qualquer corpo pode ser valor de uso, valor de troca e pode ser signo. Indiferentemente, todos os corpos...

(virada de fita)


II -

[---] envolver todo o campo teórico e todo o campo das nossas vidas. Ou seja: não é que entender o nascimento do tempo signifique que a nossa vida irá mudar - não é exatamente isso! Mas, a partir do instante em que nós começarmos a nos interessar por [esse tema], e a verificar que os "modelos de subjetividade" que estão por aí não são absolutamente necessários... e que nós poderemos produzir outros tipos de subjetividade... Numa divisão como a que eu estou fazendo aqui nesta aula, de modo a seguir essa trilha que eu estou fazendo, eu colocaria do lado da segundidade uma subjetividade material; e do lado da primeiridade, uma subjetividade espiritual.

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É um momento difícil, é uma exposição cruel, (não é?) porque ela quebra tudo aquilo que vocês fizeram hoje, (não é?) tudo aquilo que vocês vão fazer depois desta aula... É como se nós entrássemos num reino de ficção científica; habitássemos aquele reino de ficção científica; e depois fechássemos a porta dele e voltássemos para a nossa vidinha miserável!

Então, essa primeira entrada no que eu vou passar a chamar de sínteses do tempo, eu vou utilizar - fortuitamente - um filósofo de língua inglesa do século XVIII chamado - Hume. Vamos tentar compreender a primeira entrada nisso daqui, que ao fazer essa explicação, eu vou fazer a mesma oposição - colocar um do lado da primeiridade; e o outro do lado da segundidade.

Uma ideia, que já é grega: a ideia de instante.

Instante é a ideia de menor quantidade de tempo. Da mesma forma que segundo é a menor quantidade de tempo do relógio; o instante é a menor quantidade de tempo em termos metafísicos. Então, o tempo teria a sua unidade mínima, que seria o instante. Mas acontece que um instante traria com ele uma lei - a Lei da Descontinuidade.

- O que é a lei da descontinuidade? É que um instante está sempre separado de outro instante. Eles são descontínuos; eles não aparecem juntos - aparecem separados. Por isso, o instante é regido por essa lei da descontinuidade.

Toda a questão do nascimento do tempo se dará (e eu já fiz isso na primeira aula com vocês) pela tentativa de tornar os instantes contínuos - o que se chama síntese passiva.

Se eu digo para vocês que os instantes são descontínuos... e se essa descontinuidade dos instantes é anterior ao nascimento do tempo... isso aqui fica complicado; complicado eu dizer que a descontinuidade dos instantes é anterior ao nascimento do tempo! Eu, então, vou introduzir a ideia de tempo - que é uma ideia arbitrária; mas [que] eu vou introduzir como sendo a uma pequena ou grande duração. Ou seja: o que se chama tempo é um conjunto de instantes. Mas esses instantes - no tempo - não seriam descontínuos; estariam juntos!

Então, o tempo suporia um processo que transformaria a descontinuidade dos instantes em continuidade. A descontinuidade dos instantes em duração ou em pequena extensão. Para isso, para que haja esse processo da passagem da descontinuidade dos instantes para uma continuidade - que seria a duração - o intermédio, o ser para executar isso se chama - alma. Ou melhor: o ser que vai executar isso se chama contemplação. Ou melhor: o ser que vai executar isso se chama contemplação contraente.

Então, instantes separados, descontínuos; depois, instantes juntos, contínuos. Entre os dois, o que eu chamei de - contemplação contraente. (Vamos tentar então isso!)

- O que é contemplação contraente.?

Um filósofo chamado Hume - como eu falei para vocês - constituiu uma tese excepcional, em que ele fala de uma - imaginação contraente...

(Vamos tentar compreender aqui, sem o menor problema, porque nas próximas aulas isso tudo vai se resolver, viu?)

Existe uma noção do ser vivo que se chama faculdade - por exemplo: a inteligência, a memória, a linguagem, a percepção, são chamadas faculdades.

As faculdades são forças ativas dos seres vivos. A imaginação, por exemplo, é considerada uma faculdade do sujeito humano. Logo, a imaginação seria uma atividade exercida pelo sujeito vivo. Porque toda faculdade é o exercício que o sujeito vivo faz dela, exercendo, com ela, determinadas práticas.

Hume vai afirmar que a imaginação não é uma faculdade! Então, sempre que pensamos nessa ideia de imaginação - para nós, a imaginação é uma faculdade: [em virtude d]a capacidade que ela, a imaginação, tem de ligar imagens. Hume diz: não! A imaginação é apenas o nome de um lugar qualquer em que as imagens se juntam e se separam.

Ou seja: o que Hume está dizendo é que - na natureza - existe um processo que não é produzido pela imaginação - que é o processo das imagens se juntarem e se separarem, independentemente de qualquer força que as junte ou as separe.

O que ele está dizendo - é muito fácil para se compreender - é que as imagens têm um poder plástico assustador: qualquer imagem pode se misturar com qualquer imagem! Nada impede que uma imagem se misture com outra. Logo - no universo das imagens - existe o que se chama trânsito livre: não há lei regulando a trajetória das imagens.

Por exemplo: se, neste instante, eu quiser fazer esta garrafa com a cara do Sarney, é imediato, imediato - puh - aparece! Por quê? Porque as imagens têm esse processo de se associarem com as outras imagens. É um procedimento das próprias imagens associarem-se umas com as outras. Por isso, o Hume vai dizer que a imaginação não é uma faculdade ativa. A imaginação é o lugar onde se dá a associação das imagens. Nada mais do que isso. Ela é apenas o lugar em que essa associação vai se dar.

Então, nós podemos dizer que esse universo possui um lugar onde as imagens se combinam livremente - qualquer imagem se combina com qualquer imagem - livremente! Vocês podem fazer essa experimentação no que se chama hipnagogia - que é um estado - quando nós estamos entre a vigília e o sono - em que as imagens começam a passar por nós, e nós não temos poder sobre elas. E elas vão se misturando umas com as outras inteiramente livres.

Então: se as imagens podem se misturar umas com as outras livremente, significa que este universo é percorrido por um enorme delírio. Ou seja: há um enorme delírio percorrendo este universo!

- Qual delírio?

O delírio da combinação livre das imagens. Então, é daí que nascem os centauros, os cavalos alados, os dragões de fogo, as sereias... exatamente dessa combinação livre de imagens. (Vocês entenderam aqui?)

Agora, diz o Hume: aqui vem um momento muito difícil, muito difícil: um momento essencial de compreensão. Essas imagens se originam em impressões. Ou seja: a natureza - a única coisa que a natureza envia são impressões. Mas essas impressões que são - por exemplo - a impressão do azul daquele vestido. Eu fecho os olhos e faço uma imagem daquele azul. A imagem se difere da impressão em força. As impressões são fortes, as imagens são fracas.

Então, o Hume diz que a natureza é constituída de impressões; e essas imagens são o espírito. Logo, o espírito ou como diz o Hume: o fundo do espírito é delírio. Ou seja: o fundo do espírito de cada um de nós é esse delírio das imagens. Delírio insuperável - ou seja: necessariamente esse delírio está presente no momento em que o espírito se constitui. Porque o espírito se constitui por um conjunto de imagens. Conjunto de imagens esse que não é regido por nenhuma lei. Ou seja: as imagens se combinam livre e francamente.

Ora: esse é o fundo do espírito! Todo e qualquer espírito, diz o Hume, é absolutamente idêntico ao conjunto de imagens que o constitui. Ou seja: não diferença entre o espírito e o conjunto de imagens em termos delirantes - isso é o espírito para ele. Mas acontece que essas imagens se originam das impressões. Ou seja: a impressão do azul provoca a imagem do azul. Todas as imagens que aparecem, se originam nas impressões - o que mostra que o espírito é um produto da Natureza. O espírito não é filho de Deus: ele é filho da Natureza. Porque o espírito são as impressões enfraquecidas. Isso que é o espírito. Então, o espírito - não ele, mas as imagens que o percorrem; logo, ele - porque ele não é nada mais do que as imagens que o percorrem - tem a capacidade, as imagens têm a capacidade, de se fundirem uma na outra. Isso é uma coisa notável! Porque - na natureza - as impressões não se fundem uma na outra: elas estão separadas!

Eu vou passar para o Bergson e eu vou pedir que vocês utilizem aqui essa expressão que eu vou usar... é... No espírito existe uma interpenetração de fusão! Ou seja: há uma fusão entre as imagens: elas se inter penetram; enquanto que - na natureza - elas estão separadas.

Vamos de outra forma:

Na natureza - elas são descontínuas;

No espírito - elas são contínuas.

Há uma fusão no espírito e uma descontinuidade na natureza.

(Está difícil demais ?)

Coloquem assim:

Duas multiplicidades: a multiplicidade da natureza é descontínua; e a multiplicidade contínua ou de interpenetração do espírito. O espírito é onde tudo se interpenetra.

Aluna: Esse é o território do espírito?

Claudio: Esse é o espírito! O espírito é o território da interpenetração; é o território da fusão; é o território em que - quando dois elementos se fundem - outra natureza aparece. Então, o espírito é aquilo que não para de mudar de natureza.

Bom. Com essa interpenetração, o espírito tem uma diferença com relação à natureza: a diferença entre eles é que os elementos - que são as impressões - estão separados na natureza e no espírito estão juntos. Ou seja: o que estão separados na natureza - são os instantes; o que estão juntos no espírito - são os instantes. Então, esses instantes - quando se juntam - chamam-se síntese.

Síntese quer dizer - juntar aquilo que estava separado. É o oposto de análise. Quer dizer: a síntese dá-se no espírito.

- Mas dá-se no espírito, porque o espírito produz isso - ou são os elementos do espírito que são assim? São os elementos que são assim. Por isso, chama-se síntese passiva.

Essa síntese passiva é a invenção do tempo.

O que eu coloquei para vocês, é um momento muito difícil; mas, nós já temos um caminho. O nosso caminho é a imaginação contraente do Hume.

- Por que contraente?

Porque ela contrai uma imagem na outra! É o poder de contração que ela tem.

Então, o que marca o espírito é contemplar e contrair - é contemplação e contração. É a marca do espírito.

O "elemento básico" dessa exposição que eu fiz para vocês é lembrar-se que as imagens não se interpretam uma na outra porque uma imaginação lhes determina - elas se interpenetram porque é do ser delas se interpenetrarem. É do ser delas! Então, essa interpenetração provoca um diferencial em relação à natureza: enquanto na natureza existem as impressões separadas - no espírito existem as impressões transformadas em imagens inter-penetradas. Então, nasceu aqui o que eu vou passar a chamar de multiplicidade de interpenetração.

- O que é uma multiplicidade de interpenetração?

É exatamente a multiplicidade subjetiva, [ou] espiritual - enquanto que a multiplicidade física é uma multiplicidade que não se interpenetra.

Então, eu vou dizer para vocês - em outra linguagem - que na multiplicidade física, você pode aplicar números inteiros - 1,2,3,4,5,6; enquanto que isso não é possível, ou melhor, você não pode aplicar esses números inteiros na multiplicidade de interpenetração.

- Por quê? Porque, nessa multiplicidade, no momento em que dois elementos se interpenetram, aparece um terceiro elemento.

O nascimento do tempo - a tradição filosófica para a compreensão do nascimento do tempo fora da linha platônico-aristotélica - pressupõe (o Hume usou a palavra imaginação, eu vou usar a palavra espírito) um espírito que contempla e que contrai. (Eu vou dar isso para vocês na próxima aula!)

- Contempla, o quê? O que esse espírito contempla? Ele contempla os elementos com os quais ele é constituído.

- De que é constituído o espírito?

O espírito é constituído dessas imagens! E são essas imagens que ele contempla - e, ao contemplar, ele contrai. (Não sei se vocês entenderam bem...)

Aluna: Como se esse espírito contemplasse a natureza?

Claudio: Ele contempla as próprias imagens, é isso que ele contempla. Ele se contempla: ele se auto-contempla. Mas ao se contemplar - ele contrai: ele produz a contração. Eu vou passar a chamar [esse processo] daqui de narcisismo formal. ( Tudo isso eu vou tentar explicar na próxima aula!)

O que apareceu aqui foi uma noção de contemplação, que não é uma contemplação à distância - é uma contemplação próxima. Ou seja: você contempla os elementos com os quais você se constitui. E ao contemplar esses elementos que te constituem - você os contrai. E, ao contraí-los, você introduz o tempo. Ou seja - muito difícil o que eu vou dizer! - no momento em que esse procedimento se dá, vai nascer o corpo orgânico.

O corpo orgânico é um resultado da contemplação contraente. O corpo orgânico vem como resultado...

Não faz mal que tenha sido muito difícil isso hoje. Não faz mal! Eu acredito que mantendo a linha que eu coloquei na primeira parte da aula - e agora eu vou dizer que a contemplação contraente é um processo que se dá do lado direito da linha... Que essa contemplação contraente é o procedimento do nascimento do tempo... Ou seja, a pergunta é essa:

- Como a vida apareceu no planeta? O que é - exatamente - a vida? A qual linha a vida que nós conhecemos pertence - ao incorporal ou ao corporal? Ao corporal! A vida que nós conhecemos é orgânica. Mas eu estou mostrando para vocês que existe uma potência não-orgânica - que é a geradora da vida. Essa potência não-orgânica chama-se espírito contemplante e contraente. Ela é não-orgânica e gera a vida. (Vamos voltar!)

(Poderia arranjar um café para mim?)

Aluno: Claudio, o que o espírito contempla são as impressões da natureza?

Claudio: As impressões da natureza! Mas o ato de ele contemplar torna essas impressões imagens. E as imagens se interpenetram. Por isso, o espírito contemplando, contrai. O processo é esse!

(Bem, na próxima aula a gente organiza mais isso daqui. Foi bom para alguns, eu sei que foi bom para alguns! Essas noções finais, que eu estou passando, já é um preparativo para a próxima aula)

Eu estou tentando colocar para vocês duas noções dificílimas: contemplação e contração. Eu já falei sobre contemplação: falei sobre contemplação científica, templária e filosófica, lembram-se? Essas três contemplações são humanas! Essa contemplação contraente não é humana. Ela não é humana!

Aluno: É anterior?!

Claudio: Ela é anterior! Ela é a gênese do orgânico. Nós estamos na trilha: necessariamente nós vamos alcançar! [Essa contemplação] é a gênese do orgânico.

- Quer ver uma coisa interessante? Essa contemplação contraente chama-se síntese passiva. Ela gera o organismo, ela produz o organismo. Ela é uma coisa; o organismo é outra - são duas coisas diferentes! Ela é a gênese e a força da vida. E o organismo - é a vida aparecendo no mundo! Quando vocês pegam um pensador de teatro - Samuel Beckett, por exemplo. Samuel Beckett é um pensador do corpo? Mas só que do corpo incorporal. Só que do corpo da síntese passiva. Do corpo da contemplação contraente. O que nos confunde, o que nos leva quase à loucura, quando nós nos encontramos com a arte moderna - não importa se na literatura, na pintura ou no cinema - é que esses grandes artistas estão lidando com o incorporal, com a síntese passiva, com a contemplação contraente... Então, nós - que carregamos os nossos hábitos e o nosso senso comum, que só pressupõem a presença do corpo orgânico - quando lidamos com [o incorporal], não entendemos. (Certo?) É a dificuldade de entendimento [originária n]aquilo que eu chamei do domínio - emnós - da subjetividade material.

Então, eu vou pedir a vocês que, a partir de hoje, a gente faça mais uma separação: subjetividade material e subjetividade espiritual.

(eu estou com muito pouca respiração!)

A subjetividade material - não tem como caminhar agora... - essa subjetividade material é a subjetividade do realismo.

Eu vou parar aqui um instante, (viu?) E vou dar uma marca final nesta aula.

- Todo mundo conhece ou já ouviu falar no Naturalismo? Por exemplo, no Brasil, quem é o naturalista? Aluísio de Azevedo - O Cortiço? E na França? Èmile Zola, (não é?) O Naturalismo não será algo oposto ao Realismo. O Realismo é tudo o que eu falei... corpo, organismo... tudo o que eu falei.

O Naturalismo vai realçar o organismo, ele vai realçar o organismo ou o Naturalismo - que eu estou citando, porque ele é o instrumento que eu vou ter para nós obtermos compreensão. O Naturalismo estaria entre esse incorporal e o corpo orgânico. Então, para nós começarmos a fazer um trabalho para entender o que eu estou falando, eu pediria que vocês assistissem filmes do [Joseph] Losey e do Buñuel para entenderem a imagem Naturalista; para entrarem em contato com a imagem Naturalista.

Aluna: Mas o Buñuel é surrealista, não é bem naturalista!?

Claudio: Não toda a história do cinema dele, viu? Mas grande parte do cinema dele está dentro dessa linha que eu estou colocando aqui.

O que eu estou fazendo com vocês é o seguinte: eu dividi, na primeira parte da aula, Corpo e Incorporal, Individual e Singular, Orgânico e...etc. A linha que divide, eu passo a chamá-la de imagem-pulsão.

Então, Imagem-Ação, Imagem-Pulsão e Imagem-Afecção. Três imagens!

- Por que eu estou chamando a atenção dessa Imagem-Pulsão?

Porque ela vai ser um instrumento muito poderoso para nós compreendermos as outras duas. Por exemplo: há um filme do Dirk Bogarde, chama-se - O Criado. Se vocês virem, vocês vão ver: é uma coisa inacreditável! Num determinado momento do filme o Dirk Bogard se transforma num predador. Ele já não é mais um homem! Ele abandona o sentimento, o comportamento, o meio geográfico - ele abandona tudo! - e se torna um predador. Então, é importante que a gente entre nesse tipo de compreensão - o que é o cinema pulsão! - para distinguir com mais clareza o Incorporal e o Corporal.

Eu estou um pouco sem ar.

Alunos: Já tem duas horas!

Claudio: Tá? Já tem duas horas, eu estou um pouco sem ar, eu gostaria de continuar um pouco mais nas sínteses, mas não dá mais. Então, eu peço desculpas a vocês...

Alunos: Não, foi bom demais!

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Aula de 12/04/1989 – Acontecimento e sentido

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[Temas abordados nesta aula são aprofundados no capítulo 7 (Cisão Causal) do livro "Gilles Deleuze: A Grande Aventura do Pensamento", de Claudio Ulpiano. Para pedir o livro, escreva para: webulpiano@gmail.com]


Lado A

A intenção, nesta aula, é mostrar para vocês os filósofos antiplatônicos. Inicialmente apenas duas filosofias da Grécia - Epicuro/Lucrécio, e os estoicos. O objetivo seriam esses dois, (certo?). Agora, eu tenho que levá-los a entender o problema. A minha questão, a questão que eu considero a principal - é sempre o problema entendido. Aí fica muito fácil de trabalhar.

Eu vou começar a mostrar a questão para vocês. [Para atingi-la], [no entanto], eu posso utilizar outros filósofos. Meu problema não é o filósofo... Meu problema é o problema. É essa a minha questão. Eu posso usar qualquer coisa - indiferentemente - desde que aquilo sirva. É uma prática importante no pensamento: a gente utiliza alguma coisa, a partir de que aquilo sirva. Depois, se não servir mais, joga-se fora - é um descartável! É exatamente o pensamento descartável.

Eu vou começar devagar porque provavelmente vai chegar mais gente. E chegando mais gente, não vai entender o que eu estou falando. Aí morre tudo, não tem jeito - não chegou no começo, não entende.

Primeira questão. Uma questão muito fácil. Nós usamos as palavras para falar. Usamo-las para nos comunicar. Mas cada palavra é dotada de muitos significados. Uma palavra não tem um único significado. Isso se chama equivocidade - a palavra é equívoca. Significa que ela teria, com ela, diversos significados - dependendo da maneira como você a usa. [Usada] de uma maneira - ela significa uma coisa. [Usada] de outra maneira - ela significa outra.

A palavra está articulada com o contexto e [é] por causa disso [que] ela é equívoca. Dizem os aristotélicos que ser inteiramente equívoca - é da essência da linguagem Por [isso], [quando] fazemos uma prática de comunicacação, para podermos nos entender uns com os outros ao longo de uma conversa, procuramos manter o mesmo significado [de uma] palavra que está sendo usada. Senão, correremos o perigo de dizer a palavra em determinado momento, e dali a pouco repeti-la com outro significado - e o interlocutor não entende. (Certo?) Devido à equivocidade das palavras - portanto - nós procuramos manter uma palavra repetida - na seqüência de um raciocínio - com o mesmo significado. É uma prática para evitar confusão. Há um exemplo muito claro disso na obra do Aristóteles.

Aristóteles concorda que as palavras sejam equívocas; logo, que tenham muitos significados. Mas diz que o raciocínio científico não poderia se processar se utilizasse palavras equívocas. Se eu construir um silogismo [do tipo] "Todo homem é mortal"; "Sócrates é homem" (etc.)... E o homem de "todo homem é mortal" tiver um significado... [diferente] do homem de "Sócrates é homem" - [essa diferença de significação] produzirá, de imediato, um desentendimento. [Daí], no decorrer de um raciocínio, [ser necessário] manter um mesmo significado. (Acho que todo mundo entendeu isso, não é?) [Manter] o mesmo significado - é o que permite a você ouvir tranqüilamente aquilo que está sendo dito. (Acho que está bem claro o que eu disse, não está?)

Em segundo lugar. Você pega Freud, por exemplo - ele tem uma obra. Pega o Marx - ele tem uma obra. Pega um cientísta qualquer - ele tem uma obra. Agora, as obras, quando são feitas - por exemplo, a obra do Marx; por exemplo, a obra do Freud - vão, ao longo da sua existência, se articular com diversos pensadores. Freud - por exemplo - se articula com um psicanalista francês, com a psicanálise inglesa e com a psicanálise americana... Cada um desses pensadores faz uma articulação diferente com a obra do Freud. O que implica em dizer, que a gente só pode entender uma obra, não naquilo que ela é - mas no seu devir. Ou seja - no processo da obra. Nos agenciamentos que a obra faz. Uma mesma ideia, na obra do Freud, vai ser [diferentemente] apreendida pela psicanálise inglesa e pela psicanálise americana. Então, nós não entendemos uma obra pelo que ela é - mas pelo seu devir.

O que quer dizer devir? Os agenciamentos que a obra faz. (Ficou claro isso?) Os agenciamentos que a obra faz com diferentes pensamentos. O que mostra que uma ideia da pasicanálise ou uma ideia da obra do Freud só pode ser entendida [conforme] a composição que ela fizer. Ela faz uma composição aqui, faz uma composição lá! Não adianta querer entender a obra nela mesma. Entende-se [uma obra] em suas composições. Isso se chama - o devir da obra.

Vocês pegam o Marx, por exemplo, e vocês sabem as diversas composições que a obra de Marx fez na história - Lukács, Althusser, Gramsci... e vai embora... - cada um faz uma articulação com ela. E eu estou dizendo que a obra não é A obra. A obra é o devir obra. Devir obra - são as composições. (Vocês entenderam bem?)

Essa segunda ideia se opõe à primeira. Porque na primeira eu coloquei a existência de uma ideia que não muda pelas composições. (Foi assim que eu coloquei.) A ideia de homem é a mesma em "todo homem é mortal" e em "Sócrates é homem". Na segunda posição, eu coloquei as composições das ideias. Então, nós teríamos a noção de que uma ideia [pode ser] compreend[ida] pelo que ela é; e [outra] noção de que uma ideia [pode ser] compreend[ida] pelas composições que ela faz. (Como é que foi isso daqui?) Compreender [uma ideia] pelas composições que ela faz... Isso é o movimento do pensamento - você não tem uma ideia em si mesma. Você só pode compreender a ideia através [dos] tipos de composição ela fez. (Eu gostaria que vocês me dissessem se vocês entenderam.)

Vou dar um exemplo concreto: eu pego a ideia de cavalo. Porque cavalo é um ser real - de quatro patas, de dois olhos, que anda pelo mundo. Mas além de ser real - ele é uma ideia no meu pensamento. Eu posso ter a ideia de cavalo. Na hora em que eu penso "um cavalo puxando carroça" - eu faço um agenciamento da ideia de cavalo com a ideia de carroça. Na hora em que eu penso "um cavalo correndo no Jóquei Clube" - eu faço um agenciamento da ideia de cavalo com o Jóquei Clube - e produzo dois cavalos diferentes... porque a ideia se compôs - composição da ideia.

A ideia é aquilo que só pode ser pensado nas suas composições. [Segundo o] que eu disse... - o que é a criança? Ou, de outro modo - o que é a ideia de criança? Você só pode responder, dizendo que [tipos de] composição ela está fazendo. E aí vocês investigam a história e [verificam] que a ideia de criança, quando se conjuga com alguma outra ideia no século XVII, dá um tipo de criança diferente da criança moderna - porque são outros tipos de composição. Então, é pelas composições que nós vamos entender qualquer coisa. [E] isso é um modelo de pensamento.

Então eu vou reforçar mais uma vez: não estou pensando a ideia em si mesma. Ideia em si mesma tem um sinônimo - essência. A famosa palavra essência quer dizer - uma ideia em si mesma. Eu estou pensando as ideias - em composição. (Como é que você achou, O...?)

O que é a criança? Mais ou menos isso - "Diga-me com quem andas e eu te direi quem és"; diga-me com que ideia [alguma coisa] [se] compôs - e você passa a entender o que é aquilo. (Eu vou dar por entendido!)

Em segundo lugar. Ainda que uma ideia só possa ser entendida pela composição, ainda assim, uma ideia traz as suas forças próprias. O que eu quero dizer é [que] o cavalo se entende pelas composições que ele faz. [Se] ele faz duas composições diferentes -composição com a carroça e composição com o Jóquei - são dois cavalos. Mas o ser do cavalo traz as mesmas forças - a ideia traz as mesmas forças, em composições diferentes. Este maço de cigarros, por exemplo, está agenciado com a mesa. Eu [o] jogo na água... - ele [passa a se agenciar] com a água. Mas o ser deste maço de cigarro é o mesmo [nesses] diferentes agenciamentos. (Eu não sei se foi bem assim.) É o mesmo ser - em agenciamentos diferentes, (certo?) Não importa qual seja o agenciamento - o ser é o mesmo. Mas são os agenciamentos que vão fazer a diferença. (Eu vou esperar para ver se entenderam. O que você achou, A...?)

Aluna: [inaudível]

Claudio: O que eu estou dizendo, é o que está sendo passado nesta aula. Quando você pega a obra do Platão e do Aristóteles - a essência de um ser é o significado daquele ser, (certo?) O significado daquele ser é a essência do ser. E aquele significado não pode mudar, porque se o significado mudar - muda a essência do ser... Porque a essência é o significado. Na [outra] tese que eu estou passando, a essência de um ser não é o significado - é a potência daquele ser.

Aluno: [inaudível] a ideia de movimento.

Claudio: Sim, e daí, A..., a ideia de movimento? Olha, não faz assim, A..., que assim você se complica! É a coisa mais simples! A essência pensada por Platão e Aristóteles é o significado. O Lucrécio e os estoicos estão pensando essência = potência. Então para eles...

Qualquer coisa para o Lucrécio tem uma essência? Tem! Este maço de cigarro tem uma essência? Tem! Qual a essência dele? A [sua] potência! Ele tem um significado? Não! Ele vai ter significado através do agenciamento. O significado é um efeito das potências: não é originário - é secundário.

(A...., vou repetir - para você pegar bem. Porque, talvez, muitos [dos] problemas que você tem em relação a esse tipo de filosofia - essas questões, marcas, signos, etc.- essas coisas que aparecem - você venha a resolver aqui. Veja o que eu estou dizendo:) Todo ser tem, o quê? Tem potência! Mas não tem, o quê? Significado! Ele não tem siginificado - ele tem potência. Agora, quando a potência de um ser entra em contato com a potência de outro ser, há um efeito - o efeito é o significado. (Entenderam? Vou tentar para ver se vocês entenderam mesmo,viu?)

Quem é que trabalha com potência, quem é que trabalha com significado?

Quem trabalha com significado é a linguagem; quem trabalha com potência é a física. Então, o campo do significado - logo, o campo dos efeitos das potências - é a linguagem. [Que] trabalha nele. Agora - a potência é o campo da física. (Vocês entenderam? Vocês têm que me dizer - porque nós estamos passando para uma fase muito bonita, muito bonita!) Quem é que trabalha com o significado? É a linguagem! Mas os significado é alguma coisa que pertence ao ser? Não! O ser não tem significado - tem potência. Então, a potência de um ser e a potência de outro ser se encontram... - e produzem um significado. Então, olhem o que aconteceu aqui. Eu não estou falando que a potência de um ser e a potência de um outro geram um efeito? O efeito é o significado. Mas eu não falei da potência dos dois seres? Logo, eu falei na potência de dois seres! O que implica em dizer, que aqui estão passando duas semióticas - uma semiótica da potência e uma semiótica do significado. (Vamos voltar outra vez. Vamos voltar outra vez. Vamos retornar. Vamos fazer uma elaboração, porque aí as coisas ficam muito claras!)

O que é uma essência para Platão? Para Platão a essência é o significado. E a essência para os estoicos? É uma potência. Logo, tem uma distinção rápida aqui. Rápida. A essência, para o Platão, é campo lógico e campo da linguagem. A essência, para os estoicos, é campo da física - porque fala em potência, em força.... então é física. Ambos trabalham em essência, mas para um, que são os estoicos - a essência é campo de força. Para o outro, que é o Platão, a essência é da ordem linguística - é campo do significado. (Entendeu, A...?)

Agora - os estoicos também vão falar em significado. O significado para eles é apenas um efeito do campo das potências. O significado pressupõe a composição das potências -cavalo com carroça, por exemplo. Aí produz o significado. O significado não é originário - é secundário. (Entendeu, A...?)

Aluno: [inaudível]

Claudio: O que você tem aqui é o mundo dividido em duas metades. A metade do significado e a metade das potências. Você tem dois mundos aqui - da potência e do significado. O campo da potência e o campo dos significados - dois mundos! (Não sei se vocês já conseguiram entender, não sei. Olha, eu estou com todas as disposições para vocês perguntarem... Porque tem muita informação para eu dar, então precisa me avisar se houve domínio. A..., vou visar você:)

Diferença da essência dos estoicos para a essência do Aristóteles e do Platão - Platão e Aristóteles - ambos - chamam a essência de... significado. [Enquanto que] os estoicos chamam a essência de... potência. Pronto!

Agora - há um campo do significado nos estoicos? Há! Esse campo do significado dos estoicos não é um campo de forças - é um efeito. Um efeito das potências. (Daí emerge uma questão, que eu tenho que ver se vocês entenderam, senão [será preciso] retornar.)

Eu estou falando do campo das potências? Estou falando do campo dos significados? Então. Eu disse para vocês que o campo das potências não era da ordem da linguagem... (Vamos voltar novamente. Vamos ver se vocês dão conta e vocês me avisam: Óh, dei conta! - Eu sei que alguns já deram conta.)

É só uma mudança de nomenclatura. Mudança na ideia de essência. Ideia de essência em Platão = significado. Ideia de essência nos estoicos = potência. Na aula passada, eu falei que a essência nos estoicos é um germe que visa a expansão. Isso que é a essência deles - um germe expansivo. Enquanto que a essência em Platão é campo do significado. (Tá certo?)

Agora, para os estoicos, existe o campo do significado, mas o campo do significado não é o campo das potências. É um efeito das potências. Na linguagem estoica, o campo das potências [é] o campo dos corpos; o campo do significado [é] o campo do acontecimento. Então, são dois mundos para os estoicos. O dos corpos - [é] a física. E o dos acontecimentos - [é] a lógica. (Como é que foi? Eu ainda não estou satisfeito, viu? Não estou. Ainda não foi, não é? Não foi. Ainda não foi. Só há como ir se vocês me perguntarem... porque eu não fico sabendo onde é que não está indo.)

Aluno: [inaudível]

Claudio: Não, não A... Vamos primeiro entender o que é isso que eu estou dizendo. Por exemplo - eu sou um corpo? Qual é a essência do meu corpo? Potência! A essência do meu corpo é potência... Meu corpo tem algum significado? Não! Ele não tem significado. Ele tem potência. É isso que ele tem. Agora, quando o meu corpo se encontra com outro corpo, ele produz - junto com o outro corpo - um efeito. O efeito não é potência. É significado.

Aluno: [inaudível]

Claudio: Se esses corpos são os poderes?? São!!

Aluno: [inaudível]

Claudio: Exatamente, exatamente. Só que a resposta foi só para você, não é? Os outros não vão entender. Fala, A....

Aluno: [inaudível]

Claudio: Não, A... Você não pode falar em nenhum corpo que não esteja conjugado com outro corpo - eu expliquei isto na aula passada. Um corpo é sempre uma conjugação com outro corpo. É sempre uma conjugação de potências. Sempre que você encontrar um corpo, ele está conjugado com outro corpo. Então - necessariamente - aparece o campo do significado. Porque o campo do significado é um efeito da composição das potências. Então, aparece o campo do significado. Mas o campo do significado não é potência. É, apenas, efeito da potência. (Eu não sei mais como eu falo, ouviu? Sinceramente, eu já não sei mais. Só se vocês fizerem perguntas, aí eu quebro o galho. Agora eu já me repeti... Aliás isso ocorre! É muito interessante que o Gilles Deleuze, quando escreve a "Lógica do sentido", repete uma mesma coisa umas 35 vezes até que ele diz: Bom, eu não tenho mais nada a dizer! Ele repetiu 35 vezes aquilo. O Deleuze...)

(Não há mais o que falar... - a não ser que vocês perguntem. eu dou derivadas. Bom, vamos lá.)

Aluno: [alguém afirma que já está claro]

Claudio: Não para todos. Não para todos. Para ela não está.

Aluno: [inaudível]

Claudio: É! A lei de um corpo.

Aluno: [inaudível]

Claudio: Sim, Heidegger. Poderia chamar diferencial, a diferença ontológica, será que é isso? Provavelmente é. É o campo da diferença. Que esses corpos quando se encontram... eles produzem um efeito - esse efeito é o campo do significado. O campo do significado. Eu vou tentar melhorar tua pergunta.

(Bom, vamos pegar assim... Agora, prestem atenção ao que eu falei.) Olhem o que eu falei: Eu falei... quando nós usamos a linguagem - e nós não paramos de usar a linguagem - qual é a função que nós [exercemos] quando a usamos? É para produzir, o quê? Significados!! Todo mundo usa a linguagem para produzir significados! É nítido, é facílimo entender isso. Todos nós estamos usando a linguagem, produzindo significados... ainda que a palavra significado possa ser uma palavra muito geral. Mas é evidente que se eu chego para você e digo assim: bláblábláblá. Você diz - não entendi, porque não tem significado! A linguagem está sempre articulada com essa questão do significado. Então, é evidente que a linguagem está articulada com o efeito do campo das potências. (Entenderam, ou não?)

Mas aparece um problema. Por que aparece um problema? Porque eu falei dos corpos!!! Eu falei da potência, falei dos corpos, mas disse que o campo das potências não é o campo do significado. Eu estou usando a linguagem para falar de alguma coisa que não é do reino do significado. (Não sei se vocês entenderam!) Eu estou usando a própria linguagem para falar de algo que não é do reino do significado... Então, complica! Complica! Se a linguagem tem a função de falar do significado... e nós usamos a linguagem para falar de alguma coisa que não é do reino do significado, pois a linguagem fala dos corpos.... Então ou a linguagem não poderia falar daquilo, ou não poderia existir na hitória o que se chama semiótica... [trecho duvidoso... defeito na fita]

O que é semiótica? É a ciência dos signos. E a semiótica que fala dos efeitos é uma semiótica do significado; a semiótica que fala dos corpos é uma semiótica energética. Apareceu alguma coisa nova - uma semiótica que não trabalharia com o campo da significação. (Eu não sei se foi bem aqui, se deu para entender...) Imediatamente alguma coisa de nova apareceu. Ou seja: nós temos uma ilusão de que a semiótica é sempre uma semiótica da significação. Mas, por este exemplo que eu estou passando para vocês, a semiótica não precisa ser somente da significação. No caso, ela também pode ser uma semiótica energética. (Agora vamos ver se passou! Não, eu acho que não, que eu fracassei. Devido ao meu fracasso, eu peço a alguém para me dar um café.)

(Vamos tentar um exemplo miserável. Da ordem da miséria total: para vocês entenderem.)

Qual o significado, digamos, do amor? Então, eu daria essa prova para vocês. E aí, cada um de vocês iria escrever o significado do amor. Viriam provas lindíssimas, (não é?). Eu ficaria aqui deslumbrado! Coisas lindíssimas!! Ai eu perguntaria a vocês... Qual é o significado da enzima. (Quer falar um pouco sobre a enzima, L...?) Você vai verificar que quando os biólogos estudam a enzima, eles não estão preocupados com o significado da enzima, mas com as funções dela.

Aluno: O significado não é conseqüência da função?

Claudio: É, é conseqüência da função! Mas quem está trabalhando numa semiótica energértica não está procurando significações. Está procurando o funcionamento. A ele não interessa o que significa aquilo. A ele interessa como aquilo funciona.

Aluno: Há aqui também uma certa linguística.

Claudio: [Sim.] Uma certa linguística, exatamente. Uma certa linguística, que, em vez... -pode-se falar até na filosofia analítica inglesa -...em vez de você se preocupar com a significação, você está preocupado em saber a função daquilo. Como aquilo funciona.

Aluno: Pode-se [inaudível] o amor [inaudível] uma energética, não é?

Claudio: Pode... deve-se, inclusive. Deve-se inclusive!! Porque o amor é um corpo. O amor é um corpo! Se o amor não fosse um corpo, a R... Não estava grávida. (Você entendeu, ou ainda não, A...? Está melhorando, B...?, fala lá!)

Na semiótica energética - o que eu estou chamando de semiótica energética - não é a investigação da significação. É a investigação da força, da função, do uso daquilo. (Certo? Eu agora vou dar uma pausa e ver se eu consegui ser entendido. Fui entendido? Heim!? Você entendeu, C...? Olha lá, heim? Você me responde assim... Há alguns que eu sei que entenderam. Outros, eu fico em dúvida! Bom. Vou dizer que entenderam.)

O que ocorre na história - segundo alguns pensadores - é que existiriam diversas semióticas, e não só essas duas. Eu coloquei duas: semiótica energética e semiótica do significado. Mas existiria mais do que isso. Existiriam múltiplas semióticas. A nós vão interessar as duas que os estoicos estão trabalhando: uma, a do significado; outra, a energética. (Como você está indo, T...?)

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Agora eu sou um filósofo estoico. E vou começar a falar dos corpos. Eu estou fazendo uma pesquisa de significado? Não! Eu estou fazendo uma pesquisa de potência, de funcionamento - como é que aquilo funciona. Os corpos funcionam... porque os corpos - literalmente - não significam nada! (É muito duro isso daqui!) Eles não têm nenhuma significação - mas funcionam. Não são do campo da significação: o campo da significação é efeito dos corpos. (Pronto! Dei por entendido!)

Aluno: Quer dizer que o corpo só tem sentido quando aliado à sua função?

Claudio: Mais grave ainda! O corpo não é aquilo que se entende por sentido e por significado. O corpo se entende pela função, pelo uso e pelas práticas potenciais - assim que se entende o corpo. (Certo?).

[Ao dizer] que os corpos não podem ser explicados pela semiótica do significado, [os estoicos] estão fazendo um longo deslocamento. Utilizar a semiótica do significado para compreender os corpos, [é] uma tremenda tolice - porque corpo é campo de potência. (Como é que você foi, E...?)

Agora, [a questão do] significado. O que é o significado? O significado é um efeito da composição dos corpos. O que mostra que o mundo estoico é dividido em duas séries - a série acontecimento e a série corpo. [É] assim que eles dividem o mundo. De um lado, o corpo e do outro, o acontecimento. O acontecimento é uma entidade significativa. Mas não é uma entidade potência. A potência é o corpo. (Eu acho que foi bem!) Aqui você tem literalmente a física estoica. (Atenção para os domínios do que vai aparecer aqui.) A física estoica é facílima - é potência, corpos, germes e expansão. Isso é a física deles.

E você tem a lógica dos estoicos: a lógica dos estoicos é o campo do significado. (Entenderam?) Se você for um lógico, trabalha em significados. Se você for um físico, trabalha [com a] potência. (Pronto! Não tem dificuldade de se entender. Você entendeu, P...? Não tem dificuldade de se entender.)

(Agora nós vamos entrar numa página difícil... Vamos entrar num momento muito difícil. E eu pergunto novamente se isso está entendido... porque é a base para entender o que vem [em seguida]. (Certo?) Vamos trabalhar:)

Aluna: [inaudível]

Claudio: Olha, não! Não. Nós vamos examinar o que é exatamente o acontecimento. Mas a natureza dos acontecimentos é diferente da natureza dos corpos. A natureza dos corpos é a potência. A natureza do acontecimento é o significado. (Vamos começar, agora, a fazer um trabalho radical. Radical e rigoroso... para vocês entenderem o que vai acontecer aqui. Então vamos.)

Primeira parte do trabalho - (que só pode ficar entendida se vocês [tiverem compreendido o que eu [acabei de] explicar.)

Há uma lógica dos estoicos. A lógica dos estoicos é a dos corpos? Não. A lógica é dos acontecimentos. É isso a lógica dos estoicos. Agora - no Aristóteles há, também, uma física e uma lógica... Mas a lógica aristotélica... - A lógica, não estou falando dos corpos! -... não é a lógica do acontecimento, é a lógica do conceito. Nós, agora, temos que distinguir a lógica do conceito de uma lógica do acontecimento. Não sei se vocês entenderam aqui: há uma diferença inicial e uma identidade entre Aristóteles e os estoicos - porque para Aristóteles há corpos e lógica - física e lógica; para os estoicos [também] há física e lógica. A física dos estoicos é a potência dos corpos, a lógica dos estoicos é o acontecimento; a lógica do Aristóteles é a lógica dos conceitos. (Entenderam? Agora eu vou fazer uma explicação para vocês. Você entendeu, B...? São coisas totalmente novas, não é? Inteiramente novas.)

Todo corpo vivo tem a capacidade de representar os corpos que o afetam. Todo corpo vivo representa [em si] o corpo que o afeta. Por exemplo, a imagem do B.... me afeta... - eu represento B.... dentro de mim. Para ficar bem claro: todos os corpos vivos ou - para ficar ainda mais claro: antropológicos... (e aí não tem como errar...) Ou seja: todo corpo humano pode representar, nele, os corpos que o afetam. Afetou - conseqüência - representação. Certo? Então, C.... me afetou... - eu represento C....

O que quer dizer representação? Representação quer dizer que alguma coisa que está presente fora de mim, está re-presente dentro de mim. (Não sei se vocês entenderam...) E.... está presente. E eu tenho a imagem da E.... Isso é a representação. Eu represento aquilo que está fora de mim, a partir do instante em que aquilo que está fora de mim me afeta. Se não me afetar, não [faço a representação]. Segundo [um aluno] físico, eu não posso ter, por exemplo, a capacidade de representar determinados sons que o cachorro representa. Não é isso? Porque [esses sons] não me afetam. Eu represento aquilo que me afeta - representação é sinônimo de marca. Eu represento, porque eu sou marcado por aquilo. Nos estoicos, isso se chama - representação sensível. Nós, os humanos, somos capazes de fazer representações sensíveis de tudo aquilo que nos afeta. (Entendido?)

Além disso, nós somos capazes de fazer a representação racional. A representação racional é extrair, das representações sensíveis, semelhanças e identidades. (Vocês entenderam?) Por exemplo - neste instante, eu estou sendo afetado por vocês. Então, de cada um de vocês [aqui presentes], eu faço uma representação sensível. A representação racional é retirar de vocês o que é diferente e ficar com o que em vocês é semelhante. (Não sei se entenderam...). Ou seja: pela representação racional, eu construo a ideia de homem. A ideia de homem não é uma representação sensível. Ela é uma representação racional originada no conjunto das representações sensíveis. Aí eu constituo a ideia de homem. De onde eu tirei a ideia de homem? Eu tirei a ideia de homem das representações sensíveis... porque eu excluo, das representações sensíveis, as diferenças: não me importa que o B.... seja maior que a O.... - me importa que o B.... e a O.... tenham um tamanho. Não me importa se o B.... pensa diferente da O.... - me importa que ambos pensam. Eu fico com o comum, excluo o singular - e formo a representação racional. O conceito é a representação racional. (certo?) Para quem? Para os estoicos. O conceito para eles seria a representação racional. (Entenderam?)

Aluno: [inaudível]

Claudio: Não, mas a teoria dos conceitos do Aristóteles não é exatamente dessa maneira. Mas não importa! O que importa aqui é a teoria dos conceitos dos estoicos, depois eu [explico] a do Aristóteles - que tem muita semelhança com isso aqui. Muita semelhança. Mas não importa... - o que importa agora é a dos estoicos. Logo, para os estoicos, existe ou não representações sensíveis e representações racionais? Existe! Mas a representação sensível e a representação racional são práticas corporais: são dos corpos - porque afetam os corpos. E a questão da lógica deles não é dos corpos. Então - a lógica dos estoicos não é uma lógica da representação. (Se não entendeu, nunca mais vai entender!) Os estoicos vão gerar uma lógica fora da lógica-modelo do Ocidente, que é a lógica da representação. Eles vão fazer uma lógica do acontecimento - que eu passo a explicar depois de tomar um café e descansar um pouquinho.


Lado B:

A segunda parte que eu vou dar, não vai ser difícil, não. (B.... ficou assustado!) [O] difícil, não é difícil para vocês - é para mim também, pela intensa originalidade do que os estoicos estão dizendo.

Há um texto em que os estoicos dizem que se Adão... - Por que Adão? Porque Adão é o primeiro homem! - ...que, se Adão olhar para uma lagoa, de maneira nenhuma ele conseguirá descobrir que se entrar lá no fundo [de suas águas], ele morrerá asfixiado. Dizem eles, que olhar para a lagoa, não [é suficiente para] descobrir que a lagoa afoga. Nem olhar para o fogo [dá para] descobrir que o fogo queima. O que os estoicos estão dizendo, é que a representação sensível, pelo menos da água e do fogo, não gera conhecimento. Você tem aquela representação sensível, mas [com ela] você não descobre nada daquilo dali. De alguma maneira, eles estão colocando em crise um conhecimento fundado na representação sensível. Ponto.

Segundo: Para os estoicos, na hora em que você faz uma representação racional, você utiliza substantivos comuns - a mesa, a cadeira, o homem. [Faz-se] representações racionais, utilizando[-se] substantivos para representar o objeto racional. O objeto racional é diferente do objeto sensível. O objeto sensível é individual, e o objeto racional é a coleção dos indivíduos menos a suas diferenças. Aí, utiliza-se substantivos para fazer a representação racional. (Entenderam?) Mas quando você for trabalhar no acontecimento, você [emprega] os verbos no infinitivo. O que nós descobrimos aqui? Que no campo das representações sensíveis e das representações racionais, você tem dois tipos de linguagem: a linguagem do nome próprio, para as representações sensíveis; e a linguagem do substantivo comum para as representações racionais. Mas, o acontecimento, não se diz nem com substantivo nem com o nome próprio - diz-se com verbos no infinitivo. (Até aqui tudo bem?) Então, se eu disser, [de modo] ainda muito vago, mas se eu disser - "amar" - o que é isso? É um acontecimento. Porque o acontecimento é dito por um verbo no infinitivo - ou no gerúndio, amar/amando, tanto faz. Enquanto que as representações racionais são feitas por substantivos comuns e as representações sensíveis com substantivos próprios. (Está certo?) "Bento" - esse nome representa, o quê? Uma representação sensível; "O homem" - é uma representação racional. (Tá certo?)

Agora vamos ver o que é o acontecimento. é que é barra pesada! Vamos tentar entender o que é o acontecimento:

Na primeira parte da aula, eu falei na existência de uma física - que seria das potências dos corpos; e falei de uma lógica - que seria a lógica do acontecimento. A primeira grande e terrível distinção estoica [é que] a natureza é constituída de corpos e incorporais. O incorporal - não sabemos o que é - é do campo do acontecimento. A única coisa que nós sabemos é que quando eu falar em acontecimento, eu não estou falando em corpo, eu não estou falando em potência. Eu estou falando em acontecimento e incorporais. E, o que é mais importante: o acontecimento é um efeito, ele nunca é causa - ele é efeito do campo dos corpos. É o campo dos corpos que produz o efeito acontecimento. (É dificílima essa colocação!)

O que está ocorrendo aqui? Adão olha a água, e nesse olhar, ele não compreende que a água é capaz de afogar. Ele não compreende! Mas, no momento em que Adão fizer uma experiência com a água, ele vai descobrir que se ficar [sob] a água... - ele vai-se afogar. O que vai acontecer aqui? Na hora em que Adão olha para a água, ele tem [dela] uma representação sensível. Logo, Adão está numa dimensão do tempo - na dimenão presente. Então - corpos, potência de corpos e as representações sensíveis se dão na dimensão presente [do tempo]. Mas depois de ter feito essa experiência, e de compreender que a água afoga... - ele é capaz de fazer dentro dele uma ideia do futuro.

O que é uma ideia do futuro? Ele faz a ideia: "se meu corpo se conjugar com o corpo da água, eu vou-me afogar". Já - afogar - não vem da experiência - é alguma coisa que está no futuro. Ou seja: o acontecimento traz para o mundo o que o mundo não tem - porque o mundo é constituído de corpos e potências no presente. O acontecimento traz o futuro. Traz o futuro. Adão consegue agora ir além da experiência - ele vai mais longe. Ele vai à compreensão do que acontecerá... - se ele entrar debaixo daquela água. Isso não está no presente. Isso está no futuro. O acontecimento é a chegada de uma nova dimensão do tempo. (Não sei se foi bem!? Entenderam?)

O acontecimento está trazendo para dentro da natureza uma dimensão do tempo que os corpos não têm - porque os corpos só teriam a dimensão presente. O acontecimento é a possibilidade do homem ultrapassar a experiência. Ele ultrapassa a experiência. Ele vai além da experiência. Ele sabe o resultado dos encontros dos corpos. Por isso que o acontecimento é dito por um verbo no infinitivo. Afogar, queimar... - botar a mão no fogo e queimar.

Por que o homem não bota a mão no fogo? Porque ele tem dentro dele um sentido que não está no mundo - está no espírito dele. (Entenderam?) O espírito dele é que contém aquilo - mas o acontecimento é inteiramente real. (Não sei se entenderam...) Está aparecendo alguma coisa que não é dada nas representações, mas é o poder que o sujeito humano tem de ultrapassar o campo das experiências, e se projetar para o futuro. Ele se projeta para o futuro - por causa do acontecimento. Porque o acontecimento é o resultado do encontro dos corpos e o espírito humano tem o sentido dele. (Eu acho que ficou difícil, heim? Ficou difícil, C...? Vocês tinham que falar um pouco. Eu vou voltar - com outras terminologias. Mas já falando comigo - para ver se eu consigo passar isso para vocês.)

Aluno: [inaudível]

Claudio: Olha, é abstração - de alguma maneira... porque ele acontece no espírito. Mas, simultaneamente, ele acontece no real. Ele acontece no real. Ele é inteiramente real... e é espiritual - mas não é algo do corpo - é uma conseqüência do encontro dos corpos. Queimar e afogar não são corpos - são consequências. .. consequências! É exatamente porque os homens possuem o acontecimento - que eles ultrapassam o campo experimental. Eles vão acima da experiência. Eles trazem - para a natureza - o futuro. (Não foi bem não, não é? Foi muito cruel...)

Aluno: Claudio, você pode ultrapassar o acontecimento em algum momento, já sabendo...

Claudio: Sim, mas o importante, O..., o importante aqui é que essa tese mostra que o sujeito humano não está dependente das representações - ele pode ir mais longe. Ele vai além das representações. Ele vai além da natureza. Ou seja: o espírito humano é aquilo que ultrapassa a natureza. Ele ultrapassa a natureza - exatamente pelo processo do acontecimento. Ele tem - nele - o sentido dos encontros dos corpos. É isso que ele está trazendo de novo. A lógica do acontecimento não é uma lógica prisioneira da representação. Ela vai além da representação. É uma lógica que ultrapassa, inclusive, o tempo presente - remete-nos para o futuro. Eu digo: "eu não boto a mão no fogo porque eu vou me queimar..." E eu digo isso - porque eu tenho o sentido.

Vamos voltar: o mundo da representação é um mundo presente. Você só pode representar aquilo que está no presente. Eu represento Bento. Re-presento. Retorno com o presente. O mundo do acontecimento libera para nós - pelo menos nesta aula - uma dimensão do tempo que o mundo dos corpos não liberou. A dimensão futuro só pode aparecer em nós pelo acontecimento - não pelos corpos.

Pelos corpos só temos o presente. Mais nada. Enquanto que o acontecimento já nos leva a ter saber - sem que nada tenha acontecido. Construímos um saber que não é dependente das representações. (É óbvio demais para ser claro! O problema é de verdade! É a clareza do que [os estoicos] estão dizendo.) Porque você só tem esse saber porque o acontecimento. (Vou tentar de outra maneira:)

Uma teoria do tempo dos estoicos, vamos tentar por aí. Quando os estoicos falam dos corpos, eles fazem uma física; e eles colocam que falar em corpo e falar presente é a mesma coisa. Porque o corpo é aquilo que está limitado - necessariamente - pelo hic et nunc - o aqui e o agora. Todo corpo tem um limite... Qual é? É o aqui e o agora. Qualquer corpo necessariamente está num aqui e num agora - não há outro jeito. Se vocês fizerem alguma hipóteses de que [isso é possível], digam para mim. Nenhum corpo pode estar fora do seu lugar e fora do seu presente. Está no presente e no lugar. Necessariamente.

Então, quando você trabalha com os corpos, quando você trabalha com a física, é uma física do presente. Tudo é presente! E o acontecimento introduz duas dimensões do tempo que o corpo não tem - o passado e o futuro. Neste instante, eu só estou falando do futuro. Ou seja, o acontecimento, o efeito dos corpos, traria - como conseqüência de sua aparição - novas dimensões do tempo - que é o passado e o futuro, que no mundo dos corpos nós não teríamos. Se nós estivéssemos presos às representações, nós estaríamos presos ao aqui e agora. (Eu não sei se foi bem, se vocês entenderam...)

O grande problema não é ter dúvida sobre o que eles estão dizendo - é aceitar -literalmente - o que eles estão dizendo. E se vocês quiserem fazer uma experiência... vejam se um corpo pode estar fora do presente e do lugar. Não pode! Todo corpo está no presente... - é isso que eles estão dizendo. O ser dos corpos, a dimensão dos corpos é o presente. Então, toda a nossa experiência é uma experiência de quê? É uma experiência de corpo, é uma experiência de presente! De que maneira nós podemos ultrapassar a experiência? De que maneira nós podemos sair da prisão do presente? Através do acontecimento. É o acontecimento que vai permitir a emergência dessas duas dimensões: passado e futuro. (Eu acho que está muito forte por hoje, não é? Eu vou abrandar um pouquinho alguma coisa aqui... Deixa que eu retorno na próxima aula. Acho que já está muito forte por hoje, já está havendo problema. Eu vou dar só um exemplo e vou sair.)

Há um autor moderno, um lógico inglês - que escreveu muito sobre o acontecimento. É o Lewis Caroll. Alice no país das maravilhas, etc. Isso tudo é lógica do acontecimento. Por isso é que nós temos dificuldade de entender - porque nós estamos acostumados a trabalhar com conceitos. Conceitos na representação sensível e na representação racional. Quando ele introduz a noção de acontecimento, o que ocorre? No acontecimento, o que não existe, em termos de dimensões temporais? Não existe o presente. No acontecimento não existe o presente. O presente é só do corpo. Então, a grande originalidade dos estoicos - esta é a grande originalidade deles - é ter dividido o tempo em duas dimensões: de um lado o presente - dos corpos; de outro lado o passado e o futuro - dos acontecimentos. (Eu acho que está bom por hoje, viu?)

Fala, K....

Aluna: O acontecimento não pode ser re-presentado.

Claudio: Não pode, não é presente!?...

Aluna: A representação [inaudível] que ela é, reproduz a [inaudível] passada. Porque quando [inaudível] e eu re-apresento.

Claudio: Olha, eu acho que você mesma disse que não reproduz. O que você tem presente é a imagem... Agora - você codifica ou pontua essa imagem como do passado... - mas o que você tem é o presente. A imagem é inteiramente presente. (Entendeu?)

Aluna: [inaudível] o passado [...] da imagem [...].

Claudio: Não, o passado é do acontecimento. É uma pergunta heideggeriana. Heidegger já fez essa pergunta. O que torna, digamos, este móvel antigo? O que torna isto aqui antigo? Porque quando você está no campo do corpo, tudo que você tem é presente. Isto daqui é presente. [inaudível] Mas o que eu tenho dentro de mim é uma imagem presente.

Aluno: [inaudível]

Claudio: Não, não, porque, veja bem - a imagem é um corpo presente em mim, não importa. Não há como o corpo sair do presente. Não há. Ele não tem como sair - ele está sempre prisioneiro do presente. A lei do corpo é o presente. (Ficou difícil, B.?)

É muito fácil. Neste instante eu estou com a imagem de Macaé - que é a minha cidade. Mas eu estou com a imagem em "mil novecentos e antigamente". (Tá certo?) Mas a imagem que eu tenho aqui, em mim, é presente. É presente! O corpo não tem como escapar disso - ele só vive no âmbito do presente. A dimensão do corpo é o presente. Se não houvesse o acontecimento... (Eu volto na aula que vem, eu volto com muito mais firmeza, porque nós já passamos pelas dificuldades do corpo... É o acontecimento que vai trazer essas duas dimensões - passado e futuro. O que mostra que o acontecimento é o poder que um corpo tem de sair do presente. O corpo sai do presente pelo acontecimento).

Agora eu vou deixar de lado, e vou dar pequenos exemplos de outra teoria que pega isso daqui:

Eu vou fazer uma coisa simples para vocês. Eu vou pegar um relógio. Um relógio tem um ponteiro de minutos e um de segundos. O segundo é a menor unidade de tempo do relógio. Eu vou chamar de menor unidade de tempo metafísica o instante. No relógio da metafísica - o instante é a menor unidade. (Entenderam?) Então - Agora, eu vou dizer que a natureza seria um conjunto de instantes. Agora, eu estou no instante A. Agora, eu estou no instante B - o instante A virou passado. Agora, eu estou no instante C - o instante B virou passado. Então, o tempo seria pensado numa sucessão de instantes. (Certo?) A cada tempo eu estou, eu estou no tempo presente. Eu saio de um tempo presente - saio de um instante - e passo para outro instante. Eu passo de um presente para outro presente. Eu vou fazendo isso, saindo de um presente para outro presente, para outro presente... [indefinidamente...] Isso seria uma teoria do tempo.

Agora - eu não sei se vocês conhecem um [fenômeno famoso] chamado dejà vu? Vocês conhecem, o dejà vu é quando você chega em um lugar e você diz: "Eu conheço este lugar" - ainda que você nunca tenha ido a ele.

Um acontecimento que se dá com os atores. Muitos atores estão representando - Hamlet, por exemplo - e estão, simultaeamente, se vendo representar. Eles representam e se vêem representar. Vocês conhecem esse fenômeno? É um fenômeno comum... Você está fazendo alguma coisa e está se vendo fazer aquilo. (Entenderam?)

O dejà vu - que é muito mais claro - é quando você mistura aquilo que você está vendo com alguma coisa que "tivesse" acontecido na sua vida. É exatamente a tese dos estoicos - eles dizem que nós não convivemos com o tempo como se o tempo fosse presente - o tempo é imediatamente, para nós, presente e passado. Ou seja: ao olhar para o Bento, eu estou - [ao mesmo tempo] - percebendo e memorizando o Bento. O tempo não pode ser pensado como uma entidade apenas presente, ele é - simultaneamente - presente e passado. Por isso é que você entra em contato com alguma coisa no presente e - ao mesmo tempo - aquela coisa já é passado. Simultaneamente. É esse o fenômeno de você se ver representado. É esse o fenômeno do dejà vu. Aquilo é simultaneamente presente e passado. É exatamente essa a tese que eles estão querendo explicar pela teoria do acontecimento.

Eu vou dar por terminada essa aula, porque eu não aguento mais... Nós voltamos à teoria do acontecimento, muito mais fortalecidos, na próxima aula, muito mais fortalecidos!

Aqueles que quiserem algum texto, eu tenho os textos básicos... e eu acredito que na próxima aula eu já possa passá-los para vocês.

Fim.

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Aula de 05/04/1989 – Acontecimento e campo de poder

capa-grande-aventura[Temas abordados nesta aula são aprofundados nos capítulos 6 (Do Universal ao Singular); 7 (Cisão Causal); 10 (Estoicos e Platônicos) e 15 (Ecceidade e Espinosa, o mais Poderoso dos Deleuzianos) do livro "Gilles Deleuze: A Grande Aventura do Pensamento", de Claudio Ulpiano. Para pedir o livro, escreva para: webulpiano@gmail.com]


1ª Parte

LADO A

[...] se não houver o completo entendimento eu terei dificuldade de montar outras teorias no decorrer da aula.

Primeira questão: O que é exatamente o conceito? Em primeiro lugar: o fato da existência do conceito. Por que existe, na linguagem, esta prática chamada conceito? Por uma razão muito simples, diz o Aristóteles. Segundo ele, nós os sujeitos humanos, somos dotados de uma [dupla] semiótica. Semiótica é teoria dos signos. Dupla [semiótica], [porque] nós somos capazes de falar e de escrever. Mas quando nós falamos e quando nós escrevemos, diz ele, nós falamos e escrevemos sobre o mundo. Então, segundo ele, o objeto da escrita e o objeto da fala é o mundo. (Está bem claro?) Isso se chama prática denotativa. Fazer com que a linguagem diga alguma coisa do mundo à nossa frente.... mas existindo uma diferença entre a linguagem e o mundo. É que o mundo é infinito.

O que quer dizer mundo infinito? Por exemplo, o Bento que está na minha frente, pode fazer os mais indefinidos movimentos. Cada um de nós pode fazer indefinidos movimentos. Mas a linguagem é finita, não pode representar nela os movimentos indefinidos do mundo. Por causa disso, a linguagem inventa o nome geral. O nome geral é uma maneira da linguagem dar conta do mundo, porque ela não pode inventar nome para todos os acontecimentos do mundo, pois nossa memória não resistiria. Por exemplo, se eu quisesse dar nome a tudo o que acontece, eu diria assim: Bento passando a mão na barba, e me olhando nesta penumbra da noite de segunda feira. Não! É melhor eu dizer "Bento". Então, a linguagem inventa o nome geral porque ela é finita diante de um mundo infinito. (Acho que ficou bem claro!)

O que é o nome geral? O nome geral é alguma coisa inventada pela linguagem, mas no real não existe nada que seja geral. No real só existem os indivíduos. O geral é da linguagem. Por exemplo, no real tem "esta mesa", na linguagem tem "a mesa". A mesa é um nome geral da linguagem. A linguagem produz [o nome geral] porque ela é finita, e não poderia dar um nome a cada mesa, por isso ela produz o nome geral. (Entenderam?) Então, o nome geral é um artifício da linguagem, devido à sua finitude. A linguagem é finita e inventa os nomes gerais - agora, o real é in-di-vi-du-al. (Entenderam?)

Quando eu faço experiências no mundo vivo, essas experiências são sempre individuais - eu experimento no mundo os indivíduos. Mas a linguagem vem recobrir esse campo da experiência com os nomes gerais. [E aí] aparece uma defasagem entre a linguagem e o real. (Como é que foi, todo mundo entendeu essa diferença?) A linguagem é o instrumento da razão. O que mostra que entre a razão e a experimentação há uma diferenciação. Porque o mundo real - o campo das experiências - é individual, sempre individual! Mas a linguagem gera os conceitos - que são os nomes gerais. (Está bem claro?)

Aluna: [inaudível]

Claudio: Não. A linguagem não é toda geral, ela gera os nomes gerais, mas [há] também nela nomes como o nome próprio - que é um nome individual. O que eu estou dizendo é que a linguagem gera os nomes gerais porque ela não pode representar todos os movimentos do indivíduo nela - pois nossa memória não suportaria. E ela, então, os substitui. Se a linguagem não tivesse o nome geral, "esta mesa", por exemplo, teria um nome próprio! "Este cigarro" daqui teria o quê? Nome próprio! Como é que eu chamo este cigarro? O Cigarro! Eu dou, para ele, um nome geral. (Entendeu?) E isso é um artifício da linguagem, porque ela é finita. Ela inventa os nomes gerais para recobrir o mundo e, através disso, resolver o problema da comunicação. Ela resolve o problema da comunicação, utilizando os nomes gerais!

Aluno: [inaudível]

Claudio: Sem o nomes gerais? Não, não. O que eu estou colocando são dois tipos de linguagem - a escrita e a falada. E tanto a escrita quanto a falada trabalham com nomes gerais. Todas as duas! Nós não falamos "A mesa"; "A cadeira","O vento"? Veja bem: nas minhas experiências de mundo eu algum dia experimento "A" cadeira? Não! Eu experimento "esta" cadeira. Eu nunca experimentei "A" cadeira. Eu experimento esta cadeira. O nome geral é um artifício da linguagem.

Aluno: [inaudível]

Claudio: Isto seria singularizar? Repõe, E...! Sim, mas nós não temos possibilidades mnemônicas de fazer isso. Veja bem: se eu quiser falar sobre "o vento" somente com nomes singulares, eu tenho que fazer uma descrição do tipo que eu fiz do Bento. A linguagem vai e utiliza o nome geral para recobrir o problema da memória. Ela resolve isso.

Aluno: [inaudível]

Claudio: O que está sendo dito, é que isso é a essência da linguagem. A linguagem - escrita e falada - geraria o nome geral porque ela, a linguagem, é finita, e o mundo é infinito. (Entendeu?)

Por que apareceria a linguagem geral? Por causa da finitude da linguagem. Só isso! Ela é finita - é muito simples! Por exemplo: eu não falo "o vento"? O que é "o vento"? O que quer dizer essa palavra? Quando eu falo "o vento" - sobre que vento eu estou falando? Eu estou falando de todos os ventos, de todos os ventos. Mas, eu experimento todos os ventos na minha experiência? Não! Eu experimento um vento singular. É que a linguagem gera o nome geral - ainda que no real não exista o geral. No real só existem os indivíduos.

Aluno: [inaudível]

Claudio: [...] Segundo o que o Aristóteles está dizendo, é da essência da linguagem, pouco importa a época em que ela for falada. Pouco importa! Em qualquer época da história a linguagem geraria o nome geral. Geraria o nome geral, quer dizer: permitiria a um homem dizer para o outro: - Ah! O camelo é um animal feio. Quando ele diz: "O camelo é um animal feio" - de que camelo ele está falando? Ele está falando sobre a generalidade do camelo. Mas o campo experimental não me revela nenhum " O camelo". No campo experimental só existe " este camelo". [Aluno: inaudível] A linguagem produziria o genérico - ainda que as experiências sejam individuais. Há uma espécie de defasagem entre a linguagem e o mundo. [Aluno: inaudível] Há uma impossibilidade de você se comunicar descrevendo os indivíduos em seus estados atuais. É impossível para nós. Você teria que dar nome próprio a tudo. Qual seria o nome disso daqui [Claudio mostra um objeto qualquer] - se não houvesse nome geral? O nome disso seria, por exemplo, "Pedro Antônio"!?... Esta mesa teria um nome próprio... Tudo teria um nome próprio!

O nome geral recobre o real - ainda que o real não tenha generalidade. [...] fica muito claro!... (Entendeu?) Não há o geral. No real só tem o individual. (Já entenderam?)

Aluno: [inaudível]

Claudio: Olha..., não. Por exemplo: a literatura - ela tenta descrever experiências singulares. Por isso, quando ela [faz uma descrição,] ela evita o nome geral. Para descrever experiências singulares, não [se] pode trabalhar com o nome geral. Tem-se que usar outro tipo de linguagem. Mas o nome geral é uma maneira que [se] tem de classificar os indivíduos do real. Querem ver?

Esta sala se divide em mesa, homens e cadeiras. Três nomes gerais. Eu dividi a sala. Classifiquei. Isso é uma prática classificatória. Você recorta o real - que é constituído de indivíduos - com o nome geral. (Eu já não tenho mais nem o que dizer aí. Eu acho que está tão claro... Como é que foi?)

O nome geral chama-se conceito. O que é um conceito? É um nome geral. Pronto! (Entenderam?) O que é "O homem", por exemplo? Um nome geral - logo, um conceito.

Existe algum "O homem" no real? - O que é que você acha, Bento?

No real existe "este" homem. Mas "O" homem - se vocês encontrarem O homem por aí, tragam para mim, pois quero conhecer esse bicho!! Então, o nome geral é da linguagem - mas não é do... real. (Certo?)

Além disso, a linguagem produz o que se chama proposição. O que é uma proposição? É o momento em que, na linguagem, dá-se um predicado a um sujeito. Por exemplo: A mesa é bonita. O que é "A mesa é bonita"? É uma... proposição. Proposição é quando você dá ao sujeito um predicado. O homem é bonito. A rosa é vermelha. R... é cineasta - são proposições. (Tá certo?)

Então, o que é uma proposição? Uma proposição tem sujeito, verbo ser na terceira pessoa do singular, e um atributo ou predicado. (Está certo?) O atributo da proposição é o conceito. Portanto: o atributo da proposição é o nome geral. (não sei se entenderam...) O atributo da proposição é o nome geral. Bento é homem. Homem é o quê? Homem - não é um nome geral? Mas, na proposição, o nome geral tornou-se atributo. Então, na proposição, o nome geral ou conceito vira atributo. (Entenderam?)

Quando eu digo o homem, a produção do conceito não é verdadeira, nem falsa: é apenas um conceito - O homem, A vaca, O cachorro. Mas, quando o conceito vai para a proposição e se transforma num atributo, - toda a proposição é verdadeira ou falsa. Eu digo: Bento é bonito. Bento é feio. Uma dessas duas proposições é verdadeira e a outra é falsa. Ou seja: a prática do nome geral - no momento em que ele se torna um atributo - é uma prática do verdadeiro e do falso. Quando é que nós estamos no verdadeiro e no falso? Quando nós afirmamos ou negamos um atributo de um sujeito. Negar ou afirmar um atributo de um sujeito é uma prática do... verdadeiro e do falso. (Acabou!)

Então, se eu quero fazer ciência. A ciência é o universo do discurso onde está o verdadeiro e o falso. Fazer ciência é produzir proposições. (Eu acho que deu, não é?)

Aluno: [inaudível]

Claudio: Mas [nesse caso] o sujeito também é geral, não é? Então, quando você for fazer uma proposição, você procura colocar como sujeito aquilo que não pode ser atributo. O indivíduo é a única coisa que não pode em momento nenhum ser atributo. O indivíduo só pode ser sujeito da proposição - em momento nenhum ele, [o indivíduo] pode ser atributo. Por exemplo: "Bento é bonito". Mas eu não posso dizer "Chico é Bento". Eu não posso dizer "Bento é Chico". Porque o indivíduo é sempre sujeito... nunca atributo. O que são os atributos? Os atributos são os nomes gerais. (Não sei se isso passou... está muito difícil? Fala....)

Aluno: [inaudível]

Claudio: O atributo é o predicado: o nome geral. Por exemplo: Bento é o quê? Bento é um indivíduo. Logo, Bento só pode ser sujeito da proposição. Não pode ser atributo. Os atributos são os nomes gerais. (Eu acho que está tão claro: não tem como não entender. Posso continuar... ou tá muito difícil? Não está, não é? - Eu agora estou em dúvida!)

Qual é a função da proposição? Afirmar ou negar um atributo de um sujeito. A função da proposição é a produção do verdadeiro e do falso. Quando eu digo assim - Me dá um café! Isso é verdadeiro ou falso? (Aluno: Verdadeiro.) Não! Verdadeira ou falsa é só a proposição. Só há verdadeiro ou falso na hora em que você afirma ou nega um atributo de um sujeito. Só isso. (Entenderam?)

Então: nós, os sujeitos humanos, somos dotados da capacidade de produzir significações através da linguagem. A função da linguagem é produzir significações. Mas a única coisa, na linguagem, que produz o verdadeiro e o falso é a proposição. Então, a linguagem é mais ampla que a proposição, porque a linguagem é o campo da significação; mas a proposição é o campo do verdadeiro e do falso. (Eu acho que foi bem!..)

Quando eu quiser fazer ciência, o que é que eu tenho que fazer? Produzir significação pura e simples ou produzir o verdadeiro e o falso? Então, o campo da ciência é o campo proposicional. (Eu acho que já está claro. Alguma questão? Posso considerar entendido? Posso, não é?)

O atributo é o nome geral? Quando você atribui um nome a um sujeito - esse atributo pode ser essencial ou acidental. (Prestem atenção: porque a aula que eu estou dando para vocês ela não visa a isso aqui - visa a outra coisa. Mas se não entender essa, não vai entender a outra, certo?)

Que tipos de atributo eu posso produzir? Atributos essenciais e acidentais. Quando aparece o atributo essencial - que é um nome geral - ele é a essência do sujeito. Bento é homem. Homem é o quê? Homem é um atributo essencial; é um nome geral; mas também é a essência de Bento. (Certo?)

Então, no nível dos atributos, aparece o atributo essencial e o atributo acidental. Bento é branco. Branco é o quê? Atributo acidental. Homem é o quê? Atributo essencial. (Entenderam?) Nós teríamos duas práticas atributivas: o atributo essencial e o atributo acidental - como prática proposicional. Por exemplo, eu digo: Bento está sentado. Que atributo é esse? Acidental! (Entenderam?) Bento é um animal racional. Que atributo é esse? Essencial!

Enão nós teríamos dois atributos: o essencial e o acidental. Muito bem. Por essa tese, o atributo é ou a essência ou o acidente do sujeito. (Viu?) Ele é ou a essência ou o atributo do sujeito. (Corta, Corta! Agora vamos para outra coisa. Está entendido, não é?)

Os estoicos querem fazer ciência. Logo, eles querem fazer, o quê? Proposições. (Certo?) E uma proposição tem sujeito e... atributo Toda proposição tem sujeito e atributo. Então, os estoicos querem fazer ciência - logo, querem fazer proposições; logo, querem criar atributos; logo, querem criar discursos que têm sujeito e atributo. Mas os estoicos não vão concordar em usar o verbo ser. Eles não vão usar o verbo ser.

A primeira tese usa o verbo ser? [Alunos: sim!]

Os estoicos não vão usar o verbo ser - e em vez de colocar como atributo substantivos e adjetivos... Homem é o quê? [Alunos: Substantivo!] Branco é o quê? Sustantivo! Bonito é o quê? Adjetivo! - Os estoicos não vão colocar nem o sustantivo nem o adjetivo como atributo. Como atributo, [os estoicos] vão colocar o verbo no infinitivo ou no gerúndio. Por exemplo, eu digo assim: Esta mesa é azul. Quem é o sujeito? Esta mesa! Quem é o atributo? Azul! - Acidental ou essencial? Acidental! O estoico não dirá isso. O estoico dirá - Esta mesa azulando. Por quê? Porque o atributo dos estoicos não é dito nem pelo substantivo nem pelo adjetivo - é dito pelo verbo no gerúndio. (Não sei se ficou bom...) O que os estoicos estão fazendo? Eles estão rompendo com o atributo essencial; rompendo com o atributo acidental - e estão colocando, como atributo, o acontecimento.

Quantos atributos nós temos? Essencial, acidental e... acontecimento.

O acontecimento é o campo atributivo dos estoicos. A diferença da proposição estoica para a proposição aristotélica é que o atributo de Aristóteles é essencial ou acidental. O atributo dos estoicos é o acontecimento. O acontecimento é o verbo no gerúndio [ou no infinitivo]. O que os estoicos estão fazendo? Uma nova teoria. Nós conhecíamos a teoria das essências e dos acidentes de Aristóteles. Com os estoicos nasce a teoria do acontecimento. Essa é a parte mais difícil:

Uma proposição estoica... Esta árvore é verde - é uma proposição estoica? Não! Como diria o estoico? Esta árvore... verdejando. Ele não diria o campo dos atributos com os substantivos e adjetivos. O campo dos atributos deles é feito com o verbo [na forma] gerundial [ou no infinitivo]. Entenderam?

Agora uma frase negativa: os estoicos fazem proposições sem usar o verbo ser. Eles não utilizam o verbo ser. (Entenderam?) Então, no mundo estoico, não há atributos essenciais; não há atributos acidentais? O atributo estoico é um... acontecimento. (Bom, entenderam?)

Mas, se [há uma modificação do campo atributivo], [já] o campo do sujeito é o mesmo. É o mesmo sujeito. [Tanto] o sujeito do Aristóteles [quanto] o sujeito dos estoicos é o indivíduo. (Vejam se entenderam...)

Então: Esta mesa é verde - é uma prática atributiva da proposição aristotélica. Esta mesa verdejando é uma prática proposicional estoica. (Entenderam?) Mas houve a manutenção de alguma coisa, o quê? O campo do sujeito. (Certo?)

E agora: como é que nós sabemos a essência do sujeito no Aristóteles? Como é que eu vou conhecer a essência do sujeito no Aristóteles? Pelo atributo essencial! Nos estoicos, a essência do sujeito não está no atributo - está no próprio sujeito. A essência não é o atributo, é o próprio sujeito. [Ou seja:] há um deslocamento do campo essencial. Enquanto no campo essencial do Aristóteles o atributo é a essência. Nos estoicos, a essência é o sujeito. (Não sei se está bom aqui, não?)

Em "Bento é homem" - qual a essência? A essência é homem! Logo, a essência é o atributo. Os estoicos não vão trabalhar o campo das essências com os atributos. A essência para eles é o próprio sujeito. (Eu ainda vou explicar!) A essência é o sujeito. Não é o atributo.

Aluno: [inaudível].

Claudio: Sujeito e essência é a mesma coisa. Por quê? Porque para os estoicos a essência é o corpo. A essência é o corpo.

[Se] para o Aristóteles a essência é o atributo lógico - para os estoicos a essência é o corpo. Então: [para os estoicos,] cada corpo no mundo traz com ele a sua essência. (Certo?) [Na primeira teoria,] em Claudio é homem, a essência é homem. [Na segunda teoria,] em Claudio verdeja, por exemplo, a essência é Claudio. A essência para eles é o próprio corpo; não é um atributo lógico - é o próprio corpo. A essência de um ser é o corpo daquele ser. (Entenderam?)

Aluno: Eu não poderia falar Claudio é Claudio?

Claudio: Se você quiser falar Claudio é Claudio... você estará repetindo no predicado a essência sujeito. Não precisa falar isso! O que você tem aqui é um deslocamento do campo essencial. Enquanto a essência no Aristóteles é um atributo, nos estoicos a essência é o próprio corpo. (Vejam se vocês entenderam aqui, para eu continuar.)

Aluna: [inaudível]

Claudio: Você pode falar os acontecimentos! O que você fala do corpo são os acontecimentos que ocorrem a ele. Agora...

(Fim de fita)


LADO B

[...] O corpo é uma potência. A potência do corpo é de produzir acontecimentos. Então, é o próprio corpo que produz os seus atributos. (Não sei se foi bem!) O próprio corpo gera os seus atributos - mas os atributos não são essenciais nem são acidentais; são acontecimentos. (Tá?) Onde está a essência? No próprio corpo. Então, essência e corpo para os estoicos é a mesma coisa. Essência, potência e corpo são a mesma coisa.

Aluno: [inaudível] singular...

Claudio: Não! É melhor esperar um pouquinho, Chico, para não complicar aí. Não complica com isso aqui, não. Se você introduzir o singular agora, você vai se perder!

É melhor vocês entenderem, agora: este copo tem essência? Qual é a essência deste copo? (É fácil!) A essência deste copo é a potência dele. É isso que é a essência de um corpo - a essência de um corpo é a potência [daquele] corpo. Para que serve essa potência? Para expandir esse corpo. A essência de um corpo é a expansão do corpo. Como é que um corpo se expande? Encontrando-se com outros corpos - a expansão de um corpo é o encontro que esse corpo faz com outro corpo. Então, a essência de um corpo é do corpo - mas a função daquela essência é se encontrar com outros corpos. (não sei se vocês entenderam?!)

Aluno: [inaudível]

Claudio: Poderia, mas aqui é muito melhor você pensar que a essência de um corpo é a potência daquele corpo. É a potência dele. Qual é a potência de um corpo? Expansão. Pronto! (É a coisa mais fácil do mundo!) Um corpo tem uma essência? Tem! Para que serve a essência dele? Para expandir aquele corpo - só isso, mais nada!

Nós, aqui, passamos de uma essência lógica - que a essência aristotélica é uma essência lógica aquisitiva; para uma essência física e real - que a essência dos estoicos é a potência de um corpo. Meu corpo tem essência? Tem, [mas sua essência] não é um atributo - é do próprio corpo.

Aluno: Eu não entendi por que um corpo precisa se encontrar com outros corpos...

Claudio: Aí, eu agora vou explicar. O acontecimento é alguma coisa que vai ser produzida pelos corpos, e os corpos só produzem acontecimentos na hora em que eles se encontram. Só existe acontecimento, se houver encontro de corpos. Vejamos um exemplo barato - Bento respirando. O Bento não está respirando? Por que [o Bento está respirando]? Porque houve um encontro do corpo do Bento com o corpo do ar. O acontecimento é um efeito dos encontros dos corpos.

Aluna: [inaudível]

Claudio: É o encontro da mesa com o corpo do azul...

Aluno: Se eu disser, por exemplo, a planta está florescendo.

Claudio: É o encontro do corpo da planta pelo menos com o corpo da terra. (Tá?)  Não pode haver acontecimento nenhum se os corpos não se encontrarem. O acontecimento é o produto do encontro dos corpos. Porque você não vai encontrar sequer um corpo que não esteja num encontro com outro. É impossível encontrar-se um corpo que não esteja em combinação com outro corpo. É aí, então, que emerge o acontecimento. O acontecimento é um atributo gerado pela potência dos corpos. (Está difícil isso?)

Aluna: [inaudível]

Claudio: Olha, o que os estoicos estão dizendo, é que tudo o que existe no real - tudo o que existe - é corpo. Então, os corpos não param de se encontrar. Você quer ver que exemplo interessante? Por essa tese dos estoicos, tudo o que existe é corpo? Sim! A multinacional é um corpo? Qual é o corpo da multinacional? Potência. Potência de quê? [inaudível]. Então, o que é que a multinacional tem que fazer para se expandir? [Ela tem que fazer] encontros - para se expandir. Todos os corpos se expandem através dos encontros. Através dos encontros!

Aluno: [inaudível] O encontro é do corpo e aparece o incorporal?

Claudio: Aparece o acontecimento. O acontecimento é incorporal. O acontecimento não -é um corpo. É o efeito dos encontros dos corpos. O que existe no real são os corpos com suas potências. E esses corpos - quando se encontram - produzem o acontecimento. O acontecimento é uma coisa gerada pelos corpos. Se não houvesse corpos, não haveria acontecimento. Quem produz o acontecimento? O corpo!

Aluno: [inaudível]

Claudio: É uma relação afetiva dos corpos produzindo o acontecimento. (Eu já não tenho mais o que dizer, aí. Eu já disse tudo!) É a coisa mais fácil do mundo - por exemplo: Romeu e Julieta namorando. Namorando é o quê? É o acontecimento daqueles corpos que estão alí. Os corpos vão gerando os acontecimentos. O acontecimento não é o corpo - é um atributo do corpo. (Mas eu acho que não foi bem... - Para alguns eu sei que foi, para outros... está meio difícil! Mas é a coisa mais fácil - eu não sei como é que vocês conseguem não entender isso.)

Aluna: [inaudível]

Claudio: Porque quando um corpo se encontra com outro - necessariamente - ele produz um acontecimento! O acontecimento vai aparecer. Em qualquer situação que um corpo se encontrar com outro - ele aparece!... (E enquanto vocês não entenderem isso, eu não posso ir para a frente. Não posso. É impossível!)

Vamos tentar outro caminho...

Aluno: O lago esvaziando - qual é o encontro aí?

Claudio: É do lago com o corpo da terra. A água e o corpo da terra estão se encontrando. Porque é a coisa mais simples do mundo: pensar a ideia de corpo e não pensá-la sem que um outro corpo esteja em contato com ele, encontrando com ele.

Vamos fazer uma coisa - e aí vai ficar mais fácil para vocês. Vamos pensar o corpo vivo. O corpo vivo. Tenta fazer o pensamento do corpo vivo, sem ele se encontrar com outro corpo - é impossível! Porque o corpo vivo tem que se encontrar pelo menos, com quem? Com o corpo do ar! Como é que uma célula, uma bactéria, seja lá o que for, vai poder existir sem se encontrar com outro corpo? Necessariamente encontra outros corpos. Um homem pode ser pensado sem um outro corpo? Ele não tem que entrar em contato com outro corpo? Quando ele entra em contato com outro corpo, o que que aparece? O acontecimento! O acontecimento é a relação de duas potências corporais. [inaudível] Imediato!

Aluno: [inaudível]

Claudio: Nããooo! A essência do corpo é a potência. O acontecimento não é a essência do corpo. É apenas o resultado dos encontros de corpos. Por exemplo:

Eu - sou um corpo? Eu pego um avião. O avião é um corpo? Na hora que eu pego um avião e o avião levanta vôo, que acontecimento aparece? O passageiro! Passageiro é um acontecimento. Basta eu descer daquele avião e me dirigir para o bar, que eu perco - que acontecimento? O acontecimento passageiro! Eu perco [esse acontecimento] - mas eu continuo a ser um corpo! O corpo é aquilo que se encontra com outro corpo e produz o acontecimento.

Aluno: O dente dói.

Claudio: O que tem que acontecer para alguma coisa doer em alguém? Vê lá o que tem que acontecer. Descreve o que tem que acontecer! Ele tem que encontrar outro corpo, para produzir o acontecimento - não escapa! O corpo está necessariamente em contato com outros corpos.

Aluna: [inaudível]

Claudio: Algum corpo que encontrou com o seu corpo e produziu a sua morte. Mas morrendo - isso é um acontecimento. Mas, para isso acontecer, é necessário que outro corpo tenha entrado em contato com o seu. Qualquer acontecimento - necessariamente - implica a potência dos corpos. É impossível você pensar a unidade isolada de um corpo. Sobretudo porque - vou dar por mais ou menos entendido - um corpo - qualquer corpo - é constituído por uma multiplicidade de corpos. Não há sequer um corpo que nao seja constiuído por uma multiplicidade de corpos. O meu corpo é constituído por quê? Qualquer biólogo dirá que o meu corpo é constituído de várias células.

Qualquer corpo é constituído de uma multiplicidade de corpos. Você pode descer ao menor dos corpos - e o menor dos corpos é constituído por uma multilpicidade de corpos. Retirando da natureza a ideia de simples... tudo o que está na natureza é complexo. Tudo é uma complexidade. Tudo é uma multiplicidade. Não existe o simples - só existe o múltiplo. Qualquer corpo que você encontrar é uma multiplicidade. Qualquer físico atômico sabe disso - encontrou um corpo, o que é que ele pode fazer naquele corpo? Dividir! Por que é que ele pode dividir? Porque aquele corpo é constituido por vários corpos. Não há uma unidade corporal. Todos os corpos são múltiplos. Isto é que é a teoria da multiplicidade. Todos os corpos são uma multiplicidade de corpos. (Certo?)

Então, qual é a minha essência? Múltiplas potências! A essência de cada corpo é uma multiplicidade de potências. (Já deu para entender? Se não entendeu eu não sei mais nem o que eu faço... porque é facílimo!) Em vez de você pensar que um corpo é uno, o corpo é múltiplo. É o que há de mais simples no mudo! Qualquer um sabe disso! Qualquer criança na rua sabe disso; que o corpo é uma multiplicidade... que de repende uma determinada potência do corpo puxa para cá, outra potência puxa para lá - há conflito de potências. (Entenderam?) Muitas vezes nós pensamos que tomamos uma atitude por que nós somos aquilo. Não, são as potências de nosso corpo que se confrontam e conduzem a nossa vida.

Eu vou contar um caso incrível para vocês: um cara está passeando com Nastassja Kinski na praia de Copacabana, e ela está toda apaixonada por ele. Ai passa um negão e ele sai atrás do negão. O que o levou a fazer isso? As potências do corpo, as potências da natureza, as potências da vida que conduzem para lá, que puxam para cá, levam para lá. São as tendências da vida - [são elas] que formam as nossas vidas. São as forças, as potências que nos conduzem. Não houve, agora, o caso de um cara que matou e estuprou uma criança? Pela vontade dele ele mataria? Nunca! Pela vontade, não! Foram as forças que o conduziram. Forças potentíssimas, que o conduziram a fazer aquilo. Outras forças não puderam passar alí e conter aquelas.

É a coisa mais fácil [de se entender]: muitas vezes nós não fazermos coisas que nós não queremos fazer? A nossa vontade não passa alí - mas as forças - que são as potências do corpo, muito mais poderosas que a nossa vontade - nos levam. Na verdade, nem é isso. A nossa vontade está sempre a serviço da potência que vence. Vejam se entenderam. A nossa vontade está sempre a serviço das potências que vencem. Essas potências se confrontam no corpo. A potência vitoriosa... [...]

faixa-doacao

Isso quebra a teoria do livre arbítrio. Não há livre arbítrio; nós executamos as nossas vidas segundo as potências que nós temos. Se é aquela potência que está passando, é aquela potência que a vontade vai seguir.

É a coisa mais fácil do mundo! O que dificulta, sabe o que é? É o modelo clássico que nós temos do livre arbítrio. Isso é que confunde a gente.

Os estoicos estão dizendo que a nossa vida não se explica pela vontade - mas pela potência de expansão. Quando uma determinada potência vem - é ela que vai se afirmar, se não vier outra para inibi-la. Em Freud, há uma teoria da ambivalência, em que, por exemplo, nós odiamos e amamos alguma coisa ao mesmo tempo. É uma tolice: não é nada disso! O que ocorre é que, de repente, passa a potência do amor, e dali a pouco vem a potência do ódio e faz a do amor abaixar, passando a do ódio! São as potências que governam as nossas vidas!

Aluno: [inaudível]

Claudio: Se são do acaso? Depois eu vou explicar isso - como é que se dá o mecanísmo dessas potências. Mas nós entendermos que a nossa vida se constitui por esse campo de potências. Então, não é uma potência. São múltiplas potências - múltiplas! - que são constituintes das nossas vidas. (Posso dar por entendido?)

Aluno: Você vai andando pela rua, [inaudível] quer dizer, você vai entrando em contato com uma outra coisa...

Claudio: Você quer saber se... Não, não não! Não é o outro corpo que vai fazer eu odiar ou amar. O meu próprio corpo é feito de uma multiplicidade de potências; se vocês repararem nós odiamos, amamos, somos indiferentes e alegres com a relação à mesma coisa em cinco minutos! São essas potências que estão - o tempo inteiro - atravessando dentro de nós. Elas estão o tempo inteiro se defrontando para ver qual vai governar - é uma luta constante!

Aluna: [inaudível] essência dos corpos?

Claudio: São a essência dos corpos. A nossa essência é esse conjunto de potências. É isso que é a nossa essência.

Aluna: [inaudível]

Claudio: Melancólica? [Aluno: É!] Evidente que sim, evidente que sim! Se de repente determinada força em você começa a governar, é assim que você vai entrar em relação com os outros corpos. [A partir da potência que vencer.] É evidente! Aquela potência começa a passar em você - sua relação com os outros corpos vem dalí. De repente outra passa, as coisas melhoram... ou pioram!

Aluna: [inaudível]

Claudio: Não, porque a vontade... o que quer dizer vontade, C...? A vontade é alguma coisa que serve à ação da potência. Por exemplo, vencem em mim as potências da preguiça, eu sonho em ser preguiçoso, em não fazer nada. Isto - de ser preguiçoso - é uma potência que está passando em mim. O que eu faço com a vontade? Eu torno a vontade serviçal desta potência, e vou ser preguiçoso ad nauseam. Preguiçoso ao infinito. Boto a minha vontade a serviço da minha preguiça. Por exemplo, os filósofos, para serem filósofos, êles têm que conquistar o ócio. É impossível o filósofo ser filósofo sem ócio. Imagina o filósofo preocupado com o preço da banana! Ele nunca seria filósofo. Ele tem que se preocupar com outras questões. Então, ele tem que colocar a vontade a serviço daquela potência. Porque as outras potências, a potência que quer saber o preço da banana, também está atravessando. (Não sei se vocês entenderam...)

A vontade não é aquilo que decide em nós. O que decide em nós são as potências. A vontade está a serviço das potências. Isso rompe com a teoria da vontade livre. Rompe com a teoria do livre arbítrio. Não há livre arbítrio. Há vontade a serviço da potência. (O que vocês acharam?)

Aluno: [inaudível]

Claudio: Pode, pode, pode... Vou mais devagar aqui, vou mais depressa ali, mas ela está a serviço da potência. Em vez de você pensar que é a vontade que decide qual a potência que vai aparecer... é a potência que coloca a vontade a serviço dela. Fechando para vocês: é isso que, - em Nietzsche - se chama vontade de potência. A famosa vontade de potência de Nietzsche é isso! É a vontade a serviço da potência.

Aluno: [inaudível]

Claudio: É sempre a potência que governa, a potência que manda. Ou seja, quando uma determinada potência me governa, o que essa potência quer? Ela quer produzir o mundo conforme ela é. Isso que a potência quer.

Aluno: [inaudível]

Claudio: É evidente que, para eu ir trabalhar, a potência tem que querer trabalho. É evidente! Esta é a grande questão do Ocidente. A grande questão para o nascimento do capitalismo foi a proletarização que vai se dar no nosso campo social a partir do século XVIII. E essa proletarização são práticas de poder estimulando as potências de trabalho. O que se faz no ocidente, é uma prática de proletarização. O que é a proletarização? É pegar os corpos e estimular neles as potências que interessam ao poder político. Então, produz-se estímulos de potências de trabalho. Por isso é muito difícil se pegar um primitivo e colocá-lo na força de trabalho, pois ele já está todo constituído e suas potências se dirigem para a pesca, para o amor - mas se dirigem com dificuldade ao trabalho. Então, para se produzir um corpo no nosso mundo tem-se que pegar a criança e começar a extrair dela as potências que interessam. (Deu para entender?) Porque a potência esta em você! Mas o que faz o poder político? Ele vai trabalhar naquele corpo, extraindo dele as potências que interessam a ele [poder político]. Imediatamente a vontade se liga àquela potência [estimulada] e eu digo: "que vontade de trabalhar!". (Entenderam?)

Aluno: A sua razão não pode estimular potências que lhe interessam e produzir uma vontade livre?

Claudio: Não, não, não! Não senhor! Espera um pouco para entender. Daqui a pouco eu vou falar sobre a razão para você entender! Entender o que eu estou dizendo, é que um corpo é constituído por uma multiplicidade de potências. Então voce pega o corpo de uma criança, o que ele é? Uma multiplicidade de potências. O que você faz? Você estimula naquele corpo as potências que lhe interessam; ou seja, um campo social emerge pela prática estimulativa. Assim que se produz um campo social. Entrando em crise direta com o modelo marxista, para quem um campo social se constitui por repressão. Não é por nenhuma repressão, é por estimulação das potências dos corpos. (Não sei se entenderam...) O marxismo pensa que para se constituir um campo social tem-se que fazer práticas repressivas. Eu estou dizendo: não!, para se constituir um campo social, tem-se que estimular as forças que interessam. Por isso que a [questão da] educação é tão problemática. Por isso que a partir de meados do século passado nasceu no ocidente a escolarização obrigatória - porque a escolarização obrigatória é [para] extrair [daquela criança] as potências que interessam [ao sistema].

Aluna: [inaudível] a constituição de um campo social, é porque ele está pensando um novo [inaudível], não é?

Claudio: É porque ele está pensando a essência como atributo. É só isso, filha. É só isso! É só isso! Na hora que você pensa a essência como atributo, o homem já tem uma essência atributiva dentro dele, e as práticas políticas, então, seriam exatamente reprimir o homem. Não há repressão de homem nenhum! Pelo contrário. O que o campo político faz é produzir o homem, ele produz o homem - porque homem é isto que nós somos! Ou seja: as potências que foram estimuladas em nós, para constituir o que nós somos, é que nos tornou homens. Não o homem em essência - o homem é uma prática política.

Aluna: [inaudível]

Claudio: Vamos com calma para vocês entenderem. Não tenta fazer teoria muito grande já não, A.... Vamos entender, filha. Certo? A minha tese neste instante é muito simples: a formação de um campo social não se dá por práticas repressivas na essência do homem; a formação de um campo social se dá por práticas estimulativas nas potências de um corpo.

Aluna: Pois é, mas as práticas estimulativas não estariam ligadas às práticas repressivas, porque...

Claudio: Não, filha. Não! De forma nenhuma! O que eu estou dizendo para vocês é que o campo social vai constituir agências estimulativas. Por exemplo, voce pega uma criança da família conjugal, moderna, capitalistica, século XX. O que se estimula nesta criança? Todas as suas potências econômicas. Todas as potências econômicas dessa criança são estimuladas. Não há sequer uma criança, nas nossas famílias, que não seja criada para vencer na vida. Vencer na vida no mundo capitalista é fazer o quê? Trabalhar! Estimular as potências do trabalho será exatamente o modelo das nossa instituições. (Não sei se vocês entenderam...)

Não há sequer uma família... qualquer família pega sua criança e faz o que naquela criança? Estimula nela o quê? As potências do trabalho. No nosso mundo é sempre a mesma coisa - produz-se uma criança economicamente fortíssima. Economicamente forte, quer dizer o quê? Todas as potências do trabalho são estimuladas naquela criança.

Querem ver uma coisa? De repente chama-se o psiquiatra numa família. Por quê? Porque uma criança, numa família, não está sendo estimulada pelo trabalho. Está se derivando. A deriva dela é porque a prática estimulativa não está funcionando. Aí aparecem as instituições para fazer essa prática de estimulação - a psicologia, a psiquiatria são as fábricas estimulativas... para trazer aquela criança para o campo social. (Entenderam?)

Vou fazer uma narrativa do Michel Foucault. O Foucault diz que era um homem triste, muito triste, porque ele vivia em um campo social em que as forças de dominação se dão diretamente no corpo da criança. Isso o entristecia. A prática de estimular aquela criança para produzir o homem que interessa para a família. Isso produzia nele uma imensa tristeza. Uma imensa tristeza. E essa prática geraria homens sem nenhuma potência política. Nós teríamos as nossas potências econômicas altamente estimuladas, mas as potências políticas estariam inteiramente fechadas. (Não sei se entenderam...) Potências políticas - se as potências políticas passassem, o capitalismo já teria desaparecido, porque nós não suportaríamos esse modo selvagem de vida; não suportaríamos o que nós somos. Então, o capitalismo estimula o tempo inteiro as nossas potências econômicas - mas não deixa passar as potências políticas. Não deixa passar. Não há nenhuma instituição no nosso campo social que seja estimuladora das potências políticas. A estimulação das potências políticas nos levaria, necessariamente, a fazer transformações sociais; pois quando se estimula uma potência, ela se torna criativa. Nós somos criadores constantes no campo econômico. Sempre criadores no campo econômico. Sempre! Nós não paramos de inventar meios de produzir mais "grana". Sempre! Por quê? Porque aquilo é estimulado. Se você estimular as potências políticas de um homem, o que vai acontecer? O campo social vai se romper. (Não sei se entenderam...) Então não seria possível que o capitalismo fosse fazer isso. Porque senão ele teria se destruído. (Deu para entender aí? Então eu vou parar dez minutos para vocês tomarem café e eu retomo, tá?)


2ª Parte:

O instinto é inato. Ele não depende de nada para existir, (certo?) É o instinto que me leva a procurar as coisas - não o afeto. O afeto é alguma coisa que só aparece em mim se algo vier de fora e excitar a aparição desse afeto. O afeto é produzido. Ele é uma composição com outro estimulador.

O exemplo do carrapato é nítido: o carrapato é estimulado pela luz. Então, o que acontece? O afeto pela luz aparece, ele se compõe com a luz. A luz se compõe com o afeto. O que o carrapato vai fazer é procurar os pontos mais altos, onde a luz bate mais, [para se instalar]. Quando ele chega aos pontos mais altos ele para. Por quê? Porque é ali que a luz mais o afeta. Aí ele para. Ele vai sempre para os galhos de árvore. Chegando aos galhos mais altos, nada mais o afeta. Ele fica parado ali - olha que coisa incrível - 15, 16, 17, 18 anos, sem fazer nada! Em pleno jejum. De repente, passa por baixo dele um animal de sangue quente. Este animal de sangue quente produz nele um afeto, e ele cai em cima. Esse afeto afeto pelo sangue quente nunca apareceria se o animal não passasse. O afeto pressupõe a presença do estimulador. (Não sei se entenderam...) A idéia de afeto é diferente da idéia de pulsão e de instinto porque o afeto é aquilo que só existe em composição. Não há falta, só composição; só há o que se chama - agenciamento. (Entenderam?)

A única coisa que eu quero que vocês entendam, é que a teoria do afeto não é a teoria do instinto e não é a teoria da pulsão. A teoria do afeto - o afeto é aquilo que para existir pressupõe um estimulador - porque o afeto não funciona sozinho. Ele só funciona em agenciamento. Ele está agenciado, ele existe. Não está agenciado, não existe. (Ficou difícil, não é?)

Eu não estou definindo o afeto - eu estou dizendo como ele funciona. É isso que eu estou fazendo. Em vez de definir o afeto, eu estou [descrevendo] o funcionamento do afeto. Não me importa defini-lo. Importa-me dizer como ele funciona. Ele funciona dessa maneira: o afeto é alguma coisa que para existir pressupõe o estimulador. (Certo?) É preciso que alguma coisa o estimule, para que aquele afeto exista.

O carrapato é citado porque ele só tem três afetos. Só há três meios de o carrapato ser afetado: luz, sangue quente e suor. Só essas três coisas afetam o carrapato. Se não houver essas três coisas o que ele faz? Literalmente não se move. Isso que eu estou chamando de afeto. O afeto é alguma coisa que não pode ser entendida por definição - só pode ser entendida por funcionamento.

Aluna: Ele não é produto do agenciamento?

Claudio: O afeto seria o próprio agenciamento. O afeto só se entende por função. Olhem a palavra que eu estou usando: função! Ele não pode ser definido. Ele não pode ser explicado por nada. Porque ele é um funcionamento. Ele é algo que funciona. Isso que é o afeto.

Então, pelos afetos os corpos fazem os agenciamentos. (Não sei se vocês entenderam... Acho que eu não fui feliz... O que você acha, C..., tranquilo?)

Os corpos vão se agenciar pelos afetos. Então, o que é exatamente a relação dos corpos? A relação entre os corpos é uma relação afetiva - eles fazem agenciamento por afetos. Eles vão fazendo a sua existência [através das] composições afetivas. Mas eu disse a vocês que não há sequer um afeto que funcione sem estimulação. Não há possibilidade disso. O que implica em dizer que os afetos podem ser inventados. Pode-se produzir afetos que você não tem. Na verdade, nós não temos nenhum afeto - os afetos são produção de estímulos.

Eu posso pegar uma criança que nunca viu um livro e começar a agenciá-la com livros - e ela pode criar afeto pelo livro. Ela passa a fazer um agenciamento afetivo com o livro: ela passa por um livro, para e olha - como a gente passa pelas livrarias e tem que olhar, (não é?) Ela vai criando afetos.

Eu posso pegar um brasileiro, ainda que isso pareça impossível, e fazer com que ele deixe de se afetar pelo samba do terreiro e se afete por ópera. Por estimulação. Mozart, por exemplo, é uma invenção afetiva do pai dele, que o pegou aos quatro anos de idade e só jogou música em cima dele, música em cima dele, música em cima dele, afetando, produzindo afeto. Aí, aquilo emerge, nasce a composição. O afeto não é um sentimento, não é uma paixão, não é uma emoção - o afeto é aquilo que faz a composição dos corpos, o agenciamento dos corpos.

Deixa eu só fechar aqui, olha que coisa interessante: os povos nômades são aqueles povos que foram forçados a ir para as estepes e para os desertos. (Eu não pretendo contar aqui toda a história dos povos nômades). Eles foram para a estepe e o deserto por forçamento político, mas quando eles chegam no deserto e na estepe eles têm um problema - que é a alimentação. Lá não é como na planície. Então, eles vão tornar os animais deles produtores de alimentos. Eles começam a relacionar os animais deles com aquela grama rasteira que dá no deserto, porque os animais se afetam por aquela erva. E, os animais entrando em composição com aquela erva, tornam-se produtores de sangue e de leite, eles geram animais "fábrica de alimentos". Por isto, a relação de um nômade com um animal não é a mesma que entre o sedentário e o animal. Por que o sedentário torna o animal carregador de carga; e o nômade torna o animal produtor de alimentos. Eles têm uma composição diferente. Nós não podemos pensar a relação do nômade com o animal conforme a nossa relação - pois aquilo ali funda um novo campo afetivo. (Não sei se vocês entenderam...) É completamente diferente a literatura do nômade sobre os animais, e a literatura animal aqui, no nosso mundo sedentário. Porque os animais para nós servem diretamente a nós - enquanto para o nômade ele é fábrica de alimento e instrumento de guerra. É completamente diferente o uso que eles fazem, do uso que nós fazemos. Ou seja: voce pega uma criança nômade e vai gerando nela um afeto pelo animal, vai produzindo um afeto nela. Por isso, a relação de uma criança com um animal no mundo nômade é completamente diferente da nossa.

Aluno: [inaudível] encontro de corpos, não é?

Claudio: Agora eu reduzi para o encontro dos afetos. Aquilo já está ultrapassado. Agora, realmente, o encontro de corpos são composições afetivas. Eu passei do encontro de corpos, para encontros afetivos. O que realmente faz com que um corpo se encontre com outro são os afetos. Por que é que eu respiro? Porque o ar afeta meu pulmão, aí eu respiro!

Aluna: Os afetos são agenciamentos?

Claudio: Os afetos são agenciamentos. Não são nem pulsões nem instintos. Eles são produtores de agenciamentos. (O que vocês acharam? Ficou muito difícil?)

Aluna: [inaudível]

Claudio: Não. O agenciamento de afetos é agenciamento de corpos, que gera... acontecimento. Gera acontecimento. Os corpos fazendo encontros, geram acontecimento.

Aluna: [inaudível] respirar...

Claudio: Você tenta pensar isso. Porque eu estou dizendo que você vai respirar, porque você é afetada no corpo. Você é afetada! Se voce colocar, por exemplo, um homem nas trevas, ele vai viver lá, sem sentir a falta da luz. Ele só ganha o afeto na hora em que alguma coisa vem estimulá-lo. Aí ele vai funcionar. É pensar o corpo vivo como função. E essa categoria de função é matemática. Depois eu passo para vocês. Essa idéia de função - é que um corpo só funciona através de composições afetivas. Senão ele paralisa.

Isso é tão fácil! Isso faz parte das nossas vidas. Nós nos movemos somente em função daquilo que nos afeta. Senão nós não nos movemos! Ninguém vai se mover por aquilo que não o afeta. É só o campo dos afetos que gera os nossos movimentos. Nós vamos fazendo composições afetivas e constituindo o nosso corpo. Pelas composições de afeto que a gente faz. Você pega o telefone e liga para a sua mulher, depois liga para o seu pai e, dalí a pouco para um credor. Olhem como essas três composições de afeto geram vozes diferentes; geram vozes, geram acontecimentos diversos! Porque o que eu estou dizendo é que todo o universo é feito por esse campo de afetos. Por que um homem faz literatura e o outro faz cinema? O que é isso? São campos afetivos. Os campos afetivos vão produzindo as nossas vidas!

Agora eu vou dar uma explicação concreta: há um tempo na história, eu não posso precisar (se tiver alguém que precise essa história para mim...), em que houve a invenção do estribo. Colocaram estribo nos cavalos. Na hora em que puseram estribo nos cavalos, o agenciamento que o homem fazia com o cavalo se modificou. Modifica-se o agenciamento do homem com o cavalo. Nasce a possibilidade de haver a guerra com lança, nasce a possibilidade da armadura; novas relações de corpos vão se formando, e vão se gerando novos acontecimentos.

Agora, eu vou dar como mais ou menos entendido essa questão do campo dos afetos, e vou passar a explicar o que vem a ser acontecimento.

O acontecimento é todo campo do nosso saber. Os afetos é o campo do nosso poder, e o acontecimento é o campo do saber. O que nós falamos, sobre o que nós falamos? O que nós vemos no mundo? Nós vemos e falamos sobre as nossas relações de corpos. O nosso mundo não é um mundo em si mesmo; o nosso mundo é sempre produto das relações de corpos que nós fazemos ao longo da vida. Por exemplo, o saber do mundo medieval não é o mesmo saber que nós temos no século XX. Por que não? Porque eles não falavam e não viam as mesmas coisas. O acontecimento é o campo do saber; é o atributo. E os corpos são as forças.

Quando nós usamos o discurso é para falar exatamente sobre o mundo em que nós vivemos. Por exemplo, se eu disser para vocês que um homem está louco, "aquele homem está completamente louco", é possível que alguém diga assim "leve este homem ao psiquiatra para tentar curá-lo"? É possível que alguém me diga isso? Sim, é possível. Mas isso não podia ser dito no século XVII. Não podia ser dito, de maneira nenhuma - porque o encontro do corpo do louco com o corpo do psiquiatra ainda não tinha se dado. Aquilo que pode ser dito pressupõe o encontro dos corpos. Senão, não pode ser dito. Não pode ser dita qualquer coisa em qualquer tempo.

Hoje os jornais não podem dizer que determinadas famílias são criminosas porque não mandam os seus filhos para a escola? Por quê? Porque no nosso tempo a escolarização é obrigatória. Mas no século XVIII não era. Você só pode dizer alguma coisa depois que aqueles corpos fizeram a composição. Os enuciados que nós produzimos ao longo da vida, são enunciados efeitos das composições dos corpos. (Não sei se vocês entenderam...) É a coisa mais fácil: quando é que nasce a escolarização obrigatória? Em meados do século XIX. A partir do momento em que a escola fez uma composição com os corpos das crianças, qualquer homem pode dizer - "é um absurdo não mandar essa criança para a escola!". Mas apenas a partir daquele momento - antes não! Isso não acontecia antes. Todos os enunciados que nós produzimos se originam nesse movimento dos corpos. (Como é que você foi?)

Aluna: A questão da produção do estribo para o cavalo...

Claudio: Modificou a guerra... O estribo é uma criação. Não existe essa coisa de necessidade, não. Não, não há necessidade de nada.

Aluno: Mas, particularizando o caso do estribo, foi uma necessidade realmente não tanto para que a pessoa se equilibrasse, mas para que pudesse montar no cavalo.

Claudio: Não! Se você dissesse isso para o nômade, ele ia te olhar com a cara tão feia... porque ele sabe pular em cima do cavalo.

Aluno: Os nômades têm estribo. Aqueles peles vermelhas é que não...

Claudio: Os nômades têm estribo agora. Têm estribo agora! Eles nunca tiveram estribo! Você sabe o que era o nômade? O nômade era chamado "perna magra". Eles tinham a perninha magra, preparada exatamente para montar nos cavalos a pêlo. Tanto que as mulheres nômades tinham que aprender a ter desejo sexual por perna magra. Que as pernas magras eram consideradas bonitas.

Na hora que aparece o estribo, é aí que vão ser geradas, por exemplo, as cruzadas. As cruzadas seriam impensadas sem os estribos.

Aluno: Nos documentos antigos que retratam as guerras greco-romanas...

Claudio: Você não encontra estribo. Você tem um agenciamento de corpos... Inventaram o estribo. Inventaram a armadura. Inventaram os torneios. Inventaram os cavaleiros. Inventaram o amor cortês.

Aluno: Olha, a lança era apoiada no pé dos cavaleiros. E para isso, precisava obrigatoriamente ter o estribo, do contrário não funcionava.

Claudio: Exatamente. Quando se inventou o estribo, não modificaram as máquinas de guerra? Modificaram as máquinas de guerra, permitiu-se o acontecimento invasão do oriente - as cruzadas. O acontecimento vai se liberar por esse movimento dos corpos.

Por exemplo: quando é que nós começamos a pensar em visitar a lua? No momento em que pelo menos nós passamos a entender que a gravidade é uma foça e que essa força só pode ser vencida por aceleração. Pronto! Quando se fazem determinados agenciamentos de corpo, aí o acontecimento emerge. De imediato o acontecimento emerge.

Vocês podem ler um livro do Georges Duby - que saiu agora - chamado Idade Média, Idade dos Homens. Leiam o livro para vocês verem esse acontecimento chamado cavaleiro. É um livro lindíssimo que saiu agora.

Toda a natureza se constitui por composições afetivas. Essas composições afetivas geram o acontecimento. Composições afetivas chama-se campo do poder. Acontecimento, campo do saber. (Isso deixa para as próximas aulas.)

Como muita gente perdeu, eu reproduzi a última aula e deixei o campo de saber para a próxima.

Então, o campo de saber pressupõe o campo do poder. Que é alguma coisa que nós não entendemos bem no mundo moderno. Nós pensamos que o saber nada tem a ver com o o poder. Ou quando pensamos que o saber tem alguma coisa a ver com o poder, falamos asneiras sobre o poder. Poder não é o poder do Estado. Poder é o poder dos corpos. Isso que é o poder. É o poder que os corpos têm de fazer composição com os outros corpos. E aí vai nascendo o que se chama saber. Que é o acontecimento.

Então está aberto para vocês falarem, que eu vou terminar, que eu já não aguento mais. (Certo?) Mas eu acho que foi bem.

De alguma maneira, eu reproduzi a aula passada. Não fui muito fundo, mas na próxima aula eu vou começar a explicar campo do saber para vocês, logo - teoria das atribuições... eu tenho que penetrar cada vez mais fundo.

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Aula de 28/03/1989 – O corpo e o acontecimento

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[Temas abordados nesta aula são aprofundados nos capítulos 5 (A Fuga do Aristotelismo); 7 (Cisão Causal) e 10 (Estoicos e Platônicosdo livro "Gilles Deleuze: A Grande Aventura do Pensamento", de Claudio Ulpiano. Para pedir o livro, escreva para: webulpiano@gmail.com]

 


Parte I

Hoje... não sei se conseguirei alcançar isso; vou tentar! - eu vou começar a colocar vocês no que se chama - teoria do acontecimento. Qualquer leitor do Gilles Deleuze, por exemplo, verifica que a obra dele toda se sustenta no que eu estou chamando de teoria do acontecimento. Agora, ao colocar vocês dentro dessa teoria - para vocês compreenderem mesmo o que é isso - é uma batalha! Então... preparem-se para a batalha!

É realmente um movimento de pensamento cruel! Para vocês entenderem - exatamente - o que é a teoria do acontecimento, [nós teremos] que passar pelos gregos, passar pelos modernos... e, se eu não obtiver êxito, [a gente retoma na] próxima aula: tem que haver êxito! Então, nós começaremos a aplicar nas práticas... - e vocês vão verificar o que vai acontecer. Eu não acredito que eu consiga passar a teoria do acontecimento numa única aula - vamos ver se eu consigo, não é? Eu vou me esforçar para isso!... Se eu não conseguir - eu acredito que na aula que vem a gente feche.

O que eu pediria a vocês é muito simples: quando eu começar a minha explicação, se eu for obscuro, vocês não deixem passar. Ninguém deixa!

É evidente que em determinados momentos da explicação pode aparecer uma obscuridade - eu posso colocar mal! Aí, se vocês não entenderem bem, vocês coloquem - porque todo o movimento que eu estou fazendo é para passar uma teoria do acontecimento: é isso que eu estou visando nesta aula.

Então, vamos começar! Eu vou usar - indistintamente - seja o que for necessário para vocês compreenderem: um filósofo, outro filósofo... - qualquer coisa! - desde que, com isso, eu possa ­levar vocês à compreensão. Então, nós vamos começar. Tá?

Essa aula vai ser uma aula realmente filosófica! Por isso, eu vou ser muito lento: lento e calmo!

Um filósofo do século XVII - chamado Leibniz - fez o que se chama uma teoria da proposição. (Não é preciso já saber o que é proposição - daqui a pouco a gente vê isso; não tem problema!) Em todas as proposições - onde quer que haja proposições - necessariamente aparece um sujeito da proposição, um predicado da proposição, e - entre o sujeito e o predicado - o verbo ser na terceira pessoa do singular. Então, uma proposição é - "Esta mesa é bonita" - "A casa é feia" - "Regininha é da USP" - (Certo?) Um sujeito, um predicado e o verbo ser - necessariamente o verbo ser - na terceira pessoa do singular - ou seja: "é". (Certo?) O que mostra que o verbo ser não está nem no passado nem no futuro: ele está no presente. Bom. O problema da proposição é lançado - em primeiro lugar - em cima do su-jei-to! A questão é:

- Quem pode ser o sujeito da proposição?

Notem que sujeito da proposição pode ser muitas coisas. Eu posso dizer: "O homem é bonito" - neste caso, o sujeito é... O homem. Eu posso dizer: "O animal é um ser vivo" - neste caso, o sujeito é... O animal. Ou eu posso dizer: "A Regininha é branca" - neste caso, o sujeito é... A Regininha.

Leibniz quer saber se pode haver um sujeito da proposição que - em momento nenhum - possa ser predicado.

- O que quer dizer isso?

Na hora em que eu digo: "O homem é bonito", o sujeito é homem. Mas eu posso dizer: O Robertinho é homem. E, nesse momento, o sujeito da proposição que era homem - tornou-se um predicado. Entenderam a questão?

- Qual é a questão do Leibniz?

A questão dele é verificar se há algum sujeito da proposição que, em momento nenhum, possa ser predicado. (Certo?) E o sujeito da proposição, que em momento nenhum pode ser predicado, chama-se - singularidade. Por exemplo - tudo aquilo que puder ser apontado com o dedo. Ou, de outra maneira, todos os indivíduos: "Regininha é branca", quer dizer que Regininha ou Cláudia, Robertinho, Luiz, esta mesa, este maço de cigarros... só podem ser sujeitos, mas - em momento nenhum - podem ser predicados. Porque eu posso dizer: "Luiz é homem" - mas não posso dizer: "Robertinho é Luiz". Ou seja: esse sujeito não pode virar predicado. (Vocês entenderam?) Isso se chama "o último sujeito". O último sujeito é aquele que - simultaneamente - é uma realidade existencial.

Vocês não fiquem me olhando com essa cara - [por gentileza]. Eu sei que muitos outros entenderam. O último sujeito é uma realidade existencial. Porque "O homem é bonito", vocês já aprenderam que "O homem" pode ser transformado em predicado. E "O homem" não é uma realidade existencial. Realidade existencial são os indivíduos. Então, o indivíduo - que é o último sujeito - é a única realidade existencial.

Eu não vou falar mais, eu vou esperar as perguntas!...

Aluno: [inaudível]

Claudio: Mas é isso que eu estou dizendo!... O último sujeito é da ordem lingüística, mas recobre algo da ordem existencial. Por isso, o último sujeito também é chamado de substância primeira Porque o último sujeito tem uma realidade existencial. (Deu para entender?)

(Não há pressa! Não adianta ninguém ficar com pressa... - nós vamos ter que entender, vai ter que ter calma!)

Vamos, E., qual é a dúvida que você teve?

Aluna: [inaudível]

Claudio: Realidade existencial? É a coisa mais simples! É aquilo que e-xis-te! Porque é evidente que "O homem" não tem nenhuma realidade existencial!? Ou alguém já se encontrou "O homem" na rua? Não! Nós só encontramos "este homem". Então, último sujeito é aquele que recobre a existência. Ou: o último sujeito é aquele que aponta para o real. É uma designação na ordem da linguagem. Uma designação na ordem da linguagem - [que] aponta para o real, entenderam?

Então, quando eu tiver falando em proposições, eu vou sempre colocar como sujeito das proposições, o último sujeito, que é - simultaneamente - a substância ontológica. Vejam se entenderam essa palavra --- substância ontológica. É muito simples! O último sujeito é aquele que tem realidade independente do discurso. É o chamado - extra-discursivo: aquele que tem realidade extra-discursiva. Então, o último sujeito é simultaneamente uma substância primeira. (Entenderam?)

(Meus filósofos da UERJ - todos entenderam? P., R., T., L., entenderam?)

Todo mundo entendeu, então, o que é o último sujeito, não é? Então, já sabemos o que é o último sujeito: o último sujeito é - simultaneamente - uma realidade ontológica. (Certo?) Então, é o momento em que a realidade existencial e a realidade do discurso fazem balé - se juntam! (Tá certo?)

Agora: na teoria das proposições há sempre um sujeito e um predicado. E o que liga o sujeito ao predicado é o verbo ser na terceira pessoa do singular. Logo, o verbo ser - na teoria das proposições - tem função copulativa. (Entenderam?) A função do verbo ser é apenas co-pu-la-ti-va - liga o sujeito ao predicado. (Certo?)

(Entenderam? Todo mundo entendeu?)

Agora: na hora que eu faço uma proposição... Eu vou fazer uma proposição agora... Olhem a proposição que eu vou fazer... Mauri - posso chamar Mauri de último sujeito? Posso, porque Mauri é uma realidade ontológica. (Certo?) Eu vou dizer duas coisas sobre Mauri: "Mauri é homem" e "Mauri é branco". (- Deixem de lado!)

Agora, vejam bem: essa tese diz que - no uso do discurso - nós somos capazes de produzir o conceito. Nós, os sujeitos humanos - na ordem do discurso - produzimos o conceito.

- O que é um conceito?

Eu vou dar uma definição negativa do conceito. O conceito é - no discurso - tudo aquilo que não for o último sujeito, o verbo ser, e as entidades de ligação. O conceito são, no discurso, as espécies e os gêneros - O homem, O branco, O cachorro, O verde, O amarelo, O pesado... (Estão entendendo?)

- O último sujeito é um conceito? Não!

- O verbo ser é um conceito? Não!

O conceito são as entidades gerais. O homem - é uma entidade geral. O branco - é uma entidade geral, A cadeira - é uma entidade geral. Então, o conceito são as entidades gerais discursivas. (Entenderam?) Olha lá, P. Pegou mesmo? T.? Certo? Atenção! "Mauri é homem". Cadê o conceito? Homem, certo? Entenderam?

Então, na hora que eu produzo um conceito - "O homem", "A cadeira", "O verde", "O branco" - ele, o conceito isolado, não é verdadeiro, nem falso. Um conceito isolado não é nem verdadeiro nem falso - é apenas um conceito. Mas na hora que eu coloco o conceito na proposição... Logo: "Mauri é homem"- há uma diferença entre dizer: "O homem" e "Mauri é homem". Na hora que eu digo: "O homem" - é o conceito isolado; não é verdadeiro, nem falso. Na hora que eu [insiro] o conceito na proposição; pelo fato de ele estar na proposição - ele é verdadeiro ou falso.

O conceito isolado chama-se conceito. O conceito na proposição (Atenção! Isso aqui é importantíssimo!) chama-se atributo.

Mauri - último sujeito; é - verbo ser, verbo copulativo; homem - atributo.

Então, a palavra homem pode ser conceito? Pode, quando estiver sozinha. Pode ser atributo? Pode, quando estiver na proposição. (Entenderam?)

- Entenderam o que é o conceito?

O conceito se transforma em atributo, no momento em que o conceito está na...

Alunos: Proposição!

E toda proposição é verdadeira ou falsa.

- Posso dar por entendido?

Então, como é que se chama o conceito na proposição?

Alunos: Atributo.

Agora eu vou produzir duas proposições: "Mauri é homem" e "Mauri é branco".

- Homem é o quê? Atributo!

- Branco é o quê? Um atributo!

Agora, vocês vão ver que, no reino do atributo, existem dois tipos - o atributo essencial e o atributo acidental. Homem - é o atributo essencial do último sujeito "Mauri". E branco - é um atributo acidental do último sujeito "Mauri". Logo, o campo do atributo se divide em essencial e acidental.

(Eu vou parar e esperar! Vejam se vocês entenderam!)

- Quantos atributos? Dois! Essencial e acidental. (Certo?)

O atributo essencial é aquele que dá a essência do último sujeito... ou a essência da substância primeira. (Certo?) E o atributo acidental é aquele que dá os acidentes da substância primeira ou do último sujeito. [São as chamadas] categorias. Todo último sujeito possui a sua essência e vários acidentes.

Consegui! Consegui!

Lembrem-se da distinção de atributo para conceito, hein? O conceito isolado - ou - como se diz em filosofia - o conceito "enlaçado". Enlaçado é o conceito ligado ao verbo ser - vira atributo. Desenlaçado, quer dizer que ele não está ligado ao verbo ser - é apenas um conceito.

- Onde há o verdadeiro ou falso?

Apenas na proposição. Só nela que o verdadeiro ou falso aparecem. (Certo?) Quando eu produzo uma proposição em que o atributo é essencial - querem me dar um exemplo de atributo essencial, por favor? "Mauri é homem". Vou dar outro exemplo de atributo essencial: "Esta mesa é mesa". Porque a segunda mesa de "esta mesa é mesa" - que é o conceito enlaçado, logo o atributo - é a essência desta mesa. O atributo essencial - na proposição - constitui o que se chama proposição analítica. E o atributo acidental, constitui a proposição sintética - no sentido de que os acidentes ou atributos acidentais podem variar, sem que se modifique o atributo essencial. Na verdade, desaparecido o atributo essencial - desaparece o último sujeito.

( Olha - eu nunca ouvi uma explicação tão clara, em toda a minha existência filosófica! Só não compreende quem não quiser!)

(Tá aberto para perguntas - já vou abandonar! Vou abandonar! Não tenho mais o que dizer aqui...)

(Bom. Abandonei! Agora, atenção para o que eu vou dizer:)

Aparece uma escola de filosofia - não importa o nome dela - que chega à conclusão que as únicas coisas que existem são os últimos sujeitos - não existe mais nada! (Certo?) Só existem os últimos sujeitos!

Então - para essa escola de filosofia - esta mesa existe? Este isqueiro? E lá (aponta uma aluna) existe? Todos os últimos sujeitos existem! Ele chama os "últimos sujeitos" de corpos. Então - para essa escola - só existem os corpos, (certo? Não sei se está claro!?)

Essa escola tem a preocupação de produzir o verdadeiro e o falso. Se ela tem a preocupação de produzir o verdadeiro e o falso - o que ela tem que fazer? Produzir... proposições!.. . Ela tem a preocupação de produzir o verdadeiro e o falso... - o verdadeiro e o falso passam por onde? Pelas proposições!

Então, ela tem a preocupação de produzir o verdadeiro e o falso. Mas essa escola - nós não sabemos nem por que - não vai trabalhar com essências e acidentes. Logo - ela não vai querer trabalhar com atributos essenciais e atributos acidentais.

- Por quê? Porque eles não gostam de essências e acidentes? Não! Não!

Alguma coisa diferente está acontecendo aqui... Porque - surpreendentemente - essa escola vai dizer que um corpo, durante toda a sua existência é - absolutamente igual a si próprio. (O que é uma maneira incrível de se ver - e que eu vou ter que lançar e deixar para explicar mais para a frente, para vocês entenderem...) Eles vão dizer que um corpo não recebe acidentes diferenciais - conforme a outra escola havia colocado: aquele corpo é sempre a mesma coisa! (Essa explicação não foi boa: foi inteiramente obscura... Logo, eu vou voltar à explicação dessa escola, certo? Mas antes, vamos fazer uma revisão nos nossos saberes...)

Qual é o objetivo dessa escola? Produzir o verdadeiro e...

Alunos: o falso!

E só se produz o verdadeiro e o falso por...

Alunos: Proposições!

As proposições são sujeito, verbo ser e atributo, (certo?) Isso são as proposições. Essa escola então estabelece que ela não vai trabalhar com o verbo ser. Ela não vai trabalhar com o verbo ser, e vai colocar que - em vez de substantivos e adjetivos - os atributos serão os verbos.

Vou fazer um ponto - e explicar tudo outra vez! Olha, ninguém precisa sofrer - eu garanto que vocês vão entender! Agora... - que é difícil, é.

- Qual é a questão dessa escola?

Produzir pro-po-si-ções, (certo?)

Segunda questão da escola:

Não trabalhar com o verbo ser: não trabalhar com o verbo copulativo.

Mas - ela tem uma preocupação de produzir atributos. E os atributos que ela irá produzir não serão com substantivos e adjetivos.

- A primeira escola produz atributos com substantivos e adjetivos? Sim! A segunda produz atributos com o verbo no infinitivo... ou na forma gerundial - sem o verbo ser.

(Vou parar um instante. Vou descansar dois minutos, que os rostos não estão bons... O que você achou, O.? E você, P.?)

A única coisa que importa aqui, é que essa escola se preocupa em produzir proposições: logo, se preocupa em produzir o verdadeiro e o falso... (certo?) Ela vai produzir proposições, logo: vai produzir atributos - mas esses atributos não serão ligados pelo verbo ser.

- Quantos tipos de atributos a primeira escola tem?

Dois: essencial e acidental. Nessa segunda escola, os atributos não vão ser nem essenciais nem acidentais: vão ser os acontecimentos - e o acontecimento é aquilo que não se diz nem pelo substantivo nem pelo adjetivo; diz-se pelo verbo na forma gerundial. Então, nessa escola, vão acontecer coisas desse tipo: eles nunca dirão "Esta árvore é verde"; eles dirão: Árvore verdejando. Eles nunca dirão "O homem é alto"; eles dirão: "O homem altante".(Vejam se estão entendendo...)

O que eles estão fazendo? Eles estão querendo produzir um duplo rompimento. Rompimento com o verbo ser e rompimento com os atributos essencial e acidental - gerando a ideia de acontecimento. (Eu acho que eu não fui bem, hein? O que você achou, P.? Aqui é muito simples! Ninguém precisa fazer teoria muito difícil...)

- Neste momento da aula, quantos atributos existem?

Três: essencial, acidental e acontecimento... (Certo?) São os três atributos possíveis! Se vocês procurarem na história da filosofia outros tipos de atributo, vocês não vão encontrar! Só há esses três. Quais? Essencial - que é a proposição analítica. Acidental - que é a proposição sintética. E agora tem outro tipo de atributo - que é o acontecimento.

O acontecimento exclui da proposição o verbo ser. Exclui o verbo ser. Então, sempre que vocês encontrarem teóricos do acontecimento, vocês não irão encontrar o verbo copulativo. (Certo?)

Agora vamos ver três proposições, com três atributos diferentes:

"Mauri é branco"; "Mauri é homem" e "Mauri sentado". Sentado é o acontecimento! (Certo?) O atributo da segunda escola se diz com o verbo na forma gerundial.

faixa-doacao

(Agora eu vou esperar um instante para as possíveis perguntas! Já dá para colocar alguma... Já dá! Se não der... - a explicação não está boa!)

Aluno: [inaudível] o acontecimento...

Claudio: Não, não! Se tiver que ir por aí, é numa fase muito posterior. Agora, não! Agora, o que se tem que fazer é uma distinção de três atributos - essencial, acidental e acontecimento. (Eu vou trabalhar fundo, nisso daí, com vocês! Fundo nisso! Vou começar).

- O que eles excluem?

Eles excluem o verbo... ser. (Mas vocês estão sem ênfase!)

Vejam bem: na hora em que eu estou na primeira filosofia o verbo ser está presente? Eu digo "Mauri é homem" e digo "Mauri é branco". O verbo ser significa que o ser pode ser análogo. O ser pode ser acidental e pode ser essencial. A primeira tese diz que quando nós produzimos a proposição, produzimos o verbo ser como essencial, e o verbo ser como acidental - isso se chama ser análogo: o ser é ora acidental, ora essencial. (Muito bem! Vou tomar como mediamente entendido. Eu volto, tá?)

Na outra teoria, na proposição tem o verbo ser? Não tem o verbo ser! Esses outros teóricos vão dizer que o ser é o último sujeito. Atenção! Eles deslocaram: já não é mais o verbo. O ser é o último sujeito. Então, na segunda teoria - vejam bem! Mauri é corpo? É... Mauri é corpo!...

(fim de fita)


Parte II

(...) Porque ser é apenas o último sujeito. (Não foi bem. Bambeou...)

- Na segunda teoria quem é o ser? Na segunda teoria esta mesa é ser? E, na primeira teoria, o atributo é ser?

Na segunda teoria, só o último sujeito é ser. O atributo passa agora a se intitular não-ser. O atributo passou agora a se intitular não-ser. (Prestem atenção que nós vamos em frente!)

- Então, quando eu digo: "Maurício sentado", o que é que eu fiz? Eu disse ser e não-ser. Porque o acontecimento ou atributo, na segunda teoria, não é ser. Por um motivo muito simples: porque na segunda teoria ser é apenas o corpo - e "sentado" não é corpo. Então, na segunda teoria, os atributos chamam-se não-seres. Se os atributos chamam-se não-seres, o último sujeito chama-se ser. Se o último sujeito se chama ser, o ser são os corpos e os atributos não são corpos. Logo - são incorporais. Está aparecendo a famosa teoria dos incorporais.

O atributo, na segunda teoria, não é um corpo-é um incorporal. (Eu vou dar um ponto, para descansar. Eu não sei se eu fui feliz... Vocês foram bem aqui?)

(Atenção - Atenção:)

- Na primeira teoria, quantos atributos existem?

Dois. Olhem que interessante!

- Quais são os dois atributos?

Essencial e acidental. O atributo essencial (olhem, que isso é fundamental, hein?) é um ser de razão. O atributo essencial só existe na razão. Homem não existe no real. Só na razão. E o atributo acidental é algo que acontece no corpo da substância primeira. O atributo acidental também é um corpo. O atributo essencial é um ser de razão... e o atributo acidental é um corpo no corpo da substância primeira. Agora, na segunda teoria, o atributo não é nem um ser de razão nem um ser real - é um não-ser, um irreal, um incorporal.

[Claudio fica em pé e pergunta:]

- Isso aqui é o quê?

Isso aqui é um corpo! Olhem "eu andando". Eu estou andando. O corpo do Claudio andando. Se vocês vierem e me tocarem, vocês vão tocar no meu corpo. Mas no "andando", não. "Andando" é um incorporal. (Entenderam?) Nessa teoria, os atributos são...? Incorporais! (Entenderam?)

- Qual é a diferença do atributo essencial para o atributo acidental?

Um é um ser de razão, o outro é real. Corporal, real. Agora: a segunda teoria. O atributo da segunda teoria não é um ser de razão. Ele é real. Mas é um real incorporal. Apareceram, nessa segunda teoria, dois tipos de reais - o corpo e o incorporal.

(Olhem, eu vou explicar para vocês num parêntesis: Isso gera uma nova física, uma nova metafísica, uma nova biologia, uma nova teria das diferenças, uma nova história... Tudo isso eu quero que vocês entendam! Não há pressa. Qualquer pergunta que vocês fizerem, eu estou aqui para responder.)

Nós temos uma física, aqui. Temos uma física. O atributo essencial é um ser de razão. O atributo acidental é um real corporal. E o atributo acontecimento é um real incorporal.

Nós descobrimos uma coisa fantástica! Na hora que nós nos libertamos do verbo ser copulativo, nós descobrimos a existência de um novo tipo de real - o real incorporal. (Para vocês ganharem uma força e quererem fazer alguma coisa com isso... - é exatamente isso que é a obra do Lewis Carroll: Alice no país das maravilhas! A dificuldade que nós temos de entender Alice no país das maravilhas... é que os atributos - no país das maravilhas - não são essenciais, nem acidentais: são acontecimentos. Por isso que nós não entendemos -----. São esses incorporais. (Então, vamos tentar trabalhar.)

(Agora, vocês tomem um café, enquanto eu descanso um pouquinho).

Aluno: [inaudível]

Claudio: Na primeira parte, quando eu falei em último sujeito, lembrem-se que eu identifiquei o último sujeito a existente. Isso que eu fiz! Então, último sujeito é - simultaneamente - aquilo que existe. "Mauri", "esta mesa"... (certo?) Então, esse último sujeito nos conduz para o projeto ontológico. Ontológico é aquilo que existe: tem realidade existencial. Na segunda teoria, eu identifiquei a realidade existencial ao corpo. Então, o que existe são os corpos. No momento em que eu disse que aquilo que existe são os corpos, e eu me preocupo agora com esses corpos, significa que eu estou fazendo uma física - porque a física é aquilo que cuida dos corpos. (Acho que ficou claro, não foi? Muito bem!)

Eu, agora, estou preocupado em fazer uma física. E uma física é a física dos corpos. Então eu vou fazer isso.

Então, eu pego os corpos que existem. Não importa qual! Este isqueiro - por exemplo - é o último sujeito da proposição e uma existência ontológica. Logo, é um corpo que existe. Este corpo, que existe, tem necessariamente um atributo essencial. O atributo essencial é o que difere - atenção para o que eu vou dizer - é o que difere este isqueiro deste copo. Porque este copo e este isqueiro têm atributos essenciais diferentes. Mas agora, se eu pegar este cigarro e este [outro] cigarro - estes dois cigarros têm o mesmo atributo essencial. (Entenderam?) Eles vão ser diferentes pelos atributos acidentais. Este aqui [copo] difere deste outro [isqueiro] por atributos essencias. Mas este [um cigarro] difere deste outro [cigarro] por atributos acidentais. (Entenderam?) São os atributos acidentais que vão fazer a diferença de um para o outro. (Certo? Muito bem!)

Aqui está "este isqueiro". Este isqueiro é alguma coisa real. Ele tem uma realidade. Nítida. Existencial. Plano Ontológico. Tem uma realidade! A segunda teoria diz que este isqueiro - enquanto ele existir - tem com ele o seu atributo essencial. E a primeira teoria vai confirmar isso. Ou seja: todos os seres que existem carregam consigo, durante toda a sua existência, o seu atributo essencial. (Certo?) Então, estes dois cigarros carregariam com eles os seus atributos essenciais ao longo de sua existência. E a segunda teoria diz que um corpo, que é o último sujeito, que é existência real, ele só tem o seu atributo essencial O que eles querem dizer com isso? Que um corpo - ao longo da sua existência - não recebe em outro corpo o atributo essencial.

Que ele mantém - ao longo de sua existência - o seu atributo essencial - sem misturar o seu atributo essencial com o atributo essencial de outro corpo. Seu atributo essencial não varia. Se você [quiser] variar o atributo essencial de um corpo, você o destrói. (Certo?) E os atributos essenciais não se misturam. Este copo mantém o seu atributo essencial; e este cigarro mantém o seu atributo essencial - ao longo da existência de todos eles. (Entenderam?)

Então, prestem atenção:

Aqui está este cigarro, em cima da mesa. Ele tem com ele o seu atributo essencial? Tem. Eu passei para a minha mão. Ele continua com o seu atributo essencial? Sim. Então, nós descobrimos alguma coisa. A essência deste cigarro - não importa onde ele esteja - é sempre a mesma. (Vejam se entenderam) Ela é sempre a mesma. Pouco importa aonde ele entrar. Pouco importa com que este cigarro se misturar. Ele mantém o seu atributo essencial onde ele estiver: ele está aqui; ele está ali; ele está acolá - é sempre o mesmo atributo essencial. (Posso dar por entendido? O que vocês acharam?)

Vamos ver outro exemplo:

Eu pego um cavalo. Aí levo o cavalo para o Jóquei Clube. Ele vai correr (ele não corre no JC?). Ou então eu ponho esse cavalo para puxar carroça. Num lugar ele corre; noutro, puxa carroça. Esse cavalo - enquanto corre e enquanto puxa carroça - tem o mesmo atributo essencial? Sim, tem o mesmo atributo essencial: o atributo essencial não muda. (Está certo?) Mas... - alguma coisa muda. O que muda é o acontecimento. (Vejam se entenderam.) É o mesmo ser, o mesmo corpo, a mesma essência; mas o que está se modificando nele - são os acontecimentos. Os acontecimentos são incorporais. Então, o que muda, o que é devenir, o que é histórico, o que é temporal - é o incorporal.

Questão: O cavalo no Jóquei. O cavalo puxando a carroça. Ele é simultaneamente o mesmo e outro. Ele é o mesmo no seu atributo essencial... Mas é outro, no acontecimento. Então, o acontecimento, o não-ser, o incorporal, é que é a história do cavalo. (Entenderam?) Então, o que eu estou dizendo para vocês, é que o acontecimento é que faz as modificações. (Eu acho que ficou perfeitamente claro... mas se vocês perguntassem, eu teria mais vias para explicar!)

É radical o que eu estou dizendo. Eu não estou dizendo de brincadeira. Isto é radical. Este copo. Se eu pegar este copo e jogar no mar... ele mantém o mesmo atributo essencial que ele tinha? (Entenderam?) Ele mantém o mesmo atributo essencial: é o mesmo copo! Mas aconteceu um negócio diferente. O diferente é o acontecimento. (Certo?) As diferenças passam para o campo dos acontecimentos. Então, na hora em que você falar do corpo - você está produzindo um discurso da identidade. O corpo é o mesmo. A diferença - é o acontecimento!

(Vamos ver se vocês conseguem me ajudar nas perguntas? Ninguém pense que isso que eu estou explicando agora é coisa simples. Olhem, dificilmente vocês encontrarão uma explicação dessas. Não é nenhum orgulho meu, não. Não se encontra isso. Então, é realmente difícil o que eu estou dizendo.)

Eu estou dizendo para vocês que há alguma coisa que é a mesma sempre - é o atributo essencial do corpo. Mas há algo que é do plano da diferença - é o acontecimento. O que nos leva, então, a entender - que o corpo só pode ser pensado pela diferença. Porque o corpo está sempre envolvido em um acontecimento.

Aluno: [inaudível]

Claudio: Não, não. A questão não está aí. A questão é muito simples! Você já vai matar!? Você tem todo o plano para matar! Você viu que o atributo essencial na primeira teoria é um ser de razão. O atributo essencial na segunda teoria tá no corpo. Não é da razão: é do próprio corpo. Não sei se está claro!?... É o caminho que você tem que fazer: você tem que tirar o atributo essencial da razão e colocar no corpo. Porque é o que eles estão fazendo. O atributo essencial é o próprio corpo. O corpo nunca sai da sua essência. Mas ele não pára de variar nas diferenças do acontecimento. (Certo?)

É exatamente o acontecimento que é o plano da história. Então, vocês vão ver. Nós teríamos em diferentes encontros históricos, diferentes acontecimentos. Diferentes maneiras do corpo se conduzir... - embora seja o mesmo corpo.

Tá começando a surgir, não é? O acontecimento é uma teoria de luta terrível para nós. Muita luta mesmo, para nós a entendermos bem. Mas o que vocês têm que marcar agora - e isto é uma radicalidade muito difícil para quem não estuda filosofia, porque são muito poucos os que estudam, são muito poucos..., é vocês aceitarem o que eu estou dizendo:

O corpo é sempre o mesmo. A sua variação é o acontecimento - que é um incorporal. Então, o que vai acontecer agora, é que todos os corpos estão envolvidos em acontecimentos. O acontecimento torna-se - o que há de mais íntimo do corpo. O acontecimento é o que há de mais íntimo do corpo. Porque o corpo é sempre o mesmo - mas com as flutuações do acontecimento; sem perder o seu atributo essencial. (Eu gostaria que vocês falassem um pouco, viu?)

Aluno: A essência é um invariante?

Claudio: A essência é um invariante. O problema... o que você perguntou é muito parecido com o que o Chico colocou. É um deslocamento que eu ainda não fiz para vocês, apenas lancei, mas vocês já têm conhecimento das questões.

É que, na primeira teoria, a essência é da razão. Na segunda teoria, a essência está no corpo. O corpo conduz consigo próprio a sua própria essência - mas ele varia no acontecimento.

(Eu, agora, vou fazer uma redução para vocês. Olhem que coisa interessante:)

Esse corpo que está sendo pensado - olhem se não é isso! - vejam se ele não se parece com uma semente - que ora se torna árvore, ora se torna flor, ora se torna folha, sem deixar de ser coisa. É o mesmo ser - nas suas múltiplas variações. Ou seja: é uma teoria do ser germinativo. O ser é um gérmen, que não para de se modificar pelos seus acontecimentos. Trazendo com ele a [inaudível]. (Eu acho que alguma coisa está se passando, não é?)

Então, lembrem-se que o que eu estou dizendo é essa ideia muito difícil de aceitar - que o Hegel (eu não vou dar Hegel hoje), com a dialética dele, inclusive, não aceita - de que um corpo é absolutamente sempre a mesma coisa. É isso que é difícil de entender. Porque nós não paramos de ver as modificações corporais. Por exemplo, eu era pequeno, agora sou grande; eu não tinha cabelo branco, agora tenho cabelo branco... Vocês não param de ver modificações nos corpos. Mas essas modificações - é essa que é a tese - são modificações incorporais. Porque o corpo é sempre o mesmo. É isso que eu tenho que mostrar para vocês. (Acho que foi bem, não é? Está bem alinhado aqui.)

Vejam o que eu vou dizer: na minha vida, há momentos em que eu sou o avô dos meus netos. Outros momentos em que eu sou irmão do meu irmão. Em outros, sou professor dos meus alunos. Noutros, sou aluno dos meus professores. Cada elemento desses é um incorporal - pai, avô, aluno, professor, tudo isso são os incorporais: os acontecimentos que ocorrem conosco. Os acontecimentos não são modificadores da minha essência. A essência é a mesma - os acontecimentos variam. (Posso continuar? Vocês acham que eu posso? Está ficando muito difícil?)

Na primeira teoria - das essências - a essência é um ser de razão? (Não foi isso que eu disse?) O ser de razão é uma entidade lógica. Ser de razão e entidade lógica é a mesma coisa. Na outra teoria a essência está no corpo? E esse corpo se modifica pelos acontecimentos? (Certo?) Na segunda teoria a essência é potência. Na primeira é uma estrutura lógica, na segunda é uma potência. Todos os corpos têm potência. Isso modifica a teoria do poder. O poder não é alguma coisa que uns têm - poucos têm (não é?), como se diz - e muitos querem. Poder é aquilo que todos os corpos têm - porque a potência é a essência do corpo. A essência do corpo é a potência de germinar. A essência do corpo é a potência de produzir acontecimentos. Por isso, o corpo consegue efetuar a sua vida de uma maneira superior - a partir do instante em que ele executa mais acontecimentos. Produzir experiências é o segredo do corpo. É o segredo da vida. O segredo da vida é a experimentação. É a produção dos acontecimentos. (Não sei se vocês entenderam aqui. Certo?)

(É a coisa mais fácil de entender:)

Se um corpo é potência - não importa o acontecimento - é a mesma potência, a mesma essência, o mesmo corpo. Esse corpo vai ser envolvido por acontecimentos o tempo inteiro. Não importa qual, certo? Aqui vai passar uma ética: não acuse os acontecimentos: potencialize-os - porque nós não paramos de acusar os acontecimentos. O acontecimento só se explica pela potência que você passa nele. O acontecimento se explica pela potencialização que o corpo dá a ele. Você pode dar a um acontecimento mil potências diferentes. Os estoicos - que são os responsáveis por essa teoria, Nietzsche também - não param de dizer: seja digno do seu acontecimento! (Entenderam?) Não é uma resignação, não é nada disso! Não é resignação! Mas é potencializar o seu acontecimento ao ponto de que qualquer acontecimento da sua vida permita a você ser germinativo.

Vocês sabem que a religião, as forças retrógradas da religião, não pararam de acusar o acontecimento. Vou dar um exemplo para vocês. Quando vocês pegam as leituras das teogonias, por exemplo. Nós sabemos - pelas teogonias - que os deuses trouxeram para o caos ordem e regularidade. Havia o caos. Os deuses vieram e deram regularidade ao caos. Apareceram as quatro estações, apareceram o tempo das plantas, o tempo das flores, a ordem na cidade, a saúde, etc. Mas junto a isso, vinham também os furacões, os terremotos e as epidemias. E, como os deuses eram os responsáveis por organizar o caos, evidentemente que os pensadores já diziam: quem produz os furacões os terremotos e as epidemias são também os deuses. E concordaram com isso, mas depois disseram que os deuses produziram terremotos, furacões e epidemias para punir e castigar a maldade dos homens. Nós começamos a jogar moralidade em cima dos acontecimentos. (Entenderam?) O que eu estou explicando para vocês é: tirem a moral dos acontecimentos e coloquem uma ética. Ética é a potência.

Nessa tese que eu estou passado para vocês, não há crime quando uma aranha come uma mosca - porque a aranha comer a mosca é germinativo para ela. (Entenderam?) Tirar da Natureza o maior crime que se fez contra ela, que foi jogar - em cima dela - a moral!

Aqui eu estou passando para vocês uma teoria de que a essência é igual à potência e que a potência é germinativa. E ser germinativa é efetuar os acontecimentos. Ponto!

(Foi bem, não é?)

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